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segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

O sofrimento faz parte da vida

Foto de Cristina Lança.

O sofrimento faz parte da vida.
É o outro lado do Amor:
quem ama, mais cedo ou mais tarde, sofre. 
Mas não é o sofrimento que domina e assinala a tua vida. 
Se neste momento atravessas uma fase mais difícil,
não percas de vista o horizonte da tua vida. 
Não te esqueças que Deus é teu Pai
e que Ele te dá a certeza da sua presença dentro de ti,
sempre, até ao fim. "
Passo a Rezar, 16 de Janeiro 2017

sábado, 17 de dezembro de 2016

Quatro maldades das palavras


 
Só as coisas que são boas é que podem ser mal-usadas.

É a má utilização de uma coisa que acaba por causar danos, sendo que nunca são os instrumentos os responsáveis pelos prejuízos que causam, antes sim os que os usam com má intenção ou sem a noção do poder que dão. Quem, por falta de consciência do mal que pode fazer, o faz, é responsável em parte pelo ato, mas de forma integral pela ignorância que impôs a si mesmo.

O uso da palavra tem quatro virtudes associadas a quatro tentadoras maldades.

Não devemos ofender. A falta de respeito pelo outro é, sem exceção, condenável, pois ninguém tem o direito de condenar outro apenas com base numa vontade interessada apenas em si mesma. Uma injúria acaba sempre por desonrar mais quem a faz, do que quem dela é alvo.

As palavras não devem provocar a discórdia. Há quem julgue que melhor nos entendemos quando conversamos, mas há momentos em que se passa o contrário: é por se abusar das palavras que surgem os desentendimentos. Os que alimentam guerras querem apenas arrastar os outros para as suas próprias trevas.

Não se deve mentir. A verdade é algo precioso, que aperfeiçoa quem a escolhe em detrimento das tentações de suavizar, mascarar ou ocultar a realidade. Talvez o mundo que temos não seja tão bom quanto seria possível, mas ficará sempre pior de cada vez que alguém o falseia por causa dos seus egoísmos, em proveito dos seus orgulhos e a fim de encobrir as suas faltas. Não há meias-mentiras nem meias-verdades, isso são apenas formas mentirosas de a mentira dizer a verdade a seu respeito. Uma mentira, seja ela maior ou menor, é sempre e só uma mentira. Algo mau da semente até ao fruto. A verdade pode magoar, mas nunca tanto quanto uma mentira.

As palavras não devem alimentar futilidades. Quem preenche aquilo que julga serem tempos vagos da sua vida com palavras soltas e desenraizadas acaba sempre por falar de mais – porque diz o que não deve, e de menos – porque não diz o que deve, restando-lhe depois pouco tempo, atenção e força para construir algo de bom.

Quem escolhe o mistério do silêncio encontra nele mais paz, força e luz do que em qualquer discurso, por mais belo que pareça.

O silêncio é uma das melhores armas contra o mal, que assim nunca encontra forma de nos atacar com eficácia.

A palavra é uma espada afiadíssima. Usada de forma inconsciente será quase um milagre que não fira alguém, uma simples palavra tem um poder capaz de envenenar a credibilidade do outro, as relações humanas e a própria dignidade de quem a diz.

O silêncio é sempre a última palavra.

José Luís Nunes Martins
(ilustração de Carlos Ribeiro)


terça-feira, 25 de outubro de 2016

Tudo por Jesus



«Tudo por Jesus
Eu sou Teu,
e quero obedecer-Te em tudo.
Empregar toda a minha vida,
todas as minhas forças e talentos
somente naquilo
que for para a Tua maior glória
e fazer a Tua vontade.
Sim, meu Jesus,
tudo por Ti e tudo para Tua glória,
na vida, na morte
e para toda a eternidade.
Amén»

Santo Henrique de Ossó | 1840 - 1896 
Orações 

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Gabe Adams



Gabe Adams nasceu no Brasil sem braços nem pernas e foi abandonado pelos pais. Mas Deus levou o Gabe até aos Estados Unidos, onde abençoou esta criança com uma família incrível!

sábado, 7 de maio de 2016

​A solidão do amor



Ele trazia sempre na carteira a fotografia dela. Era um tesouro que admirava várias vezes ao dia. Uma prova concreta de que ela existira e existia, de que não era uma mentira ou ilusão.

Na fotografia, ela estava lindíssima, com um sorriso acolhedor e um olhar cheio de luz que iluminava tudo... embora os nadas que ia enchendo fossem cada vez maiores.

Aquele homem sentia o seu amor despedaçar-se a cada dia, a cada hora... a cada agora! Como uma cascata sobre um abismo. Mas amava-a, nunca deixou de a amar, mesmo quando a morte o fazia deixar de acreditar. O seu coração parecia ter sido o lugar escolhido pelo bem e pelo mal, para nele se medirem as forças da luz e das trevas.

À noite, em casa, a saudade batia-lhe à porta, até a arrombar... logo que entrava, uma dor profunda seguia-lhe todos os passos e pesava, a cada um, mais e mais. Quando o sono chegava para lhe silenciar a tristeza, a saudade enchia o quarto e deitava-se na cama antes dele, esperando-o com o seu abraço frio. Era uma solidão tão concreta que, só, ele a podia ver e ouvir.

