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sábado, 1 de outubro de 2016

Face à desgraça, pensa!



Por maior que seja a desgraça, ela deve ser sempre motivo de reflexão. Isso é mais importante do que a dor que se possa sentir, ou a empatia com quem a sente. Há quem passe a vida a achar que a sorte e o azar escrevem o nosso destino e que apenas podem alegrar-se com os bons momentos e entristecer-se com os maus.

Depois de uma tragédia, é tempo de procurar aprender algo. Pode ser apenas uma boa dose de aceitação, por não termos grande poder sobre a maior parte das coisas que nos rodeiam. Ou então, a humildade de reconhecer que não somos tão bons quanto nos julgávamos.

Depois de algum tempo, começamos a perceber que boa parte das calamidades pessoais, que são séries de desgraças, se devem mais a faltas de sensatez e prudência nossas do que a infortúnios alheios à nossa existência.

Quantas vezes somos nós próprios que buscamos os extravios?!

Todos estamos à mercê das circunstâncias, mas a resposta que damos a cada uma é que define a nossa identidade. Não somos vítimas das condições, seremos sempre a capacidade concreta de lhes dar resposta. Ora, isso pressupõe muito mais do que lágrimas e lamentos.

Há quem julgue mesmo, no interior do seu coração e nas profundezas da sua razão, que não somos mortais. Cada morte é vivida com uma tal surpresa que só pode advir de um erro enraizado nas profundezas da sua razão. Todos temos o mesmo destino. A morte é para todos. Para mim, que escrevo estas linhas e para si, que as lê. Somos iguais nisso. E iguais a todos os outros.

Felizes os que se aperfeiçoam a partir das suas infelicidades.

Mas enquanto a morte não chega, importa aproveitar bem os dias e as noites da nossa fugidia existência. Devemos viver em pleno, mesmo sabendo que uma noite virá em que a poeira que somos poisará e voltará à terra, de onde, numa madrugada, um sopro a levantou...

Nenhuma desgraça é o fim, nem mesmo a morte. Há muito mais no céu e na terra do que aquilo que conseguimos compreender. Mas é essencial que procuremos sempre saber mais a fim de aprender a sentir e viver melhor.

Só uma razão iluminada permite um coração tranquilo!

José Luís Nunes Martins, 
(ilustração de Carlos Ribeiro)

sábado, 7 de maio de 2016

​A solidão do amor



Ele trazia sempre na carteira a fotografia dela. Era um tesouro que admirava várias vezes ao dia. Uma prova concreta de que ela existira e existia, de que não era uma mentira ou ilusão.

Na fotografia, ela estava lindíssima, com um sorriso acolhedor e um olhar cheio de luz que iluminava tudo... embora os nadas que ia enchendo fossem cada vez maiores.

Aquele homem sentia o seu amor despedaçar-se a cada dia, a cada hora... a cada agora! Como uma cascata sobre um abismo. Mas amava-a, nunca deixou de a amar, mesmo quando a morte o fazia deixar de acreditar. O seu coração parecia ter sido o lugar escolhido pelo bem e pelo mal, para nele se medirem as forças da luz e das trevas.

À noite, em casa, a saudade batia-lhe à porta, até a arrombar... logo que entrava, uma dor profunda seguia-lhe todos os passos e pesava, a cada um, mais e mais. Quando o sono chegava para lhe silenciar a tristeza, a saudade enchia o quarto e deitava-se na cama antes dele, esperando-o com o seu abraço frio. Era uma solidão tão concreta que, só, ele a podia ver e ouvir.

Queria tanto que ela, do lado de lá da morte, pudesse vê-lo...

A certeza de que o paraíso não faria sentido sem ela aquecia-lhe, por momentos, aquela noite imensa, ainda mais imensa quando ele perdia a esperança... e, apesar de não poder sentir a sua amada, ela dava-lhe sentido.

Desejava que a mesma morte que a havia levado, o levasse também a ele... ou para junto dela, ou para um nada qualquer onde já não houvesse dor. Mas não queria ser cemitério. Havia de honrar o que lhe prometera: conquistar, neste mundo, a vida eterna!

