sábado, 25 de junho de 2016

Anatomia do invisível




Só se pode ver uma pequena parte do mundo. A maior parte das suas belezas não são visíveis. Distinguir entre o que é simples aparência e o que tem valor, ainda que por baixo de um manto sujo ou feio, é o maior de todos os desafios em que nos devemos lançar.

Há quem não reconheça a existência do amor só porque não o pode ver. Mas será que alguém duvida da existência do ar? E do vento, que é ar em movimento?

Tocamos a vida como uma música. E ela toca-nos. Somos compositores, instrumentos e sinfonias. Com falhas e desafinações, imensos altos e baixos... mas sempre para diante e mais alto... rumo ao céu.

Precisamos de aprender a fechar os olhos às superficialidades e a fixar o olhar no que tem verdadeira beleza... confiarmo-nos à luz que nos ilumina o coração, que nos aquece a vontade e é a raiz das nossas forças mais íntimas.

Podem até os olhos incendiar-se com lágrimas ardentes, mas não devemos nunca deixar de acreditar que um dia veremos a verdadeira paz, aquela que só merece quem vive sem grandes exigências.

Afinal, aquilo que os nossos olhos veem é só a aparência, a parte de fora. Importa olhar para dentro das coisas, para o nosso íntimo e para o dos outros...

Tal como numa bela melodia, o silêncio que se lhe segue ainda faz parte dela. Por vezes, importa pararmos... para sentirmos o nosso coração – que não vemos… para admirar o invisível... para agradecer... para sonhar... e para aprendermos a dar o melhor que somos e sonhamos ser.

Na vida, mais do que a excelência de uma nota, o que importa é o que se toca e a forma como se toca... e o silêncio que se segue...

E o que fica... depois de tudo o resto passar.



JOSÉ LUÍS NUNES MARTINS
Ilustração de Carlos Ribeiro

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