Queria tanto que ela, do lado de lá da morte, pudesse vê-lo...

A certeza de que o paraíso não faria sentido sem ela aquecia-lhe, por momentos, aquela noite imensa, ainda mais imensa quando ele perdia a esperança... e, apesar de não poder sentir a sua amada, ela dava-lhe sentido.

Desejava que a mesma morte que a havia levado, o levasse também a ele... ou para junto dela, ou para um nada qualquer onde já não houvesse dor. Mas não queria ser cemitério. Havia de honrar o que lhe prometera: conquistar, neste mundo, a vida eterna!

Sabia bem, muito bem, que uma das piores partes da batalha é a espera, mas estava certo da felicidade... desde o dia em que decidiram amar-se, perdoar-se e esperar um pelo outro.

O homem morreu num dia triste de chuva.

Morreu... e foi logo ajoelhar-se à cabeceira da cama onde ela esperava por ele, há tanto tempo...

O que ela não esperava foi o beijo quente com que ele a acordou, para sempre.

JOSÉ LUÍS NUNES MARTINS
(Ilustração de Carlos Ribeiro)

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Em que silêncio tens procurado?



Antes de dizer à vida o que queremos, importa escutar o nosso íntimo, para que, em silêncio, o coração e a razão nos indiquem o sentido que escolheriam para a nossa vida.

Há o silêncio da coragem daquele que luta, mas está em paz... e o silêncio da derrota daquele que se cala, cultivando ódios e fermentando vinganças, a propósito de maldades que, tantas vezes, nem sequer existiram...

Há o silêncio da contemplação e o do desprezo...

Há o silêncio dos segredos e mistérios, e o silêncio onde tudo se descobre...

Há o silêncio em que com alegria se espera, e aquele em que se desespera, numa angústia onde a ansiedade semeia pesadelos e dores…

Há o silêncio da pureza que se guarda para o momento certo e o silêncio de quem, arrependido, empregou a sua pureza no tempo errado...

Há o silêncio de quem se esforça, o de quem descansa, mas também o de quem finge...

O silêncio é a luz das grandes obras. Só quando nos fazemos pequenos podemos compreender a grandeza do que nos ultrapassa. Só o silêncio permite que vejamos com atenção. Admirando como quem escuta.

Notas soltas não são melodia... É preciso calar as inutilidades se se quer chegar mais fundo. É tão heroico dizer o que se deve, quando se deve, como é calar o que não acrescenta nem faz bem algum.

Estamos aqui de passagem, mas com o dever de fazer algo com sentido. Só no silêncio da fé se abraçam a paixão e a razão.

Há quem viva uma vida inteira sem nunca querer saber a verdade… um dia de cada vez, como se pudesse começar e acabar quando lhe parece bem... mas escolher uma vida assim é como decidir coser sem linha.

Há um silêncio em que tudo se entrelaça, em que se desfazem os nós, se fecham as feridas e se cosem todos os pedaços... tecendo um eu, inteiro... uma obra perfeita, cheia de imperfeições.


José Luís Nunes Martins
ilustração de Carlos Ribeiro

sábado, 23 de janeiro de 2016

O amor é a morte da morte

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O que há depois da vida? Nada. A vida não tem depois.

A morte é temporária. Há um afastamento no tempo e no espaço... o amor permanece, mas talvez mais profundo do que em qualquer outro momento. Não faz sentido que algo possa separar o encontro de duas almas.

Só o egoísmo pode matar de forma irreversível. Quem julga encontrar em si mesmo o porquê e o para quê da sua vida, tomando os outros como meros instrumentos da sua satisfação, abandona-se a si mesmo, quebrando todas as possibilidades de que o seu coração cumpra aquilo para que foi criado: amar. Quem não ama perde-se, para sempre. Consome-se numa tal ânsia devoradora que só encontra fim no vazio.

Que sentido pode ter esta vida sem uma verdade que ultrapasse os limites do tempo? Como posso eu justificar a minha existência? Sou um acaso? Onde estaria a consciência que lê estas linhas se esse acaso não tivesse acontecido? No nada? Como pode alguém julgar que toda a beleza e harmonia do mundo são resultado apenas de uma explosão caótica?

Até que a morte nos separe? Não. Até que a morte nos leve... para onde a plenitude do amor se pode cumprir. Enquanto neste mundo alguém amar alguém não faltará sentido para a vida... nem para a morte.

A sombra que a morte lança sobre a vida é sinal de uma luz perfeita que nos ilumina o caminho, nos aquece e nos promete que não há nada depois do amor... porque o amor não tem fim.



José Luís Nunes Martins

23 de janeiro de 2016

Ilustração de Carlos Ribeiro

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Perguntas de Ano Novo


 
Hoje começamos um “novo ano”. Como será? Que espero eu do novo ano? O que é que desejo de verdade? O que é que eu preciso? A que posso eu dedicar o meu tempo mais precioso e importante? O que é que seria algo realmente novo e bom neste ano que hoje começa?

Viverei de qualquer modo, passando de uma ocupação para outra, sem saber exactamente o que quero nem para o que vivo ou aprenderei a distinguir o importante e essencial do que é secundário? Viverei de forma rotineira e aborrecida ou aprenderei a viver com espírito mais criativo?

