sábado, 23 de maio de 2009

Diário de Maria



Vou contar-vos como o meu filho Jesus me deixou um dia, quando chegou à idade adulta.

Foi por essa altura que morreu o meu esposo José. Jesus e eu estivemos a seu lado e não o deixámos um instante.

José partiu como tinha vivido: em silêncio, sem que quase ninguém desse conta; assim como morrem as estrelas, quando o sol se levanta. Sem barulho e sem se queixar.

Senti a sua falta. Estivemos tanto tempo Juntos! José tinha sido o meu primeiro e único amor. Simples, trabalhador, honrado. Aceitou representar o difícil pape! de pai de Jesus. Sempre silencioso, limitou-se a fazer o que julgava que devia.

Os habitantes de Nazaré e dos arredores, todos o conheciam e gostavam dele. Para eles, Jesus foi sempre "o filho de José", "o filho do carpinteiro" de Nazaré.

Quando José morreu, consolou-me o facto de ter Jesus a meu lado. Com ele sentia-me segura. Jesus e eu ficámos sós. Ele continuou com o trabalho na oficina de José e vivíamos do que ele ganhava.

Jesus, agora já adulto, infundia-me um grande respeito. Nunca lhe perguntei quais os seus planos, o que pensava fazer no futuro. Mas adivinhava que ele trazia dentro de si algo de muito grande, como uma grande fogueira a arder e a iluminar. Jesus era como um novo sol prestes a despontar. Eu estava à espera dessa nova aurora de um momento para o outro. Interrogava-me: "Quando se manifestará essa torrente de luz e vida que Jesus traz dentro de si?"

Os seus companheiros de Nazaré tinham-se ido casando. E um dia fomos os dois, Jesus e eu, a uma boda de amigos seus de infância. Foi em Cana da Galileia. Jesus felicitou os noivos mas jamais pensou em casar-se. Também nunca lhe fiz qualquer pergunta nesse sentido. Sabia que ele queria viver completamente livre, como o vento, como as águias, como a luz... Queria estar inteiramente disponível para a sua missão.

Um dia, tinha ele uns trinta anos e eu perto de cinquenta, ele disse-me, muito decidido, que... me iria deixar, pois tinha chegado a hora de partir para anunciar o Reino de Deus.

Senti muito a sua ausência. Mas era necessário que se cumprisse a vontade de Deus. Faça-se a sua vontade e não a minha. Foi o que lhe disse na hora da despedida.

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1 comentário:

  1. O QUE NÃO TERÁ SIDO


    No tempo do Império Romano, isto é, da ordem jurídica que considerava o imperador como o deus vivo na natureza exclusiva que a ele e acima dos patrícios, os cidadãos juridicamente considerados, o tinha no limiar da divindade que apenas a ele o considerava assim, no meio de todos os deuses, ordem essa que abrangia os territórios onde tem lugar a vida de Cristo, o que não terá sido, sabemo-lo (!), a opção que aqui se relata ...!

    Considerar-se, Cristo, como o Filho de Deus, resgatador irmanado na salvação da Humanidade!?

    Que imensa subversividade e logo no discurso!?

    Pondo em causa, nos seus alicerces, toda a ordem em que o Império assentava!?

    De mãos nuas, despojado ...!?

    Só isto ... quanto mais o resto!


    Jaime Latino Ferreira
    Estoril, 23 de Maio de 2009

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