quinta-feira, 2 de maio de 2019

Corações desarmados

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Uma das surpresas que os Evangelhos reservam aos seus leitores está no seguinte paradoxo: são os pecadores aqueles que melhor sabem escutar a mensagem de Jesus; que o procuram com a maior sede de o encontrar; que acreditam no seu poder de curar a vida e de a voltar a erguer, de exorcizar os demónios que nos oprimem, de vir ao encontro da nossa miséria e de reconfigurá-la com o poder da graça, de perdoar os nossos pecados.

São os desqualificados sociais, os mais distantes do templo e da lei, aqueles que mais vezes comem e bebem com Jesus, e que com maior radicalidade aderem à sua propostas, efetuando verdadeiras inversões existenciais.

Os justos daquele tempo, os fariseus e os escribas, olhavam para Jesus com curiosidade, mas sempre com suspeita, sempre com cálculos ambivalentes, medindo sempre aquilo que Jesus fazia com o metro do seu próprio códice normativo, sempre a julgá-lo.

Os pecadores, ao contrário, expunham-se a Jesus de modo desarmado, confiando que nele abrir-se-ia uma brecha através da qual Deus agiria, transformando o impossível da história no possível do Reino.

Por isso, não é o pecado que nos afasta de Deus. Nem é a nossa fragilidade a separar-nos dele. Aquilo que cimenta uma dramática distância é, sobretudo, a autossuficiência. Quando Pedro se chega a Jesus e diz «Senhor, afasta-te de mim, porque sou um pecador», Jesus responde: «Pedro, de agora em diante serás pescador de homens».


D. José Tolentino Mendonça
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Habitar a dor



O místico medieval Ricardo de São Vítor escreveu: «Onde está o amor, aí há um olhar». Não raro, este olhar que o amor nos requer dá-se no contexto de um sofrimento que teríamos absolutamente preferido não viver, mas da qual aprendemos alguma coisa – e alguma coisa de belíssimo – a que, sem ela, não teríamos chegado.

O mundo da dor é vasto e, quando menos o esperamos, encontramo-nos a habitá-lo. Os sentimentos que então irrompem são muitos: recusamo-nos a aceitar, entramos em revolta, em depressão; gostaríamos de fugir para longe; perguntamo-nos “porquê?”, “porquê precisamente a mim?”, “porquê precisamente agora?”; sentimo-nos impreparados para uma travessia muito árdua.

E, pelo menos neste último ponto, temos razão. O nosso tempo fez da doença, da velhice da deficiência um verdadeiro tabu. Vigora uma espécie de interdito em relação à vida vulnerável: cada um tem de viver estas situações em estreita solidão, sem grandes ajudas para aprofundar a sua experiência como um recurso, e não como uma fatalidade. No entanto, a verdade é bem diferente deste desígnio traçado pelo egoísmo ou pelo medo.

Escutava há alguns dias um pai falar do seu filho com síndrome de Down, Dizia, sem esconder a sua comoção: «Este meu filho é um membro importante da nossa família. É o nosso ponto de união. Fez de nós pessoas diferentes, mais humanas e atentas aos outros. Alargou a nossa capacidade de amar».


