quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

O Dom de Deixar Ir

O Dom de Deixar Ir

É preciso aprender a viver. A qualidade da nossa existência depende de um equilíbrio fundamental na nossa relação com o mundo: apego e desapego. Nesta vida, a ponderação, a proporção e a subtileza são sempre melhores que qualquer arrebatamento. Mas o essencial é aprender que a existência é feita de dádivas e perdas.

Eis porque quem reza deve pedir e agradecer: tudo é, na verdade, um dom. Tudo passa... importa pois prepararmo-nos para a perda, ainda que tantas vezes não seja senão temporária... Alegrias e dores. Só há felicidade num coração onde habita a sabedoria e paciência dos tempos e dos momentos, a paz de quem sabe que são muitos os porquês e para quês que ultrapassam a capacidade humana de compreender.

Na vida, tudo se recebe e tudo se perde.

Amar é um apego natural mas também obriga a que deixemos o outro ser quem é, abrindo mão e permitindo-lhe que parta, ou que fique, sem desejar outra coisa senão que seja radicalmente livre. Aprendendo que há muito mais valor no ato de quem decide ficar do que naquele de quem só está por não poder partir.

Nada verdadeiramente nos pertence. O sublime do amor está aí, na inteira liberdade que não pode ser condicionada por nenhuma outra força que não a vontade própria. Todo o amor é absolutamente livre. E assim é do primeiro ao último instante. Uma fidelidade que se esgotou no conforto de um hábito deixou de ser uma virtude admirável para ser um vício estranho ao amor. Amar pressupõe uma radical liberdade do espírito, da mente e do corpo, bem como uma via a direito entre a cabeça e o coração... numa vida decidida a fazer um caminho de compromisso com a liberdade de criação de si mesmo.

Vivemos porque Alguém nos ama e de nós abriu mão, dando-nos o melhor de Si: a liberdade para a criação, também de nós mesmos através dos nossos atos! Qualquer pai percebe que há um momento em que é tempo de ver o seu filho partir... e porque os arcos não seguem as flechas, fica... para que o filho possa melhor ser quem é.

Quase tudo neste mundo é impermanente. Nada nos pertence porque não somos daqui.

Quem não sabe viver, adia o instante e perde esse dom. Nesta vida, adiar é perder. Aqui e agora temos o dever de pedir e de agradecer, também o de abraçar e o de deixar ir... o de aprender a viver nesta tempestade de razões e emoções.

Dar é viver e reter é morrer. Mas nem todos são capazes de viver de forma plena, porque muitos são os que não compreendem que a vida se vive em marés de apego e desapego. Mantendo os braços bem abertos... para abraçar, mas também para deixar ir... como se o peito fosse uma janela... por onde importa que a luz, o ar e os outros encontrem caminho...

Viver é apenas amar muito.

Amar significa que a cada novo dia renovemos de forma consciente, o nosso caminho, o nosso ser. A beleza maior de um casamento é que ele se faz de dias e noites em que sucessivamente se elege a mesma pessoa.

Nascemos e morremos sós, por mais que duas pessoas se amem nunca deixam de ser duas vidas, duas vontades – num amor só. Mas como os pilares de um templo, nunca excessivamente próximo pois que é pelo espaço que houver entre eles que crescerá o amor que os une.

Ser é amar, numa entrega que implica abdicar de muito mais do que dos nossos bens. Significa acreditar na vida ao ponto de aceitar que sempre teremos o que precisamos. Numa lógica de dar e receber que nos ultrapassa a compreensão.

Entretanto, ajudará aprender a agarrar o essencial e a largar o resto...

José Luís Nunes Martins, in 'Amor, Silêncios e Tempestades'

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