Mostrar mensagens com a etiqueta Menino. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Menino. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Nós os dois


Desde que sei
Que sou como um fiozinho de erva
Que de manhã reverdece e à tarde seca,
Que aprendi a suportar o peso
Do milagre.
Hoje tudo é mais claro
Tudo é mais nítido.
Mas no tempo em que os pinheiros
Eram altos
E os meus olhos de um verde cristalino,
No tempo em que o tempo
Era incandescente
E fazia carrancas ao destino,
Aí, oh meu país inocente
E pequenino,
Era eu que era mais divino
Ou era Deus que era mais menino?

1. Sim. Enquanto tu descias a este chão de pó, e afanosamente o modelavas (Génesis 2,7), eu subia em sonhos a escada de Jacob (Génesis 28,12), e às escondidas, comia o teu céu de pão-de-ló. Deslumbramento teu no sótão deste chão, quando, no lusco-fusco da vidraça, descobriste o meu pião enrolado na baraça. Deslumbramento meu, quando, distraído, brincava no teu céu, e quase escorregava pelo firmamento.
2. Valeu-me então um anjo que estava de passagem, e me deu a mão. Percebi depois que regressava do jardim do éden (Génesis 2,8), de regar a tua plantação (Isaías 61,3). Contou-me tudo. Falou-me de Abraão, de um rio que abriste no deserto (Isaías 43,19), da avenida florida que atravessa o mar a céu aberto (Sabedoria 19,7), da estrada traçada no deserto onde habitualmente andas a pé (Isaías 35,8), e sobretudo das flores que fizeste florescer em Nazaré (de natsar, florescer).
3. Fomos depois os dois até Jerusalém, e vimos-te a escolher no ribeiro manso as pedras trabalhadas na torrente (1 Samuel 17,40). Olhavas para elas demoradamente em tuas mãos deitadas, e só depois as adornavas com tinta cor de rímel (Isaías 54,11), e as sentavas carinhosamente à tua mesa, em tua casa, onde ardia e não se consumia uma sarça acesa (Êxodo 3,2).
4. Juntaram-se, entretanto, a nós milhares de anjos deslumbrados. Pus-me todo atento e parabólico, e pude ver o vento que o seu bater de asas produzia, e vi ainda que é essa energia que alumia as casas, muito mais do que qualquer rede de alta tensão ou parque eólico. Foi então que o anjo que comigo viajava me indicou um caminho hiperbólico (1 Coríntios 12,31).
5. Entrei nesse caminho. Mas rapidamente vi que não ia sozinho. Ias tu, Senhor, comigo. Chamava-se amor esse caminho aberto no deserto (Atos 8,26). Confesso que nunca tinha estado tão perto da água viva e tão perdido no meio do sentido (Atos 8,36). Tão refém deste Deus nascido em Belém.

Mesa de palavras: NÓS OS DOIS
D. António Couto, Bispo de Lamego (25-12-2014)
[Imagem: Tela: Natività (1650), de Carlo Maratta Igreja São José dos Marceneiros, Roma]

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

O sinal é a ternura de Deus



O sinal é que esta noite Deus se enamorou da nossa pequeneza e se fez ternura para toda a fragilidade, para todo o sofrimento, para toda a angústia, para toda a busca, para todo o limite; o sinal é a ternura de Deus e a mensagem que buscavam todos os que pediam sinais a Jesus, a mensagem que buscavam todos os desorientados, os que até eram inimigos de Jesus e O buscavam, no fundo da alma era este: buscavam a ternura de Deus, Deus feito ternura, Deus a acariciar a nossa miséria, Deus enamorado da nossa pequeneza. Hoje é isto que se proclama: a ternura de Deus. O mundo vai em frente, os homens continuam a buscar Deus, mas o sinal é sempre este!

Contemplando o Menino nascido no presépio, contemplando esse Menino enamorado da nossa pequenez, nesta noite cabe a pergunta: qual é a ternura de Deus para connosco? Deixas-te acariciar por essa ternura de um Deus que te quer bem, por um Deus feito ternura? Ou és indócil, e não te deixas buscar por esse Deus. “Não, eu não procuro a Deus», pode dizer-se. Não é muito importante que tu procures a Deus, porque o mais importante é que te deixes procurar por ele, pela sua carícia na ternura. Esta é a primeira pergunta que este menino, apenas com a sua presença, nos faz hoje. Deixamo-nos envolver por essa ternura? Deixas-te animar também a ser ternura para toda a situação difícil, para todo o problema humano, para quem está próximo, ou preferes a solução burocrática, executa, fria, eficiente, não evangelizadora? Se assim for é porque tens medo da ternura que Deus exerce contigo? E esta seria a segunda pergunta: aceito, através dos meus comportamentos, essa ternura que me deve acompanhar ao longo da vida, nos momentos de alegria, de tristeza, de cruz, de trabalho, de conflito, de luta?

A resposta do cristão não pode ser outra que a mesma resposta de Deus à nossa pequenez: ternura, mansidão. Quando vemos que um Deus Se enamora da nossa pequenez, que Se faz ternura para nos acariciar melhor, um deus que é mansidão, todo intimidade, todo proximidade, não nos resta outra coisa senão dizer-lhe: Senhor, se tu foste assim, ajuda-nos. Dá-nos a graça da ternura nas mais penosas situações da vida; dá-me a graça da proximidade, perante toda a necessidade humana, dá-me a graça da mansidão perante todo o conflito.

Peçamos isto porque esta é uma noite para pedir e atrevo-me a dar-vos uma tarefa para o lar: esta noite, ou amanhã, que não termine o dia de Natal, se, que encontreis um pouquinho de silêncio e pergunteis: que ternura é que Deus tem para comigo? Que ternura tenho eu para os demais? Que ternura costuma ser a minha em situações-limite? Que mansidão é a minha no trabalho e nos conflitos? E certamente Jesus vai responder-vos.

Cardeal Bergoglio, Buens Aires 2004