Continuarei este ano a afastar-me de Deus ou vou começar a procurá-l’O cm mais confiança e sinceridade? Seguirei mais um ano mudo diante de Deus, sem abrir os meus lábios nem o meu coração ou finalmente brotará da minha alma maltratada uma invocação pequena, humilde mas sincera?

Viverei também este ano preocupado apenas com o meu bem-estar ou saberei preocupar-me, pelo menos de vez em quando, em fazer os outros felizes? De que pessoas me aproximarei? Semearei nelas a alegria ou contagiarei desalento e tristeza? Por onde eu passar, será a vida mais amigável e menos dura?

Será que vai ser mais um ano dedicado a fazer coisas e mais coisas, acumulando egoísmo, tensão e nervosismo ou terei tempo para o silêncio, o descanso, a oração e o encontro com Deus? Vou isolar-me nos meus problemas ou viverei ajudando a construir um mundo mais humano e habitável?

Seguirei com indiferença as notícias que dia a dia chegam dos países onde há fome? Vou contemplar impassível os corpos mutilados do povo do Iraque ou os afogados dos barcos? vou continuar olhando friamente para aqueles que vêm até nós à procura de trabalho e pão? Quando é que aprenderei a olhar para aqueles que sofrem com um coração responsável e solidário?

O “novo” deste ano não virá de fora. A novidade só pode brotar do nosso interior. Este ano será novo se eu aprender a criar de maneira nova e mais confiante, se eu encontrar gestos novos e mais amigáveis para conviver com os meus, se eu despertar no meu coração uma nova compaixão pelos que sofrem.

José Antonio Pagola
(Lucas 2,16-21)

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Está na hora de voltar para casa!



A maior rede de supermercados da Alemanha, a Edeka, lançou o seu primeiro anúncio para a quadra festiva do Natal.

O anúncio de Natal da maior rede de supermercados alemã está a emocionar o Mundo. O vídeo, que já se tornou viral, conta a história de um idoso que passa o Natal sozinho.

O idoso chega a casa do supermercado e ouve as mensagens dos filhos a dizer que não podem ir passar o Natal com ele, prometendo que o fazem no próximo ano. Contudo, passam três anos e ele continua sozinho na noite de Natal. Então decide enviar uma carta a dizer que morreu.

A ação passa depois para os filhos e netos que recebem mensagens e cartas com a notícia de que o pai morreu. Regressam então a casa, de luto, mas quando entram, encontram a mesa posta para todos e o pai na cozinha. "De que outra forma conseguiria que estivéssemos juntos?", pergunta.

As lágrimas transformam-se em risos à medida que a família se reúne para o jantar.

"É tempo de voltar a casa", diz o slogan do anúncio.

sábado, 21 de novembro de 2015

A morte não separa




Ninguém pode viver a minha vida por mim. Ninguém pode dar os meus passos, ver o que vejo, sentir as mesmas emoções ou pensar ideias iguais às minhas... ser é fazer a diferença.

A minha existência pode servir de modelo a outros, assim como posso tomar alguém como exemplo a seguir, mas não devemos deixar que o eu se perca, porque quando me confundir com outros perderei o meu maior valor: ser único. Amar não é anular ninguém, antes protegê-lo e promovê-lo, tal qual quer ser. O bem que é.

Não sou o que tenho, não sou o que faço. Sou apenas a marca que deixo... o que decido querer, a cada passo.

Quando nos morre alguém, perde-se a sua referência palpável. É o fim de todas as possibilidades da relação, nos termos em que a conhecemos. Mas, mais do que os seus sapatos – que outro qualquer pode usar – ficam os seus passos, ao lado de quem precisava da sua força, todos os que deu por amor... porque só o que é nobre fica. Tudo o mais é nada.

Porque o amor é a negação da morte, eis que se levanta a mais importante de todas as guerras, o visível contra o invisível, a dúvida contra a fé, o tempo contra a eternidade... cabe a cada um de nós escolher o que quer.

Quando alguém que me ama morre, fica. Contudo, depende de mim aceitar a sua presença no meu íntimo. Assumir a missão de ser um, pelos dois... mais livre do que nunca... mas é isso mesmo que quer quem nos ama de verdade: que sejamos independentes, autónomos e felizes!

Amar é estar sempre a sós com a pessoa que se ama, mesmo quando há uma enorme distância... no espaço e no tempo.

A morte não separa os que se amam, apenas aproxima e une, ainda mais, os que decidem continuar a amar-se.

José Luís Nunes Martins

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Pão do coração



«Ofereço-vos este sorriso sem nada vos pedir em troca, só para o prazer, a alegria de estar convosco, de partilhar este instante de vida que nos é oferecido gratuitamente. Ofereço-vos este sorriso, sim, só para o prazer. Sabei que o sorriso é o pão do coração e que o mundo está faminto de sorriso e espera o vosso para melhor fazer bater o seu coração» (Anónimo).

«Quando estava na Bélgica e ia visitar uma catedral, encontrei este folheto no espaço onde habitualmente se colocam orações, pensamentos e reflexões espirituais.» Assim me escrevia uma irmã, enviando-me uma pequena folha amarelecida com um elogio do sorriso, escrito em francês.

