sexta-feira, 11 de maio de 2012

Saboreai e vede como o Senhor é belo!



Reconheço na Criação traços de uma Beleza infinita, como quem diante de um riacho se põe a desenhar a nascente com imagens guardadas na memória. Felizes os que, em pequenos, puderam admirar-se com o milagre de uma nascente. E nos bichos uma inscrição de cuidado, ternura, mimo, maternidade e afecto. Quem tem bichos sabe disso, como eles têm inscrito o mimo e o afecto. Nos seres humanos está tudo isto, e de maneira tão maior… e tanto mais, que não nos chega o mimo, o afecto, a troca de carícia e o prazer partilhado. Tivemos que inventar essa coisa chamada Arte, que é uma expressão da Beleza que nos cria. Às vezes penso que empobrecemos a nossa experiência religiosa quando a reduzimos à dimensão ética da nossa humanidade. Os cristãos, por exemplo, precisam hoje de redescobrir urgentemente a estética da Fé, a expressão da Beleza como linguagem do Divino que nos ama e do Reino que está presente no meio de nós. É bonito saber que nas línguas bíblicas, quer o hebraico quer o grego, é a mesma e única palavra que serve para dizer “bom” e “belo”. E Deus viu que era tudo muito bom, pode igualmente ser traduzido por E Deus viu que era tudo muito belo… Eu sou o Bom Pastor, pode igualmente ser traduzido por Eu sou o Belo Pastor…

É pensando assim que Espero, aGuardo no coração os preseentes que Deus me vai oferecendo através dos meus irmãos. Os pássaros cantam porque sim, porque não podem deixar de o fazer. Mas nós não… nós cantamos porque descobrimos que há coisas que têm que ser ditas assim, com outra voz, com outro rito e outro ritmo, com enCanto. Quando nos deixamos conduzir e seduzir por este chamamento interior ao que é enCantador e Belo, manifestamos uns aos outros que somos, realmente, à imagem e semelhança do Criador de todas as coisas Belas. Manifestamos uns aos outros que o ser humano, quando edifica a comunhão e partilha a Beleza, é uma síntese extraordinária do Universo, é um resumo cósmico que nos abeira do Mistério mais profundo da Vida. Se restaurarmos a sensibilidade do nosso coração perceberemos que os nossos dias estão cheios de momentos e acontecimentos diante dos quais deveríamos dizer solenemente Amen.

Rui Santiago

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