sábado, 28 de novembro de 2020

# Recomeça



Prepara-te para tudo o que precisas de saber sobre o verbo recomeçar. Todas as etapas. Todos os riscos. Todas as pessoas a manter e a afastar. Todos os medos, todos os ses, todos os mas. Todas as estratégias. Todas as causas. Tudo o que move e tudo o que demove. Precisas de estar preparado. Precisas de querer arriscar. Mesmo que tenhas medo. Remove essas camadas do medo. Devagar. Não te compares com o tempo dos outros. É a tua vida, não é a dos outros. Para o tempo que precisares. Respira fundo. Começa de novo. Dá passos pequeninos. E se caíres? Qual é o problema? É sinal que deste um salto! Que tentaste! Não tenhas vergonha. Não te agarres ao que não te leva para a frente. Levanta-te. Precisas de ajuda? Pede. Fraqueza é não pedir ajuda. Erraste? Corrige. Vais sempre a tempo. Não desistas do que queres, aconteça o que acontecer. Assume este compromisso. Faz o que for preciso fazer. Vai onde for preciso ir. Constrói o que for preciso construir. Faz bonito. Mesmo que mais ninguém repare. Faz por ti. Tu és a tua prioridade. Hoje e sempre. Pela primeira vez na tua vida põe-te em primeiro lugar. E repete comigo: na vida, vou perder muito mais por ter medo do que por tentar.

sexta-feira, 27 de novembro de 2020

Nascemos, nascemos, nascemos


Enganam-se os que pensam que só nascemos uma vez. Para quem quiser ver a vida está cheia de nascimentos. 

Nascemos muitas vezes ao longo da infância quando os olhos se abrem em espanto e alegria. 

Nascemos nas viagens sem mapa que a juventude arrisca. 

Nascemos na sementeira da vida adulta, entre invernos e primaveras maturando a misteriosa transformação que coloca na haste a flor e dentro da flor o perfume do fruto. 

Nascemos muitas vezes naquela idade onde os trabalhos não cessam, mas reconciliam-se com laços interiores e caminhos adiados.

Enganam-se os que pensam que só nascemos uma vez. 

Nascemos quando nos descobrimos amados e capazes de amar. 

Nascemos no entusiasmo do riso e na noite de algumas lágrimas. 

Nascemos na prece e no dom. 

Nascemos no perdão e no confronto. 

Nascemos em silêncio ou iluminados por uma palavra. 

Nascemos na tarefa e na partilha. 

Nascemos nos gestos ou para lá dos gestos. 

Nascemos dentro de nós e no coração de Deus.

O que Jesus nos diz é: "Também tu podes nascer", pois nós nascemos, nascemos, nascemos.


Card. Jose Tolentino Mendonça


quinta-feira, 19 de novembro de 2020

Cruz do Perdão



Numa igreja dentro do Mosteiro de Santa Ana e San José, em Córdoba, (Espanha), há uma cruz antiga. É a imagem da Cruz do Perdão que mostra Jesus crucificado com seu braço direito descravado da Cruz e para baixo.

Conta-se que um dia um pecador foi confessar com o padre sob esta cruz. Como de costume, quando um pecador era culpado de um crime grave, esse padre agia muito estritamente.

Não muito tempo depois, essa pessoa voltou a cair e depois de confessar seus pecados, o padre ameaçou: ' ' Esta é a última vez que o perdoei ".

Passaram muitos meses e aquele pecador foi ajoelhar-se aos pés do padre sob a cruz e pediu perdão de novo. Mas nessa ocasião, o padre foi claro e disse: "Não brinque com Deus, por favor. Não posso permitir que você continue pecando".

Mas estranhamente, quando o padre rejeitou o pecador, de repente foi ouvido um barulho da cruz. A mão direita de Jesus descravou-se e movido pelo arrependimento daquele homem, ouviram-se as seguintes palavras: "Fui eu quem derramou o sangue sobre esta pessoa, não tu".

Desde então, a mão direita de Jesus permanece nessa posição, pois sem parar convida o homem a pedir e receber perdão.

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Não julgueis


Os homens estão sempre dispostos a vasculhar e a averiguar sobre as vidas alheias, mas têm preguiça em conhecer-se a si mesmos e a corrigir a sua própria vida.

(Santo Agostinho de Hipona)


Não julgueis, para não serdes julgados; pois, conforme o juízo com que julgardes, assim sereis julgados; e, com a medida com que medirdes, assim sereis medidos. Porque reparas no argueiro que está na vista do teu irmão, e não vês a trave que está na tua vista? Como ousas dizer ao teu irmão: 'Deixa-me tirar o argueiro da tua vista', tendo tu uma trave na tua? Hipócrita, tira primeiro a trave da tua vista e, então, verás melhor para tirar o argueiro da vista do teu irmão.»

(Mt 7, 1-5)

terça-feira, 17 de novembro de 2020

Recomeçar


Dá-nos, Senhor, depois de todos os nossos cansaços, um verdadeiro tempo de paz. Dá-nos, depois de tantas palavras, o dom do silêncio que purifica e recria. Dá-nos, depois de tantos caminhos apressadamente eliminados pela cortina de nevoeiro da distração, a possibilidade de contemplar com disponibilidade e plenitude cada porção de realidade, inclusive as realidades que nos custam. Dá-nos a alegria, depois das insatisfações que nos travam, como uma barca que se recorta na água. Dá-nos, Senhor, a possibilidade de viver sem presa, extasiados pela surpresa que os dias trazem consigo pela mão. Dá-nos a capacidade de viver de olhos abertos, de viver intensamente. Dá-nos a humilde simplicidade dos artesãos que, preferindo a sabedoria da experiência ao aparato das teorias, reconhecem que estão sempre a recomeçar.

Permite-nos escutar a lição do cântaro na roda do oleiro; do cepo aplanado pelas mãos do carpinteiro; da massa que o padeiro pacientemente transforma em pão.

Dá-nos de novo, Senhor, a graça do canto, do assobio que imita a aérea felicidade dos pássaros, das imagens reencontradas, do riso partilhado. Dá-nos a força de impedir que as duras necessidades do viver esmaguem o desejo dentro de nós e que se dissipe a transparência dos nossos sonhos.

Faz de nós peregrinos, que no visível vislumbram a discreta insinuação do invisível.