Sabia bem, muito bem, que uma das piores partes da batalha é a espera, mas estava certo da felicidade... desde o dia em que decidiram amar-se, perdoar-se e esperar um pelo outro.

O homem morreu num dia triste de chuva.

Morreu... e foi logo ajoelhar-se à cabeceira da cama onde ela esperava por ele, há tanto tempo...

O que ela não esperava foi o beijo quente com que ele a acordou, para sempre.

JOSÉ LUÍS NUNES MARTINS
(Ilustração de Carlos Ribeiro)

sábado, 23 de janeiro de 2016

O amor é a morte da morte

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O que há depois da vida? Nada. A vida não tem depois.

A morte é temporária. Há um afastamento no tempo e no espaço... o amor permanece, mas talvez mais profundo do que em qualquer outro momento. Não faz sentido que algo possa separar o encontro de duas almas.

Só o egoísmo pode matar de forma irreversível. Quem julga encontrar em si mesmo o porquê e o para quê da sua vida, tomando os outros como meros instrumentos da sua satisfação, abandona-se a si mesmo, quebrando todas as possibilidades de que o seu coração cumpra aquilo para que foi criado: amar. Quem não ama perde-se, para sempre. Consome-se numa tal ânsia devoradora que só encontra fim no vazio.

Que sentido pode ter esta vida sem uma verdade que ultrapasse os limites do tempo? Como posso eu justificar a minha existência? Sou um acaso? Onde estaria a consciência que lê estas linhas se esse acaso não tivesse acontecido? No nada? Como pode alguém julgar que toda a beleza e harmonia do mundo são resultado apenas de uma explosão caótica?

Até que a morte nos separe? Não. Até que a morte nos leve... para onde a plenitude do amor se pode cumprir. Enquanto neste mundo alguém amar alguém não faltará sentido para a vida... nem para a morte.

A sombra que a morte lança sobre a vida é sinal de uma luz perfeita que nos ilumina o caminho, nos aquece e nos promete que não há nada depois do amor... porque o amor não tem fim.



José Luís Nunes Martins

23 de janeiro de 2016

Ilustração de Carlos Ribeiro

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Está na hora de voltar para casa!



A maior rede de supermercados da Alemanha, a Edeka, lançou o seu primeiro anúncio para a quadra festiva do Natal.

O anúncio de Natal da maior rede de supermercados alemã está a emocionar o Mundo. O vídeo, que já se tornou viral, conta a história de um idoso que passa o Natal sozinho.

O idoso chega a casa do supermercado e ouve as mensagens dos filhos a dizer que não podem ir passar o Natal com ele, prometendo que o fazem no próximo ano. Contudo, passam três anos e ele continua sozinho na noite de Natal. Então decide enviar uma carta a dizer que morreu.

A ação passa depois para os filhos e netos que recebem mensagens e cartas com a notícia de que o pai morreu. Regressam então a casa, de luto, mas quando entram, encontram a mesa posta para todos e o pai na cozinha. "De que outra forma conseguiria que estivéssemos juntos?", pergunta.

As lágrimas transformam-se em risos à medida que a família se reúne para o jantar.

"É tempo de voltar a casa", diz o slogan do anúncio.

sábado, 21 de novembro de 2015

A morte não separa




Ninguém pode viver a minha vida por mim. Ninguém pode dar os meus passos, ver o que vejo, sentir as mesmas emoções ou pensar ideias iguais às minhas... ser é fazer a diferença.

A minha existência pode servir de modelo a outros, assim como posso tomar alguém como exemplo a seguir, mas não devemos deixar que o eu se perca, porque quando me confundir com outros perderei o meu maior valor: ser único. Amar não é anular ninguém, antes protegê-lo e promovê-lo, tal qual quer ser. O bem que é.

Não sou o que tenho, não sou o que faço. Sou apenas a marca que deixo... o que decido querer, a cada passo.

