segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Nascemos e não mais morreremos




Morrer aos 28 anos? Que absurdo! Morrer aos 28 anos não faz sentido. Morrer quando se tem um bebé pequeno para criar ainda mais drama acrescenta. Quando se vem a saber que preferiu evitar tratamentos prejudiciais à vida do bebé durante a gestação e que isso lhe custou a vida, começa a perceber-se que não há apenas uma tragédia: há também escolha; uma escolha impressionante. Depois, recuando ainda mais para trás, vem-se a saber que já tivera um outro filho: nascera com malformações e vivera meia hora após o parto. Um pouco mais para trás e, de novo, uma filha existira antes dos outros: crescera com uma anencefalia e vivera apenas meia hora depois do parto. E assim se percebe nas entrelinhas que estes pais levaram três gravidezes até ao fim: por três vezes, e as três vezes em condições adversas.

Ou seja: toda a história é uma tragédia difícil de digerir, do princípio ao fim. A dor, a doença, a impotência, são todas promessa de um futuro truncado, arrancado, mutilado. E ninguém gosta de entrar nestas realidades. Mas, em todo este tempo, e apesar de todos os altos e baixos, Chiara e Enrico sentiram-se nas mãos de Deus e a viver tudo com uma paz de fundo que os deixava perplexos – a eles, a todos aqueles que os acompanhavam; e, agora, aos que os vão conhecendo. A verdade é que, contra todas as expectativas, desprende-se da história deste casal um perfume inconfundível a eternidade.

Foi esse contraste que me convenceu que algum dia teria de a conhecer melhor. Já em tempos a encontrara numa revista italiana; depois, em Lisboa, não perdi a oportunidade de ir à apresentação do livro “Nascemos e Jamais Morreremos”, onde se relata a história de Chiara: por coincidência, naquela noite, cheguei ao mesmo tempo que os principais protagonistas desta história e pude dar pessoalmente o ‘benvenuto’ ao Enrico (pai), ao Francesco (filho), ao Simone e à Cristiana (amigos do casal e redatores do livro). Durante a sessão sentiu-se mais uma vez a vibração daquele silêncio perfumado, misto de admiração e comoção - típico de ambientes cheios de Deus. E, mais uma vez, aquela tragédia se converteu em luz para todos os que ouviam o seu relato.

Finalmente peguei no livro e passei uma tarde inteira de mãos dadas com a Chiara. Naquele italiano musical, contou-me como foram aqueles anos de namoro; as peregrinações e a procura da vontade de Deus; a decisão de casar; a primeira gravidez, tão súbita e, depois, tão peculiar: meia hora de vida com frutos tão inesperados; a segunda gravidez e, de novo, a morte [aos nossos olhos] prematura; finalmente, o filho [aos nossos olhos] saudável e, em simultâneo, a surpresa do carcinoma nela própria, a exigir tratamento imediato. E a decisão natural de deixar a vida em gestação crescer e desenvolver-se em detrimento do combate ao ‘dragão’ do cancro - que sorrateiramente lhe ia invadindo o corpo. Curiosamente, grande parte destes acontecimentos, a passarem-se ao mesmo tempo em que eu vivia uns quarteirões ao lado, no centro de Roma.

A naturalidade com que me falava de Deus era a de quem já nesta terra vivia a vida eterna. Confirmou em mim a certeza de que a vida eterna não é algo que venha lá longe, a qual devamos esperar, mas algo que podemos viver já, aqui e agora. E, nesse sentido, é mais compreensível que as provas que a vida lhe trouxe as tomou não como castigo ou carga insuportável: tornaram-se a oportunidade de testemunhar, manifestar, evidenciar o maior tesouro que alguém pode ambicionar: a fé, a confiança inabalável, a intimidade com Deus.

A mim, fez-me perceber melhor como é possível viver em simultâneo dor e bênção, sofrimento e alegria - não como antítese uma da outra mas como síntese uma com a outra. Fez-me perceber melhor a Paixão de Cristo. Agradeço-lhe ter-me ajudado a entrar na Semana Santa com outra preparação - tempo a ser vivido com esse mesmo silêncio perfumado, misto de admiração e comoção, a que a história de Chiara inspira - e ter-me ajudado a preparar os inevitáveis tempos de 'Paixão' que a minha vida me há de trazer. Se tivesse de resumir a aprendizagem recebida com Chiara diria: "Não tenhas medo. A vida há de trazer dores e dificuldades mas nenhuma é superior a Deus. Prepara-te nEle, no Seu amor, e Ele tornar-te-á capaz de qualquer travessia".

Morreu no dia 13 Junho 2012, aos 28 anos. E, de facto, pode ter sido um absurdo - se quisermos ler a história apenas à luz da razão - à luz dos nossos planos, desejos e ambições ainda demasiado terra-a-terra. Mas quem disse que a vida se confina a isso? Quem disse que a morte biológica é o fim de tudo? A história de Chiara é uma prova viva de que quando se morre, não se morre: nasce-se de novo; desta vez para o Céu. Atrás de si, Chiara deixou um rasto de luz, daquela luz que não se vê com os olhos mas com o coração. E não será essa a melhor luz? 

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