sexta-feira, 25 de março de 2011

Anunciação



"Porque em tudo semelhante
Ele a eles se faria
E viria ter com eles,
E com eles moraria...


Por isso com orações,
Com suspiros e agonia,
Com lágrimas e com gemidos
Lhe rogavam noite e dia...

Uns diziam: Oh! Se fosse
No meu tempo essa alegria!;
Outros: Acaba, Senhor,
Ao que hás-de enviar, envia;
Outros: Oh! Se já rompesses
Esses céus, eu já veria
Com meus olhos que descesses,
E meu pranto cessaria!
Regai, ó nuvens do alto,
Porque a terra te pedia,
E abra-se já a terra
Que espinhos nos produzia,
E produz aquela flor
Com que ele floresceria.

Outros diziam: Oh! Ditoso
Quem em tal tempo vivia,
Que mereça ver a Deus
Com os olhos que possuía,
Tratá-lo com suas mãos,
Estar em sua companhia,
E desfrutar os mistérios
Que ele então ordenaria!

Em estes e outros rogos
Muito tempo passaria;
Porém nos últimos anos
O fervor muito crescia...

Então chamou um Arcanjo,
Que São Gabriel se dizia,
Enviou-o a uma donzela
Que se chamava Maria,
De cujo consentimento
O mistério dependia;
Na qual a Santa Trindade
De carne ao Verbo vestia;

E, embora dos Três a obra,
Somente num se fazia;
Ficou o Verbo encarnado
Nas entranhas de Maria.

E o que então só tinha Padre,
Já Madre também teria,
Embora não como outra
Que de varão concebia,
Porque das entranhas dela
Sua carne recebia;
Pelo qual Filho de Deus
E do Homem se dizia."

São João da Cruz
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