Quando nos morre alguém, perde-se a sua referência palpável. É o fim de todas as possibilidades da relação, nos termos em que a conhecemos. Mas, mais do que os seus sapatos – que outro qualquer pode usar – ficam os seus passos, ao lado de quem precisava da sua força, todos os que deu por amor... porque só o que é nobre fica. Tudo o mais é nada.

Porque o amor é a negação da morte, eis que se levanta a mais importante de todas as guerras, o visível contra o invisível, a dúvida contra a fé, o tempo contra a eternidade... cabe a cada um de nós escolher o que quer.

Quando alguém que me ama morre, fica. Contudo, depende de mim aceitar a sua presença no meu íntimo. Assumir a missão de ser um, pelos dois... mais livre do que nunca... mas é isso mesmo que quer quem nos ama de verdade: que sejamos independentes, autónomos e felizes!

Amar é estar sempre a sós com a pessoa que se ama, mesmo quando há uma enorme distância... no espaço e no tempo.

A morte não separa os que se amam, apenas aproxima e une, ainda mais, os que decidem continuar a amar-se.

José Luís Nunes Martins

terça-feira, 7 de abril de 2015

Chama-te pelo teu nome



 «Se foste tu que o tiraste»: como se Maria já lhe tivesse dito porque chorava! Fala «dele», sem pronunciar o seu nome. Tal é o fulgor do amor: quando estamos repletos de amor, acreditamos que os outros sentem o mesmo que nós. […]. Maria é incapaz de imaginar que alguém possa ignorar a razão da sua imensa tristeza.

Jesus diz-lhe: «Maria!» Pouco antes, chamara-a pelo nome comum a todas do seu sexo: «Mulher», sem ainda Se dar a conhecer. Agora, chama-a pelo seu nome próprio, como se lhe dissesse sem rodeios : «Reconhece Aquele que te reconhece.» Também Deus disse a Moisés: «Conheço-te pelo teu nome (Ex 33,12). «Homem» é o nome comum a todos; mas «Moisés» é o seu nome próprio e Deus diz que o conhece pelo seu nome e parece declarar: «Não te conheço como conjunto dos homens, conheço-te pessoalmente.»

Assim, chamada pelo próprio nome, Maria reconhece o seu criador e no mesmo instante responde-lhe: «Rabbouni», que quer dizer Mestre. Ela procurava-O fora de si, mas Ele pediu-lhe que O procurasse dentro de si. […] «Maria Madalena foi e anunciou aos discípulos: “Vi o Senhor!” E contou o que Ele lhe tinha dito.» Neste momento, o pecado dos homens abandona o coração de onde procedia. Porque se foi uma mulher que, no paraíso, tentou um homem com o fruto da morte, é uma mulher que, no sepulcro, anuncia a vida aos homens e lhes leva as palavras daquele que traz a vida.

São Gregório Magno (c. 540-604), papa, doutor da Igreja
Homília 25 sobre o Evangelho; PL 76, 1188-1196

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Chamo a esperança pelo nome de Deus



Não pode a morte reter-me na cruz.
Não pode o mundo arrancar-me à raiz.
Ao pé de Deus hei-de sempre viver.
Com Deus cheguei e com Ele vou partir.

Não poderá corromper-se a alegria.
Não pode o fogo extinguir-se no céu.
Meu ser demanda a morada do Deus que guarda os nomes no livro da vida.

Não pode a morte apagar o desejo de ver a Deus face a face e viver.
A Deus busquei toda a vida e vivi de acreditar no infinito da vida.
Não nos reduz o escuro da noite.

Não pode o amor esquecer o que o altera.
Já ouço a voz do Senhor, Deus dos vivos.
Já ouço a voz do amigo que vem.

Não pode o mar esquecer o que o salga.
Não pode a areia esquecer-se do mar.

Meu Deus, meu Deus, vem buscar-me ao deserto.
Que em tuas mãos entreguei a minha sede.
A Tua vida me toma e transporta.
Teu sangue inunda meu corpo de paz.
Eu vejo as mãos do Senhor glorioso.
Nas minhas mãos a memória de Deus.