Card. José Tolentino Mendonça

In Avvenire

segunda-feira, 16 de novembro de 2020

Oração ao colocar a máscara (de proteção)


Oração ao colocar a máscara (de proteção)

Deus Criador, enquanto me preparo para sair de casa, ajuda-me a ver a natureza sacramental do uso deste pano. Que seja uma forma tangível e visível de viver o amor ao próximo, tal como eu me amo a mim próprio.

Cristo Jesus, já que os meus lábios estarão tapados, revela o meu coração, para que as pessoas possam ver o meu sorriso nas rugas à volta dos meus olhos. Como a minha voz poderá ser abafada, ajuda-me a falar claramente, não apenas com as minhas palavras, mas com as minhas ações.

Espírito Santo, enquanto o elástico toca os meus ouvidos, lembra-me de ouvir atentamente e carinhosamente todos aqueles que encontro. Que este simples pedaço de pano seja escudo e estandarte, e que cada expiração que sustenha esteja repleta do vosso amor.

Em Teu nome e nesse amor, tudo isto te peço. Amen.

Rev. Richard Bott, Moderador
Igreja Presbiteriana do Canadá

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

One Day - Koolulam Porject

 



Do brilhante "Projeto Koolulam"

Aqui em Israel há mais de 3.000 pessoas de várias religiões, muçulmanas, cristãs, judias e mais de muitos países, todos com a mesma mensagem Paz e tolerância! 'One Day' Chega de guerra! Dê uma olhada!

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

Como a galinha recolhe os pintainhos

 


Lucas 13, 31-35

Naquele dia, aproximaram-se alguns fariseus, que disseram a Jesus: «Vai-te daqui, porque Herodes quer matar-te». Jesus respondeu-lhes: «Ide dizer a essa raposa: Eu expulso demónios e realizo curas hoje e amanhã; ao terceiro dia chego ao meu fim. Mas hoje, amanhã e depois de amanhã, devo seguir o meu caminho, porque não é possível que um profeta morra fora de Jerusalém. Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas aqueles que te são enviados, quantas vezes Eu quis reunir os teus filhos, como a galinha recolhe os pintainhos debaixo das suas asas! Mas vós não quisestes. Pois bem. A vossa casa vai ficar abandonada. E Eu vos digo: Não voltareis a ver-Me, até chegar o dia em que direis: ‘Bendito o que vem em nome do Senhor!’»



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sábado, 31 de outubro de 2020

Bendita seja a brisa nova de cada dia




Bendita seja a brisa nova de cada dia

Bendito seja o germinar oculto e exaltante do Espírito, graças ao qual em cada estação nos faz renascer.

Bendito seja o respiro novo que cada dia, de maneira misteriosa, insuflas em nós, recordando-nos que a nossa criação não está terminada.

Bendito seja este espaço em que pacientemente nos plasmas, respeitando a nossa liberdade e os nossos tempos.

Bendita seja a tua fidelidade à nossa história e à maneira simples em que exortas o nosso coração a não se abandonar às inúteis visões da incerteza, do pessimismo e do cansaço.

Bendito seja o teu Reino que fazes já vir até nós nesta margem provisória, e que nos estimula a compreender a tua vontade.

Bendita seja a tua Palavra que encoraja e inspira perenemente os nossos novos inícios, porque desta maneira nos voltas a colocar a caminho para aquela festa, unânime e fraterna, que o quotidiano é chamado a preparar.

Bendito seja o Deus do nosso ontem, de quem entrevemos a passagem em tantos sinais do tempo presente, umbral daquela revelação maior em que será tudo em todos.


Card. José Tolentino Mendonça, in Avvenire

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

O corpo da abelha não foi feito para voar


Na NASA, eles têm um poster pendurado com abelhas onde se lê o seguinte:

"Aerodinamicamente o corpo de uma abelha não é feito para voar; o bom é que a abelha não sabe".

A lei da física diz que uma abelha não pode voar, o princípio aerodinâmico diz que a amplitude de suas asas é muito pequena para conservar seu enorme corpo em voo, mas uma abelha não sabe, ela não conhece nada sobre física nem a sua lógica e voa de qualquer maneira.

Isso é o que todos nós podemos fazer, voar e prevalecer em cada instante diante de qualquer dificuldade e diante de qualquer circunstância apesar do que disserem.

Sejamos abelhas, não importa o tamanho das nossas asas, erguemos voo e desfrutaremos do pólen da vida.

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

Escuta e prontidão



Há um refrão que Jesus repete muitas vezes, no final de uma parábola ou de um ensinamento, de tal maneira que se tornou uma expressão típica do seu falar: «Quem tem ouvidos para ouvir, oiça».

Teremos nós ouvidos para ouvir? Podemos dizer que sabemos escutar verdadeiramente? E realmente escutar Jesus? Grande desafio interior, o de nos pormos à escuta. Comporta uma autêntica conversão, uma espécie de renascimento da nossa alma.

O sentido da escuta tem a ver com a prontidão. Estar pronto para. Uma boa imagem da escuta espiritual é a dos atletas no início de uma corrida, recolhidos na expetativa do sinal de partida.

Quem escuta cria dentro de si uma vigilância, uma atenção que lhe permite agir com diligência e fidelidade em cada circunstância, sem exceções. A qualidade da escuta interior determina a qualidade da resposta.

Mesmo sem nos darmos conta, a cada momento estamos a responder, dizendo sim ou refutando, abrimos o nosso coração a Jesus ou barramos-lhe a porta. Olha que Eu estou à porta e bato: se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, Eu entrarei na sua casa e cearei com ele, e ele comigo» (Apocalipse 3,20).

Card. José Tolentino Mendonça, in Avvenire

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

Mesmo quando me esqueço



Às vezes, Senhor, é do profundo do meu esquecer que te grito. Sei que sou eu a distanciar-me, mesmo sem dar-me verdadeiramente conta; sou eu a deixar transcorrer as horas sem reconhecer a tua passagem; a deixar-me isolar, quase como uma ilha; a opor resistência à compreensão de até que ponto o tempo pode ser templo, uma tua morada.

Por isso, Senhor, mais que as palavras, mais que a minha presença provisória e frágil, mais que todas as minhas irrelevâncias, entrego-te hoje a oração do meu esquecer: este rolo de tecido longo e branco que eu, solitário, desenrolo diante de ti, este meu andar por diante às cegas no mundo, como se não te visse, estes meus ouvidos que se tornaram surdos à tua Palavra, este meu vazio preenchido apressadamente por tantos afazeres, estes meus progressos e involuções sem uma razão, estes meus confusos passos de criança que Tu, extremoso, apoias, porque sabes melhor que eu que, mesmo quando me disperso, quando por erro me ponho a correr para não sei onde, em não sei que fuga, mesmo quando eu me esqueço, estou a caminhar para ti.

