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domingo, 30 de dezembro de 2018

ORAÇÃO PARA A NOITE DE ANO NOVO



ORAÇÃO PARA A NOITE DE ANO NOVO

Senhor, antes de entrar na agitação e no torpor do fim do ano, quero que esta tarde nos encontremos devagar e com calma. São poucas as vezes que o faço. Tu sabes que tenho dificuldade em rezar. Esqueci-me das orações que me ensinaram quando criança e não aprendi a falar Contigo de uma forma mais viva e concreta.

Senhor, na verdade, eu não sei muito bem se acredito em Ti. Passaram tantas coisas estes anos. A vida mudou tanto e eu envelheci tanto por dentro. Gostaria de me sentir mais vivo e mais perto de Ti. Ajudar-me-ia a acreditar. Mas é tudo tão difícil.

E no entanto, Senhor, eu Te necessito. Às vezes sinto-me muito mal dentro de mim. Os anos passam e sinto o desgaste da vida. Por fora tudo parece funcionar bem: o trabalho, a família, os filhos. Qualquer um me invejaria. Mas eu não me sinto bem.

Já passou um ano mais. Esta noite começaremos um novo ano, mas sei que tudo continuará igual. Os mesmos problemas, as mesmas preocupações, os mesmos trabalhos. E assim, até quando?

Como eu gostaria de poder renovar minha vida por dentro. Encontrar em mim uma alegria nova, uma força diferente para viver a cada dia. Mudar, ser melhor comigo mesmo e com todos. Mas na minha idade não se pode esperar grandes mudanças. Já estou demasiado acostumado a um estilo de vida. Nem eu mesmo acredito muito na minha transformação.

Por outro lado, Tu sabes como me deixo arrastar pela agitação de cada dia. Talvez por isso não me encontro quase nunca Contigo. Tu está dentro de mim e eu quase sempre estou fora de mim mesmo. Tu estás comigo e estou perdido em mil coisas.

Se ao menos eu Te sentisse como o meu melhor amigo. Às vezes penso que isso mudaria tudo. Que alegria se eu não tivesse esse tipo de medo que eu não sei de onde vem, mas que me afasta tanto de Ti.

Senhor, grava bem no meu coração que Tu para mim só podes sentir amor e ternura. Recorda-me desde o meu interior que Tu me aceita como sou, com minha mediocridade e o meu pecado, e que me amas mesmo que eu não mude.

Senhor, a minha vida está a passar e às vezes penso que meu grande pecado é não conseguir acreditar em Ti e no Teu amor. Por isso esta noite não Te peço coisas. Só que despertes a minha fé o suficiente para acreditar que Tu estás sempre perto e me acompanhas.

Que ao longo deste ano novo eu não me afaste muito de Ti. Que saiba encontrar-te nos meus sofrimentos e nas minhas alegrias. Então talvez eu mude. Será um ano novo.

José Antonio Pagola

domingo, 16 de setembro de 2018

Ele está simplesmente aqui


A imagem pode conter: oceano, céu, ar livre, água e natureza

Ele está simplesmente aqui,
e isso é tudo
o que faz e pode.
Mas na medida em que está aqui,
frágil e radioso,
é o próprio Deus que está aqui.
Deus está aqui por nós.
E o que nos diz este estar de Deus
no Menino de Belém?
Diz-me a mim,
diz a ti,
diz a cada homem:
é bom tu estares aqui.'

(Sebastião Nuno Silva)

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

O sofrimento faz parte da vida

Foto de Cristina Lança.

O sofrimento faz parte da vida.
É o outro lado do Amor:
quem ama, mais cedo ou mais tarde, sofre. 
Mas não é o sofrimento que domina e assinala a tua vida. 
Se neste momento atravessas uma fase mais difícil,
não percas de vista o horizonte da tua vida. 
Não te esqueças que Deus é teu Pai
e que Ele te dá a certeza da sua presença dentro de ti,
sempre, até ao fim. "
Passo a Rezar, 16 de Janeiro 2017

sábado, 31 de dezembro de 2016

Para viver melhor…



Para viver melhor…

Não se preocupe, se ocupe.
Ocupe seu tempo, ocupe seu espaço, ocupe sua mente.

Não se desespere, espere.
Espere a poeira baixar, espere o tempo passar, espere a raiva desmanchar.

Não se indisponha, disponha.
Disponha boas palavras, disponha boas vibrações, disponha sempre.

Não se canse, descanse.
Descanse sua mente, descanse suas pernas, descanse de tudo.