A Ti, Senhor, meus desejos regressam.
Findo o andar, disponíveis as mãos.
Abre meu corpo ao devir que não sei.
Eu chamo a esperança pelo nome de Deus.

Frei J. Augusto Mourão

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Brilhante testemunho de fé da Judite de Sousa



"Meu Deus e meu Pai
Desfeito em átomos de água,
partiu hoje para o teu infinito o filho que me deste.
Gerei-o com amor, criei-o com carinho
e eduquei-o o melhor que soube.
Foi meu companheiro e meu ânimo
nas muitas tempestades que tenho atravessado.
Hoje não tenho nada.
O muito que tinha foi para junto de ti.
A sua alma de menino
e o que restou do seu corpo de anjo também já foi desfeito em fumo.
Estou só.
Terrivelmente só.
Só como há séculos, quando a tua mãe, nossa Senhora,
te acolheu no regaço depois de te despregarem da cruz no calvário.
Eu agora nada tenho.
Nas distorcidas imagens que os meus olhos rasos de lágrimas salgadas e já secas,
vejo nitidamente, o teu rosto misericordioso.
No plano infinito da eternidade já está o meu menino.
Tapa-o com o teu manto divino
que as noites são frias para lá do Universo, ele é um bom menino.
O meu menino!
E se vires que pode merecer alguma coisa da dor desta perda sem remédio,
rogo-te, meu Pai, que pronto me leves a vê-lo,
que nestes dias as saudades apertam mais
este meu coração trespassado pela dor.
Eu só fui mãe deste filho.
Hoje, já não sou mais mãe de ninguém”.

Judite de Sousa

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Cão vai à missa

Cão vai à missa todos os dias esperando encontrar sua dona que morreu

As pessoas que frequentam a igreja de Santa Maria Assunta em San Donaci, Itália, receberam uma lição de amor e lealdade de um cão nos últimos dois meses. Ciccio, um pastor alemão de 12 anos, cuja dona faleceu há dois meses, visita diariamente a igreja que ela frequentava e onde seu funeral foi celebrado, esperando pacientemente que ela volte.

Cão vai à missa todos os dias esperando encontrar sua dona que morreu
 
Maria Margherita Lochi, 57 anos, adotou Ciccio um ano atrás depois que ele foi encontrado abandonado em um terreno baldio perto de sua casa. Ela era um amante dos animais e já havia adotado vários gatos e cães, mas sua ligação com Ciccio era especial. Aparentemente, ele sentia o mesmo, já que apesar da morte da dona há mais dois meses, o cão continua a voltar para o lugar que a viu pela última vez.
 
Cão vai à missa todos os dias esperando encontrar sua dona que morreu

 
Dona Maria ia todos os dias à missa na igreja local e o padre permitia a entrada de Ciccio que esperava pacientemente a seus pés. Ele também esteve lá com os entes queridos da Dona Maria em seu funeral. Mas agora Ciccio parece ter dificuldade para entender que ela não vai mais voltar e continua indo à missa todos os dias no mesmo horário, assim que ouve os sinos chamando os fiéis. Ciccio simplesmente se senta ao lado do altar, em silêncio, na esperança de ver Dona Maria chegar...
 
Cão vai à missa todos os dias esperando encontrar sua dona que morreu
 
- "Ele está lá toda vez que eu celebro a missa e é muito bem comportado, não faz nenhum som, nenhum latido", diz o padre Donato Panna. "Ele vai a missa todos os dias, mesmo após o funeral da Dona Maria, ele espera pacientemente ao lado do altar e fica lá tranquilamente. Eu não tenho coração para expulsá-lo."
 
Cão vai à missa todos os dias esperando encontrar sua dona que morreu
 
Todos em San Donaci ficaram tão impressionados com a fidelidade de Ciccio, que em conjunto decidiram adotá-lo e cuidar dele.
 