Card. José Tolentino Mendonça, in Avvenire

sábado, 24 de outubro de 2020

Pequena carta ao Papa Francisco



Pequena carta ao Papa Francisco

Obrigada por não se fechar numa redoma antiquada e por se envolver de forma ativa nos problemas do nosso tempo.

Obrigada pela sua coragem constante.

Obrigada por lembrar ao mundo qual é a verdadeira essência de um espírito cristão.

Obrigada por honrar o nome de São Francisco de Assis, fugindo do espírito elitista e pouco fraterno que muitas vezes povoa a Igreja Católica.

Obrigada por falar abertamente sobre injustiças nas suas mais diversas formas e por se posicionar de forma tão clara em um mundo que precisa desesperadamente de bons líderes.

Obrigada por pontuar claramente o protagonismo da desigualdade num mundo que insiste em falar em meritocracia.

Obrigada por viabilizar que pessoas não católicas se sintam abraçadas pelo seu discurso, que é sempre de aproximação e nunca de afastamento.

Obrigada por dizer de forma tão clara que amor é amor, afirmando que os homossexuais “são filhos de Deus e têm direito a uma família”.

Obrigada por reconhecer nos rostos dos milhões de refugiados a imagem de Jesus Cristo, afirmando que eles são “forçados, como Jesus Cristo, a fugir”.

Obrigada por se posicionar de forma firme nas questões ambientais, em especial no que diz respeito às gigantescas ameaças à floresta amazónica.

Obrigada por afirmar de forma categórica na sua encíclica Fratelli Tutti, que os direitos humanos ainda não são suficientemente universais.

Obrigada por dizer de forma tão clara que “a organização das sociedades em todo o mundo ainda está longe de refletir com clareza que as mulheres têm exatamente a mesma dignidade e idênticos direitos que os homens”.

Obrigada por dizer que, quase sempre, as pessoas que se envolvem com grupos marginais o fazem em virtude de um total abandono estatal.

Obrigada por não se fechar numa redoma antiquada e por se envolver de forma ativa nos problemas do nosso tempo. Por falar sobre desinformação e sobre os discursos de ódio que povoam a internet.

Obrigada por manter seu olhar atento às violentas ameaças à democracia espalhadas pelo mundo.

Obrigada pela sua preocupação constante com a situação na América Latina, honrando suas raízes em vez de adotar uma postura eurocêntrica.

Obrigada por ser um incómodo tão genuíno para a maioria dos católicos conservadores, que utilizam a religião como forma de exclusão e de manutenção de privilégios, passando tão longe dos ideais pregados por Jesus Cristo.

Obrigada por existir, obrigada por resistir.

https://observador.pt/opiniao/obrigada-pela-coragem-papa-francisco/

terça-feira, 20 de outubro de 2020

A grande dança










Ensina-nos, Senhor, a visão completa da vida.

Que não cessemos de saudar a cada dia o seu milagre assombroso e de o receber com coração humilde e consciente.

Que não cessemos de permanecer fascinados pela prodigiosa rede de amor que sustém o mundo: quanta prontidão, quanta resiliência, quanto dom, quanta esperança se ocultam invencíveis em gestos que se diriam frágeis, ou em contributos que apressadamente julgámos insuficientes.

Faz com que não nos tornemos profissionais da lamentação e do desânimo, mas testemunhas apaixonadas e poetas do real, que a cada instante se faz mais puro.

Que o isolamento do corpo nunca signifique isolamento da alma, mas o contrário: que se agigante, a alma, revelando a sua condição de transparência e de bondade, porque é por isso que Tu nos criaste.

Que não choremos apenas os abraços não dados, mas saibamos agradecer por todos aqueles que trocámos, cujo sentido e promessa esquecemos na distração dos dias.

Que não permaneçamos apenas a ruminar nos nossos passeios no bosque sempre adiados, ignorando que os bosques são encantadores mesmo quando ninguém os vê.

Por isso, pedimos-te que a nossa vida se assemelhe à sala de ensaios de uma companhia onde pacientemente se preparam os passos para o início da grande dança.


Card. José Tolentino Mendonça, in Avvenire

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Nada te perturbe, nada te espante










Nada te perturbe, nada te espante,

Tudo passa, Deus não muda,

A paciência tudo alcança;

Quem a Deus tem, nada lhe falta:

Só Deus basta.


Eleva o pensamento, ao céu sobe,

Por nada te angusties, nada te perturbe.

A Jesus Cristo segue, com grande entrega,

E, venha o que vier, nada te espante.

Vês a glória do mundo? É glória vã;

Nada tem de estável, tudo passa.


Deseje às coisas celestes, que sempre duram;

Fiel e rico em promessas, Deus não muda.

Ama-o como merece, bondade Imensa;

Quem a Deus tem, mesmo que passe por momentos difíceis;

Sendo Deus o seu tesouro, nada lhe falta.

SÓ DEUS BASTA!


Santa Teresa de Ávila 

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

Breve introdução à arte do abraço











Diz-se que o nosso corpo tem a forma de um abraço. Talvez por isso a tarefa de abraçar seja tão simples, mesmo quando temos de percorrer um longo caminho. O abraço tem uma incrível força expressiva. Comunica a disponibilidade de entrar em relação com os outros, superando o dualismo, fazendo cair armaduras e motivos, cedendo, nem que seja por instantes, na defesa do espaço individual. Há uma tipologia vastíssima de abraços, e cada uma delas ensina alguma coisa sobre aquilo que um abraço pode ser: acolhimento e despedida, congratulação e luto, reconciliação e embalo, afeto ou paixão. Os abraços são a arquitetura íntima da vida, o seu desenho invisível, mas absolutamente presente; são plenitude consentida ao desejo e memória que revitaliza. Todos nos reconhecemos aí: em abraços quotidianos e extraordinários, abraços dramáticos ou transparentes, abraços alagados de lágrimas ou em puro júbilo, abraços de próximos ou de distantes, abraços fraternos ou enamorados, abraços repetidos ou, porventura, naquele único e idealizado abraço que nunca chegou a acontecer mas a que voltamos interiormente vezes sem conta.

No princípio era o abraço, se pensarmos no colo que nos nutriu na primeira infância. Essa foi, para a maioria de nós, a primeira e reconfortante forma de comunicação. Mas a necessidade de um abraço acompanha a nossa existência até ao fim. O abraço é uma longa conversa que acontece sem palavras. Tudo o que tem de ser dito soletra-se no silêncio, e ocorre isto que é tão precioso e afinal tão raro: sem defesas, um coração coloca-se à escuta de outro coração.

