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terça-feira, 27 de janeiro de 2015

A despedida de Jesus



«Querida mãe: quando acordares já terei partido»: A despedida e o Batismo de Jesus

«Naqueles dias, Jesus veio de Nazaré da Galileia e foi batizado por João no rio Jordão» (Do Evangelho do Domingo do Batismo do Senhor, 11.1.2015) 

Que rápido passámos do nascimento de Jesus ao seu Batismo no Jordão! Passaram três semanas e o Menino nascido no pesebre de Belém aparece já como um homem feito, que decide sair da sua casa em Nazaré, deixando para trás a vida familiar, o ofício de artesão, as paisagens suaves da Galileia, para ir ao encontro do profeta João, que está a batizar do outro lado do rio Jordão, no sul do país.

Que arrebatamento ocorreu a Jesus para deixar a vida tranquila e embarcar numa aventura que em pouco tempo o levaria à cruz? Que sonhos levava este jovem no peito para tomar essa decisão? Não encontrei melhor explicação para estas perguntas senão numa carta escrita por um sacerdote espanhol, José Luís Cortés, que tenta recriar os sentimentos de Jesus naquele momento da sua vida. É uma carta dirigida à Virgem Maria, em que Ele explica o que move a deixar a casa.

«Querida mãe: quando acordares já terei partido. Quis poupar-te a despedidas. Já sofreste muito, e sofrerás ainda mais. Agora é noite, enquanto te escrevo. Quero dizer-te por que me vou, por que te deixo, por que não fico na oficina a fazer ombreiras para portas ou cadeiras o resto da minha vida.
Durante trinta anos observei as pessoas do nosso povo e tentei compreender para que viviam, por que se levantavam a cada manhã e com que esperança adormeciam todas as noites. O João, dos refrescos, e com ele metade de Nazaré, sonham em fazer-se ricos e acreditam de verdade que quanto mais coisas tiverem, mais completos vão ser. O chefe da cidade e os outros põem o sentido das suas vidas em conseguir mais poder, ser obedecidos por mais pessoas, ter capacidade para dispor do futuro dos outros homens. O rabino e as suas seguidoras já desistiram de tudo o que significa esforçar-se por crescer e desculpam-se fazendo-o passar por vontade de Deus. (…)

Às vezes, mãe, quando chegavam cartas e soava a trombeta na praça, quando as pessoas acorriam de todos os lados, eu fixava-me nesses rostos que esperavam ansiosamente, delirantemente, de qualquer lugar e de qualquer remetente, uma boa notícia; teriam dado a metade das suas vidas para que alguém lhes abrisse, de fora, uma fenda nos seus muros. Vinham-me ganas de me pôr no meio deles e gritar-lhes: "A boa nova já chegou! O Reino de Deus está dentro de vós! As melhores cartas vão chegar de dentro de vós! Porque repetem que estão coxos se Deus vos deu pernas de gazela?".

Sinto-me tomado pela plenitude da vida, mãe. E descubro-me aceso num fogo que me leva e me faz contar aos homens notícias simples e belas que ninguém diz (e se alguém chega a dizer, logo o censuram). E queria queimar o mundo com esta chama; que em todos os cantos houvesse vida, mas vida em abundância. Já sei que sou um carpinteiro sem licenciatura e que acabei de completar a idade para poder abrir os lábios em público. Não me importaria esperar mais, pensar mais, ser mais maduro, “fazer a minha síntese teológica”… (…)

Mas… há demasiada infelicidade, mãe. Demasiados cegos, demasiados pobres, demasiada gente para quem o mundo é a blasfémia de Deus. Não se pode crer em Deus num mundo onde os homens morrem e não são felizes… a menos que se esteja do lado daqueles que dão a vida para que tudo isso não aconteça; para que o mundo seja como Deus o pensou (…).»

Jesus seguiu o caminho que Deus lhe apontava; a sua vocação foi ser filho amado de Deus e irmão de todos os homens e mulheres que partilham a sua mesma vocação. Isso significa o Batismo de Jesus, e isso significa o nosso próprio Batismo.

P. Hermann Rodríguez Osorio, S.J. 
In "Periodista Digital" 
Trad. / edição: Rui Jorge Martins 
Publicado em 10.01.2015

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Nós os dois


Desde que sei
Que sou como um fiozinho de erva
Que de manhã reverdece e à tarde seca,
Que aprendi a suportar o peso
Do milagre.
Hoje tudo é mais claro
Tudo é mais nítido.
Mas no tempo em que os pinheiros
Eram altos
E os meus olhos de um verde cristalino,
No tempo em que o tempo
Era incandescente
E fazia carrancas ao destino,
Aí, oh meu país inocente
E pequenino,
Era eu que era mais divino
Ou era Deus que era mais menino?

1. Sim. Enquanto tu descias a este chão de pó, e afanosamente o modelavas (Génesis 2,7), eu subia em sonhos a escada de Jacob (Génesis 28,12), e às escondidas, comia o teu céu de pão-de-ló. Deslumbramento teu no sótão deste chão, quando, no lusco-fusco da vidraça, descobriste o meu pião enrolado na baraça. Deslumbramento meu, quando, distraído, brincava no teu céu, e quase escorregava pelo firmamento.
2. Valeu-me então um anjo que estava de passagem, e me deu a mão. Percebi depois que regressava do jardim do éden (Génesis 2,8), de regar a tua plantação (Isaías 61,3). Contou-me tudo. Falou-me de Abraão, de um rio que abriste no deserto (Isaías 43,19), da avenida florida que atravessa o mar a céu aberto (Sabedoria 19,7), da estrada traçada no deserto onde habitualmente andas a pé (Isaías 35,8), e sobretudo das flores que fizeste florescer em Nazaré (de natsar, florescer).
3. Fomos depois os dois até Jerusalém, e vimos-te a escolher no ribeiro manso as pedras trabalhadas na torrente (1 Samuel 17,40). Olhavas para elas demoradamente em tuas mãos deitadas, e só depois as adornavas com tinta cor de rímel (Isaías 54,11), e as sentavas carinhosamente à tua mesa, em tua casa, onde ardia e não se consumia uma sarça acesa (Êxodo 3,2).
4. Juntaram-se, entretanto, a nós milhares de anjos deslumbrados. Pus-me todo atento e parabólico, e pude ver o vento que o seu bater de asas produzia, e vi ainda que é essa energia que alumia as casas, muito mais do que qualquer rede de alta tensão ou parque eólico. Foi então que o anjo que comigo viajava me indicou um caminho hiperbólico (1 Coríntios 12,31).
5. Entrei nesse caminho. Mas rapidamente vi que não ia sozinho. Ias tu, Senhor, comigo. Chamava-se amor esse caminho aberto no deserto (Atos 8,26). Confesso que nunca tinha estado tão perto da água viva e tão perdido no meio do sentido (Atos 8,36). Tão refém deste Deus nascido em Belém.

Mesa de palavras: NÓS OS DOIS
D. António Couto, Bispo de Lamego (25-12-2014)
[Imagem: Tela: Natività (1650), de Carlo Maratta Igreja São José dos Marceneiros, Roma]