terça-feira, 15 de abril de 2014

Se queres orar, começa por escutar



A oração cristã é antes de tudo escuta para chegar ao acolhimento de uma presença, a presença de Deus Pai, Filho e Espírito Santo. A operação é simples mas não é por isso que é fácil, antes é laboriosa e requer capacidade de silêncio interior e exterior, sobriedade, luta contra os múltiplos ídolos que nos ameaçam.

Deus fala: esta é a afirmação fundamental que atravessa toda a Escritura, sem a qual não poderemos ter qualquer relação pessoal com Ele. Com decisão absoluta, com iniciativa livre e gratuita, Deus dirigiu-se aos seres humanos para entrar em relação com eles, para instaurar um diálogo finalizado na comunhão. No Deuteronómio é colocada sobre a boca de Moisés esta reflexão:

«Interroga os tempos antigos que te precederam, desde o dia em que Deus criou o homem sobre a terra. Pergunta se jamais houve, de uma extremidade à outra do céu, coisa tão extraordinária como esta, ou se jamais se ouviu coisa semelhante. Sabes, porventura, de algum povo que tenha ouvido a voz de Deus falando do meio do fogo, como tu ouviste, e tenha continuado a viver?» (Dt 4, 32-33).

Deus revela-se como Palavra e faz de Israel o povo da escuta, antes ainda que o povo da fé, revelando a vocação permanente: o chamamento a escutar. Não por acaso, a oração hebraica é ritmada pelo Shema’ Jusra’el, «Escuta, Israel» (cf. Dt 6, 4-9), uma ordem que, de várias maneiras, é repetida mais vezes na Torah, a qual, ao contrário, raramente pede para falar a Deus.

Se a oração do homem como desejo de Deus apresenta um sentido ascendente de palavras para o céu, a escuta é, por sua vez, caracterizada por um movimento descendente, por uma descida da Palavra de Deus no ser humano: o verdadeiro orante, a partir de Abraão (cf. Gen 12, 1), é aquele que escuta, aquele que dá ouvidos a Deus. Por isso, «escutar é melhor que o sacrifício» (1 Samuel 15, 22), melhor que qualquer outra relação homem-Deus que se apoia sobre o frágil fundamento da iniciativa humana.

Além disso, poder-se-ia dizer que se para Deus no princípio está a Palavra (cf. Jo 1, 1; Gen 1, 3.6…), para o homem «no princípio está a escuta». No Novo Testamento esta verdade é sintetizada de modo admirável na exortação da Carta aos Hebreus:

«Muitas vezes e de muitos modos, falou Deus aos nossos pais, nos tempos antigos, por meio dos profetas. Nestes dias, que são os últimos, Deus falou-nos por meio do Filho» (Heb 1, 1-2).

Agora é a Ele, ao Filho, que deve dirigir-se a nossa escuta, no seguimento da ordem da voz do Pai: «Este é o meu Filho, o amado, escutai-o» (Marcos 9, 7).

Fica claro, portanto, que a oração autêntica brota onde está a escuta. «Fala, Senhor, que o teu servo escuta» (1 Samuel 3, 9): este é o primeiro ato da oração, que nós – infelizmente – somos constantemente tentados a subverter em: «Escuta, Senhor, que o teu servo fala».

Sim, a escuta é oração e tem um primado absoluto enquanto reconhece a iniciativa de Deus, o facto de Deus ser o sujeito do nosso encontro com Ele: não é passividade, mas resposta ativa, ação por excelência da criatura diante do seu Criador e Senhor.

É significativo que ao convite que Deus dirigiu ao jovem rei Salomão para que este lhe apresentasse pedidos, o monarca pediu um lev shomea’ (1 Reis 3, 9), «um coração capaz de escutar»; e o Senhor gostou que Salomão tivesse feito esse pedido (1 Reis 3, 10).

Com efeito, este é o pedido que agrada grandemente ao Senhor na nossa oração, porque é o pedido que é gerado pela vontade de Deus, é o pedido primordial, a necessidade primeira e fundamental, o pressuposto da fé. Não é à toa que Paulo dirá que «a fé nasce da escuta» (fides ex auditu: Romanos 10, 17).

Compreende-se, então, porquê, interrogado sobre qual é o primeiro mandamento, Jesus tenha respondido antes de tudo «escuta», bem sabendo que dessa capacidade depende também a de conhecer e amar Deus e o próximo (cf. Marcos 12, 29-31).

Eis assim traçado o movimento da oração cristã: da escuta à fé, da fé ao conhecimento de Deus, e do conhecimento ao amor, resposta última ao seu amor gratuito e primeiro pelo ser humano.

Nunca se dirá suficientemente: quando não está bem clara o primado da escuta de Deus, a oração tende a tornar-se uma atividade humana e é forçada a alimentar-se de atos e fórmulas, em que se procura a própria satisfação e segurança: torna-se a epifania de uma arrogância espiritual, a substituição da execução da vontade de Deus. No máximo transforma-se numa disciplina de concentração que talvez elimine as distrações, mas não abre realmente para uma atenção orante ao Senhor que fala (cf. Deuteronómio 4, 32-33) e que ama (cf. Deuteronómio 7, 7-8): que fala porque ama.

Recorde-se, por fim, um dado de que é mais difícil ter consciência, mas que envolve sempre a nossa oração: com a escuta da Palavra entramos no mistério do diálogo intratrinitário. A comunhão de amor que reina entre o Pai, o Filho e o Espírito é, com efeito, alimentada pela escuta recíproca, como atestam algumas palavras de Jesus:

«Dei-vos a conhecer tudo o que ouvi ao meu Pai» (João 15,15); «Quando Ele vier, o Espírito da Verdade (...) não falará por si próprio, mas há-de dar-vos a conhecer quanto ouvir» (Jo 16, 13); «Pai, dou-te graças por me teres escutado» (Jo 11,41).



Enzo Bianchi
In Perché pregare, come pregare, ed. San Paolo
Trad.: SNPC/rjm
14.04.14

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