do Lat. ciboriu; s. m., a parte mais alta que exteriormente remata ou cobre a cúpula das grandes igrejas ou dos edifícios monumentais. Este blog é, na sua grande maioria, partilha de videos e textos de diversos autores que recebo diariamente. Com a visão dos outros podemos ver mais alto, mais longe...
segunda-feira, 28 de setembro de 2015
Todos
E às vezes julgamos que as crianças não entendem o ambiente onde vivem. A Tiana tem 6 anos, mora com a sua mãe solteira e da última vez que o pai a visitou, houve um conflito entre eles. Cansada, ela resolveu ter uma conversa séria com a mãe. Ora vejam...
Adorable girl tell her parents not to fight
‘Mom, are you ready to be his friend?’ Tiana starts.
Her mom answers 'yes'.
Tiana continues: Try not to be that high up [she gestures with her hands] to be friends, I want everything to be low. Just try your best.
'I don't want you and my dad to be replaced and meanies again. I want you and my dad to be placed and settled and be friends.
'I'm not trying to be mean. I just want everyone to be friends.
'And if I can be nice, I think all of us can be nice too.
'I'm not trying to be mean - I'm trying to do my best in my heart. Nothing else than that.
'I want my mom, my dad, everyone, to be friends. I want everyone to be smiling.
She later tells her mom: 'I think you can do it. I think you can settle your mean heights down to short heights ... I just want everything to be settled down, nothing else. For everything to be as good as possible. Nothing else.'
At the end of her lecture, her mom tells her, 'Thank you, Tiana,' and they have a hug and kiss.
Se...

E disse Deus:
Se ninguém te ama, a minha alegria é amar-te.
Se choras, Eu desejo consolar-te.
Se és fraco, Eu dar-te-ei a minha força e energia.
Se ninguém precisa de ti, Eu preciso.
Se te julgam inútil, Eu não posso prescindir de ti.
Se estás vazio, a minha plenitude te encherá.
Se tens medo, Eu levo-te aos ombros.
Se queres caminhar, Eu irei contigo.
Se me chamas, Eu venho ao teu encontro.
Se te perdes, Eu não descanso até te encontrar.
Se estás cansado, Eu sou o teu descanso.
Se pecas, Eu sou o teu perdão.
Se precisas de Mim, Eu digo-te: estou aqui dentro de ti.
Se andas nas trevas, Eu sou a luz para os teus passos.
Se tens fome, Eu sou para ti o pão da vida.
Se queres falar comigo, Eu escuto-te sempre.
Se estás preso, Eu vou libertar-te.
Se queres ver o meu rosto, olha para uma flor,
para uma fonte, para uma criança.
Se és marginalizado, Eu estou a teu lado.
Se se esquecem de ti, Eu nunca te esqueço.
Se nada tens, tens-me a Mim.
Se meditas no silêncio, a minha palavra habitará
no teu coração.
J. Fernandez Moratiel, O. P.
sábado, 26 de setembro de 2015
Quem sãos verdadeiros inimigos
Os amigos combatem o pior de nós, os inimigos o melhor. Os amigos criticam quase sempre, os inimigos poucas vezes. Chegam até a aplaudir. Essa é a sua forma de chegar mais perto, de ganhar a confiança de um peito aberto. Anima-os o ódio, um desejo de destruição que arruína mais quem o tem do que aquele a quem é apontado.
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Os amigos corrigem-nos porque nos dão valor, do mesmo modo como reparamos um objeto importante, mas deitamos para o lixo um outro que julgamos não merecer a o esforço de tentarmos arranjá-lo. Os inimigos corrigem-nos porque não nos dão valor e querem dessa forma justificar o seu desprezo. Aos amigos dói-lhes corrigir, como aos pais castigar os filhos, enquanto os inimigos sentem um perverso prazer em castigar, porque julgam que assim fica legitimado o seu desamor...
