quarta-feira, 7 de maio de 2014

Deus em primeiro lugar


   
"Não ficou sem fruto a discussão difícil e intrincada, pois um dos temas – o primeiro a ser examinado e o primeiro, em certo sentido, na excelência intrínseca e na importância para a vida da Igreja –, o da sagrada Liturgia, foi felizmente concluído e é hoje por Nós solenemente promulgado. Exulta o Nosso espírito com este resultado. Vemos que se respeitou nele a escala dos valores e dos deveres: Deus, em primeiro lugar; a oração, a nossa primeira obrigação; a Liturgia, fonte primeira da vida divina que nos é comunicada, primeira escola da nossa vida espiritual, primeiro dom que podemos oferecer ao povo cristão que junto a nós crê e ora, e primeiro convite dirigido ao mundo para que solte a sua língua muda em oração feliz e autêntica e sinta a inefável força regeneradora, ao cantar connosco os divinos louvores e as esperanças humanas, por Cristo Nosso Senhor e no Espírito Santo" (Paulo VI, Alocução no encerramento da 2ª Sessão do Concílio Vaticano II, 04-XII-1963).

Estas palavras foram pronunciadas pelo Papa Paulo VI ao terminar a segunda sessão do Concílio Vaticano II e ao promulgar o seu primeiro documento: a Constituição Sacrosanctum Concilium. Colocam-nos perante um tema que tem sido constante no magistério pontifício destes cinquenta anos: recuperar o primado de Deus. De facto, como tem recordado anos mais tarde Bento XVI, referindo-se ao Concílio Vaticano II: "Por meio deste começo com o tema da liturgia, punha-se de manifesto inequivocamente o primado de Deus e o primado do tema de Deus: Primeiro Deus, é o que nos diz o começar pela Liturgia" (Bento XVI, Prefácio, Obras completas, vol. 11).

Na nossa opinião, poder-se-ia afirmar que o Vaticano II começando pela liturgia deu ao Concílio uma arquitectura precisa: o primado da adoração, porque o primeiro é Deus. Assim colocava-se na linha da Regra beneditina: "Operi Dei nihil proponatur", que nada se anteponha à obra de Deus. Por sua vez, a Constituição Lumen gentium, sobre a Igreja, estaria essencialmente ligada à anterior. A Igreja deixar-se-ia guiar pela oração, pela missão de glorificar a Deus. Neste sentido, parece lógico que a terceira Constituição – Dei verbum – fale da Palavra de Deus que em todo tempo convoca e renova a Igreja. Finalmente, a quarta Constituição – Gaudium et spes – mostraria como tem lugar a glorificação de Deus na vida activa: levando ao mundo a luz recebida de Deus, o mundo transforma-se e converte-se plenamente na glorificação de Deus. A glória de Deus é o homem vivente (cf. 1 Co 10, 31). E a vida do homem é a visão de Deus, como dizia Santo Ireneu.

Recuperar este "primado" de Deus era um objectivo fundamental do Concílio Vaticano II. E continua a sê-lo. João Paulo II recordou-o aos 25 anos da Sacrosanctum Concilium, e agora o Papa Francisco continua a recordar essa necessidade de dar a Deus o primeiro lugar: "Não é útil dispersar-se em muitas coisas secundárias ou supérfluas, mas concentrar-se na realidade fundamental que é o encontro com Cristo, com a sua misericórdia, o seu amor, e em amar os irmãos como Ele nos amou. Um encontro com Cristo que também é adoração, palavra pouco usada: adorar a Cristo (Discurso ao Conselho Pontifício para a promoção da Nova Evangelização, 14-X-2013).

Com a sua linguagem directa, o Bispo de Roma pergunta: "Tu, eu, adoramos o Senhor? Vamos ter com Deus só para pedir, para agradecer, ou vamos até Ele também para O adorar? Mas então que significa adorar a Deus? Significa aprender a estar com Ele, demorar-se em diálogo com Ele, sentindo a sua presença como a mais verdadeira, a melhor, a mais importante de todas" (Papa Francisco, Homilia na Missa em S. Paulo Extramuros, 14-IV-2013).

Este significado de adoração, que apresenta o Papa Francisco, tem consequências práticas imediatas que se referem aos edifícios de culto e às celebrações litúrgicas. Concluímos com as suas palavras concretas e directas que movem ao exame e a pôr-se em caminho: "O templo é o lugar onde a comunidade acorre para rezar, louvar o Senhor, agradecer. De facto, no templo adora-se o Senhor. Este é o ponto mais importante. E esta verdade vale para todo o templo e para toda a cerimónia litúrgica onde aquilo que é mais importante é a adoração, não os cânticos ou ritos, embora sejam belos. Toda a comunidade reunida olha para o altar onde se celebra o sacrifício e adora. Humildemente creio que nós os cristãos talvez tenhamos perdido um pouco o sentido da adoração. Pensamos: vamos ao templo, reunimo-nos como irmãos, e isto é bom, é belo. Mas o centro está ali onde está Deus. Nós adoramos a Deus” (Homilia, Casa de Santa Marta, 22-XI-2013).


JUAN JOSÉ SILVESTRE
Professor de Teologia Litúrgica
Universidade Pontifícia da Santa Cruz (Roma)
Artigo publicado na revista “Palabra” (Madrid, Janeiro de 2014)

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