quinta-feira, 19 de março de 2009

Olá, pai!



As palavras travam-se todas em mim depois deste “Olá pai” por um bom bocado, porque não estou habituado a ele e fico sem saber o que deve vir a seguir. “Olá pai”. Poucas vezes te falei assim, como agora, e nunca me dirigi a ti à frente de ninguém. As minhas conversas contigo sempre permaneceram no mundo mais escondido de mim mesmo. No mais escondido de todos, só acessível a menos de meia dúzia. Havia de chegar o dia em que te falaria assim, chamando-te “pai” à frente de toda a gente, de maneira a que percebam que gosto de ti.

Habitas já o lado eterno da Vida, onde o tempo não passa e as pessoas não se magoam mais umas às outras. Onde o Homem Velho foi definitivamente vencido e todos vivem transfigurados no Amor de Deus. Sem cada um deixar de ser quem é, torna-se Divinamente “outro” pela Assunção da sua Vida nessa Comunhão Familiar Universal com Deus e com todos os Seres Humanos já renascidos. O pecado não existe mais, todos os esforços do Amor foram infinitamente confirmados e as feridas que em nós rasga o mal estão já em processo irreversível de cura. Vives em Deus, e hoje todas as outras palavras para tentar dizer isto que não se diz me parecem demais. Vives no seio de Deus e fazes a experiência plena e perfeita do Amor Paternal-Maternal-Filial de Deus.

Não tiveste tempo de ser velho. Despediste-te com 27 anos, de maneira serena, sem ninguém dar conta, e deixaste saudades, muitas, porque eras um homem verdadeiramente bom. Quem te conhecia amava-te. Há muito tempo que as minhas conversas contigo acontecem onde ninguém mais as conhece, a não ser os teus companheiros e companheiras do Céu, mas eu nunca me dei a mim mesmo a oportunidade de te dizer que “És o Maior!”

Mas és, pai, és o Maior, como todos os pais bons são sempre, os “maiores”. Não tivemos tempo de brincar tudo o que queríamos, e a minha memória consciente guardou apenas pequenos pedaços, momentos, gestos teus. Mas há uma memória que vale por uma vida, uma memória sem rosto até. Lembro-me de estar sentado à mesa da sala, lá na Guarda, e tu de pé por trás de mim, debruçado sobre mim, com a tua mão enorme a cobrir completamente a minha mão direita, a pegares no meu lápis por cima dos meus dedos e a desenhares comigo, uma folha de papel quadriculada, um galo. Sinto-me todo dentro de ti, envolvido nesse gesto de debruçar-se tão profundo e inteiro e seguro na tua mão. Sabes bem que sempre me lembro disso quando falo da Graça de Deus que biblicamente está representada na acção de Debruçar-se, Inclinar-se para Envolver o Seu Povo, para o guardar em Si e conduzir com a Sua mão. Sempre me lembro de ti e deste momento quando falo deste Amor Gracioso de Deus em linguagem bíblica, mas nunca o disse, não sei porquê. Talvez para preservar isto… mas Hoje é o dia de o partilhar. E tenho a certeza que ganha ainda mais sabor assim, mais força, mais verdade. Já experimentei bem isto na vida, pai, que se torna mais nosso aquilo que partilhamos. Tu disso sabes melhor do que ninguém, porque no Céu todos são mestres nestas coisas…

Andava a sentir dentro de mim uma vontade enorme de dizer que gosto de ti sem que ficasse apenas no nosso segredo. Sabes, nunca te fiz uma homenagem. Não daquelas cheias de tretas inúteis, mas um gesto simples, como este, hoje, de dizer-te estas coisas e agradecer-te seres meu pai.

És o grande amor da vida da mãe. Já passaram outros 27 anos desde que te despediste de nós, e continuas a ser o maior amor da vida dela. Continua a falar de ti com um carinho que às vezes comove, com uma ternura inesgotável e com uma admiração profunda. A mãe admira-te. Acha muito bonita a maneira como tu fazias as coisas e te davas às pessoas. E até se ri do jeito meio desengonçado que tinhas para lidar com os momentos mais chatos comigo. Quando eu fazia asneira e precisava de um ralhete valente, tu saías e ias dar uma volta ao quarteirão porque sabias que eu precisava de aprender mas não eras capaz de estar lá. Davas a volta, abrias a porta, metias a cabeça e se ainda não tinha terminado davas mais uma. Eu era o teu menino. Eu sou o teu menino, porque para os pais nunca crescemos de meninos.