D. José Tolentino Mendonça
In Avvenire

terça-feira, 30 de abril de 2019

Grávida no coração




- Mãe, gostas de mim?
- Gosto de ti até ao céu, meu filho.
- Mãe, se eu tivesse estado na tua barriga, gostavas mais de mim?
- Não, meu filho, porque haveria de gostar? Tu estiveste dentro de mim, no meu pensamento e no meu coração. O meu desejo de te ter, de te pegar, de ver o teu rosto era tão grande como uma barriga de grávida.
- Mãe, então tu dizes que gostas tanto de mim, que sou teu filho adoptivo, como do meu irmão, que é teu filho biológico!
- Claro que sim. Quando estava à espera do teu irmão sentia-me muito feliz, porque ía ter um filho, não porque a minha barriga estava a crescer. Há muitas maneiras de ter filhos: na barriga, no coração…
- Mãe, grávida no coração? O coração não tem filhos!
- Tem filhos, sim, e foi lá que tu nasceste, é lá que estás a crescer, e onde vais ficar. Para qualquer lado aonde vá, levo-te sempre no meu coração.
- Ah! Então é mais importante ter o amor de uma mãe do que nascer da sua barriga!
- Claro, meu filho. Mãe é aquela que chora quando estás doente, que te pega ao colo mesmo quando lhe doem as costas e que te dá o beijo de boa noite…
- O pai não engravida, no entanto ama os filhos desde o primeiro momento e para sempre.
- Pai, eu não sou parecido contigo!
- És parecido comigo, sim! Tens o meu nome e és um bocadinho daquilo que eu sou, daquilo que eu gosto, daquilo em que acredito e que respeito. Até falas como eu!
- Pai, e os genes?
- Se um dia quiseres ser músico, atleta ou escultor, cantaremos juntos, faremos corridas na praia com os teus irmãos e até encheremos a casa com barro. Tu não precisas saber quais os teus genes. Precisamos é de estar juntos para os descobrir…
- Mãe, e a minha história?
- A tua história és tu quem vais fazer. A tua história somos nós, tu, eu, o teu pai, os teus irmãos, avós, primos, tios, todos os que estão aqui ao teu lado, orgulhosos, a ver-te crescer lindo e feliz.
- Mãe, porque me adoptaste?
- Porque queria ser mãe.
- Então és tu a minha verdadeira mãe!

  

domingo, 28 de abril de 2019

Tu já me procuravas a mim



Na calmia do silêncio Te dás a conhecer 
Eu anseio por Te encontrar 
Só Tu conheces todo o meu ser 
Pois sou Tua obra que na mão quiseste gravar 
 
Nem sempre sei se a minha súplica ouves 
Talvez sejam só pretensões 
Liberta-me de todos os entraves 
Para que se encontrem os nossos corações 
 
Reconheci-Te
Na música, na contemplação
No trabalho, no irmão
E assim entendi
Que Tu já me procuravas a mim
 
O encontro feliz com Cristo
Que me coloca na Verdade
Faz-me perceber que eu existo
Para chegar à santidade
 
Este encontro é mais fecundo
Quando partilhado com o irmão
Com quem eu transformo o mundo
Somos Igreja que sai em missão
 
Abençoados com distintos dons e graças 
Formamos a unidade 
Nossas mãos que só Tu entrelaças 
Somos Povo santo, espelho da Trindade. 
 
Impossível seria não lembrarmos de Ti 
Presença ao nosso redor 
Anunciamos que viestes aqui 
Abrir o caminho para o teu Reino de amor
 
Reconheci-te
No domingo, na liturgia
No frenesim, no dia-a-dia
E assim entendi
Que Tu já me procuravas a mim

quinta-feira, 25 de abril de 2019

Olhar de vergonha, de arrependimento e de esperança

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Senhor Jesus, dirigimos o nosso olhar para ti, cheio de vergonha, de arrependimento e de esperança.

Diante do teu amor supremo, que a vergonha nos invada por te ter deixado sozinho a sofrer pelos nossos pecados:

  • a vergonha por ter escapado diante da provação, não obstante te tenhamos dito milhares de vezes: “Ainda que todos te deixem, eu nunca te deixarei”;
  • a vergonha por ter escolhido Barrabás e não a Ti, o poder e não a Ti, a aparência e não a Ti, o deus dinheiro e não a Ti, a mundanidade e não a eternidade;
  • a vergonha por te ter tentado com a boca e com o coração, todas as vezes que nos encontrámos perante uma provação, dizendo-te: “Se Tu és o Messias, salva-te a ti mesmo e nós acreditaremos!”;
  • a vergonha porque tantas pessoas, e até alguns dos teus ministros, se deixaram enganar pela ambição e pela vanglória, perdendo a sua dignidade e o seu primeiro amor;
  • a vergonha porque as nossas gerações estão a deixar aos jovens um mundo dilacerado pelas divisões e pelas guerras; um mundo devorado pelo egoísmo, onde os jovens, os pequeninos, os doentes e os idosos são marginalizados;
  • a vergonha por ter perdido a vergonha;

Senhor Jesus, concede-nos sempre a graça da santa vergonha!

