quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Pedir



É um verbo humaníssimo, este verbo pedir. Pedimos coisas diferentes e de formas absolutamente variáveis. Quando nascemos, começamos por pedir aos gritos que partam em nosso socorro, antes de termos as palavras. Quando aprendemos a usá-las, ganhamos talvez maior tranquilidade no pedir, mas nem sempre. Pedimos porque não nos bastamos a nós próprios. E isso, que seguramente é um elemento que nos redime, não deixa de ser igualmente uma ferida. O léxico do pedir é prolífero, mas também inconstante. Pedimos com simplicidade e com inúmeros rodeios. Mantemo-nos fluentes ou gaguejamos, mergulhados numa insegurança que nos tolhe.

Pedimos oralmente, por escrito, por entreposta pessoa, de forma ostensiva ou subtil, ou, até, com maior ou menor consciência de que um pedido está a ser formulado. Há mesmo momentos da vida (e não são poucos) em que faríamos tudo para não ter de pedir. Esta dificuldade nem sempre é má Precisamos de autonomia para maturarmos o nosso caminho pessoal, e todas as dependências de que a vida se tece só ganham em ser sacudidas e purificadas por um espírito de liberdade que se afirma. Pedir pode tornar-se um obstáculo a aprendizagens que estão perfeitamente ao nosso alcance. Mas o contrário também é verdade, pois crescemos no reconhecimento de que sem os outros nós não somos. De entre todos os pedidos, os que nos custam mais são os mais simples, aqueles imateriais, e que se prendem com a arquitetura (ou arquitextura, como ensinou Derrída) das relações: pedir amor, pedir desculpas, pedir presença, conversa, calor, compaixão. Aí é tão fácil ficar enredado em engulhos, coisas não-ditas ou mal-entendidas.

Penso muitas vezes num pedinte que conheci em Roma. Era (e é) impossível não dar com ele quando se visita a cidade. Eu estava sempre a esbarrar com uma das suas passagens: à saída da universidade, da biblioteca, do cinema, no Campo das Flores, em São Pedro, por todo o lado. De dia ou de noite. Um homem que andará hoje pelos sessenta anos de idade, com um porte discreto, delicado até. Abeira-se dos passantes com duas perguntas. «Fala italiano?» - atira primeiro. E, qualquer que seja a resposta, dá o passo seguinte. Pegando cuidadosamente numa moeda entre os dois dedos e colocando-a perto dos nossos olhos, roga: «Tem 100 liras?». Conheci-o assim, ainda antes do euro. Com a integração na moeda única, ele também se ajustou, passando a pedir 10 cêntimos.

A primeira vez que a sua interpelação nos é dirigida pensamos que se trata de alguém que precisa de completar a quantia necessária para um bilhete de metro ou para uma fatia de pizza. Depois de o encontrarmos centenas de vezes, ficamos sem saber exatamente o que pensar. Assisti, porém, a uma cena que porventura pode esclarecer parte do enigma.

Numa rua, à volta do Panteão, estava sentado um outro mendigo. Melhor seria dizer que estava prostrado. Com um vestuário andrajoso, um braço deformado por caroços, um ar que trazia misturado tudo: dor e exclusão. À distância, vejo o pedinte aproximar-se dele. E, para meu espanto, percebo que repete ao mendigo a cantilena que faz a todos os outros, mostrando-lhe insistentemente uma moeda. Talvez para afastá-lo, talvez vencido pela compaixão, vejo que o mendigo tira do seu prato uma moeda que lhe entrega. E foi neste momento que a cena se tornou inesquecível. O pedinte ajoelha-se ali diante de todos, agarra as mãos do mendigo e beija-as repetidamente, turbado pela emoção. Penso que finalmente o percebi. Ele não pedia moedas. Pedia um bem mais raro e vital: pedia o dom.


José Tolentino Mendonça
In Expresso, 23.11.2013

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