Não menospreze, preze.
Preze por qualidade, preze por valores, preze por virtudes.

Não se incomode, acomode.
Acomode seu corpo, acomode seu espirito, acomode sua vida.

Não desconfie, confie.
Confie no seu sexto sentido, confie em você, confie em Deus.

Não se torture, ature.
Ature com paciência, ature com resignação, ature com tolerância.

Não pressione, impressione.
Impressione pela humildade, impressione pela simplicidade, impressione pela elegância 

Não crie discórdia, crie concórdia.
Concórdia entre nações, concórdia entre pessoas, concórdia pessoal 

Não maltrate, trate bem.
Trate bem as pessoas, trate bem os animais, trate bem o planeta.

Não se sobrecarregue, recarregue.
Recarregue suas forças, recarregue sua coragem, recarregue sua esperança.

Não atrapalhe, trabalhe.
Trabalhe sua humanidade, trabalhe suas frustrações, trabalhe suas virtudes.

Não conspire, inspire.
Inspire pessoas, inspire talentos, inspire saúde. Não se apavore, ore. Ore a Deus 


Somente assim viveremos dias melhores. 

Um ótimo final de ano e um excelente 2017 com Deus em primeiro lugar.

domingo, 27 de novembro de 2016

Somos feitos para estar com os outros

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A nossa humanidade enriquece-se muito se estamos com todos os outros e em qualquer situação em que se encontram. É o isolamento que faz mal, não a partilha. O isolamento desenvolve o medo e a desconfiança e impede de beneficiar da fraternidade. É preciso com efeito dizer que se correm mais riscos quando nos isolamos do que quando nos abrimos ao outro: a possibilidade de nos fazermos mal não está no encontro mas no fechamento e na rejeição. A mesma coisa vale quando assumimos o cuidado de alguém: penso num doente, num idoso, num imigrante, um pobre, num desempregado. Quando tomamos conta do outro complicamos menos a vida do que quando estamos concentrados em nós mesmos.

Estar no meio das pessoas não significa só estar abertos e encontrar os outros, mas também deixar-se encontrar. Somos nós que temos necessidade de ser olhados, chamados, tocados, interpelados, somos nós que temos necessidade dos outros para nos podermos fazer participantes de tudo o que só os outros nos podem dar. A relação pede este intercâmbio entre pessoas: a experiência diz-nos que habitualmente dos outros recebemos mais do que damos.

Entre a nossa gente há uma autêntica riqueza humana. São inumeráveis as histórias de solidariedade, ade ajuda, de apoio que se vivem nas nossas famílias e nas nossas comunidades. É impressionante como algumas pessoas vivem com dignidade a restrição económica, a dor, o trabalho duro, a provação. Encontrando estas pessoas tocas com a mão a sua grandeza e recebes quase uma luz através da qual se torna claro que se pode cultivar uma esperança para o futuro; pode acreditar-se que o bem é mais forte do que o mal porque elas estão ali. Estando no meio das pessoas temos acesso ao ensinamento dos factos.

Dou um exemplo: contaram-me que há pouco tempo morreu uma jovem de 19 anos. A dor foi imensa, muitas pessoas participaram no funeral. O que a todos tocou foi não só a ausência de desespero, mas a perceção de uma certa serenidade. As pessoas, após o funeral, falavam da admiração de terem saído da celebração aliviadas de um peso. A mãe da jovem afirmou: «Recebi a graça da serenidade». A vida quotidiana é entretecida destes factos que marcam a nossa existência: eles nunca perdem eficácia, mesmo se não fazem parte dos títulos dos jornais. Acontece precisamente assim: sem discursos ou explicações compreende-se o que na vida vale ou não vale.

Estar no meio das pessoas significa também dar-se conta de que cada um de nós é parte de um povo. A vida concreta é possível porque não é a soma de muitas individualidades, mas a articulação de muitas pessoas que concorrem para a constituição do bem comum. Estar juntos ajudar-nos a ver o conjunto. Quando vemos o conjunto, o nosso olhar é enriquecido e torna-se evidente que os papéis que cada pessoa desempenha no interior das dinâmicas sociais nunca podem ser isoladas ou absolutizadas. Quando o povo está separado de quem comanda, quando se fazem escolhas por força do poder e não da partilha popular, quando quem comanda é mais importante do que o povo e as decisões são tomadas por poucos, ou são anónimas, ou são impostas sempre por emergências verdadeiras ou presumidas, então a harmonia social é colocada em perigo, com graves consequências para as pessoas: aumenta a pobreza, a paz é posta em risco, manda o dinheiro e as pessoas passam mal. Estar no meio das pessoas, por isso, faz bem não só à vida de cada um mas é um bem para todos.
Estar no meio das pessoas evidencia a pluralidade de cores, culturas, raças e religiões. As pessoas fazem-nos tocar com a mão a riqueza e a beleza da diversidade. Só com uma grande violência se poderia reduzir a variedade à uniformidade, a pluralidade de pensamentos e de ações a um único modo de fazer e de pensar. Quando se está com as pessoas toca-se a humanidade: nunca é só a cabeça, há sempre também o coração, há mais concretude e menos ideologia.