Cão vai à missa todos os dias esperando encontrar sua dona que morreu
 
Este tipo de fidelidade canina que faz o coração da gente doer, nunca deixam de me impressionar. como Capitán, que viveu no túmulo de seu dono por 6 anos, Leão, o cão que perdeu sua dona nos deslizamentos de terra no Rio, ou o cão russo que guardou o corpo de sua companheira por uma semana, depois que ela foi atingida por um carro. Histórias trágicas que fazem qualquer um amar ainda mais estas bolas de pelo que tanto amor nos dedicam.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

O amor é mais importante

Não se percebe muito bem a cruz, mas o importante é o sorriso, muitas vezes ficamos mais agarrados ao sofrimento que ao amor e esta cruz relembra-me sempre que o amor e a misericórdia de Deus são o mais importante.

"Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim. E a vida que agora tenho na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus que me amou e a si mesmo se entregou por mim" (Gal 2, 19-20)

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Alma exposta




Se eu morrer antes de você, faça-me um favor. Chore o quanto quiser, mas não brigue com Deus por Ele haver me levado.

Se não quiser chorar, não chore. Se não conseguir chorar, não se preocupe. Se tiver vontade de rir, ria.

Se alguns amigos contarem algum fato a meu respeito, ouça e acrescente sua versão.

Se me elogiarem demais, corrija o exagero. Se me criticarem demais, defenda-me. Se me quiserem fazer um santo só porque eu morri, mostre que eu tinha um pouco de santo sim mas estava longe de ser o santo que me pintam. Se me quiserem fazer um demónio, mostre que talvez eu tivesse um pouco de demónio mas que a vida inteira eu tentei ser bom e amigo. Se falarem mais de mim do que de Jesus Cristo, chame a atenção deles.

Se sentir saudade e quiser falar comigo, fale com Jesus e eu ouvirei. Espero estar com Ele o suficiente para continuar sendo útil a você, lá onde eu estiver.

E se tiver vontade de escrever alguma coisa sobre mim, diga apenas uma frase: “Foi meu amigo, acreditou em mim e sempre me quis perto de Deus!”. Aí sim, então derrame uma lágrima. Eu não estarei presente para enxugá-la, mas não faz mal. Outros amigos farão isso no meu lugar. E, vendo-me bem substituído, irei cuidar de minha nova tarefa no céu.

Mas, de vez em quando, dê uma espiadinha na direção de Deus. Você não me verá, mas eu ficaria muito feliz vendo você olhar para Ele.

E, quando chegar a sua vez de ir para o Pai, aí, sem nenhum véu a separar a gente, vamos viver, em Deus, a amizade que aqui nos preparou para Ele. Você acredita nessas coisas? Sim? Então ore para que nós dois vivamos como quem sabe que vai morrer um dia, e que morramos como quem soube viver direito.

A amizade só faz sentido se traz o céu para mais perto da gente e se inaugura aqui mesmo o seu começo. Eu não vou estranhar o céu… Sabe porquê? Porque ser seu amigo já é um pedaço dele!

Vinicius de Moraes

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Mudar o mundo



Quando eu era jovem e a minha imaginação não tinha limites, eu sonhava mudar o mundo.
Quando fiquei mais velho e mais sábio, descobri que o mundo não mudaria: então restringi um pouco as minhas ambições e resolvi mudar apenas o meu país.
Mas o país também me parecia imutável.
No ocaso da vida, numa última e desesperada tentativa, quis mudar a minha família. Mas eles não se interessaram nada, afirmando que eu repeti sempre os mesmos erros.
No meu leito de morte descobri por fim que se eu tivesse começado por corrigir os meus erros e mudar a mim mesmo, então o meu exemplo poderia transformar a minha família.
O exemplo da minha família talvez contagiasse a vizinhança e assim eu teria sido capaz de melhorar o meu bairro, a minha cidade, o país e, quem sabe, mudar o mundo...
Palavras escritas no túmulo de um bispo anglicano, numa catedral na Inglaterra.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

A vida faz-me andar!


A vida faz-me andar! Com os pés posso caminhar e estes, o que dizem de cada um? Podem ser bonitos, feios, assim-assim, porventura grandes, quiçá pequenos. De uma forma ou de outra fazem parte de nós. Curiosamente, em cada pé contam-se nada mais, nada menos, do que vinte e nove ossos, perfazendo cinquenta e oito na sua totalidade.

