segunda-feira, 18 de junho de 2012

Sabor a Vida Nova




Somos colaboradores de Deus na tarefa da nossa criação. De facto, nós nascemos para nos construir. Levamos no mais íntimo do nosso ser uma interioridade espiritual a crescer. Podemos dizer que no interior do nosso ser corporal emerge o nosso ser espiritual como o pintainho dentro do ovo.

Isto quer dizer que não somos uma alma estática vinda de fora e entrando no nosso corpo como algo acabado. O nosso ser exterior é o útero generoso que abriga a nossa vida espiritual, possibilitando a sua plena gestação. A bíblia chama coração ao núcleo mais nobre do nosso ser espiritual e que é o ponto de encontro com Deus e os outros.

Na verdade, Deus criou-nos para o encontro e a comunhão. Para podermos ser autores de nós mesmos, Deus não nos criou acabados. Por outras palavras, Deus criou-nos, para que nos criemos. É por esta razão que, ao nascer, já trazemos connosco um leque de talentos que tornam possível a nossa realização. Isto quer dizer que começamos por ser o que os outros fizeram de nós, pois é deles que recebemos a matéria-prima para nos criarmos. Não escolhemos a raça, a língua, a família, a cultura ou a nacionalidade. Encontrámo-nos na vida com estes dados já estabelecidos. Apesar de não os termos escolhido, estes formam o conjunto primordial, isto é, o alicerce sobre o qual vamos a estruturar o nosso ser.

Levamos no mais íntimo de nós uma pessoa a estruturar-se modo livre, consciente, responsável e capaz de amar. Como o leque dos talentos não se repete, a Humanidade está a emergir no concreto de cada pessoa de modo único, original e irrepetível. Isto quer dizer que está a emergir dentro de nós uma obra-prima feita de espírito cuja matriz é o nosso corpo feito de barro. A força que faz emergir esta obra-prima é a dinâmica das relações de amor.

Isto quer dizer que a emergência do nosso ser interior é uma tarefa que ninguém pode realizar por nós, pois Deus criou-nos para que nos criemos. É verdade que Deus está connosco, mas não nunca nos substitui.

Nascemos para renascer e comungar. O nosso ser interior, por ser por ser pessoal e espiritual é definitivo e eterno. O nosso ser exterior, pelo contrário, é passageiro e mortal. Envelhece e vai-se degradando de modo progressivo e irreversível. É por esta razão que Jesus diz que temos de renascer pelo Espírito Santo, a fim de na Comunhão da Família de Deus (Jo 3, 6). À medida que o Homem renasce pelo Espírito Santo, vai-se unindo a Cristo de modo orgânico. É assim que emerge o Homem Novo, o qual se opõe ao Homem velho que unido ao velho Adão de modo orgânico.

São Paulo diz que o Homem Velho se vai degradando de modo gradual, enquanto o Homem Novo se vai robustecendo pela acção do Espírito Santo. Eis as suas palavras: “Por isso não desfalecemos, pois ainda que em nós o homem exterior vá caminhando para a ruína, o interior vai-se renovando dia a dia. Na verdade, a nossa tribulação passageira proporciona-nos um peso eterno de glória, para lá de qualquer medida. Nós não nos fixamos nas coisas visíveis, mas nas invisíveis, pois temos consciência de que as coisas visíveis são passageiras, enquanto as invisíveis são eternas (2 Cor 4, 16-18).

Com o acontecimento da morte o nosso ser interior, nasce para a plenitude, entrando nas coordenadas da universalidade. Nesse momento torna-se presente a todos os seres pessoais que constituem a Comunhão Universal.

A nossa identidade espiritual consiste no nosso jeito de amar e é eterna. Isto quer dizer que seremos eternamente tal como nos fomos realizando na História. É agora o tempo de nos construirmos. É esta a nossa vocação fundamental.

Calmeiro Matias

1 comentário:

  1. FONTE DE VIDA

    "A nossa identidade espiritual consiste no nosso jeito de amar e é eterna.."

    É este o nosso tempo e nele nos devemos desejar melhores, melhores no que de mais portentoso, porque de mais belo, nos implicamos em Ser: Fonte de Vida.

    Belíssimas de tão certas estas Palavras de grande plenitude de Vida,
    acessíveis a qualquer um de nós.
    Obrigada, Padre Nuno.

    dulce ac

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