Para resolver os problemas das pessoas é preciso partir de baixo, sujar as mãos, ter coragem, escutar os últimos. Penso que é espontânea a pergunta: como é que se faz assim? Podemos encontrar a resposta olhando para Maria. Ela é serva, é humilde, é misericordiosa, está a caminho connosco, é concreta, nunca está no centro da cena mas é uma presença constante. Se olharmos para ela encontraremos a melhor maneira de estar no meio das pessoas. Olhando para ela podemos percorrer todas as sendas do humano sem medo e preconceitos, com ela podemos tornar-nos capazes de não excluir ninguém.

Papa Francisco 
Excertos da mensagem em vídeo para o Festival da Doutrina Social da Igreja (Verona, Itália)
24.11.2016 

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

O pecado da preocupação



Entenda quando a ansiedade e a preocupação podem se tornar pecados na sua vida

O mundo está doente, mas a maior de todas as doenças não é causada por infecções, vírus ou epidemias, muito embora também possa ser contagiosa. As doenças psicossomáticas — pressão alta, hipertensão, etc, são a marca de uma sociedade emocionalmente frustrada e mentalmente enferma.  Milhões de pessoas estão sobrecarregadas com problemas de ansiedade, a preocupação é a causa de problema doméstico, fracasso comercial, injustiças sociais, e mortes prematuras.

Não vos inquieteis com nada! Em todas as circunstâncias apresentai a Deus as vossas preocupações, mediante a oração, as súplicas e a ação de graças. (Filipenses 4,6)

Uma das características da preocupação é sua natureza contagiosa. Vários psiquiatras creem que a preocupação é muito mais contagiosa do que doenças infecciosas como a poliomielite e a difteria. A preocupação causa efeitos devastadores não apenas naqueles  que a sofrem, mas em todos à sua volta.

A palavra preocupação vem da palavra grega merimnao que é uma combinação de duas palavras:  – merizo que significa “dividir” e nous que significa “mente” (incluindo as faculdades perceptivas, de compreensão, sentimento, de julgamento e determinação).

A preocupação, portanto, significa “dividir a mente”. A preocupação divide a mente entre interesses dignos e pensamentos prejudiciais.

Uma pessoa com a mente dividida entre o sucesso e o fracasso, certamente vai fracassar. Uma mente dividida não atinge metas, pois a dúvida sempre dá o tom. A mente dividida é a desconfiança de si mesmo, é sentir-se incapaz, mesmo quando este alguém está plenamente qualificado para executar a tarefa.

São Tiago fala do estado infeliz da pessoa que tem a mente dividida: “O homem de ânimo dobre é inconstante em todos os seus caminhos” (Tiago 1,8).

O  homem irresoluto, de ânimo dobre é inconstante em todos os seus caminhos. Ele é inconstante em suas emoções. É inconstante em seus processos de pensamento. É instável em suas decisões. É instável em seus julgamentos.

Preocupação é PECADO

Ao preocupar-se, a pessoa acusa Deus de falsidade.

A Palavra de Deus diz: “Sabemos que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são os eleitos, segundo os seus desígnios.” (Romanos 8,28).

A preocupação diz: “Tu mentes, ó Deus!”

A Palavra de Deus diz: “Tudo ele tem feito esplendidamente” (Marcos 7,37).

A preocupação diz: “Tu mentes, ó Deus!”

A palavra de Deus diz: “Tudo posso naquele que me fortalece” (Filipenses 4,13).

A preocupação diz: “Tu mentes, ó Deus!”

A Palavra de Deus diz: “… não vos preocupeis por vossa vida, pelo que comereis, nem por vosso corpo, pelo que vestireis.”. .. Ora, vosso Pai celeste sabe que necessitais de tudo isso” (Mateus 6,25a, 32b).

A preocupação diz: “Tu mentes, ó Deus!”

Preocupação é hipocrisia, porque professa fé em Deus e ao mesmo tempo ataca a sua fidelidade.