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Há quem seja capaz de muito mal. As suas maiores armas são: a calma com que analisam os detalhes, a racionalidade com que dominam os instintos e a frieza com que aplicam os seus golpes. Sem piedade nem culpa. Apenas uma vontade infernal que cumprem. Sim, que os infernos não são senão partes destruídas do paraíso.
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O maior inimigo de qualquer um de nós é a má vontade. A vontade de não criar. O desejo do mal. A ideia de que tudo à nossa volta é adverso e hostil, contrário e aborrecido, indisposto e detestável. A maior parte dos que se fazem inimigos são pessoas que cobiçam, que se orgulham de algo que não tem grande valor, gente que tem medo. E eis que o ódio lhes dá uma ilusão de poder, valor e ousadia.
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Há pessoas que, não sendo capazes de analisar e avaliar os erros próprios, os danos e as faltas dos outros, tentam de forma desproporcional destruir tudo apenas porque se deram conta de um pequeno erro. Como se uma porta encravada justificasse a destruição de um palácio.
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A raiva estende os seus ramos nos espaços vazios, no aborrecimento das vidas que se contentam com pouco sentido. Ninguém nasceu para ser apenas normal. Cinzento. Alguns que assim se encontram dão-se conta de que há outros que têm nas suas vidas cores, alegrias e vida, muita vida... Por esta altura, uns assumem ousar seguir-lhes o exemplo; outros, pretendem ultrapassar a sua desgraça através da destruição dos dons de quem lhes torna evidente o seu fracasso. Um dos grandes sucessos dos inimigos é fazer-nos acreditar que dizem a verdade quando falam a nosso respeito.
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Os momentos mais decisivos dos nossos dias são aqueles em que, não tendo nada planeado e concreto para fazer, decidimos o que fazer ou... desfazer. Há quem prefira passar o tempo a destruir os castelos que outros erguem na areia da praia... em vez de sentirem o carinho do sol na pele, o aroma único que se liberta no quebrar das ondas, a alegria tão profunda, simples e infantil de agarrar a praia inteira numa mão cheia de areia... e ser feliz por poder construir castelos que, mesmo resistindo pouco tempo, são sempre sinal de uma vontade de construir um bem que dure.
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A traição resulta quase sempre da incapacidade de compreender o bem onde ele está. Julgando que o diferente é melhor, só porque é diferente. Mas faz-se pior quem assim se engana a si mesmo, nessa preguiça absoluta de sentir, pensar e ser melhor. Uma aparência de felicidade pode não ser mais que uma máscara que esconde uma grande podridão.
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O rancor muitas vezes aguarda durante anos até poder manifestar a sua sede de vingança, não por um mal que foi feito, mas por um bem que se detestou. Por isso, uma das maiores dores que sente alguém que é mau é ser perdoado do seu mal.
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O inimigo alberga um ódio que é uma esperança de vingança de um suposto mal exterior a si. Sente-se triste e acusa o outro disso. Uma espécie de vingança de medroso.
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Nenhum de nós tem forma de não ser alvo de ódio, pois tanto o bem como o mal que fazemos o podem despertar da mesma maneira.
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Há pessoas más cujo ódio nos louva. Somos diferentes delas, e ainda bem. Mas importa que nunca as levemos ao desespero… aceitando com paciência a sua existência.
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Os nossos maiores inimigos são os nossos erros, vícios e paixões. Devemos aprender com eles, agradecer-lhes os espinhos que cravam, pois reforçam a nossa capacidade de andarmos despertos e de nos aperfeiçoarmos.
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O número dos inimigos aumenta na proporção do nosso valor. Mas são esses mesmos adversários que impossibilitam que nos tornemos vítimas da nossa importância.
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Os amigos tendem a gostar muito do que nos custa a alcançar e a desvalorizar o que nos é fácil…. Já os inimigos preferem que nada façamos e odeiam o que fazemos de mais difícil e elevado. Uns querem o melhor de nós, outros, o pior.