José Tolentino Mendonça

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Trazemos até ti, Maria!


Trazemos hoje até ti, Maria, as coisas simples que são no fundo as mais importantes: os laços de amor que nos unem e nos alargam como se a vida fosse uma roda que se torna sempre maior; a beleza do dom que cada um traz consigo e, aos poucos, se revela; o entusiasmo e a entrega; a capacidade que descobrimos em nós de multiplicar a alegria; a esperança que nos recorda que há sempre caminho; a graça que representa cada recomeço; a gratidão pelo presente que Deus nos dá.

Trazemos até ti, Maria, as nossas vidas e queremos aprender contigo a agradecer tudo: a agradecer os dias límpidos e os dias foscos; a agradecer o sol e a chuva; a planície e a serra; a mansidão da brisa e o ímpeto do vento. A agradecer a força e a fragilidade; aquilo que finalizámos e o que percebemos inacabado, pois cada coisa a seu modo nos ensina a maravilhosa dança de Deus.

Que a tua vida, Maria, seja para nós inspiração: que a tua fé nos reforce na ousadia de acreditar; que o teu exemplo nos ofereça o mapa da viagem; que o teu sorriso ensine ao nosso coração a mansidão e a doçura. E que o teu olhar torne o nosso olhar sempre mais confiante e sonhador.

Card. José Tolentino Mendonça

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

Se Vós fôsseis Agostinho e eu fosse Deus...

Santo Agostinho - Pensador

Estava um dia Santo Agostinho diante de Deus a desabafar o coração:

- Meu Jesus, amo-Vos, amo-Vos com todas as minhas forças, e porque Vos amo, arrependo-me de Vos ter ofendido tantas vezes na minha vida passada.

E ouviu uma voz divina, que dizia:

- Agostinho, quanto Me amas?

- Senhor, se todo o sangue das minhas veias fosse azeite, eu quereria que esse azeite das minhas veias se consumisse por Vosso amor, como se consome o azeite desta lâmpada, que arde diante do Vosso tabernáculo.

- Agostinho, nada mais? – repetiu a voz.

- Senhor, amo-Vos tanto, tanto, que se os meus ossos fossem velas, queria que se derretessem de amor, como se derretem estas velas que alumiam o Vosso altar.

-Agostinho, nada mais?

- Senhor, amo-Vos tanto, tanto, que se tivesse tantos corações como há de estrelas no céu, e gotas de água no oceano, e areias na praia, e átomos no espaço, com esses corações eu Vos quisera amar.

- Agostinho, nada mais?

Então, com lágrimas, encontrou a resposta digna da sua inteligência extraordinária e da sua santidade: 

- Senhor, como quereis que eu Vos ame mais, se o coração humano já não pode amar mais? Mas, Senhor, eu amo-Vos tanto, tanto, que, se Vós fôsseis Agostinho e eu fosse Deus, eu deixaria de ser Deus para que Vós o fôsseis, e contentar-me-ia com ser o pobre Agostinho!

- Agostinho, isso é o amor – foi a resposta divina.

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Na glória de Deus vejo tudo claro e fácil

 

«Deus sabe como estou disposto a servir a Sua Igreja
e que em assuntos da Sua glória vejo tudo claro e fácil.»

Beato Francisco Palau | 1811 – 1872
Carta 56. A Joana Gracias. 28 outubro de 1860

Jesus,
não é verdade que em assuntos de entrega ao outro,
de entrega à Paróquia, de fazer o bem aos outros…
encontro dentro de mim mais facilmente dificuldades
do que confiança para arriscar e ir em frente?
Sim, muitas vezes vejo tudo muito difícil.
E, diante de Ti, olhos nos Teus olhos, eu compreendo porquê.
Porque confio mais em mim e nas minhas forças do que em Ti.
Os santos vêm tudo “claro e fácil”
e eu tantas vezes vejo tudo escuro e difícil…
Quão pobre é a minha fé e confiança!…
Aqueles que tudo arriscam por Ti, com alegria,
embora sentindo a dificuldade e o cansaço,
correm pelos caminhos da Tua vontade.
Concede-me, Jesus, a determinação e a alegria para viver ao Teu serviço.

Maria, minha Mãe, Senhora do Sim e da Alegria, fica comigo.
Assim seja.


domingo, 26 de julho de 2020

Dia dos Avós

Sabe como surgiu o Dia dos Avós? - BOM DIA

MENSAGEM DA COMISSÃO EPISCOPAL DO LAICADO E FAMÍLIA PARA O DIA DOS AVÓS | 26 de junho de 2020

São os primeiros a chegar à maternidade e reconhecem de imediato qualquer parecença familiar. Seguram com confiança a fragilidade de um recém-nascido e adormecem birras de sono como mais ninguém. São avós. Andam de mãos dadas pelos passeios. Ficam quietos à beira-mar, enquanto as ondas molham pés pequeninos. Compram aquele gelado, limpam os joelhos feridos em brincadeiras de rua, dão o banho ao final do dia, à espera dos pais que hão de chegar. São avós. Reparam que é preciso comprar sapatos novos, descobrem qual o brinquedo sonhado e dizem adeus, com os olhos molhados, quando recebem abraços demorados nas despedidas.

Mais tarde, ouvem em silêncio as queixas, as dúvidas e os sobressaltos. Compensam em amor as ausências, as zangas, as dificuldades de pais ocupados, de vidas separadas. Conhecem os primeiros namorados, ajudam a pagar as despesas das escolas e aquela viagem tão desejada. São avós. Emocionam-se com etapas vencidas, com os estudos terminados. Preocupam-se com os fracassos, acendem velas em dias de exame, rezam pelos seus netos. Criam laços que não conhecem limites, que não reparam na aparência das coisas, mas que se focam na disponibilidade total, no amor incondicional. Os avós sustentam a vida das famílias, não só porque muitas vezes permitem a sobrevivência ou algum desafogo, mas porque são as raízes de tantas vidas. Contam as histórias de cada passado, ajudam a perceber a diferença entre essencial e supérfluo. Os avós são testemunho concreto e real de outros tempos, tantas vezes marcados por dificuldades, lutas e carências.