Agrada-me aquela definição: «pão do coração». O que sustenta a nossa intimidade não é, com efeito, o alimento que tomamos ou a alegria confusa que nos envolve. É a serenidade, a doçura de se sentir amado, não esquecido e isolado. E o caminho para oferecer este dom de proximidade e afeto é o sorriso.

Basta só um instante para sorrir, e é como se a vida fosse atravessada por um raio de sol. Muitas vezes a nossa existência corre entre tensões e confrontos; o amuo é a atitude mais comum. Mesmo a anedota que diverte transformou-se em escárnio feroz e até em agressividade.

Há algum tempo, o filho de amigos meus embatucou na palavra "rapace", e perguntou-me o significado. Expliquei-lhe que é uma imagem extraída das aves de rapina e predadores, e que significa feroz, ameaçador, de rosto sombrio.

O rapaz concluiu: «Tal e qual como os grandes quando andam na rua». Sim, nós, adultos, já não conseguimos rir, mesmo que seja «só para o prazer» de viver.

P. (Card.) Gianfranco Ravasi 
Trad.: Rui Jorge Martins 

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Deus sabe o que está a fazer



"Deus criou-me para Lhe prestar um serviço específico; Ele confiou-me uma obra que não confiou a outro. Tenho a minha missão que posso nunca conhecer nesta vida, mas saberei na próxima. De alguma forma sou necessário para os Seus propósitos, tão necessário no meu lugar como um Arcanjo no dele [...] tenho uma parte nesta grande obra.

Sou o elo de uma corrente, um vínculo de conexão entre pessoas. Ele não me criou para nada. Vou fazer o bem, vou fazer a Sua obra. Serei um anjo de paz, um pregador da verdade na minha própria casa, mesmo sem pretensão, se eu guardar os Seus mandamentos e O servir na minha vocação.

Por isso vou confiar n'Ele. Onde e como eu estiver, nunca poderei ser rejeitado. Se estou doente, a minha doença pode servi-Lo; na confusão, a minha confusão pode servi-Lo; se eu estou triste, a minha tristeza pode servi-Lo.

A minha doença, confusão ou tristeza podem ser causas necessárias para algum grande fim, que está muito além de nós. Ele não faz nada em vão; Ele pode prolongar a minha vida ou pode abreviá-la; Ele sabe o que está a fazer. Ele pode tirar-me amigos, pode enviar-me para o meio de estranhos, pode-me fazer sentir desolado, fazer o meu espírito submergir, esconder o futuro de mim, ainda assim Ele sabe o que está a fazer."

Cardeal Newman, 
in "Meditações e Devoções"

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Se...



E disse Deus:
Se ninguém te ama, a minha alegria é amar-te.
Se choras, Eu desejo consolar-te.
Se és fraco, Eu dar-te-ei a minha força e energia.
Se ninguém precisa de ti, Eu preciso.
Se te julgam inútil, Eu não posso prescindir de ti.
Se estás vazio, a minha plenitude te encherá.
Se tens medo, Eu levo-te aos ombros.
Se queres caminhar, Eu irei contigo.
Se me chamas, Eu venho ao teu encontro.
Se te perdes, Eu não descanso até te encontrar.
Se estás cansado, Eu sou o teu descanso.
Se pecas, Eu sou o teu perdão.
Se precisas de Mim, Eu digo-te: estou aqui dentro de ti.
Se andas nas trevas, Eu sou a luz para os teus passos.
Se tens fome, Eu sou para ti o pão da vida.
Se queres falar comigo, Eu escuto-te sempre.
Se estás preso, Eu vou libertar-te.
Se queres ver o meu rosto, olha para uma flor,
para uma fonte, para uma criança.
Se és marginalizado, Eu estou a teu lado.
Se se esquecem de ti, Eu nunca te esqueço.
Se nada tens, tens-me a Mim.
Se meditas no silêncio, a minha palavra habitará
no teu coração.

J. Fernandez Moratiel, O. P.

sábado, 19 de setembro de 2015

Até ao fim das tormentas



DEDICO ESTE TEXTO AO RICARDO JÚLIO PINHO,
QUE PARTIU ESTA MANHÃ PARA JUNTO DE DEUS

Hoje, como sempre, são necessários homens e mulheres capazes de lutar até ao fim pelo bem em que acreditam. O mundo está cheio de conselhos, teorias e promessas, mas quase vazio de obras de valor. Obras completas. Não primeiras pedras.
.
A maldade nunca é falta de doutrina ou moral, pelo contrário, encontra sempre razões que apresenta como muito justas e boas. Muitos são os que desistem de se fazerem bons. Ora porque julgam já sê-lo, ora por se reconhecerem maus… e não estão para mais trabalhos. Outros ainda, desistem porque não são capazes de viver com a incompreensão de agir bem e, depois, serem acusados de o ter feito por outros motivos… a verdade é que é preciso mesmo estar disposto a sofrer bastante para ser nobre.

A vida é uma dura e intensa guerra. São muitas batalhas que envolvem inúmeros combates que têm de se travar com mil e um adversários… alguns mais brutos, outros mais subtis. Alguns vivem longe, outros habitam-nos dentro.

Por vezes, valorizam-se os que, apesar de terem ideias erradas, lutam por elas até ao fim… mas, na realidade o que lhes pode sobrar em coragem (que neste caso será uma grande teimosia) lhes faltará em discernimento (que neste caso será pouco mais do que senso comum).