Como vencer a preocupação

Nosso objetivo neste artigo não é desenvolver um sistema de auto-ajuda, mas uma relação de mútua confiança entre nós e nosso Deus. Somos seres com enorme carência afetiva, precisamos nos relacionar, viver em comunidade, ser parte da sociedade. Muitas vezes Deus é apenas o agente máximo da religião que praticamos, não o autor da nossa vida e o provedor de todo o meio ambiente que desfrutamos.

Deus é a pessoa mais acessível com a qual podemos contar, em todo o tempo e em qualquer momento, basta uma palavra de oração, nem que seja um gemido desesperançado, inexprimível, é suficiente para chamar à atenção do Pai em favor dos filhos.

Devemos estabelecer um equilíbrio em nosso relacionamento com Deus, fazer com que se torne uma estrada de mão dupla, onde ambos possam ter livre acesso um ao outro. A confiança é a base de qualquer relacionamento, devemos confiar que nossas orações estão alcançando seus objetivos e que Deus, a Seu tempo, cumprirá os desígnios e propósitos da nossa fé.

terça-feira, 19 de julho de 2016

Quero agradecer a Deus Pai

 

Em primeiro lugar e acima de tudo, quero agradecer a Deus Pai por este momento e tudo aquilo da minha vida. 

Deixar uma palavra especial ao presidente, dr. Fernando Gomes, pela confiança que sempre depositou em mim. Não esqueço que comecei com um castigo de oito jogos pendentes.
A toda a direcção e a todos os que viveram comigo estes meses. Aos jogadores, dizer mais uma vez que tenho um enorme orgulho em ter sido o seu treinador. A estes e aqueles que aqui não puderam estar presentes. Também é deles esta vitória. 

O meu desejo pessoal é ir para casa. Poder dar um beijo do tamanho do mundo à minha mãe, à minha mulher, aos meus filhos, ao meu neto, ao meu genro e à minha nora e ao meu pai, que junto de Deus está certamente a celebrar.

A todos os amigos, muitos deles meus irmãos, um abraço muito apertado pelo apoio mas principalmente pela amizade. 

Por último, mas em primeiro, ir falar com o meu maior amigo e sua mãe. Dedicar-Lhe esta conquista e agradecer-Lhe por ter sido convocado e por me conceder o dom da sabedoria, perseverança e humildade para guiar esta equipa e Ele a ter iluminado e guiado. Espero e desejo que seja para glória do Seu nome".

Fernando Santos, treinador da seleção de futebol de Portugal

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Gabe Adams



Gabe Adams nasceu no Brasil sem braços nem pernas e foi abandonado pelos pais. Mas Deus levou o Gabe até aos Estados Unidos, onde abençoou esta criança com uma família incrível!

terça-feira, 10 de maio de 2016

O silêncio

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O silêncio é mansidão quando não respondes às ofensas e deixas a Deus a tua defesa. O silêncio é paciência quando sofres sem te lamentares, não procuras consolações humanas, esperas que a semente germine. O silêncio é humildade quando calas para deixar emergir os irmãos e deixas aos outros a glória do feito. O silêncio é fé quando não procuras compreensão e renuncias à glória pessoal porque te basta ser conhecido por Deus.

Assim escrevia em 1581 S. João da Cruz, grande místico e escritor espanhol. O seu canto do silêncio conjuga-se bem com a "mística" que - como na palavra "mistério" - tem na raiz um verbo grego que significa "calar". Não é preciso acrescentar muito sobre este tema, tão marginalizado no tempo em que vivemos, marcado por um excesso de falatório, rumor e fatuidade exterior.

Gostaria, em vez disso, de colocar o acento nas "cores" do silêncio que o santo consegue fazer brilhar. Há, antes de mais, a mansidão que emerge do calar as respostas amargas, sarcásticas, vingativas. Há a paciência que desponta desde o reprimir do lamento emitido para obter compreensão e para se tornar o centro da atenção do outro. Sofrer em silêncio é confiar só a Deus a própria dor, sabendo que Ele «as nossas lágrimas no seu odre recolhe, escrevendo-as depois no seu livro (Salmo 56, 9).

O silêncio é também o ventre da humildade porque o prepotente tem sempre uma palavra a mais do que os outros e o soberbo faz ribombar a sua voz de maneira retumbante, de tal forma que ela domine e revele a grandeza de quem a emite. E, por fim, a fé é silenciosa porque é intimidade com Deus. E é belíssima a frase, de sabor paulino (leia-se Galátas 4, 9), com que João da Cruz conclui o seu louvor do silêncio: «Basta-nos ser conhecidos por Deus!».