E quando o contam, sentados à mesa em almoços de domingo ou felizes com uma visita inesperada, transformam histórias antigas em lições de vida. E quem os escuta com mais atenção são os mais novos, encantados com as aventuras passadas em terras distantes ou a descrição cuidada de uma casa, de um passeio, de umas férias. Os avós são um tesouro. Neste tempo que vivemos, precisamos de o dizer de forma clara, de o defender de forma assertiva. E os tesouros são protegidos, tocados com cuidado e admiração. Uma sociedade que não protege, não cuida, não admira os mais velhos, está condenada ao fracasso. Porque tal como a natureza nasce e renasce, tal como a semente cresce e é lançada à terra, assim a vida corre e decorre. Quem é cuidado será capaz de cuidar. Quem aprende será capaz de ensinar. Quem é protegido será capaz de proteger. Quem é amado será capaz de amar.

Os avós são um tesouro? Se pudéssemos fazer a pergunta a Jesus Menino, se pudéssemos ouvir Nossa Senhora a falar-nos de Seu Pai, São Joaquim, ou de Sua Mãe, Santa Ana, talvez percebêssemos melhor a verdade deste tesouro. Aparentemente não podemos e sabemos tão pouco sobre estes Avós…, mas no nosso coração podemos escutar o que Jesus tem para nos dizer. E talvez, talvez sintamos a vontade de correr para os braços de um avô velhinho, de uma avó sozinha. Ou de rezar por quem já partiu. Ou de contar a um filho, a uma neta, a história dos avós, dos bisavós, de todos os que nos deram a vida. Os avós são um tesouro. O Dia dos avós é uma oportunidade para dar graças, abraçar e celebrar a presença dos Avós no passado e no presente, ir às próprias raízes e descobrir neles a ternura e o amor de Deus.

sábado, 25 de julho de 2020

Amigos

A importância dos amigos - Simply Flow by Fátima Lopes

Benditos sejam os que chegam à nossa vida em silêncio, com passos leves para não acordar as nossas dores, não despertar os nossos fantasmas, não ressuscitar os nossos medos.

Benditos sejam os que se aproximam de nós com leveza, com gentileza, falando o idioma da paz para não assustar a nossa alma.

Benditos sejam os que tocam o nosso coração com afeto, nos olham com respeito e nos aceitam inteiros com todos os erros e imperfeições.

Benditos sejam os que podendo ser qualquer coisa em nossa vida, escolhem ser doação.

Benditos sejam esses seres iluminados que aparecem como anjos, que dão asas aos nossos sonhos e, tendo a liberdade de partir, escolhem ficar e ser ninho.

A maioria das vezes chamamos essas pessoas de AMIGOS!

quarta-feira, 8 de julho de 2020

Amanhã colherás o que hoje semeaste

Boas sementes | Close

Amanhã colherás o que hoje semeaste As leituras (Oseias 8, 4-7. 11-13, Mateus 9, 32-38) estão repletas de imagens que apreendem o drama do ministério de Jesus quando enfrentou a intensa oposição dos seus críticos. Quando realizava exorcismos, era acusado de expulsar os demónios por meio do príncipe dos demónios. A sua crescente popularidade levantava preocupações aos líderes religiosos, que temiam a ameaça ao sacerdócio do templo. A menção de Jesus à grande colheita tinha uma vertente apocalíptica, sugerindo que a História estava a chegar a um limiar marcante de conversão e mudança. Isto lembra o impacto da pregação de João Batista e, antes disso, de profetas como Oseias, que confrontou os líderes de Israel por semear ventos que se tornariam tempestades. Jesus está a anunciar o Reino de Deus ao realizar milagres de cura e libertação. Onde quer vá, é movido de piedade pelas multidões, inquietas e perdidas como ovelhas sem pastor. Ele vê os campos transbordantes e pede trabalhadores para o ajudar na colheita. Estas imagens podem também despertar um senso de urgência em nós, à medida que tentamos interpretar o nosso próprio mundo durante uma pandemia, divisões políticas profundas, e incerteza sobre a estabilidade da nossa economia e dos nossos vínculos sociais. Um rápido olhar para a História lembrar-nos-á que todas as gerações enfrentaram tempos de crise causados ​​por guerras e problemas económicos, agitação social e violência. O que uma geração semeia, as gerações subsequentes colhem. Ambição e engano semeiam divisão e desconfiança. Sabedoria e coragem abençoam o futuro para os outros. O compromisso com a reconciliação e a justiça cria harmonia e oportunidade para as gerações que estão por chegar. O Evangelho é, antes de tudo, uma revolução no coração. Jesus descreveu o seu efeito não como repentino ou dramático, mas à imagem dos processos ocultos de fermento, sal e luz, como semear sementes cujas colheitas talvez não possamos ver. Os profetas eram raramente reconhecidos no seu próprio tempo, mas a sua coragem e fidelidade construíram um futuro para as gerações posteriores. A mudança real é o resultado da virtude comum ao longo do tempo, investimentos constantes que produzem retornos alimentados com paciência e disciplina. Um dos sinais seguros de que estamos a viver no Espírito de Jesus é constatar que as nossas palavras e ações levam cura e maior liberdade para os outros. As sementes que semeamos multiplicam a bondade, e quando outros semeiam generosamente, estamos ansiosos por os ajudar a colher os resultados. A mudança significativa ocorre no trabalho das comunidades, onde os egos desaparecem e o bem comum floresce, onde o serviço é sinal de liderança. Um dia, a História revelará como é que o nosso tempo será apreciado pelas gerações futuras, mas se formos fiéis agora, elas honrar-nos-ão imitando-nos. Pat Marrin in National Catholic Reporter

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Obrigado, Senhor, pelos amigos que nos deste.

Mensagens de incentivo a um amigo. Ajude quem você ama!

Obrigado, Senhor, pelos amigos que nos deste.
Os amigos que nos fazem sentir amados sem por que.
Que têm o jeito especial de nos fazer sorrir.
Que sabem tudo de nós, perguntando pouco.
Que conhecem o segredo das pequenas coisas
que nos deixam felizes.
Obrigado, Senhor, por essas e esses, sem os quais,
caminhar pela vida não seria o mesmo.
Que nos aguentam quando o mundo parece um sítio incerto.
Que nos incitam à coragem só com a sua presença.
Que nos surpreendem, de propósito, porque acham mal tanta rotina.
Que nos dão a ver um outro lado das coisas,
um lado fantástico, diga-se.
Obrigado pelos amigos incondicionais.
Que discordam de nós permanecendo conosco.
Que esperam o tempo que for preciso.
Que perdoam antes das desculpas.
Essas e esses são os irmãos que escolhemos.
Os que colocas a nosso lado para nos devolverem
a luz aérea da alegria.
Os que trazem, até nós, o imprevisível do teu coração, Senhor".
Amen.