Um coração nobre supõe não só uma inteligência para compreender o que deve fazer, mas também, e essencial, a capacidade de o concretizar até ao fim.

A obra só é perfeita se for até ao fim... e se o fim for bom.

Pode-se errar, parar e até descansar um pouco. Mas cuidando sempre de manter atentas as defesas, pois que é no cinzento dos dias com nuvens e frio que mais vezes a tentação de desistirmos do melhor de nós aparece disfarçada de sol radioso e amigo. Nunca é tempo de dormir de forma absoluta e tranquila. O ardor das feridas dos combates antigos deve mantermo-nos vivos e despertos às investidas do inimigo que a todo o momento podem surgir.

A mais importante coragem de um guerreiro não é a tenacidade com que ataca, mas a fortaleza com que resiste a tudo o que se lhe opõe, a tudo quanto o tenta afastar da construção do seu caminho, destino e missão. Só a inteireza combate a cobiça, o orgulho e o egoísmo.

Resistir, firmes, mas não inflexíveis, pois que as adversidades moldam os espíritos assim como as mãos amassam o pão… até ficarem maleáveis para que possam melhor construir o seu caminho, sem quebrar nem desistir. Porque o mal pode bater, mas não pode abater.

Na guerra da nossa vida, importa sempre continuar para diante, mas nunca por hábito; insistir, mas nunca por teima; persistir, mas nunca por apego... Perseverar, mas sempre pelo bem e até ao fim.

Uma pessoa valorosa nunca luta só. Tem consigo a herança que lhe deixaram os que lutaram antes de si com os mesmos inimigos; legado este que deve enriquecer com a sua vida, a fim de que deixe mais do que lhe foi entregue. Que dê mais do que recebeu.

Que o fogo que nos mantém vivos aqueça o nosso coração e nos ensine, sempre, a distinguir as luzes da verdade dos brilhos da falsidade.

Pode o mundo estalar e ruir, por todos os lados, que não poderá nunca manchar a nobreza de um homem bom. Cada um de nós luta contra adversidades durante toda a vida, e, no fim dela, ainda terá de lutar contra a morte... mas a verdade é que quem luta inteiro... vence!

Porque não se pode ser maior do que aquilo que é inteiro.

José Luís Nunes Martins

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Nascemos e não mais morreremos




Morrer aos 28 anos? Que absurdo! Morrer aos 28 anos não faz sentido. Morrer quando se tem um bebé pequeno para criar ainda mais drama acrescenta. Quando se vem a saber que preferiu evitar tratamentos prejudiciais à vida do bebé durante a gestação e que isso lhe custou a vida, começa a perceber-se que não há apenas uma tragédia: há também escolha; uma escolha impressionante. Depois, recuando ainda mais para trás, vem-se a saber que já tivera um outro filho: nascera com malformações e vivera meia hora após o parto. Um pouco mais para trás e, de novo, uma filha existira antes dos outros: crescera com uma anencefalia e vivera apenas meia hora depois do parto. E assim se percebe nas entrelinhas que estes pais levaram três gravidezes até ao fim: por três vezes, e as três vezes em condições adversas.

Ou seja: toda a história é uma tragédia difícil de digerir, do princípio ao fim. A dor, a doença, a impotência, são todas promessa de um futuro truncado, arrancado, mutilado. E ninguém gosta de entrar nestas realidades. Mas, em todo este tempo, e apesar de todos os altos e baixos, Chiara e Enrico sentiram-se nas mãos de Deus e a viver tudo com uma paz de fundo que os deixava perplexos – a eles, a todos aqueles que os acompanhavam; e, agora, aos que os vão conhecendo. A verdade é que, contra todas as expectativas, desprende-se da história deste casal um perfume inconfundível a eternidade.

Foi esse contraste que me convenceu que algum dia teria de a conhecer melhor. Já em tempos a encontrara numa revista italiana; depois, em Lisboa, não perdi a oportunidade de ir à apresentação do livro “Nascemos e Jamais Morreremos”, onde se relata a história de Chiara: por coincidência, naquela noite, cheguei ao mesmo tempo que os principais protagonistas desta história e pude dar pessoalmente o ‘benvenuto’ ao Enrico (pai), ao Francesco (filho), ao Simone e à Cristiana (amigos do casal e redatores do livro). Durante a sessão sentiu-se mais uma vez a vibração daquele silêncio perfumado, misto de admiração e comoção - típico de ambientes cheios de Deus. E, mais uma vez, aquela tragédia se converteu em luz para todos os que ouviam o seu relato.

Finalmente peguei no livro e passei uma tarde inteira de mãos dadas com a Chiara. Naquele italiano musical, contou-me como foram aqueles anos de namoro; as peregrinações e a procura da vontade de Deus; a decisão de casar; a primeira gravidez, tão súbita e, depois, tão peculiar: meia hora de vida com frutos tão inesperados; a segunda gravidez e, de novo, a morte [aos nossos olhos] prematura; finalmente, o filho [aos nossos olhos] saudável e, em simultâneo, a surpresa do carcinoma nela própria, a exigir tratamento imediato. E a decisão natural de deixar a vida em gestação crescer e desenvolver-se em detrimento do combate ao ‘dragão’ do cancro - que sorrateiramente lhe ia invadindo o corpo. Curiosamente, grande parte destes acontecimentos, a passarem-se ao mesmo tempo em que eu vivia uns quarteirões ao lado, no centro de Roma.