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sábado, 19 de setembro de 2015
Até ao fim das tormentas

DEDICO ESTE TEXTO AO RICARDO JÚLIO PINHO,
QUE PARTIU ESTA MANHÃ PARA JUNTO DE DEUS
Hoje, como sempre, são necessários homens e mulheres capazes de lutar até ao fim pelo bem em que acreditam. O mundo está cheio de conselhos, teorias e promessas, mas quase vazio de obras de valor. Obras completas. Não primeiras pedras.
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A maldade nunca é falta de doutrina ou moral, pelo contrário, encontra sempre razões que apresenta como muito justas e boas. Muitos são os que desistem de se fazerem bons. Ora porque julgam já sê-lo, ora por se reconhecerem maus… e não estão para mais trabalhos. Outros ainda, desistem porque não são capazes de viver com a incompreensão de agir bem e, depois, serem acusados de o ter feito por outros motivos… a verdade é que é preciso mesmo estar disposto a sofrer bastante para ser nobre.
A vida é uma dura e intensa guerra. São muitas batalhas que envolvem inúmeros combates que têm de se travar com mil e um adversários… alguns mais brutos, outros mais subtis. Alguns vivem longe, outros habitam-nos dentro.
Por vezes, valorizam-se os que, apesar de terem ideias erradas, lutam por elas até ao fim… mas, na realidade o que lhes pode sobrar em coragem (que neste caso será uma grande teimosia) lhes faltará em discernimento (que neste caso será pouco mais do que senso comum).
Um coração nobre supõe não só uma inteligência para compreender o que deve fazer, mas também, e essencial, a capacidade de o concretizar até ao fim.
A obra só é perfeita se for até ao fim... e se o fim for bom.
Pode-se errar, parar e até descansar um pouco. Mas cuidando sempre de manter atentas as defesas, pois que é no cinzento dos dias com nuvens e frio que mais vezes a tentação de desistirmos do melhor de nós aparece disfarçada de sol radioso e amigo. Nunca é tempo de dormir de forma absoluta e tranquila. O ardor das feridas dos combates antigos deve mantermo-nos vivos e despertos às investidas do inimigo que a todo o momento podem surgir.
A mais importante coragem de um guerreiro não é a tenacidade com que ataca, mas a fortaleza com que resiste a tudo o que se lhe opõe, a tudo quanto o tenta afastar da construção do seu caminho, destino e missão. Só a inteireza combate a cobiça, o orgulho e o egoísmo.
Resistir, firmes, mas não inflexíveis, pois que as adversidades moldam os espíritos assim como as mãos amassam o pão… até ficarem maleáveis para que possam melhor construir o seu caminho, sem quebrar nem desistir. Porque o mal pode bater, mas não pode abater.
Na guerra da nossa vida, importa sempre continuar para diante, mas nunca por hábito; insistir, mas nunca por teima; persistir, mas nunca por apego... Perseverar, mas sempre pelo bem e até ao fim.
Uma pessoa valorosa nunca luta só. Tem consigo a herança que lhe deixaram os que lutaram antes de si com os mesmos inimigos; legado este que deve enriquecer com a sua vida, a fim de que deixe mais do que lhe foi entregue. Que dê mais do que recebeu.
Que o fogo que nos mantém vivos aqueça o nosso coração e nos ensine, sempre, a distinguir as luzes da verdade dos brilhos da falsidade.
Pode o mundo estalar e ruir, por todos os lados, que não poderá nunca manchar a nobreza de um homem bom. Cada um de nós luta contra adversidades durante toda a vida, e, no fim dela, ainda terá de lutar contra a morte... mas a verdade é que quem luta inteiro... vence!
Porque não se pode ser maior do que aquilo que é inteiro.
José Luís Nunes Martins
quarta-feira, 16 de setembro de 2015
segunda-feira, 14 de setembro de 2015
Deus que se fez Palavra
Às vezes pensamos que o que é Sublime
tem de ser Enigmático.
Quando queremos solenizar o profundo,
arranjamos maneira de o tornar incompreensível.