Card. Gianfranco Ravasi 
In "Avvenire" 
Trad.: Rui Jorge Martins 
Publicado em 09.05.2016

segunda-feira, 9 de maio de 2016

O profeta Oseias, a traição e o amor




São páginas belíssimas, até na dramaticidade que as envolve. É a história do profeta Oseias, que viveu no século VIII a.C., cuja existência familiar é narrada nos primeiros três capítulos do seu livrinho bíblico, onde, todavia, é transfigurada em símbolo religioso para todo o Israel.

A história é conhecida: o profeta tinha desposado uma ex-prostituta (ou talvez uma sacerdotisa de cultos pagãos da fertilidade); dela havia tido três filhos, mas a mulher tinha-o abandonado. Nesta experiência tormentosa podemos encontrar a relação entre família e misericórdia.

Dois são os perfis que queremos agora descrever. O amor misericordioso que sabe perdoar pode coexistir com o desdém pela ofensa da infidelidade. É isto que brilha no capítulo 2 da confissão de Oseias. Ele, com efeito, apesar de gritar a sua ira e amargura pelo abandono do teto conjugal, sonha que a sua mulher, Gomer, desiludida pelos amantes, retome o seu lugar no lar, agora deserto, com a sua família. Ela, efetivamente, dirá: «Voltarei ao meu primeiro marido, porque eu era outrora mais feliz do que agora». (2, 9). E Oseias estará pronto a perdoar tudo, e com ela quererá celebrar um novo casamento e uma nova lua de mel.

Juntos irão novamente aos lugares da sua juventude, retirar-se-ão para o deserto, abraçar-se-ão os corações: «É assim que a vou seduzir: ao deserto a conduzirei, para lhe falar ao coração [literalmente: sobre o seu coração] (...) Aí, ela responderá como no tempo da sua juventude» (2, 16-17).

Envolvida e comovida por este amor que elimina e perdoa o passado, Gomer repetirá as palavras ternas da intimidade nupcial: «Naquele dia – oráculo do Senhor – ela me chamará: "Meu marido" e nunca mais: "Meu Baal"» (2, 18). E Oseias replicará: «Então, te desposarei para sempre; desposar-te-ei conforme a justiça e o direito, com amor e misericórdia. Desposar-te-ei com fidelidade» (2, 21-22).
O segundo perfil encontra-se em Oseias 11,1-4. Nele entra em ação a misericórdia paterna, que se inclina com ternura sobre o filho, mesmo sendo ele um pouco caprichoso e rebelde. Também neste caso a representação do pai que tem nos braços o seu menino torna-se um símbolo da relação entre Deus e o seu povo.

Eis a pequena cena descrita pelo profeta, onde Deus fala a Efraim, isto é, a Israel: «Entretanto, Eu ensinava Efraim a andar, trazia-o nos meus braços, mas não reconheceram que era Eu quem cuidava deles. Segurava-os com laços humanos, com laços de amor, fui para eles como os que levantam uma criancinha contra o seu rosto; inclinei-me para ele para lhe dar de comer» (11, 3-4).

É fácil intuir a terna solicitude deste pai que, tendo pela mão o filhinho, o ensina a caminhar, o aperta fortemente a si, o eleva até à altura do seu rosto para o impelir a comer, mesmo quando o pequeno não quer saber e é caprichoso.

Este é um pequeno quadro de intimidade familiar que se liga à cena matrimonial anterior e que recorda a todos os esposos e pais a necessidade do amor misericordioso para viver juntos uma experiência nem sempre fácil. Como observava o escritor suíço Max Frisch, falecido em 1991, «no amor não se deve ver um ponto de chegada, nem um apagamento, mas apenas um continuo prosseguir».

Card. Gianfranco Ravasi

sábado, 23 de abril de 2016

Tarde Te amei!



“Tarde Te amei!” De Santo Agostinho, uma das mais arrebatadoras orações de todos os tempos
"Et ecce intus eras et ego foris et ibi te quaerebam, et in ista formosa quae fecisti deformis irruebam..."

1. Tarde Te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova… Tarde Te amei! Trinta anos estive longe de Deus. Mas, durante esse tempo, algo se movia dentro do meu coração… Eu era inquieto, alguém que buscava a felicidade, buscava algo que não achava… Mas Tu Te compadeceste de mim e tudo mudou, porque Tu me deixaste conhecer-Te. Entrei no meu íntimo sob a Tua Guia e consegui, porque Tu Te fizeste meu auxílio.