A naturalidade com que me falava de Deus era a de quem já nesta terra vivia a vida eterna. Confirmou em mim a certeza de que a vida eterna não é algo que venha lá longe, a qual devamos esperar, mas algo que podemos viver já, aqui e agora. E, nesse sentido, é mais compreensível que as provas que a vida lhe trouxe as tomou não como castigo ou carga insuportável: tornaram-se a oportunidade de testemunhar, manifestar, evidenciar o maior tesouro que alguém pode ambicionar: a fé, a confiança inabalável, a intimidade com Deus.

A mim, fez-me perceber melhor como é possível viver em simultâneo dor e bênção, sofrimento e alegria - não como antítese uma da outra mas como síntese uma com a outra. Fez-me perceber melhor a Paixão de Cristo. Agradeço-lhe ter-me ajudado a entrar na Semana Santa com outra preparação - tempo a ser vivido com esse mesmo silêncio perfumado, misto de admiração e comoção, a que a história de Chiara inspira - e ter-me ajudado a preparar os inevitáveis tempos de 'Paixão' que a minha vida me há de trazer. Se tivesse de resumir a aprendizagem recebida com Chiara diria: "Não tenhas medo. A vida há de trazer dores e dificuldades mas nenhuma é superior a Deus. Prepara-te nEle, no Seu amor, e Ele tornar-te-á capaz de qualquer travessia".

Morreu no dia 13 Junho 2012, aos 28 anos. E, de facto, pode ter sido um absurdo - se quisermos ler a história apenas à luz da razão - à luz dos nossos planos, desejos e ambições ainda demasiado terra-a-terra. Mas quem disse que a vida se confina a isso? Quem disse que a morte biológica é o fim de tudo? A história de Chiara é uma prova viva de que quando se morre, não se morre: nasce-se de novo; desta vez para o Céu. Atrás de si, Chiara deixou um rasto de luz, daquela luz que não se vê com os olhos mas com o coração. E não será essa a melhor luz? 

sábado, 2 de maio de 2015

O que é dar vida?



Dar a vida é amar. Abdicar de si… em favor de um outro. Vencer egoísmos e medos com a convicção de que dar-se nunca é um excesso nem uma cobardia.

Dar a vida é perder-se para se encontrar. Entregar-se para se receber… É aparecer, sair de si até ao ponto de se poder ver bem diante dos próprios olhos.

Dar a vida é vivê-la tal como ela é na essência: generosa! Ser mais vida na vida de outro alguém. Cuidar da existência do outro com a sua… dar a vida é ser outro. Melhor. Muito.

Dar a vida é ser um sorriso apenas com um olhar. É oferecer lágrimas a quem já perdeu as suas. Ser um silêncio onde há paz… e uma melodia que revela que o melhor do mundo repousa em nós… à espera de nós.

Dar a vida é reconhecer a beleza que há neste mundo. No outro e no mundo do outro. É contribuir para o equilíbrio e ficar em harmonia… com tudo e com cada coisa, compreendendo que a verdadeira alegria é a coisa mais séria da vida.

Dar a vida é guardar-se para o momento oportuno, sabendo que pode tardar, muito. Dar a vida é não contar lutas, sofrimentos e perdas quando chega o tempo de se dar.

Dar a vida é reconhecer que ela não é nossa. Que nos foi oferecida, e que se nada fizemos para a merecer antes, podemos sempre fazê-lo, agora.

Dar a vida é ser silêncio e ser simples. Não é estar presente. É ser presente.

Dar a vida é entregar umas mãos puras, ainda que vazias.

Dar a vida é não querer as pessoas e as coisas para as usar e deitar fora, mas para cuidar delas, apesar de tudo o que lhes possa suceder. Mas é dar-se ao uso, ser instrumento e meio do outro, confiando que a vida nunca nos deita fora… mesmo quando mais ninguém a acompanha.

Dar a vida é criar alegria noutro coração, desprezando sempre as injúrias de quem nada faz senão tentar desfazer os outros.

Dar a vida é saber que é maior o contentamento de ter para dar… do que o desassossego de esperar pelo que os outros possam trazer.

Dar a vida é duro. Os sacrifícios são sempre mais amargos do que a memória que deles fica… mas passam as horas e apenas ficam as ações…

Dar a vida é criar. Ser livre e ser causa da liberdade do outro. Obedecer. Cumprir o mais difícil de todos os planos: fazer alguém feliz neste mundo.

Dar a vida é abrir os braços e deixar o espírito sair… ser um vento que envolve, protege e eleva o outro… até ao céu.

Dar a vida é ser a origem do que não tem fim.

Dar a vida é ficar sem nada… senão com esta vontade de ser Amor.
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José Luís Nunes Martins

terça-feira, 7 de abril de 2015

Chama-te pelo teu nome



 «Se foste tu que o tiraste»: como se Maria já lhe tivesse dito porque chorava! Fala «dele», sem pronunciar o seu nome. Tal é o fulgor do amor: quando estamos repletos de amor, acreditamos que os outros sentem o mesmo que nós. […]. Maria é incapaz de imaginar que alguém possa ignorar a razão da sua imensa tristeza.