(Card. José Tolentino de Mendonça)

sábado, 13 de junho de 2020

Amizade

O valor da amizade

A amizade engrandece-nos. É a profunda comunhão de dois seres que se deixam tocar intimamente. Que se orgulham de pisar os seus caminhos deixando que cada um usufrua da sua liberdade, da sua autenticidade.

A amizade leva-nos ao encontro. Permite que dois rostos se decifrem, mas que mesmo assim permaneçam mergulhados perante os mistérios da vida. A amizade é encontro de vida. De vida que anseia sempre por mais. De vida que deseja sempre o bom e o melhor de cada um.

 A amizade exige a verdade. Necessita deste confronto que proporciona a descoberta daquilo que somos. Desloca-nos, de forma mais plena, até ao outro num exercício liberto de moralismos e de julgamentos. É através da verdade que as raízes da amizade se deixam penetrar pelas terras da nossa existência. É com a verdade que a amizade se sustenta e se fortalece sabendo reconhecer o outro na sua unicidade.

A amizade carece de olhares e não vive sem a sua leitura. Muita da sua história é narrada em silêncio deixando que os olhos falem da união e da sua entrega total. É ali, naquele contacto visual, que tudo é dito sem nada ser pronunciado. É ali que moram os maiores segredos e a certeza de que sempre se estará.

A amizade não necessita de encontro permanente. A amizade precisa apenas de morar no coração para que se saiba reconhecer sempre a sua importância. A amizade acontece com poucas palavras, mas alimenta-se de muita conversa.

A amizade precisa de quem se deixa ficar. Na incompreensão, na dor, na falta de palavras. A amizade é deixarmos que o outro se deleite e, assim, se consiga encontrar.

A amizade vive de amor!

Emanuel António Dias

sexta-feira, 12 de junho de 2020

Espírito do Senhor



Espírito do Senhor,
vem como fogo redentor
e abrasa nossos corações,
enche-nos de luz.

És a palavra viva
na boca dos apóstolos,
faz-nos testemunhas
de tua verdade.

És a caridade
no coração dos que te amam,
faz de nós alimento partilhado
entre aqueles que necessitam.

És o consolador
e a esperança dos que creem,
dá-nos fé robusta,
santifica nossa vida.

Espírito Santo de amor,
nós te adoramos
e a ti elevamos
nosso louvor
e nossa oração.


Pe. Fagner, C.Ss.R.  28 maio

quarta-feira, 10 de junho de 2020

O que é amar um país?

Pode ler aqui na íntegra a intervenção de José Tolentino Mendonça no Dia de Portugal