Sim, achamos que a incompreensão
é uma boa homenagem ao Mistério
e, então, deixamo-nos ficar assim,
consolados num não-querer-saber
ao qual chamamos, convictamente, "fé"!
Mas quando despertamos para a inquietação
latente nas palavras e nas fórmulas da nossa Fé,
quando nos deixamos cutucar
pelas insinuações novas que vêm de dentro das afirmações de sempre,
percebemos que vamos ser levados pela mão
por caminhos inesperados
a ver belezas, descobrir sabores, purificar imagens,
curar feridas, refazer esperanças, partilhar significados...
Todas as palavras que se aguentam
com o passar longo do tempo,
é porque têm as entranhas habitadas.
As palavras impregnadas na história
são palavras empenhadas de histórias.
Assim é com as tantas da nossa Escritura,
empenhadas da Inscritura sempre nova e surpreendente
do Deus que se fez Palavra para conversar conosco".
Pe. Rui Santiago, in Estou em Crer
sábado, 12 de setembro de 2015
A chama da vida e o fogo das paixões

A paixão é sofrimento, um furor que é o oposto da paz e do contentamento. Um vazio fulminante capaz das maiores acrobacias para se satisfazer. Mas que, como nunca se sacia, acaba por se consumir, por se destruir a si mesmo. Para ter paz precisamos de fazer esta guerra, na conquista do mais exigente de todos os equilíbrios: entre a monotonia de nada arriscar e a imprudência de entregar tudo sem uma vontade própria profunda. É essencial que saibamos desafiarmo-nos, por vezes, a um profundo desequilíbrio momentâneo. Afinal, quem nunca ousa está perdido, para sempre.
Há boas paixões. São as que trabalham como um fermento. De forma pacata, pacífica e paciente. Animam, mas não dominam. Orientam, mas não decidem. Iluminam, mas não cegam.
Quase ninguém faz ideia da capacidade que cada um de nós tem para suportar e vencer grandes sofrimentos…
Por paixões comuns, há quem perca a cabeça, o coração e a alma. Uma paixão forte que se consente pode fazer com que a mais digna das pessoas se destrua... se consuma, não ficando senão as cinzas em que ardeu. É preciso que saibamos cuidar do que queremos ser, mais do que do prazer que julgamos merecer. O nosso caminho deve ser decidido por nós, não por um qualquer impulso estranho à nossa vontade. Ser feliz passa por ser firme face às tentações do fácil e do imediato.
A verdadeira chama, aquela que nos ilumina, aquece e orienta, não é a das paixões, é a chama da vida. A vida ela própria, assim, simples e pobre na aparência. Aquela vida que tem consciência de que é, em si mesma, um dom. Uma luz. Um presente do divino. Uma presença divina. Não se trata de uma alegria de cumprir fantasias, antes sim da virtude suprema de saber apreciar os momentos da vida sem necessidade de ser sob a séria ameaça de a perder. Este é o único fogo que não consome.
O frio que por vezes sentimos na alma não é sinal de estarmos no caminho errado, apenas de que é hora de por à prova a nossa determinação.
A paixão aumenta a sua força à medida que crescem os obstáculos que se lhe opõem. Combate-se com a luz da razão e o calor do coração. Sem excessos nem violências. Apenas firmeza, sofrimento e paz.
Posso sofrer, mas não quero desistir de mim mesmo… assim eu me saiba fazer maior do que as minhas dores. Mais forte do que as minhas paixões...
José Luís Nunes Martins
quinta-feira, 10 de setembro de 2015
terça-feira, 8 de setembro de 2015
Ego
"A minha mão direita escreveu muitos poemas que eu compus, enquanto minha mão esquerda não escreveu nenhum poema. Mesmo assim, minha mão direita não pensa da mão esquerda: ‘Você não presta para nada!’.