Jesus diz-lhe: «Maria!» Pouco antes, chamara-a pelo nome comum a todas do seu sexo: «Mulher», sem ainda Se dar a conhecer. Agora, chama-a pelo seu nome próprio, como se lhe dissesse sem rodeios : «Reconhece Aquele que te reconhece.» Também Deus disse a Moisés: «Conheço-te pelo teu nome (Ex 33,12). «Homem» é o nome comum a todos; mas «Moisés» é o seu nome próprio e Deus diz que o conhece pelo seu nome e parece declarar: «Não te conheço como conjunto dos homens, conheço-te pessoalmente.»

Assim, chamada pelo próprio nome, Maria reconhece o seu criador e no mesmo instante responde-lhe: «Rabbouni», que quer dizer Mestre. Ela procurava-O fora de si, mas Ele pediu-lhe que O procurasse dentro de si. […] «Maria Madalena foi e anunciou aos discípulos: “Vi o Senhor!” E contou o que Ele lhe tinha dito.» Neste momento, o pecado dos homens abandona o coração de onde procedia. Porque se foi uma mulher que, no paraíso, tentou um homem com o fruto da morte, é uma mulher que, no sepulcro, anuncia a vida aos homens e lhes leva as palavras daquele que traz a vida.

São Gregório Magno (c. 540-604), papa, doutor da Igreja
Homília 25 sobre o Evangelho; PL 76, 1188-1196

sábado, 28 de março de 2015

A esperança confia, a paciência desafia



A esperança é a confiança no desejo de que um bem futuro se realizará. A paciência é a capacidade de sofrermos os fracassos e os males da existência, sem deixarmos de esperar.

A esperança confia no bem, a paciência desafia o mal.

A vida de cada um de nós está cheia de promessas. Quase sempre é preciso esperar. Por vezes, muito. E se há promessas que são meras ilusões, outras serão realidade mas apenas para quem as souber esperar.

Quem é paciente suporta as imperfeições, as suas, as dos outros e as do mundo… sem grandes queixas. A paciência é uma coragem que, sem pressas ou inquietações, se faz maior do que os desesperos e as angústias.

Esperança e paciência são escolhas. Não se nasce assim.

A esperança põe-se sempre em algo que não depende apenas da vontade de quem espera, mas de um conjunto alargado de circunstâncias e vontades alheias. Daí que a humildade seja essencial, no sentido de compreender que muito é o que nos ultrapassa, e que, afinal, tudo quanto podemos é esperar em paz pelo que não depende de nós… enquanto vamos fazendo a nossa parte.

Nesta nossa vida limitada, onde quase tudo é passageiro e provisório, há quem passe muito do seu tempo a navegar pelos mares do sofrimento… a paciência é a força que nos permite sofrer e suportar quase tudo sem nos precipitarmos na desistência do que somos, como se a existência não fizesse sentido.

A esperança nasce de uma sabedoria que permite ver para além das tristezas e tragédias, orientando-nos para lá dos nossos limites e fracassos. Há uma distância enorme entre o que somos e o que podemos ser. O futuro que se espera ilumina as decisões no presente. Só quem sabe do amanhã pode construir o caminho daqui para lá.

Somos limitados e devemos aceitar-nos como tal, a nós, aos outros e ao mundo. Sem grandes queixas. Não posso nunca aproximar-me do coração de alguém, sem antes aceitar as suas limitações. Sem antes o aceitar assim… tal como é... Devemos corrigir-nos para inspirar os outros a fazê-lo também. Sempre com a paciência de sorrir, apesar de tudo… sendo perfeitos, dentro das nossas limitações.

Paciência e esperança partilham-se. Há quem, mais do que ver as feridas do outro, sentindo-as como suas, sofrendo-as. Há também quem, com a sua forma inteira de sofrer e de ser, suporte as adversidades sem desanimar e nos dê, assim, sinal e prova de uma força que também nós podemos ter e ser.

A presunção e o desespero, movidos pelo medo, tornam impossível qualquer alegria, presente ou futura. Uma esperança simples é quanto basta para iluminar e aquecer uma noite inteira, por mais longa e fria que seja, sem nos perdermos… mas sempre sem certezas, pois a nossa vida é sempre incerta… sempre… para o melhor e para o pior.

Quem é paciente não enfrenta a vida encolhido. Sofre sem deixar de ser inteiro… numa vida inteira… que não vai acabar.

A paciência não é apenas uma forma de resistir, é também uma força que se opõe ao que me tenta destruir. Não é nada fazer. É sofrer a fim de ser feliz.

A esperança não é apenas uma certeza que me consola, é também uma chama que me estimula e incentiva. Não é ficar à espera. É fazer o que se espera.

A esperança e a paciência são âncoras que me garantem que, apesar de todas as dores, superficialidades e desassossegos, há uma terra firme... nessa terra construirei a minha casa… e nessa casa vai bater o meu coração.

