segunda-feira, 21 de abril de 2014

Conto de Pácoa



O meu amigo fora claro: o seu prédio ficava entre a igreja e a livraria. Cedinho nessa manhã de Páscoa ali estava eu totalmente perdido, apesar das indicações. Ele dissera que não havia nada que enganar, porque a grande cruz no cimo da torre se via à distância. Além disso eu visitara-o há uns anos e esperava reconhecer o local. Apesar disto, não fazia a menor ideia onde me devia dirigir. Estava totalmente perdido.

A razão da desorientação era fácil de explicar. As referências eram evidentes e o sítio não tinha nada que enganar. Só que naquela vila, neste estranho mês de Abril, a Páscoa amanhecera sob uma espessa capa de nevoeiro. À minha frente poderia estar uma igreja, um descampado ou um exército pronto a atacar. Naquela esquina eu mal via a rua, quanto mais a torre, a cruz ou a livraria. Pouco enxergava para lá do meu nariz. Nessas condições, por mais claras que fossem as indicações, não havia maneira de saber onde me dirigir. Em pleno dia só via a brancura vaga e cega do que os ingleses chamam "sopa de ervilhas".

Percebi que o nevoeiro é uma das coisas mais terríveis. A escuridão é rompida por uma luz mínima. Se fosse noite não teria dificuldade em encontrar a igreja, a livraria, o prédio. Bastava um candeeiro para me orientar. Mas no nevoeiro não há luz que me guie. A escuridão, por mais negra que seja, não resiste ao nascer do Sol, que não apenas a rompe, como um fósforo, mas a despedaça e elimina. Mas o sol nada pode com o nevoeiro. Eu sei que o sol está lá em cima. É ele que me permiter ver-me a mim mesmo e ao nevoeiro. Mas o sol fica impotente perante o nevoeiro. Sei que o sol, eventualmente, vencerá o nevoeiro. Daqui a horas, como sempre em Abril, a névoa evapora e o dia será claro e quente. Mas agora não se vê dois metros adiante.

Existe um paralelo na vida espiritual. Vaidade, raiva, cobiça, sensualidade criam terrível escuridão na vida humana, e eliminam a bondade, alegria, paz. Mas no meio da pior escuridão qualquer pequena luz anula as trevas. Um momento bastou para despedaçar a vaidade de Nicodemos, a raiva do bom ladrão, a cobiça de Zaqueu, a sensualidade da adúltera. Mas há algo muito pior que a escuridão do pecado. Existe o nevoeiro da presunção, obstinação, inveja, desespero. Contra eles a luz nada pode. Jesus esteve diante da presunção de Caifás, da obstinação de Herodes, da inveja de Judas, do desespero do mau ladrão, mas eles não viram a luz: "Todo o pecado ou blasfémia será perdoado aos homens, mas a blasfémia contra o Espírito não lhes será perdoada. Se alguém disser alguma palavra contra o Filho do Homem, há-de ser-lhe perdoado; mas, se falar contra o Espírito Santo, não lhe será perdoado, nem neste mundo nem no futuro" (Mt 12, 31-32).

O nevoeiro é o que mais devo temer. Vivo à sombra da cruz, e toda a minha felicidade dela depende. Sou feliz porque sei que o Senhor do universo, que fez o Céu e a Terra, veio a este mundo por minha causa, e se ofereceu à morte mais horrível para pagar os meus pecados. E depois ficou: ficou na Palavra, no sacrário, quando dois ou três nos reunimos. O Senhor do universo mostra um carinho próximo e pessoal por mim, enviando o seu anjo, que me acompanha e guarda em cada passo. Apesar de saber isso, estou muitas vezes perdido, assustado, desorientado, por causa do nevoeiro. O nevoeiro que me esconde a cruz da igreja.

Aquela cruz, que deveria ser o sinal do meu destino, é oculta pelo nevoeiro do meu desespero. O nevoeiro, que me desorienta e até me faz perder a confiança no meu anjo da guarda, é mais forte que a minha fé. O mais forte é o nevoeiro. Que pode ser mais forte que o nevoeiro?

Então ouvi uma voz. Era o meu amigo que me chamava. Imaginou que o nevoeiro me tivesse desorientado e decidiu vir à rua ao meu encontro. Então percebi. O meu anjo tinha-o enviado. E agora sei que há algo mais forte que o nevoeiro: a amizade. A amizade que faz presente a cruz e o anjo da guarda. "Quem vos recebe, a mim recebe; e quem me recebe, recebe aquele que me enviou" (Jo 10, 40).

João César das Neves
DN 2014.04.21

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