O nosso olhar está repleto também de um arrependimento que, face ao teu silêncio eloquente, suplica a tua misericórdia:

  • o arrependimento que germina da certeza de que somente Tu podes salvar-nos do mal, só Tu podes curar-nos da nossa lepra de ódio, de egoísmo, de soberba, de avidez, de vingança, de cobiça, de idolatria, somente Tu podes voltar a abraçar-nos, restituindo-nos a dignidade filial e alegrar-te pelo nosso regresso a casa, à vida;
  • o arrependimento que brota do sentir a nossa pequenez, o nosso nada, a nossa vaidade, e que se deixa acariciar pelo teu convite suave e poderoso à conversão;
  • o arrependimento de David que, do abismo da sua miséria, reencontra em ti a sua única força;
  • o arrependimento que nasce da nossa vergonha, que brota da certeza de que o nosso coração estará sempre inquieto, enquanto não te encontrar, e em ti, a sua única fonte de plenitude e de tranquilidade;
  • o arrependimento de Pedro que, encontrando o teu olhar, chorou amargamente por te ter negado diante dos homens.
Senhor Jesus, concede-nos sempre a graça do santo arrependimento!

Perante a tua suprema majestade acende, nas trevas do nosso desespero, a centelha da esperança, porque sabemos que a tua única medida de nos amares é a de nos amares sem medida;

  • a esperança porque a tua mensagem continua a inspirar, ainda hoje, muitas pessoas e povos, pois só o bem pode derrotar o mal e a ruindade, só o perdão pode abater o rancor e a vingança, somente o abraço fraternal pode dispersar a hostilidade e o medo do outro;
  • a esperança porque o teu sacrifício continua, ainda hoje, a emanar o perfume do amor divino que acaricia os corações de tantos jovens que continuam a consagrar-te as suas vidas, tornando-se exemplos vivos de caridade e de gratuidade neste nosso mundo devorado pela lógica do lucro e do ganho fácil;
  • a esperança porque muitos missionários e missionárias continuam, ainda hoje, a desafiar a consciência adormecida da humanidade, arriscando a vida para te servir nos pobres, nos descartados, nos imigrantes, nos invisíveis, nos explorados, nos famintos e nos encarcerados;
  • a esperança porque a tua Igreja, santa e feita de pecadores, continua, ainda hoje, não obstante todas as tentativas de a desacreditar, a ser uma luz que ilumina, encoraja, eleva e testemunha o teu amor ilimitado pela humanidade, um modelo de altruísmo, uma arca de salvação e uma fonte de certeza e de verdade;
  • a esperança porque da tua cruz, fruto da avidez e da cobardia de muitos doutores da Lei e hipócritas, surgiu a Ressurreição, transformando as trevas do sepulcro no fulgor da alvorada do Domingo sem ocaso, ensinando-nos que o teu amor é a nossa esperança.

Senhor Jesus, concede-nos sempre a graça da santa esperança!

Ajuda-nos, Filho do homem, a despojar-nos da arrogância do ladrão posto à tua esquerda e dos míopes e dos corruptos, que viram em ti uma oportunidade a explorar, um condenado a criticar, um derrotado a escarnecer, outra ocasião para descarregar sobre os outros, e até sobre Deus, as próprias culpas.

Ao contrário, pedimos-te, Filho de Deus, que nos identifiquemos com o bom ladrão, que te fitou com olhos cheios de vergonha, de arrependimento e de esperança; que, com o olhar da fé, viu na tua aparente derrota, a vitória divina e, assim, ajoelhou-se diante da tua misericórdia e, com honestidade, roubou o paraíso! Amen!

Papa Francisco