Minha mão direita não tem nenhum complexo de superioridade, e por isso ela é muito feliz. E minha mão esquerda não tem nenhum complexo de inferioridade. Portanto, nas minhas duas mãos existe uma sabedoria, uma sabedoria chamada de ‘não-discriminação’.
Eu me lembro que um dia eu estava com um martelo batendo em um prego. Minha mão direita não estava muito firme e, ao invés de acertar o prego, acertou o dedão da mão esquerda. Imediatamente, a mão direita largou o martelo no chão e começou a cuidar do dedão da mão esquerda de uma forma muito terna e carinhosa, como se estivesse cuidando dela mesma.
E a mão direita não disse: ‘Você, mão esquerda, você está vendo que eu, a mão direita, estou cuidando bem de você agora, você deve se lembrar disso, e você deve me pagar por isso de volta de alguma forma no futuro.’ Não há este tipo de pensamento. E minha mão esquerda não diz assim: ‘Você, mão direita, você me machucou muito, me dê este martelo, eu quero vingança!’
Não há este tipo de pensamento, porque as duas mãos sabem que elas estão juntas, elas estão uma na outra.”
Thich Nhat Hanh
segunda-feira, 7 de setembro de 2015
Nascemos e não mais morreremos
Morrer aos 28 anos? Que absurdo! Morrer aos 28 anos não faz sentido. Morrer quando se tem um bebé pequeno para criar ainda mais drama acrescenta. Quando se vem a saber que preferiu evitar tratamentos prejudiciais à vida do bebé durante a gestação e que isso lhe custou a vida, começa a perceber-se que não há apenas uma tragédia: há também escolha; uma escolha impressionante. Depois, recuando ainda mais para trás, vem-se a saber que já tivera um outro filho: nascera com malformações e vivera meia hora após o parto. Um pouco mais para trás e, de novo, uma filha existira antes dos outros: crescera com uma anencefalia e vivera apenas meia hora depois do parto. E assim se percebe nas entrelinhas que estes pais levaram três gravidezes até ao fim: por três vezes, e as três vezes em condições adversas.
Ou seja: toda a história é uma tragédia difícil de digerir, do princípio ao fim. A dor, a doença, a impotência, são todas promessa de um futuro truncado, arrancado, mutilado. E ninguém gosta de entrar nestas realidades. Mas, em todo este tempo, e apesar de todos os altos e baixos, Chiara e Enrico sentiram-se nas mãos de Deus e a viver tudo com uma paz de fundo que os deixava perplexos – a eles, a todos aqueles que os acompanhavam; e, agora, aos que os vão conhecendo. A verdade é que, contra todas as expectativas, desprende-se da história deste casal um perfume inconfundível a eternidade.
Foi esse contraste que me convenceu que algum dia teria de a conhecer melhor. Já em tempos a encontrara numa revista italiana; depois, em Lisboa, não perdi a oportunidade de ir à apresentação do livro “Nascemos e Jamais Morreremos”, onde se relata a história de Chiara: por coincidência, naquela noite, cheguei ao mesmo tempo que os principais protagonistas desta história e pude dar pessoalmente o ‘benvenuto’ ao Enrico (pai), ao Francesco (filho), ao Simone e à Cristiana (amigos do casal e redatores do livro). Durante a sessão sentiu-se mais uma vez a vibração daquele silêncio perfumado, misto de admiração e comoção - típico de ambientes cheios de Deus. E, mais uma vez, aquela tragédia se converteu em luz para todos os que ouviam o seu relato.
Finalmente peguei no livro e passei uma tarde inteira de mãos dadas com a Chiara. Naquele italiano musical, contou-me como foram aqueles anos de namoro; as peregrinações e a procura da vontade de Deus; a decisão de casar; a primeira gravidez, tão súbita e, depois, tão peculiar: meia hora de vida com frutos tão inesperados; a segunda gravidez e, de novo, a morte [aos nossos olhos] prematura; finalmente, o filho [aos nossos olhos] saudável e, em simultâneo, a surpresa do carcinoma nela própria, a exigir tratamento imediato. E a decisão natural de deixar a vida em gestação crescer e desenvolver-se em detrimento do combate ao ‘dragão’ do cancro - que sorrateiramente lhe ia invadindo o corpo. Curiosamente, grande parte destes acontecimentos, a passarem-se ao mesmo tempo em que eu vivia uns quarteirões ao lado, no centro de Roma.