Porque muito para além de toda a esperança razoável há um infinito que, de forma paciente, nos chama e espera por nós.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Grande é o mistério do amor



«Quem ama a sua mulher, ama-se a si mesmo. De facto, ninguém jamais odiou o seu próprio corpo; pelo contrário, alimenta-o e cuida dele, como Cristo faz à Igreja; porque nós somos membros do seu Corpo. Por isso, o homem deixará o pai e a mãe, unir-se-á à sua mulher e serão os dois uma só carne.» (Efésios 5, 28b-32)

O amor dos maridos pelas esposas e vice-versa encontra a sua grandeza quando é referido a Cristo e à Igreja. É claro que a criatura humana já fora criada para se unir como casal (Adão e Eva), mas o modo como o casal se realiza em Cristo revela, ampliando-o, o horizonte da primeira criatura de Deus. Um horizonte que se perde em zonas misteriosas, nas quais dois podem fundir-se num só. Nas quais dois podem comunicar, conviver, serem uma comunhão.

Grande desafio, o de sair do individualismo, da avareza, do medo. É a derrota da solidão. Dar o salto para fora da velha casa paterna para morrer na carne de outra pessoa. Tomar a decisão. Extirpar os guetos de todo o tipo, superar a lógica das guerras religiosas para «ser uma só carne». Para lá das leis e das regras moralistas. É o ímpeto irresistível para a caridade e para as suas obras que faz dos dois um só corpo. Levando assim, em si próprios, o anúncio da paz e do fim do ódio, o anúncio dos perseguidos por causa da justiça. Dos puros de coração que «veem» a Deus. Por serem sua carne.

Maravilha do mistério de Cristo e da Igreja: a sua visibilidade é desconcerto e milagre. Deixemo-nos desconcertar e façamo-nos milagre!

Cristo cuida e nutre a sua carne, a Igreja. Do mesmo modo amem os maridos as suas esposas e as esposas os seus maridos: cuidem um do outro.

Sejam capazes de se surpreenderem com a delicadeza de gestos de respeito e com a gratuidade de atos de amor, para lá dos atos expetáveis no âmbito do que for hábito vazio e cínico.

Protejam-se reciprocamente, considerando que o outro é carne sua e que o destino de um está ligado ao do outro.

Saibam captar as respetivas necessidades no momento certo e encontrar as palavras e os gestos que lhes possam responder; sejam sensíveis aos sofrimentos e lutem por resgatar, nesses momentos, a liberdade e a paz recíprocas.

Defendam a comunhão como caminho de fecundidade, sem esmagarem ou desprezarem os carismas e as diferenças; façam desses carismas instrumento e tesouro para o casal crescer como família, onde cada qual tem a sua voz e a sua insubstituível riqueza.

Alimentem-se um ao outro com a consagração da própria vida, consagração essa que transcende todos os esquemas adolescentes de um compromisso tantas vezes meramente boémio.

Não é possível o casal sustentar-se se renunciar a viver em cheio e a amadurecer, isto é, sem a exigência adulta de se darem.

A nossa vida não é a vida de quem se poupa. Precisamos de nos gastarmos numa caridade feita diariamente de suor, cansaço e sacrifício. Não passar o tempo à espera de prémios, ou a lamentar as omissões do outro; há que cumprir o mandamento do amor que pede amor incondicional.

Precisamos de ter bondade, e também liberdade e distância em relação ao nosso ou à nossa consorte; alimentá-lo, portanto, de caridade e de profecia. Sem nos contentarmos com sermos uns tontos guardiães de muralhas ou de meras tradições.

«Grande é este mistério...», «... por isso o homem se unirá á sua mulher... grande é este mistério; mas eu interpreto-o em relação a Cristo e à Igreja.»
O matrimónio não é indispensável para se vivenciar o amor de Deus. Paulo dirá: «Desejaria que todos fossem como eu», que me fiz tudo para todos (cf. 1 Coríntios 7, 7). É indispensável fazer a experiência do amor. O cristianismo é uma religião eminentemente espiritual: teremos maridos, esposas, filhos e filhas no Espírito, pois a fecundidade do amor é um milagre sem fim.

Rosanna Virgili 
In "Os aposentos do amor", ed. Paulinas 

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Consolações



«Não posso dizer
que tenha recebido muitas vezes consolações
durante as minhas acções de graças;
é talvez o momento em que menos as tenho...
Acho muito natural,
já que me ofereci a Jesus,
não como uma pessoa
que deseja receber a Sua visita
para consolação própria,
mas, pelo contrário,
para dar prazer Àquele que se dá a mim.»

Santa Teresa do Menino Jesus | 1873 - 1897 
Manuscrito A, 79 vº

Senhor Jesus,
que eu procure mais
o Deus das consolações
do que as consolações de Deus.
As consolações não são a Tua Pessoa.
A Ti encontro-Te pela fé,
pela esperança e pelo Amor.
E quando nada sinta não devo desencorajar-me,
mas saber que Tu, Senhor,
és maior do que os meus sentidos,
não cais nos meus sentimentos,
mas manifestas-Te na minha vida
de forma insensível, mas eficaz.
Ajuda-me Senhor,
a saber sempre reconhecer-Te
quer sinta, quer não sinta,
quer compreenda ou não,
quer veja ou não veja…
Tu estás sempre para além dos meus sentidos
e é pela fé que Te reconheço em todas as coisas.
Ajuda-me, Senhor, a saber encontrar-Te.