sábado, 18 de julho de 2015

O tempo não é nosso

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O amor não é uma corrida contra o tempo. Nem contra o mundo. É contra nós. Ou melhor, contra o pior de nós. O egoísmo.
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A vida precisa de tempo, ma não há pior do que adiar... muitos julgam que o momento de amar pode ser outro. Que sempre haverá tempo depois do tempo. Errado. O tempo não é nosso e que, portanto, não está ao nosso dispor.
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Vamos podendo desfrutar do tempo, mas nunca por direito.
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Somos livres no tempo, mas o tempo não é nosso. Somos responsáveis pelo que fazemos, o que significa que devemos ser capazes de responder perante alguém. Mesmo a sós, temos a obrigação de esclarecer os fundamentos das nossas decisões a nós mesmos... Pese embora muitas vezes a verdade esteja toda na resposta simples: - Não sei!
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Amar é caminhar rumo ao fim dos tempos, destruindo essa porta que separa este tempo do outro. O que há de vir. Aquele de onde todos chegámos aqui. Aquele aonde todos voltaremos. Esse mesmo, a eternidade que repousa por debaixo de cada dia. O antes do passado. O depois do futuro.
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O que sou constrói-se num diálogo dinâmico entre mim e o que existe para lá de mim, o outro e o mundo.
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O amor leva-me ao outro. Supero os meus limites, do espaço e do tempo. Porque me dou, passo a existir também no que me ultrapassa. Sou mais. Só o amor permite a conquista da eternidade. Só o amor resiste ao nascimento e à morte. Qualquer vida que nasce brota de um amor, de uma entrega gratuita e incondicional de algo ao espaço e ao tempo sem fim. Mas existir em plenitude só é possível se formos capazes de entregar esta vida, toda. Sem esperar nada em troca. Sem buscar outra recompensa que não a de saber que nos entregamos à eternidade da mesma forma que a eternidade nos confiou a este mundo.
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O mistério da nossa existência passa por assumirmos o - Não sei. Por cuidarmos de não adiar nada de importante. Por garantirmos que fazemos o que de bom é possível, assim que é possível. Julgar que o amanhã é certo não só é uma tolice como também é uma forma evidente de não merecer o hoje.
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Em muitas vidas o tempo dura, dura e dura. Estende-se. Talvez por isso haja quem não saiba entender que não há dias iguais. Que só por um dia suceder a outro, isso não garante que lhe seja semelhante. Ser, existir, é viver e dar vida. Dar a vida. Dar-se ao amanhã como se não houvesse amanhã.
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Sentir o hoje. Esquecer o ontem, mas assumi-lo. Não sonhar com o amanhã, mas construir o melhor amanhã de que formos capazes.
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Se tudo pode acabar já hoje, e por isso importa esgotar o que somos e queremos ser sem poupanças... importa sabermos que também é possível que duremos ainda muito no tempo por aqui. A nossa vida não nos pertence. Somos uma parte do todo. Não o centro. Não estamos vivos, somos vida. Uma vida cheia de mistérios, mas de beleza sublime. Podem as lágrimas e sofrimentos parecer a eternidade... mas só o bem não tem fim.
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Nem sempre somos capazes de compreender o bem que somos, o bem que nos acontece, o bem que há em tudo.
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O amor faz-nos renascer a cada vez que parece matar-nos. Fazer um caminho é construí-lo onde não existe e é necessário. Existir é dar vida à vida. Tudo o mais é... nada. Dizer que não ao amor é negar-se a si mesmo. É privar-se de si. Anular-se. Fazer-se nada.
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Não sabemos de que tempo chegámos, nem para que tempo vamos. Mas chegámos e vamos. Não sabemos nem quando, nem onde. Mas a nossa essência não deixa margem para dúvidas: não somos nem um acaso nem algo sem sentido.
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Importa compreender e viver a profundidade do tempo. Tal qual ele é. Tal qual nós somos. Infinitos.
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Somos mais do que tempo. Muito mais.

José Luís Nunes Martins

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