sábado, 12 de maio de 2012

Obediência cristã



Um grupo de sacerdotes da Áustria (fala-se em quatrocentos, de entre um total de cerca de dois mil) publicou um manifesto denominado “apelo à desobediência”, onde não só se contestam, na linha de movimentos anteriores, posições do magistério e da hierarquia da Igreja (como a recusa de ordenação de mulheres e de sacerdotes casados), como, e de acordo com esse titulo, se proclama e incentiva uma decisão de clara desobediência em matérias como a distribuição da comunhão a pessoas divorciadas em segunda união, a cristãos não católicos e até a católicos que abandonaram a Igreja; ou à direcção de paróquias por leigos. O movimento tem-se alastrado a outros países, embora não com a expressão que conhece na Áustria.

De entre as questões suscitadas, algumas não dizem respeito apenas ao direito eclesiástico (susceptível de reforma, pois), mas ao próprio depósito da Revelação, que a Igreja não pode alterar, pois não o criou, antes o recebeu do seu Fundador.

Quem tenha no coração a unidade da Igreja como o maior dos tesouros não deixará de se atemorizar com iniciativas como esta (há quem fale abertamente em perigo de cisma). Um temor que, porém, a fé na assistência que Jesus Cristo prometeu à sua Igreja «até aos fins dos tempos» certamente dissipa. A Igreja, ao longo de dois mil anos, resistiu a muitos perigos como este, e até mais graves do que este.

Sobre esta iniciativa pronunciou-se pela primeira vez, claramente, o Papa Bento XVI na homília da missa crismal de Quinta-feira Santa. Fê-lo a propósito da referência à «configuração a Cristo» como condição necessária para a «superação de nós mesmos» e a renovação da Igreja. É a configuração a Cristo na obediência à vontade do Pai o caminho para a renovação da Igreja. Não a desobediência, «um impulso desesperado de fazer qualquer coisa, de transformar a Igreja segundo os nossos desejos e as nossas ideias». É verdade que também Jesus «corrigiu as tradições humanas que ameaçavam sufocar a palavra e a vontade de Deus». Mas fê-lo «para despertar novamente a obediência à verdadeira vontade de Deus», «a verdadeira obediência, contra o arbítrio do homem». «E não esqueçamos que Ele era o Filho, com a singular autoridade e responsabilidade de desvendar a autêntica vontade de Deus (…)». «E, por fim, Ele concretizou o seu mandato através da sua própria obediência e humildade até à Cruz, tornando assim credível a sua missão. Não se faça a minha vontade, mas a tua: esta é a palavra que revela o Filho, a sua humildade e conjuntamente a sua divindade, e nos indica a estrada.».

A obediência assim entendida não conduz ao imobilismo. Afirma ainda Bento XVI nessa homilia: «Quem observa a história do período pós-conciliar pode reconhecer a dinâmica da verdadeira renovação, que frequentemente assumiu formas inesperadas em movimentos cheios de vida e que tornam quase palpável a vivacidade inexaurível da santa Igreja, a presença e a acção eficaz do Espírito Santo. E se olharmos para as pessoas de quem dimanaram, e dimanam, estes rios pujantes de vida, vemos também que, para uma nova fecundidade, se requer o transbordar da alegria da fé, a radicalidade da obediência, a dinâmica da esperança e a força do amor.»

A obediência assume na Igreja uma dimensão diferente da que assume nas instituições humanas (onde também é importante para garantir a harmonia da vida social). Não se trata de obedecer aos homens, mas a quem exprime, em determinados âmbitos, a própria vontade de Deus («Quem vos ouve, a Mim ouve» - Lc. 10,14).

A história mostra-nos que são os santos quem mais renova e torna fecunda a Igreja. Não o fazem para esbater as suas exigências e assim a tornar mais atractiva para o “espírito do tempo” (como, por vezes, parece ser o objectivo dos “dissidentes” de hoje). Fazem-no para a tomar mais autêntica e mais fiel ao desígnio do seu Fundador. Com o simples testemunho da sua vida, denunciam incoerências da própria hierarquia. Mas fazem-no com total humildade e desapego em relação às suas ideias e opiniões, certamente sem apelar à desobediência. São Francisco de Assis, que pregava a pobreza evangélica numa igreja inundada de riquezas, nunca apelou à desobediência. E Santa Teresa de Ávila, que haveria de ser proclamada Doutora da Igreja (o que não sucedeu a nenhum dos seus censores), dizia no prefácio das suas Moradas: «Se alguma coisa não for conforme ao que ensina a Santa Igreja Católica Romana, será por ignorância, não por malícia, disso se tenha a certeza, e também de que lhe estou, e pela bondade de Deus estarei, como sempre estive, sujeita».

Pedro Vaz Patto

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