2. Tu estavas dentro de mim e eu fora… “Os homens saem para fazer passeios, a fim de admirar o alto dos montes, o ruído incessante dos mares, o belo e ininterrupto curso dos rios, os majestosos movimentos dos astros. E, no entanto, passam ao largo de si mesmos. Não se arriscam na aventura de um passeio interior”. Durante os anos de minha juventude, pus meu coração em coisas exteriores que só faziam me afastar cada vez mais d’Aquele a Quem meu coração, sem saber, desejava… Eis que estavas dentro e eu fora! Seguravam-me longe de Ti as coisas que não existiriam senão em Ti. Estavas comigo e não eu Contigo…

3. Mas Tu me chamaste, clamaste por mim e Teu grito rompeu a minha surdez… “Fizeste-me entrar em mim mesmo… Para não olhar para dentro de mim, eu tinha me escondido. Mas Tu me arrancaste do meu esconderijo e me puseste diante de mim mesmo, a fim de que eu enxergasse o indigno que era, o quão deformado, manchado e sujo eu estava”. Em meio à luta, recorri a meu grande amigo Alípio e lhe disse: “Os ignorantes nos arrebatam o céu e nós, com toda a nossa ciência, nos debatemos em nossa carne”. Assim me encontrava, chorando desconsolado, enquanto perguntava a mim mesmo quando deixaria de dizer “Amanhã, amanhã”… Foi então que escutei uma voz que vinha da casa vizinha… Uma voz que dizia: “Pega e lê. Pega e lê!”.

4. Brilhaste, resplandeceste sobre mim e afugentaste a minha cegueira. Então corri à Bíblia, abri-a e li o primeiro capítulo sobre o qual caiu o meu olhar. Pertencia à carta de São Paulo aos Romanos e dizia assim: “Não em orgias e bebedeiras, nem na devassidão e libertinagem, nem nas rixas e ciúmes. Mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo” (Rm 13,13s). Aquelas Palavras ressoaram dentro de mim. Pareciam escritas por uma pessoa que me conhecia, que sabia da minha vida.

5. Exalaste Teu Perfume e respirei. Agora suspiro por Ti, anseio por Ti! Deus… de Quem separar-se é morrer, de Quem aproximar-se é ressuscitar, com Quem habitar é viver. Deus… de Quem fugir é cair, a Quem voltar é levantar-se, em Quem apoiar-se é estar seguro. Deus… a Quem esquecer é perecer, a Quem buscar é renascer, a Quem conhecer é possuir. Foi assim que descobri a Deus e me dei conta de que, no fundo, era a Ele, mesmo sem saber, a Quem buscava ardentemente o meu coração.

6. Provei-Te, e, agora, tenho fome e sede de Ti. Tocaste-me, e agora ardo por Tua Paz. “Deus começa a habitar em ti quando tu começas a amá-Lo”. Vi dentro de mim a Luz Imutável, Forte e Brilhante! Quem conhece a Verdade conhece esta Luz. Ó Eterna Verdade! Verdadeira Caridade! Tu és o meu Deus! Por Ti suspiro dia e noite desde que Te conheci. E mostraste-me então Quem eras. E irradiaste sobre mim a Tua Força dando-me o Teu Amor!

7. E agora, Senhor, só amo a Ti! Só sigo a Ti! Só busco a Ti! Só ardo por Ti!…

8. Tarde te amei! Tarde Te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova! Tarde demais eu Te amei! Eis que estavas dentro, e eu, fora – e fora Te buscava, e me lançava, disforme e nada belo, perante a beleza de tudo e de todos que criaste. Estavas comigo, e eu não estava Contigo… Seguravam-me longe de Ti as coisas que não existiriam senão em Ti. Chamaste, clamaste por mim e rompeste a minha surdez. Brilhaste, resplandeceste, e a Tua Luz afugentou minha cegueira. Exalaste o Teu Perfume e, respirando-o, suspirei por Ti, Te desejei. Eu Te provei, Te saboreei e, agora, tenho fome e sede de Ti. Tocaste-me e agora ardo em desejos por Tua Paz!

Santo Agostinho, Confissões 10, 27-29

quinta-feira, 10 de março de 2016

Oração do risco


Senhor, Tu sabes tudo!
Sabes do meu coração inquieto,
ferido, e muitas vezes fechado.
Sabes dos tropeços e das quedas,
Das mentiras e enganos,
Das minhas culpas e pecados…

Senhor, Tu sabes tudo!
Sabes do desejo de Te amar
Acima de tudo e em tudo,
De levar o Teu Amor
A todos os que encontro,
Nos lugares por onde passo,
Em cada coisa que faço.