Tanto tempo e tantas aventuras e desventuras nestes 27 anos não foram capazes de apagar o amor da mãe por ti. Pôssa, que a agarraste mesmo pelo beicinho. Até continua a sonhar contigo. Lembro-me de que quando era adolescente e a mãe me contava alguma vez que tinha sonhado contigo, eu ficava todo contente.

Nunca encontrei ninguém, ninguém, que não falasse de ti com uma enorme exclamação de respeito, com admiração mesmo. Gosto de ti, pai, gosto muito, e confirmas a certeza de que a vida de uma pessoa não vale pelo número de anos que vive mas pelas pessoas que cabem dentro de si.

As pessoas sorriem quando falam de ti. Todas. E muitas têm histórias para contar. Eras um brincalhão descontraído, vivaço, inteligente. E bonito, toda a gente diz. Quem trabalhou contigo não te chama manguela e eras um companheiro fantástico. Já estive com colegas teus de trabalho que, passados estes anos todos, mal falam de ti choram, logo! “O Pedro, o Pedro… nunca conheci ninguém como ele.” Tenho vaidade em ser teu filho. Muita. Tenho muita vaidade em ser teu filho. Foste capaz de te fazeres amar tão bem por tantos.

Olha, sentia muito a necessidade de fazer isto. Dizer-te que gosto de ti desta maneira, sem ser apenas um segredo nosso. Dizer-te que sinto uma vaidade enorme quando lá na aldeia dizem que sou a “cara chapada” do pai e que tenho o teu corpo, os teus ombros, o teu tronco, a tua voz, só que sou um bocado mais alto. Sinto uma vaidade enorme por haver ainda tanta gente lá na aldeia que olha para mim e me chama “Pedro”. Toda a minha infância foi assim… a chamarem-me Pedro! E eu adoro. Nunca corrigi. Porque és um homem bonito, uma pessoa extraordinária que deixou uma marca de vida tão profunda e generosa em outras pessoas, que me dá vaidade ser a expressão mais visível da tua passagem por aqui.

Sou teu filho, pai, e gosto muito. Tenho vaidade em ti. Na maneira como as pessoas te recordam e mãe ainda te ama.

Tinha que haver um dia em que tinha este gesto contigo… Tinha que haver. Hoje é um bom dia. Amo-te pai.

Amo-te pai. Continua assim, Vivente já da Vida de Deus, debruçado sobre mim, envolvendo-me com essa Vida no Espírito que vives, Presente como Re-Suscitado e amando-me com esse amor de jeito paternal que ainda tiveste tempo de treinar comigo e foi plenificado no seio do Abba, fonte de toda a Paternidade.

Até já.
Rui Santiago
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2 comentários:

  1. QUADRICULADO


    Não desconverso, um pai é um pai e ao meu, homenagiei-o em vida e na morte.

    E não era, julgo que nunca o é (!?), um pai fácil ...!

    Mas retenho-me, agora, naquela imagem de um pai debruçado sobre o filho cobrindo-lhe a mão para desenhar, numa folha de papel quadriculado, um galo, o amanhecer, o canto, a alvorada.

    Como um pai ou uma mãe, a quadrícula é uma matriz impressionante:

    Feita de quadradinhos ela também é, por definição, feita de imensas cruzinhas ...

    É um papel organizado e que dá para nele tudo se esboçar:

    Se por inerência ela é a grelha clássica da matemática é-o também da geometria, dá, ainda, para a estatística, para o desenho, para a escrita musical onde facilmente se esboça uma pauta, para a escrita pura e simples e nessa sua formatação organiza, como nenhum outro, no espaço e no tempo.

    Ao fazê-lo, organiza-nos também interior, cerebralmente.

    Devia ser um bom pai esse que sobre o filho se debruçava assim, numa folha de papel quadriculado!

    Eu, que sou pai, ainda hoje é o tipo de papel que uso para um qualquer rascunho manuscrito e seja de que ordem for.

    Trago sempre comigo um caderninho de bolso em papel quadriculado!

    Tenho-o por grelha universal ...

    De onde vem esta mania!?

    De meu pai?

    Da escola?

    Da idade adulta?

    Que ricos pais, dou graças meu Pai (!), eu tive por aí!


    Jaime Latino Ferreira
    Estoril, 19 de Março de 2009

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  2. Bela homenagem!Sempre é tempo de se dizer o que se sentiu e ficou guardado!

    Um abraço!Sonia Regina.

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