O QUE É AMAR UM PAÍS
Agradeço ao senhor Presidente o convite para presidir à Comissão das comemorações do dia 10 de Junho, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades. Estas comemorações estavam para acontecer não só com outro formato, mas também noutro lugar, a Madeira. No poema inicial do seu livro intitulado Flash, o poeta Herberto Helder, ali nascido, recorda justamente «como pesa na água (...) a raiz de uma ilha». Gostaria de iniciar este discurso, que pensei como uma reflexão sobre as raízes, por saudar a raiz dessa ilha-arquipélago, também minha raiz, que desde há seis séculos se tornou uma das admiráveis entradas atlânticas de Portugal.
É uma bela tradição da nossa República esta de convidar um cidadão a tomar a palavra neste contexto solene para assim representar a comunidade de concidadãos que somos. É nessa condição, como mais um entre os dez milhões de portugueses, que hoje me dirijo às mulheres e aos homens do meu país, àquelas e àqueles que dia-a-dia o constroem, suscitam, amam e sonham, que dia-a-dia encarnam Portugal onde quer que Portugal seja: no território continental ou nas regiões autónomas dos Açores e da Madeira, no espaço físico nacional ou nas extensas redes da nossa diáspora.
Se interrogássemos cada um, provavelmente responderia que está apenas a cuidar da sua parte - a tratar do seu trabalho, da sua família; a cultivar as suas relações ou o seu território de vizinhança - mas é importante que se recorde que, cuidando das múltiplas partes, estamos juntos a edificar o todo. Cada português é uma expressão de Portugal e é chamado a sentir-se responsável por ele. Pois quando arquitetamos uma casa não podemos esquecer que, nesse momento, estamos também a construir a cidade. E quando pomos no mar a nossa embarcação não somos apenas responsáveis por ela, mas pelo inteiro oceano. Ou quando queremos interpretar a árvore não podemos esquecer que ela não viveria sem as raízes.
Camões e a arte do desconfinamento
Pensemos no contributo de Camões. Camões não nos deu só o poema. Se quisermos ser precisos, Camões deixou-nos em herança a poesia. Se, à distância destes quase quinhentos anos, continuamos a evocar coletivamente o seu nome, não é apenas porque nos ofereceu, em concreto, o mais extraordinário mapa mental do Portugal do seu tempo, mas também porque iniciou um inteiro povo nessa inultrapassável ciência de navegação interior que é a poesia. A poesia é um guia náutico perpétuo; é um tratado de marinhagem para a experiência oceânica que fazemos da vida; é uma cosmografia da alma. Isso explica, por exemplo, que Os Lusíadas sejam, ao mesmo tempo, um livro que nos leva por mar até à India, mas que nos conduz por terra ainda mais longe: conduz-nos a nós próprios; conduz-nos, com uma lucidez veemente, a representações que nos definem como indivíduos e como nação; faz-nos aportar – e esse é o prodígio da grande literatura - àquela consciência última de nós mesmos, ao quinhão daquelas perguntas fundamentais de cujo confronto, um ser humano sobre a terra, não se pode isentar.
Se é verdade, como escreveu Wittgenstein, que «os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo», Camões desconfinou Portugal. A quem tivesse dúvidas sobre o papel central da cultura, das artes ou do pensamento na construção de um país bastaria recordar isso. Camões desconfinou Portugal no século XVI e continua a ser para a nossa época um preclaro mestre da arte do desconfinamento. Porque desconfinar não é simplesmente voltar a ocupar o espaço comunitário, mas é poder, sim, habitá-lo plenamente; poder modelá-lo de forma criativa, com forças e intensidades novas, como um exercício deliberado e comprometido de cidadania. Desconfinar é sentir-se protagonista e participante de um projeto mais amplo e em construção, que a todos diz respeito. É não conformar-se com os limites da linguagem, das ideias, dos modelos e do próprio tempo. Numa estação de tetos baixos, Camões é uma inspiração para ousar sonhos grandes. E isso é tanto mais decisivo numa época que não apenas nos confronta com múltiplas mudanças, mas sobretudo nos coloca no interior turbulento de uma mudança de época.
Que a crise nos encontre unidos
Gostaria de recordar aqui uma passagem do Canto Sexto d’Os Lusíadas, que celebra a chegada da expedição portuguesa à India. Os marinheiros, dependurados na gávea, avistam finalmente «terra alta pela proa» e passam notícia ao piloto que, por sua vez, a anuncia vibrante a Vasco da Gama. O objetivo da missão está assim cumprido. Mas o Canto Sexto tem uma exigente composição em antítese, à qual não podemos não prestar atenção. É que à visão do sonho concretizado não se chega sem atravessar uma dura experiência de crise, provocada por uma tempestade marítima que Camões sabiamente se empenha em descrever, com impressiva força plástica. Digo sabiamente, porque não há viagem sem tempestades. Não há demandas que não enfrentem a sua própria complexificação. Não há itinerário histórico sem crises. Isso vem-nos dito n’Os Lusíadas de Camões, mas também nas Metamorfoses de Ovídio, na Eneida de Virgílio, na Odisseia de Homero ou nos Evangelhos cristãos.
No itinerário de um país, cada geração é chamada a viver tempos bons e maus, épocas de fortuna e infelizmente também de infortúnio, horas de calmaria e travessias borrascosas. A história não é um continuum, mas é feita de maturações, deslocações, ruturas e recomeços. O importante a salvaguardar é que, como comunidade, nos encontremos unidos em torno à atualização dos valores humanos essenciais e capazes de lutar por eles.
Mas à observação realística que Camões faz da tempestade, gostaria de ir buscar um detalhe, na verdade uma palavra, para a reflexão que proponho: a palavra «raízes». Na estância 79, falando dos efeitos devastadores do vento, o poeta diz: «Quantas árvores velhas arrancaram/ Do vento bravo as fúrias indignadas/ As forçosas raízes não cuidaram/Que nunca para o Céu fossem viradas». A leitura da imagem em jogo é imediata: as velhas árvores reviradas ao contrário, arrancadas com violência ao solo, expõem dramaticamente, a céu aberto, as próprias raízes. A tempestade descrita por Camões recorda-nos, assim, a vulnerabilidade, com a qual temos sempre de fazer conta. As raízes, que julgamos inabaláveis, são também frágeis, sofrem os efeitos da turbulência da máquina do mundo. Não há super-países, como não há super-homens. Todos somos chamados a perseverar com realismo e diligência nas nossas forças e a tratar com sabedoria das nossas feridas, pois essa é a condição de tudo o que está sobre este mundo.
O que é amar um país
O Dia de Portugal, e este Dia de Portugal de 2020 em concreto, oferece-nos a oportunidade de nos perguntarmos o que significa amar um país. A pensadora europeia Simone Weil, num instigante ensaio destinado a inspirar o renascimento da Europa sob os escombros da Segunda Grande Guerra, de cujo desfecho estamos agora a celebrar o 75º aniversário, escreveu o seguinte: um país pode ser amado por duas razões, e estas constituem, na verdade, dois amores distintos. Podemos amar um país idealmente, emoldurando-o para que permaneça fixo numa imagem de glória, e desejando que esta não se modifique jamais. Ou podemos amar um país como algo que, precisamente por estar colocado dentro da história, sujeito aos seus solavancos, está exposto a tantos riscos. São dois amores diferentes. Podemos amar pela força ou amar pela fragilidade. Mas, explica Simone Weil, quando é o reconhecimento da fragilidade a inflamar o nosso amor, a chama deste é muito mais pura.
O amor a um país, ao nosso país, pede-nos que coloquemos em prática a compaixão – no seu sentido mais nobre - e que essa seja vivida como exercício efetivo da fraternidade. Compaixão e fraternidade não são flores ocasionais. Compaixão e fraternidade são permanentes e necessárias raízes de que nos orgulhamos, não só em relação à história passada de Portugal, mas também àquela hodierna, que o nosso presente escreve. E é nesse chão que precisamos, como comunidade nacional, de fincar ainda novas raízes.