Senhor, Tu sabes tudo!
Sabes que quero ser todo Teu:
Que quero ser pobre,
para encontrar a riqueza em Ti;
Que quero ser obediente,
para encontrar a liberdade em Ti;
Que quero ser casto,
para encontrar o amor em Ti.

Eu sei, Senhor,
Que crescer em Ti, é diminuir,
Que ganhar-Te a Ti, é perder-me,
Que viver de Ti, é morrer…

Posso duvidar e cair muitas vezes,
Posso até negar-Te muitas vezes,
Mas Tu, Senhor, sabes tudo!
Tu sabes que arrisco tudo!
Tu sabes que Te amo!

Pe. Hugo Gonçalves

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Quão grande és tu



Senhor, meu Deus, quando eu maravilhado,
Fico a pensar nas obras de Tuas mãos
O céu azul de estrelas pontilhado,
O seu poder mostrando a criação.

Então minh'alma canta a Ti, Senhor.
Quão grande és Tu.

Quando a vagar nas matas e florestas
O passaredo alegre ouço a cantar
Cruzando os montes, vales e florestas
O Teu poder mostrando a criação.

Então minh'alma canta a Ti, Senhor.
Quão grande és Tu.

Quando eu medir o Teu amor tão grande
Teu Filho dando ao mundo pra salvar
Na cruz verteu seu precioso sangue
Minh'alma pôde assim purificar.

Então minh'alma canta a Ti, Senhor.
Quão grande és Tu.

E quando enfim, Jesus vier em Glória
E ao lar celeste então me transportar
Eu adorarei, prostrado e para sempre
Quão grande és Tu, meu Deus, hei de cantar.

Então minh'alma canta a Ti, Senhor.
Quão grande és Tu.



domingo, 17 de janeiro de 2016

Louvado sejas



Louvado sejas por este dia
Que encheu o meu cálice de alegria
E salgou o meu pão com amor. 

Louvado sejas pelos reencontros que abraçam, 
Pelas conversas que alimentam
E pelas pessoas que dão à vida sabor. 

Louvado sejas pelas gargalhadas,
Melodias de vidas partilhadas,
Que só um coração que se dá sabe compor. 

Louvado sejas pelas estrelas que brilham,
Pelos olhares que nos iluminam 
E que nos fazem querer ser mais e melhor. 

Louvado sejas pela felicidade
Concretizada na amizade 
E alicerçada no amor.

Louvado sejas pelas crianças,
Promessa de um futuro cheio de esperanças
E fruto de uma história de amor. 

Louvado sejas por cada lição 
Que aprendemos com o ritmo descompassado do coração
E que, ainda que traga lágrimas e dor,
Louvado sejas por mais este dia, Senhor. 

Raquel Dias

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Desabafo pastoral de um "Timóteo"


É particularmente preocupante ver pastores cansados, desmotivados e com vontade de desistirem do ministério.
Quase ninguém imagina o que eles passam... Horas a estudar para poderem pregar, investem muito tempo em oração pelas pessoas, estão disponíveis para resolverem problemas seja a que horas for, têm que tomar também decisões que são incompreensíveis pelas pessoas até pela confidencialidade pastoral que lhes é exigida, têm pouco tempo para a família, não sabem o que é terem um fim-de-semana livre de preocupações sem ser nas suas férias, têm um dia de folga quando todos os outros membros da família estão fora de casa, fazem desafios à Igreja e poucos ou nenhuns respondem afirmativamente.
Além disto, ouvem algumas barbaridades como “só vai para o ministério quem quer ganhar dinheiro”, ou então “só vai para pastor quem não sabe fazer mais nada na vida”. As pessoas não imaginam o que custa ouvir dizer isso.
Os pastores são pastores por vocação e não por profissão!
Acreditem meus amigos, quem “aguenta” ser pastor, certamente suportará qualquer outra actividade no nosso país.
Quando os pastores estão desmotivados, em depressão, ou até em esgotamento, certamente as comunidades irão ressentir-se.
Um dia ouvi alguém dizer “Se o pastor estiver desmotivado, a Igreja ficará “morta”. Se a Igreja estiver desmotivada, o pastor ficará “morto”.
Temos de orar mais pelos pastores, motivá-los cada vez mais a pregarem a Palavra e a honrá-los.
Temos de ter cuidado na forma como falamos com eles, porque apesar de poderem responder muitas vezes com um sorriso, depois vão para casa em grande sofrimento. E a família dele ressente-se disso.
Há certos gestos e palavras que têm um alcance enorme. Dou apenas três exemplos pessoais que foram bastante importantes…
1º Num dia em que estava mesmo abatido, uma pessoa simplesmente olhou para mim e abraçou-me dizendo "estou a orar pelo meu pastor".
2º Noutra altura, também difícil no ministério, várias pessoas vieram ter comigo e com a minha mulher e disseram “Nós estamos a orar por vocês. Nunca se esqueçam disso”.
3º Ouvir numa reunião de oração um irmão dizer “temos de orar pelo pastor. Certamente ele está a viver muitas lutas, pois vive as suas lutas pessoais e também as nossas". Creio que foi a cura de Deus que eu estava a precisar naquele momento.
Depois deste enorme texto, deixo apenas um versículo para reflexão…
“Obedecei a vossos pastores, e sujeitai-vos a eles; porque velam por vossas almas, como aqueles que hão de dar conta delas; para que o façam com alegria e não gemendo, porque isso não vos seria útil.” Hebreus 13:17.
Por fim, quero dizer que dou graças a Deus pela Igreja que eu pastoreio. Tem sido uma bênção crescermos juntos e vermos aquilo que Deus tem feito na vida do Seu povo."