A naturalidade com que me falava de Deus era a de quem já nesta terra vivia a vida eterna. Confirmou em mim a certeza de que a vida eterna não é algo que venha lá longe, a qual devamos esperar, mas algo que podemos viver já, aqui e agora. E, nesse sentido, é mais compreensível que as provas que a vida lhe trouxe as tomou não como castigo ou carga insuportável: tornaram-se a oportunidade de testemunhar, manifestar, evidenciar o maior tesouro que alguém pode ambicionar: a fé, a confiança inabalável, a intimidade com Deus.
A mim, fez-me perceber melhor como é possível viver em simultâneo dor e bênção, sofrimento e alegria - não como antítese uma da outra mas como síntese uma com a outra. Fez-me perceber melhor a Paixão de Cristo. Agradeço-lhe ter-me ajudado a entrar na Semana Santa com outra preparação - tempo a ser vivido com esse mesmo silêncio perfumado, misto de admiração e comoção, a que a história de Chiara inspira - e ter-me ajudado a preparar os inevitáveis tempos de 'Paixão' que a minha vida me há de trazer. Se tivesse de resumir a aprendizagem recebida com Chiara diria: "Não tenhas medo. A vida há de trazer dores e dificuldades mas nenhuma é superior a Deus. Prepara-te nEle, no Seu amor, e Ele tornar-te-á capaz de qualquer travessia".
A mim, fez-me perceber melhor como é possível viver em simultâneo dor e bênção, sofrimento e alegria - não como antítese uma da outra mas como síntese uma com a outra. Fez-me perceber melhor a Paixão de Cristo. Agradeço-lhe ter-me ajudado a entrar na Semana Santa com outra preparação - tempo a ser vivido com esse mesmo silêncio perfumado, misto de admiração e comoção, a que a história de Chiara inspira - e ter-me ajudado a preparar os inevitáveis tempos de 'Paixão' que a minha vida me há de trazer. Se tivesse de resumir a aprendizagem recebida com Chiara diria: "Não tenhas medo. A vida há de trazer dores e dificuldades mas nenhuma é superior a Deus. Prepara-te nEle, no Seu amor, e Ele tornar-te-á capaz de qualquer travessia".
Morreu no dia 13 Junho 2012, aos 28 anos. E, de facto, pode ter sido um absurdo - se quisermos ler a história apenas à luz da razão - à luz dos nossos planos, desejos e ambições ainda demasiado terra-a-terra. Mas quem disse que a vida se confina a isso? Quem disse que a morte biológica é o fim de tudo? A história de Chiara é uma prova viva de que quando se morre, não se morre: nasce-se de novo; desta vez para o Céu. Atrás de si, Chiara deixou um rasto de luz, daquela luz que não se vê com os olhos mas com o coração. E não será essa a melhor luz?
Para aprofundar:
> 'Site oficial Chiara Corbella Petrillo' [em português]
> Entrevista aos principais protagonistas da história [em italiano]: 30min.
> Livro à venda online - A. O. [em português]
> Video de apresentação do livro [em baixo, legendado em português]
domingo, 6 de setembro de 2015
Descobrir uma presença
Seria belo se, pelo menos neste dia festivo,
o cristão entrasse na igreja
não para pedir alguma coisa,
mas apenas para escutar Deus,
não para esperar uma graça,
mas apenas para louvar a graça divina que se infunde nele e na humanidade,
não para encontrar uma solução para os seus problemas,
mas apenas para descobrir uma presença.
