terça-feira, 29 de outubro de 2013

Deixar por acabar a letra começada




Santo Inácio diz, nas constituições da Companhia, quando trata da obediência de um jesuíta - «devemos deixar por acabar até a letra começada, ou qualquer outra coisa, e aplicar no Senhor de todos, toda a intenção e todas as forças para que a santa obediência seja em tudo perfeita».

Apesar de a expressão ser usada por Sto. Inácio aplicando-a aos jesuítas, penso que pode estender-se sem dificuldade a qualquer outra pessoa, no que se trata de obedecer à própria consciência. Por exemplo, uma das coisas que dizemos e ouvimos com frequência é «eu devia...», muitas vezes dito em tom de lamento ou de impossibilidade de fazer alguma coisa. No entanto, a verdade é que nem sempre estamos impossibilitados de fazer aquilo que «devíamos», a verdade é bem mais triste: muitas vezes somos vítimas de nós mesmos, quando nos deixamos levar pela indolência e pela procrastinação. O que é feito do velho ditado «não deixes para amanhã o que podes fazer hoje»? Quantas vezes é transformado no contrário e acabamos por arrastar indefinidamente as coisas que temos de fazer? Quem nunca estudou à última da hora? E porquê? Por falta de tempo, ou porque as bibliotecas fecham cedo, ou...? E quem fala do estudo, fala do exercício físico, ou daquele telefonema para aquela pessoa, ou... ou de aceitar fazer uma coisa que nos foi pedida e pô-la à frente das nossas prioridades.

Nem tudo se pode controlar e nem tudo pode ser atribuído à nossa responsabilidade. Mas, a verdade é aconteceu também que algumas respostas e contribuições importantes para que a mudança se efectuasse chegaram tarde. E este exemplo é como tantos outros na vida de cada um, em que tantas vezes se frustram desejos, nossos e dos outros, ou, pior, não se respondem a necessidades nossas ou de outros.

A justificação que muitas vezes se ouve de que «só trabalho bem sob pressão» é, penso, apenas uma forma de dizer que «só me motivo sob pressão», pois a pressão não nos permite rever, corrigir e aperfeiçoar o que fazemos, não nos permite ter tempo para procurar diferente possibilidades e compará-las, etc. Parece que só a emergência nos faz, de facto, deixar as nossas coisas por acabar, para pormos toda a intenção e todas as forças para que a obediência a um apelo, que passa sempre pela nossa consciência, seja perfeita!

Vejo nesta falta de disponibilidade e de prontidão um exemplo muito concreto do que pode ser pecar por omissão.

Claro que não quero apontar o dedo a ninguém senão a mim próprio, mas tendo como ocasião a concretização de uma mudança no essejota.net, proponho que façamos um exame à nossa consciência, àquilo que «devíamos fazer» e aos desafios que nos são lançados. Para uma consciência minimamente formada e na generalidade dos casos não será muito complicado perceber se o que temos diante de nós é algo para a construção do Reino do «Senhor de todos», ou não.

Só mais um pormenor: a prontidão com que damos uma resposta pode ser um gesto de amor, mesmo quando respondemos negativamente, não deixando a outra pessoa «pendurada»!

Frederico Lemos, sj 


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