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Tu manifestas a misercórdia



Para uma espiritualidade da misericórdia

Quando te sentes chamado a seguir Jesus,
a anunciá-lo e a fazer ressoar em ti
o canto novo vindo do alto:
«Glória a Deus nas alturas
e paz na terra aos homens» (cf. Lc 2,14);
Quando vives a fé na tua família,
na comunidade cristã
e no mundo concreto e real
que te é oferecido como dom;
Quando te dedicas a cada um e a cada uma
daqueles que te são confiados
para guiares no caminho da humanidade e da fé;
Quando amas com o amor entranhado
de mãe, de pai, de irmão, de próximo
de todos os que te rodeiam;
Quando te compadeces da pessoa humana
na sua fragilidade,
sabendo que cuidas do mais sagrado que existe em cada um,
da possibilidade de abrir o coração à manifestação da vida;
Quando realizas o teu trabalho,
no silêncio da oração e do estudo,
na relação com o grupo de catequese e com os pais,
com dedicação desmedida e espírito de entrega;
Quando semeias a esperança,
no meio do fracasso e da desilusão,
até quando parece que a tua luta é inglória;
Quando falas, ris, olhas, choras e abraças
o caminho que fazes com os outros;
Quando corres o risco de sair,
de procurar, de chegar onde Deus te espera;
Quando convertes a Igreja em casa e lugar da misericórdia
e sentes no teu coração o desejo de a manifestar a todos;
Aí e sempre manifestas a misericórdia…
Que neste Natal te sintas alcançado
pela manifestação da misericórdia de Deus
presente no presépio de Belém.


Padre Tiago Neto, 
diretor do Setor da Catequese do Patriarcado de Lisboa

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Eu vejo porque creio



"Eu não creio porque vejo; eu vejo porque creio!"
"DEUS É UM CAVALHEIRO"
"Da boca dos pequeninos e das crianças sai o louvor perfeito" (Mt 21, 16)

domingo, 29 de novembro de 2015

Mãos ungidas



Senhor,
“Dá-nos mãos ungidas que nos guiem.
Entrega-nos, Pai, quem nos conduza,
até sermos todos em Ti!
D’entre nós que somos Teus,
vem chamar quem nos ensine
a escutar o laço aberto
do silêncio que nos dizes.
Quem escute que pedimos
a doçura dos Teus olhos
e nos traga em suas mãos
a manhã da Tua luz.
Vem chamar quem pacifique
nossas mãos e que recrie
o passar igual dos dias
no Teu rosto sempre novo.
Vem chamar os que se entregam
e desfazem no Teu lume,
ateando em nossas vidas
o tamanho do Teu nome.
Torna largo o seu abraço.
Fá-los signos d’alegria.
E do colo onde recolhes
um a um nossos caminhos
vela todos os seus passos,
D’eles que velam nossos dias.
E condu-los, pois conduzem
nossos sonhos para Ti.

Fr. Daniel Augusto, O.S.B.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Tudo fazer com amor



"Não faço nada de grande, para ser visto pelos outros.
Sei que o que conta é que tu, Senhor, bom observador,
estás a ver-me com todo o afecto e ternura.
Não é fazer grandes coisas,
mas tudo fazer com muito amor."