Nestes últimos meses abateu-se sobre nós uma imprevista tempestade global que condicionou radicalmente as nossas vidas e cujas consequências estamos ainda longe de mensurar. A pandemia que principiou como uma crise sanitária tornou-se uma crise poliédrica, de amplo espetro, atingindo todos os domínios da nossa vida comum. Sabendo que não regressaremos ao ponto em que estávamos quando esta tempestade rebentou, é importante, porém, que, como sociedade, saibamos para onde queremos ir. No Canto Sexto d’Os Lusíadas a tempestade não suspendeu a viagem, mas ofereceu a oportunidade para redescobrir o que significa estarmos no mesmo barco.
Reabilitar o pacto comunitário
O que significa estar no mesmo barco? Permitam-me pegar numa parábola. Circula há anos, atribuída à antropóloga Margaret Mead, a seguinte história. Um estudante ter-lhe-ia perguntado qual seria para ela o primeiro sinal de civilização. E a expectativa geral é que nomeasse, por exemplo, os primeiríssimos instrumentos de caça, as pedras de amolar ou os ancestrais recipientes de barro. Mas a antropóloga surpreendeu a todos, identificando como primeiro vestígio de civilização um fémur quebrado e cicatrizado. No reino animal, um ser ferido está automaticamente condenado à morte, pois fica fatalmente desprotegido face aos perigos e deixa de se poder alimentar a si próprio. Que um fémur humano se tenha quebrado e restabelecido documenta a emergência de um momento completamente novo: quer dizer que uma pessoa não foi deixada para trás, sozinha; que alguém a acompanhou na sua fragilidade, dedicou-se a ela, oferecendo-lhe o cuidado necessário e garantindo a sua segurança, até que recuperasse. A raiz da civilização é, por isso, a comunidade. É na comunidade que a nossa história começa. Quando do eu fomos capazes de passar ao nós e de dar a este uma determinada configuração histórica, espiritual e ética.
É interessante escutar o que diz a etimologia latina da palavra comunidade (communitas). Associando dois termos, cum e munus, ela explica que os membros de uma comunidade – e também de uma comunidade nacional – não estão unidos por uma raiz ocasional qualquer. Estão ligados sim por um múnus, isto é, por um comum dever, por uma tarefa partilhada. Que tarefa é essa? Qual é a primeira tarefa de uma comunidade? Cuidar da vida. Não há missão mais grandiosa, mais humilde, mais criativa ou mais atual.
Celebrar o Dia de Portugal significa, portanto, reabilitar o pacto comunitário que é a nossa raiz. Sentir que fazemos parte uns dos outros, empenharmo-nos na qualificação fraterna da vida comum, ultrapassando a cultura da indiferença e do descarte. Uma comunidade desvitaliza-se quando perde a dimensão humana, quando deixa de colocar a pessoa humana no centro, quando não se empenha em tornar concreta a justiça social, quando desiste de corrigir as drásticas assimetrias que nos desirmanam, quando, com os olhos postos naqueles que se podem posicionar como primeiros, se esquece daqueles que são os últimos. Não podemos esquecer a multidão dos nossos concidadãos para quem o Covid19 ficará como sinónimo de desemprego, de diminuição de condições de vida, de empobrecimento radical e mesmo de fome. Esta tem de ser uma hora de solidariedade. No contexto do surto pandémico, foi, por exemplo, um sinal humanitário importante a regularização dos imigrantes com pedidos de autorização de residência, pendentes no Serviço de Estrangeiros e Fronteiras. O desafio da integração é, porém, como sabemos, imenso, porque se trata de ajudar a construir raízes. E essas não se improvisam: são lentas, requerem tempo, políticas apropriadas e uma participação do conjunto da sociedade. Lembro-me de um diálogo do filme do cineasta Pedro Costa, «Vitalina Varela», onde se diz a alguém que chega ao nosso país: «chegaste atrasada, aqui em Portugal não há nada para ti». Sem compaixão e fraternidade fortalecem-se apenas os muros e aliena-se a possibilidade de lançar raízes.
Fortalecer o pacto intergeracional
Reabilitar o pacto comunitário implica robustecer, entre nós, o pacto intergeracional. O pior que nos poderia acontecer seria arrumarmos a sociedade em faixas etárias, resignando-nos a uma visão desagregada e desigual, como se não fossemos a cada momento um todo inseparável: velhos e jovens, reformados e jovens à procura do primeiro emprego, avós e netos, crianças e adultos no auge do seu percurso laboral. Precisamos, por isso, de uma visão mais inclusiva do contributo das diversas gerações. É um erro pensar ou representar uma geração como um peso, pois não poderíamos viver uns sem os outros.
A tempestade provocada pelo Covid19 obriga-nos como comunidade, a refletir sobre a situação dos idosos em Portugal e nesta Europa da qual somos parte. Por um lado, eles têm sido as principais vítimas da pandemia, e precisamos chorar essas perdas, dando a essas lágrimas uma dignidade e um tempo que porventura ainda não nos concedemos, pois o luto de uma geração não é uma questão privada. Por outro, temos de rejeitar firmemente a tese de que uma esperança de vida mais breve determine uma diminuição do seu valor. A vida é um valor sem variações. Uma raiz de futuro em Portugal será, pelo contrário, aprofundar a contribuição dos seus idosos, ajudá-los a viver e a assumir-se como mediadores de vida para as novas gerações. Quando tomei posse como arquivista e bibliotecário da Santa Sé, uma das referências que quis evocar nesse momento foi a da minha avó materna, uma mulher analfabeta, mas que foi para mim a primeira biblioteca. Quando era criança, pensava que as histórias que ela contava, ou as cantilenas com que entretinha os netos, eram coisas de circunstância, inventadas por ela. Depois descobri que faziam parte do romanceiro oral da tradição portuguesa. E que afinal aquela avó analfabeta estava, sem que nós soubéssemos, e provavelmente sem que ela própria o soubesse, a mediar o nosso primeiro encontro com os tesouros da nossa cultura.
Robustecer o pacto intergeracional é também olhar seriamente para uma das nossas gerações mais vulneráveis, que é a dos jovens adultos, abaixo dos 35 anos; geração que, praticamente numa década, vê abater-se sobre as suas aspirações, uma segunda crise económica grave. Jovens adultos, muitos deles com uma alta qualificação escolar, remetidos para uma experiência interminável de trabalho precário ou de atividades informais que os obrigam sucessivamente a adiar os legítimos sonhos de autonomia pessoal, de lançar raízes familiares, de ter filhos e de se realizarem.
Implementar um novo pacto ambiental
A pandemia veio, por fim, expor a urgência de um novo pacto ambiental. Hoje é impossível não ver a dimensão do problema ecológico e climático, que têm uma clara raiz sistémica. Não podemos continuar a chamar progresso àquilo que para as frágeis condições do planeta, ou para a existência dos outros seres vivos, tem sido uma evidente regressão. Num dos textos centrais deste século XXI, a Encíclica Laudato Sii’, o Papa Francisco exorta a uma «ecologia integral», onde o presente e o futuro da nossa humanidade se pense a par do presente e do futuro da grande casa comum. Está tudo conectado. Precisamos de construir uma ecologia do mundo, onde em vez de senhores despóticos apareçamos como cuidadores sensatos, praticando uma ética da criação, que tenha expressão jurídica efetiva nos tratados transnacionais, mas também nos estilos de vida, nas escolhas e nas expressões mais domésticas do nosso quotidiano.
Uma viagem que fazemos juntos
Camões n’Os Lusíadas não apenas documentou um país em viagem, mas foi mais longe: representou o próprio país como viagem. Portugal é uma viagem que fazemos juntos há quase nove séculos. E o maior tesouro que esta nos tem dado é a possibilidade de ser-em-comum, esta tarefa apaixonante e sempre inacabada de plasmar uma comunidade aberta e justa, de mulheres e homens livres, onde todos são necessários, onde todos se sentem - e efetivamente são - corresponsáveis pelo incessante trânsito que liga a multiplicidade das raízes à composição ampla e esperançosa do futuro. Portugal é e será, por isso, uma viagem que fazemos juntos. E uma grande viagem é como um grande amor. Uma viagem assim - explica Maria Gabriela Llansol, uma das vozes mais límpidas da nossa contemporaneidade -, não se esgota, nem cancela na fugaz temporalidade da história, mas constitui uma espécie de «rasto do fulgor» que exprime a ardente natureza do sentido que interrogamos.
Cardeal José Tolentino de Mendonça

Vê que interessante a quantidade dos nossos antepassados: Pais: 2 Avós: 4 Bisavós: 8 Trisavós: 16 Tetravós: 32 Pentavós: 64 Hexavós: 128 Hep...