Os nossos pés acompanham e fazem parte da nossa narrativa pessoal. Há até, histórias curiosas relacionadas com estes membros. Por exemplo, o caso em que uma pessoa se apaixona por outra porque desajeitadamente lhe calcou o pé enquanto dançava, ou ainda, o ter caído mesmo aos pés de alguém, o ter tropeçado numa simples pedra. Há várias e diferentes sendo algumas, de facto, histórias engraçadas e bonitas.

Porventura, não há bela sem senão. Também temos o outro lado da moeda. Ora, pelos pés, 42.000 pessoas morreram no Vietnam ao pisar minas e projéteis. Muitas outras ficaram feridas e sem membros. Igualmente lamentável e devido ao mesmo motivo, é o facto de muitos meninos e meninas inocentes, na África ocidental e Austral, não poderem andar, dependem de outros. Além de 5500 crianças morrerem diariamente desnutridos, enfraquecidos pelas enfermidades e doenças. Em relação a esta questão, o que realmente deve pesar, é que estas mortes e acidentes poderiam ter sido, todos evitados.

Independentemente do tempo e lugar, cada pessoa tem a sua história e seja ela qual for, é igualmente digna de respeito e dignidade. Assim, a existência de cada pessoa, que é única e irrepetível, tem os seus trilhos e contrastes pelos quais, cada um vai pelos seus próprios pés. O que podemos fazer para não nos perdermos, nesta caminhada que é a nossa vida? Não nos devemos nunca esquecer do essencial: Deus é o que me cinge de força e aperfeiçoa o meu caminho. (Salmo 18, 32).

É de notar que, o que de facto importa não é tanto para onde nos levam os nossos pés ou para onde cada um aponta a sua direção. É sim, o sentido que damos a essa caminhada. Daí o sentido da frase: Como são belos os pés dos que anunciam boas novas! (Romanos 10, 15).

Assim sendo, será que já nos questionamos sobre a as crenças que nos levam a caminhar em determinado sentido? Serão estas seguras e construtivas ou então, serão algo que me deixará sem sentido num caso de crise ou desolação? Deste modo, saber porquê e, no dizer de Vasco Pinto Magalhães, para quê acreditamos num certo ideal, não só dá sentido à caminhada como também nos consola em momentos de maior desolação, como ainda, confirma a alegria quando nos sentimos alegres, em paz e serenidade. Mas, acima de tudo, e em todas as circunstâncias, dá-nos a segurança e a alegria interior de estarmos a caminhar em direção à luz, sem as sombras da caverna de quais fala Platão, mas sim fora dela e, por isso, conhecendo o que verdadeiramente nos constrói.

Assim, que saibamos indicar aos nossos pés o caminho que devem trilhar para que não sofram as consequências de caminhos ilusórios sem fim à vista ou de caminhos fáceis e curtos e, por isso, não têm a profundidade que eles merecem. Outra verdade, é que não se caminha sozinho por isso, será necessário o repouso e a partilha, como o diz o verdadeiro mestre: Ora, se eu, Senhor e Mestre, vos lavei os pés, vós deveis também lavar os pés uns aos outros. (João 13, 14), seja esse lava-pés uma simples palavra, um escutar um desabafo ou até o levantar de uma pequena ou grande queda. Seja o que for, tudo se constrói, tudo está em constante dinamismo portanto, a caminhada é um “sempre a fazer”, envolve escolhas constantes, as quais podem ter como pano de fundo um ideal que lhes dê sentido. Assim, aproveitando as palavras de António Machado, façamos o caminho:

Caminhante, não há caminho,
Faz-se caminho ao andar.
Ao andar faz-se o caminho,
E ao olhar-se para trás
vê-se a senda que jamais
se há-de voltar a pisar.
Caminhante, não há caminho,
Somente sulcos no mar.

Deolinda Silva e Carlos Rodrigues, in o Pátio dos gentios.