terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Salmo 169



Perseguimos a vida toda um Amor à medida do Teu, Senhor… ao jeito do Teu…
...e é tão bom encontrá-lo em Ti,
descobrir-te assim, liberto dos mantos que milenarmente têm revestido todas as divindades,
sempre tão iguais umas às outras…
Não precisamos de divindades. Precisamos de Salvação!
É isso que passamos a vida inteira a perseguir,
a Salvação dos nossos dias, as experiências que nos façam acreditar
que vale a pena nascer amanhã de novo.

A nossa história está cheia de divindades que nos estorvam!
Precisamos de quem nos Salve!
Para acinzentarmos os nossos dias, bastamo-nos a nós mesmos.

Precisamos de Ti, assim, meu Deus, meu Senhor e meu Dono…

É tão libertador chamar-Te meu Dono…
...meu Dono… é como sentir-me de pé na palma da Tua mão,
com espaço e lugar para tudo. Na palma da Tua mão… de pé!

As divindades são todas previsíveis.
Afinal, querem sempre todas as mesmas coisas,
porque padecem todas dos mesmos egoísmos, manias e moralismos.
As divindades deixaram de nos surpreender,
e por isso as religiões deixaram de nos interessar.
Ainda bem!

Precisamos de Ti, Senhor, Deus que me escapas,
que explodes por dentro os meus esquemas fechados,
que matas de espanto todas as minhas certezas de Ti… Porque és Livre!
Se és Deus de verdade não pertences a ninguém, para Te poderes dar a todos.
Se és Deus de verdade, não Te deixas ser a estátua de nenhum grupo.

Não precisamos de uma divindade para regular a nossa vida,
para medir os nossos actos, bons e maus,
para julgar as nossas decisões, as benevolentes e as injustas…
De que nos serve isso senão para nossa maior perdição?!

Precisamos de um Deus que nos salve da nossa maldades e nos cure das nossas injustiças!
Não nos faz falta mais um sentado num trono a julgar da distância intransponível do seu poder as violências que exercemos uns sobre os outros. Precisamos de quem nos salve disso, quem deixe frio o seu trono por séculos de ausência, um Deus a quem se revolvem as entranhas diante das nossas injustiças, um Deus que mergulhe nos pedaços mais lamacentos da nossa história para encarnar o corpo de grito, gemido, apelo, sangue, perdão, conversão, cura, fracasso, morte e ressurreição.

Chamo por Ti, meu Deus…
capaz de fazer da Esperança uma coisa de pessoas concretas e escolhas com futuro,
audazes, mais fortes que o medo ou o desencanto.
Chamo por Ti, meu Senhor…
capaz de fazer da Fé um compromisso com o futuro
que está mesmo encostado à biqueira dos nossos pés
e de nos dar olhos cravados na Tua Lealdade salvadora e não-desistente.
Chamo por Ti, meu Dono…
capaz de fazer do Amor a força mais poderosa do Universo
e a energia salvadora que é dom para todos os povos.

Chamo por Ti sempre novo, sempre mais,
até que eu mesmo me dilate à medida do Homem Novo,
Jesus o Re-Suscitado,
num acto gratuito e livre da Tua parte pelo qual,
na plenitude dos meus dias, serei transfigurado na totalidade da condição filial.

Agora caminho… Caminho…
E tento dar aos meus pés o vigor de gente salva,
aos passos a direcção que toma um Filho que vai para a Casa do Pai,
às palavras a cor de quem vive apaixonado por um Projecto maior que tudo,
ao gestos a verdade de quem acredita que vivemos para sempre
e ao Coração a firmeza da Esperança…
…e, tudo em mim, meu Deus, meu Senhor e meu Dono,
esteja mergulhado na surpresa permanente de Ti,
de seres todo para mim sem Te tornares meu domínio,
de seres origem de todas as coisas
e me convidares para ser Par de uma Aliança de Amor contigo…

Tudo em mim, meu Dono,
desperto
na expectativa de ver o Teu Rosto e escutar a Tua Voz
como quem se espanta e admira pela primeira vez.
Porque é sempre a primeira vez,
mesmo nesta nossa história que se vai arrastando em tantas memórias de coisas gastas.
É sempre a primeira vez até ao Dia,
esse Dia glorioso e esperado, em que tudo, definitivamente, será NOVO!

E morreremos de espanto eternamente em Ti!
E nasceremos de amor eternamente por Ti!
E perder-nos-emos de riso eternamente contigo
por causa destas palavras com que vamos arranhando o Mistério da Vida
e tentando dizer o Teu Nome enquanto descobrimos o nosso…

Rui Santiago

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