quinta-feira, 2 de julho de 2015

Achar e saber



Ainda bem que podemos achar e saber ao mesmo tempo.
"Achas que os rapazes de agora são diferentes dos rapazes da tua geração?" A resposta certa é "Acho que sim mas sei que não, que não são".
Acho que sim porque me parece que os rapazes de agora são mais civilizados, menos predadores, mais solitários e bem comportados do que os rapazes do meu tempo. Mas sei que não é assim porque desde que os seres humanos começaram a escrever os velhos acharam sempre que os novos eram muito piores ou melhores do que eles. E os novos também foram caindo sistematicamente no mesmo erro.
Achar é encontrar a primeira coisa que cada um de nós tem, que é a vaidade. Achar é como pensar "no meu tempo..." em que as reticências tanto podem assinalar que era tudo melhor ou que tudo era mais difícil. Ou, frequentemente, que naquele meu tempo que, obviamente, só eu sei definir, as coisas não só eram mais difíceis mas, por serem difíceis, eram muito melhores.
Tenho uma grande biblioteca de livros de citações e é preciso que seja grande para perceber que se citam, sobretudo, uns aos outros. É uma das mais deliciosas desilusões da vida.
Vai-se ver "juventude" e "velhice" e as citações, por muito diferentes que sejam, dizem sempre o mesmo. Dizem, sobretudo, que são diferentes. Mas é nisso, precisamente, que mais se parecem.
Achar é o pensamento primitivo, automático e previsível. Dá prazer. Saber é o pensamento já pensado, eterno e indispensável. Só entristece e dá chatices.
Ainda bem que podemos achar e saber ao mesmo tempo.

Miguel Esteves Cardoso

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