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segunda-feira, 13 de abril de 2015

S. Teresa de Ávila, amizade e oração

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S. Teresa de Jesus – fundadora dos Padres e Madres Carmelitas, a mística doutora da Igreja – é pouco conhecida em Portugal: bem conhecida e venerada é a sua filha espiritual, a carmelita de Lisieux, Teresa do Menino Jesus, igualmente doutora da Igreja. A Madre fundadora é familiar aos que vivem uma vida espiritual séria: é para eles fonte inspiradora fundamental. Nasceu em Ávila no dia 28 de março de 1515. Portanto, está a cumprir o quingentésimo aniversário, pois continua viva na memória dos que se acolhem ao seu magistério do espírito e de humanidade.

Humana para com os humanos, o relacionamento com Jesus era também muito humano. Dava grande relevo à Humanidade de Jesus, que, para ela, era a sua história evangélica, paixão, ações e palavras, historicamente realizado no corpo. Valorizava assim a essência do cristianismo, que é o mistério da Incarnação de Deus no ser humano. O colóquio amigo com Jesus era o traço relevante da sua oração.

Uma forma de lhe darmos os parabéns neste seu dia de anos é reparar na sua proposta de oração. Para ela, era comunicação amiga com Deus. Assim a define no Livro da Vida 8,5: «Não é outra coisa a oração mental senão relacionar-se em amizade, estando muitas vezes e a sós com quem sabemos que nos ama». Compreender a oração como amizade facilita o seu exercício, especialmente aos jovens, aos que vão descobrindo a força humana que a oração dá.

Uma nota essencial da amizade é a de não ser interesseira, valor de câmbio, relação económica de «dou para que dês». A relação amigável só pode existir na desproporção, porque estimo o amigo mais do que o meu eu. A amizade é a forma que o amor adota nas relações humanas: é amor correspondido.

Ora, a oração de S. Teresa enquanto amizade é comunicação gratuita, excluindo a lógica do «custo-benefício». Tem a marca da amizade e da graça. De facto, «para aproveitar muito neste caminho [da oração]…, não se trata de pensar muito, mas de amar muito» (4M 1,7). «Confio na misericórdia de Deus que não fica sem recompensa quem O tomou por amigo» (Livro da Vida 8,5). «Sua Majestade nunca se cansa de dar…» (Caminho de Perfeição 32,12).

Porque a amizade requer frequência, a oração que o é de veras frequenta a Pessoa amada. A frequência alimenta a oração e dá-lhe verdade. Como a amizade, não se coaduna com a pouca comunicação. E como a amizade, tende a tornar iguais os amigos, mantendo a identidade de cada um: «Oh, Senhor meu, que bom amigo sois!» (Livro da Vida 8,6).

A oração de Teresa de Jesus não brotou do laboratório da intelectual mas do oratório da crente que buscava e invocava Deus. Como a amizade, põe o amor a circular, numa forte corrente afetiva, que contagia a vida. Como a amizade é um estilo de vida, também a oração de Teresa o é. Não é um exercício ocasional, como não se é amigo de vez em quando. É vida e não só um certo tempo ao lado da vida. É no afazer e no acontecer de cada dia que se tece a história de amizade com Deus. A oração é vida diante de Deus.

Teresa transpunha para a oração o relacionamento afável que tinha com as pessoas. Com a arte de facilmente fazer amigos, considera a oração uma amizade superior, que sobrepuja as outras amizades e lhes dá o melhor sentido. A oração é amiga de fazer amigos. Na oração «quem fala é o amor» (Livro da Vida 34,8).

Assim orando, Teresa estava em sintonia com a oração bíblica. Ao descrever a comunicação de Moisés com Deus, o livro dos Números (33,7-11) diz que «o Senhor falava com Moisés cara a cara, como fala uma pessoa com um amigo».

Para a fé bíblica, falar a Deus em diálogo amigo tem a ver com o ser de Deus e com a sua imagem. Mas também tem a ver com a essência do ser humano e com as suas relações fundadoras. Sendo experiência do divino, a oração também é experiência do mais fundo do humano, que ultrapassa o que dele dizem as ciências. Como o orante bíblico, Teresa, ao rezar, embarcava num itinerário progressivo de melhor aceitação e consciência de si própria e de conveniente autoestima (no livro Moradas). Via-se como um ser para o divino, um ser habitado por uma Presença amiga, um ser que só se realiza na relação com Deus. Entendia-se, não como um ser fechado nos limites do humano, mas como aberta à transcendência. A linguagem da oração, realizando uma ligação com Deus, desvelava a verdade da pessoa a si própria; por ela – diz Teresa – «sabemos quem somos» (1M 1,2). Rezar a Deus é uma forma de ser humano, de se experimentar profundamente, de se perceber genuinamente e de se exprimir superiormente.

Será por isso que Teresa de Jesus era tão humana, a ponto de as pessoas que falavam com ela se sentirem tão confortáveis e confortadas?

Armindo dos Santos Vaz 

terça-feira, 7 de abril de 2015

Chama-te pelo teu nome



 «Se foste tu que o tiraste»: como se Maria já lhe tivesse dito porque chorava! Fala «dele», sem pronunciar o seu nome. Tal é o fulgor do amor: quando estamos repletos de amor, acreditamos que os outros sentem o mesmo que nós. […]. Maria é incapaz de imaginar que alguém possa ignorar a razão da sua imensa tristeza.

Jesus diz-lhe: «Maria!» Pouco antes, chamara-a pelo nome comum a todas do seu sexo: «Mulher», sem ainda Se dar a conhecer. Agora, chama-a pelo seu nome próprio, como se lhe dissesse sem rodeios : «Reconhece Aquele que te reconhece.» Também Deus disse a Moisés: «Conheço-te pelo teu nome (Ex 33,12). «Homem» é o nome comum a todos; mas «Moisés» é o seu nome próprio e Deus diz que o conhece pelo seu nome e parece declarar: «Não te conheço como conjunto dos homens, conheço-te pessoalmente.»

Assim, chamada pelo próprio nome, Maria reconhece o seu criador e no mesmo instante responde-lhe: «Rabbouni», que quer dizer Mestre. Ela procurava-O fora de si, mas Ele pediu-lhe que O procurasse dentro de si. […] «Maria Madalena foi e anunciou aos discípulos: “Vi o Senhor!” E contou o que Ele lhe tinha dito.» Neste momento, o pecado dos homens abandona o coração de onde procedia. Porque se foi uma mulher que, no paraíso, tentou um homem com o fruto da morte, é uma mulher que, no sepulcro, anuncia a vida aos homens e lhes leva as palavras daquele que traz a vida.

São Gregório Magno (c. 540-604), papa, doutor da Igreja
Homília 25 sobre o Evangelho; PL 76, 1188-1196