sexta-feira, 27 de maio de 2016

Onde vive um coração puro?



Estimada amiga,
De que lhe serve ser sincera quando não tem nada de bom para dizer? Muitas pessoas confundem franqueza com verdade e permitem-se dizer os maiores disparates, julgando que qualquer coisa que digam sem intenção de mentir será verdadeira e valiosa... mas não é bem assim.

Tente ter cuidado com o que diz. Mais ainda quando se zanga. A fúria é um animal selvagem que se lhe dermos espaço, em pouco tempo, acaba por usar as nossas forças para destruir tudo, sem distinguir entre o que é bom e o que não é. No fim, depois da explosão, fica apenas a raiva, o cansaço e o remorso que começa a nascer. Pouco depois, surge sempre a errada ideia de que, com um pedido sincero de desculpas, tudo voltará a ser como dantes.

Quando tiver algo a dizer, diga-o, de forma breve, concreta e tão simples quanto possível.

Quem nos ama saberá o que sentimos com uma simples troca de olhares. Quem não nos considera não passará a fazê-lo com base nas nossas palavras, por mais inspiradas, verdadeiras e autênticas que sejam.

O silêncio pode ser uma lâmina afiada capaz de trespassar o coração mais forte, mas pode também ser a mais importante das armas na defesa do bem.

Há uma imagem que me parece cada vez mais acertada: quando algo é bom vale por si mesmo, não está nunca dependente de elogios.

Peço-lhe que considere as minhas palavras, não como uma lição, mas como um desabafo de quem, há já algum tempo, anda nesta guerra contra as palavras que escondem mais do que mostram... com mais derrotas do que vitórias.

Um coração puro vive num castelo, não num palácio.

No castelo, o coração está protegido e só quando vale a pena é que se abre e dá aos outros.

No palácio, em vez de guardar o coração dentro dele como seu tesouro, aposta tudo na simples aparência... e é vazio. Mostrando-se sem distinção a tudo quanto passa.

Obrigado, muito.



(Ilustração de Carlos Ribeiro)

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