sábado, 21 de junho de 2014

Tesouro escondido



Na rota do sofrimento, escutamos histórias de vida que nos fazem perceber que Deus não está fora da cidade. Uma idosa da idade de minha mãe conta a sua aventura e resume a sua vida numa simples frase:

- "Nunca tive nada por meu; tudo o que tive partilhei com filhos que adotei, com os pobres que sentava à nossa mesa". 

Noutro lugar, há uma filha que deixa o emprego, para cuidar da mãe, que não a conhece nem reconhece, por causa da doença de Alzheimer. E diz-me, resoluta: 

- "No larnão a ponho, nem pensar. Se não der para o bife no prato, dá para uma sopa na tigela". 

Noutro lugar, aprecio a coragem de um homem, a quem coseram a mão a sangue frio, e que se orgulha das "medalhas" que tem na mão. Mas há uma velhinha, que me faz soltar uma risada, que acordou a vizinhança. Já depois de alguns minutos, como se nos conhecêssemos há anos, ela debita esta sabedoria evangélica: 

- "Sabe, Sr. Padre, não me tenho confessado e sempre que vou à Igreja o Padre está apressado. Chega a hora da comunhão e eu digo a Nosso Senhor: «Óh Senhor, eu queria receber-Te, depois da confissão. Mas como o Padre não está e eu estou cheia de vontade, não Te importas e eu vou comungar?!».E - diz a velhinha com humor cristão - "e eu lá vou à comunhão convencida que Nosso Senhor vai cá na conversa fiada da velhota". 

Depois conta-me a sua história do seu amor a Cristo e eu sinto-me ainda mais pequeno do que ela. Quer-se confessar e eu lá me volto para ela e, com brilho nos olhos, depois da absolvição, no fim, diz isto que arrepia o mais incrédulo: 

- "Hoje o céu entrou pelas telhas da minha casa dentro. Obrigado, meu Jesus". 

E eu lá vou dizendo baixinho. 

- "Oh meu Deus, ó Padre Gonçalo, tinhas aqui um tesouro escondido no meio do betão e só hoje o descobriste. Talvez te tenhas de confessar pela demora".

Pe. Amaro Gonçalo

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