sábado, 7 de dezembro de 2013

A Indignidade Que Colamos à Pobreza



Tempos de crise dão origem a manifestações de fraternidade. Partilhamos com os pobres e com os filhos dos amigos roupa em bom estado. Partilhamos com os necessitados roupa que já não queremos mas que para eles serve perfeitamente. Ficam assim todos contentes. A sociedade vai aprendendo, hoje em dia as pessoas têm muito mais cuidado. Podemos dar coisas um bocadinho fora de moda, um bocadinho coçadas mas o pobre «tem que saber viver remediadamente, administrar bem aquilo que tem e não morder a mão que se lhe estende». De resto, não é isso que acontece nas famílias? Quando um primo fica pobre, deixamos de lhe comprar presentes, passamos a dar-lhe a nossa roupa usada, porque aos pobres se faz assim. E todos os meses temos a generosidade de lhe dar grão, batata, arroz, óleo, conservas, salsichas de lata e leite marca branca, que «até é o que compramos lá para casa». Hoje em dia existe uma rede fraterna que ajuda a pobreza a viver mais condignamente, considerações de luta pela justiça social à parte, que não é este o objectivo do artigo. Já é muito bom quando estes mecanismos funcionam e os particulares dão aos pobres o que já não querem, em vez de ficarem em casa, sentados no sofá. Levantarem-se e tentarem saber o que é que faz falta e onde, olhar à sua volta, participar generosamente em iniciativas como o «banco alimentar» já é muito bom.

Para os cristãos também é muito bom. Sobretudo para os alvos desta generosidade, pobres cristãos pobres. E tenho a certeza que Cristo também fica todo contente. Até porque Cristo não tem corpo, de maneira que qualquer coisa Lhe serve. Agora, aquele Cristo que está em cada um de nós, portanto, em cada pobre, talvez não ache grande graça andar sempre com roupa em segunda mão. Pelo menos no Natal. Pelo menos nos filhos. Nem o primo que ficou pobre, a quem passámos a dar roupa em segunda mão porque ficou pobre, porque aos pobres dá-se roupa em segunda mão, não é? Quem é que agora se lembra de ir comprar roupa para dar aos pobres? [A não ser aquela senhora, a quem aproveito para prestar aqui homenagem, que resolveu comprar quinhentas camisas numa fábrica.] O que é certo é que aos pobres se dá roupa pobre. Usada e coçada. Como eles. Cansados, coçados e usados.

Aqui há 2 ou 3 anos, uma instituição de caridade resolveu dar, pelo Natal, roupinhas aos bebés. Qual não foi o espanto da directora da instituição quando viu a desilusão estampada na cara das Mães porque as roupinhas eram em segunda mão. A directora estava tão habituada a pensar que aos pobres se dá coisas usadas que nem se lembrou que aquelas Mães podiam estar à espera de receber roupinhas novas. [Devo dizer que a directora aprendeu a lição.] Tenho a certeza que foi por estas e outras que Jesus disse: «Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes» (Mt 25, 40). Jesus deu a sua dignidade divina aos pobres. Nós tinhamos-lhes tirado a humana, apontando-lhes a indignidade de serem pobres. Indignidade a que apontamos o dedo ao darmos sistematicamente coisas usadas. O leitor dir-me-á que os seus filhos também recebem roupa em segunda mão. Mas repare que só receber roupa usada porque não se pode comprar roupa nova é muito diferente de receber roupa usada para acrescentar à nova. Ao darmos sempre roupa usada estamos a apregoar que os pobres não têm a mesma dignidade que nós. Damos a entender, sem nunca o expressarmos verbalmente e, muitas vezes, nem disso termos consciência, que os pobres são infra-pessoas, ou pessoas de segunda categoria, pessoas que tornamos inferiores por só lhes darmos coisas inferiorizadas por nós, coisas que para nós deixaram de ter valor.

Uma pessoa vulgar ainda pode fazer isso, um cristão não, porque um pobre é um irmão, um seu irmão. Daí que Jesus também tenha dito: «É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que um rico entrar no Reino de Deus» (Mt 10, 25). Nós, os ricos, não precisamos. (Das palavras de Cristo.) Estamos empanturrados. (Com as nossas próprias palavras.) Não ligamos ao que Cristo disse, não acreditamos n'Ele. Temos roupa nova suficiente para sermos felizes sem acreditarmos.

Sem acreditarmos que estamos no mundo para sermos criados dos outros (pobres), para sermos os últimos, para lavarmos os pés. Estamos mas é contentes com as nossas honras, as nossas coisas boas, os últimos ipods, ipads, de não termos que pedir – o que no fundo é uma maldição –, cheios de tudo e ainda mais de pena dos pobres. Mas se até Cristo disse que «pobres sempre os tereis convosco» (Mt 26,11), o que é que se lhe há-de fazer? No fundo, somos ricos demais para acreditarmos que

Um pobre é mais do que nós.

Um pobre é um pequenino.

Um pobre é Cristo.

Um pobre é mesmo Cristo.

Mesmo.

Gonçalo Miller Guerra, s.j.

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