Karl Barth
sábado, 5 de setembro de 2015
Buraco de luz para Deus
Ligo o braço longe a uma estrela
A lua límpida sobe no céu
Um anel passa através de outro anel
Procuro o tempo e encontro a passagem
Procuro a morada e encontro o relento
Às vezes mesmo sem voz
Às vezes até sem palavras
Silêncio que Deus me deu
És uma forma de luz
Tornas sagrado o que existe, centelhas da verdade
Somos o barro, somos poeira
O teu vento errante nos leva
Eu sei existe em mim, mesmo no fundo de um poço
Um buraco de luz para Deus
Um nome escrito no céu
E não sei o que fazer e rezo
Rezo sem saber dizer o quê e a quem
Mas rezo
Rezo o chão e a flor, o pão e a fome,
Rezo o branco e a dor
Nas letras do teu nome
Há um buraco de luz
José Tolentino Mendonça
Composição da oratória “Credo”
Composição da oratória “Credo”
sexta-feira, 4 de setembro de 2015
A Vela

A vela acolhe. A vela transforma um espaço vazio numa casa, num lar.
A vela aquece. Quando nos sentimos mais sozinhos, mesmo que estejamos rodeados de muitas pessoas. Quando parece que tudo e todos estão contra nós, a vela aquece-nos por dentro.
A vela embeleza. Com a sua cor, com o seu brilho, com a luz a tremeluzir, a vela dá um toque especial ao sítio onde está.
Com a vela rezamos. A vela lembra-nos o espaço de oração. Com a vela é como se fizéssemos Deus presente na nossa sala. Com uma vela podemos sentir-nos em oração.
A vela ilumina. Quando os dias parecem mais sombrios, quando nos sentimos mais perdidos, a vela é um ponto de luz constante.
A vela dá-se… por inteiro. A vela serve para ser queimada, para se consumir, para se gastar para acolher, para aquecer, para embelezar, para rezarmos, para iluminar. Se a vela não arder, se a vela não se der, não serve de nada ter uma vela e ela não cumpre a sua missão.
Que durante este ano, cada um de nós consiga dar-se por inteiro!... Como uma vela!
João Pedro Santos
sexta-feira, 14 de agosto de 2015
A graça de ser de novo
O que Te peço, Senhor, é a graça de ser.
Não Te peço mapas, peço-Te caminhos.
O gosto dos caminhos recomeçados,
com as suas surpresas, as suas mudanças, a sua beleza.
Não Te peço coisas para segurar,
mas que as minhas mãos vazias
se entusiasmem na construção da vida.
Não Te peço que pares o tempo na minha imagem predileta,
mas que ensines os meus olhos a encarar cada tempo
como uma nova oportunidade.
Afasta de mim palavras,
que servem apenas para evocar cansaços, desânimos, distâncias.
Que eu não pense saber já tudo acerca de mim e dos outros.
Mesmo quando eu não posso ou quando não tenho,
sei que posso ser, ser simplesmente.
É isso que Te peço, Senhor:
A graça de ser de novo
Pe. José Tolentino de Mendonça,
in Um Deus que dança - itinerários para a oração
quarta-feira, 12 de agosto de 2015
Obrigado, Pe. Ricardo!

Hoje, ao passar o 7º dia da morte do nosso querido amigo Pe. Ricardo, recordo a última visita que lhe fiz.
Depois de andar meio perdido no hospital, acabei por ir por um corredor que me indicaram e, quando menos esperava, para meu espanto, vinha o Pe. Ricardo numa cadeirinha por esse mesmo corredor. Se eu não me tivesse enganado e tivesse ido por outro lado, teria chegado ao quarto e já não o encontraria. Há coisas engraçadas! Coisas de Deus!
Estava sereno, sorridente. Falámos uns minutos. Agarrou-me sempre na mão. Quis saber tudo sobre as minhas paróquias. A certa altura notei que estava a falar mais de mim do que a ouvi-lo a ele. Ele sempre foi mestre em ouvir e ajudar os outros... até no hospital!
Acabei por inverter a conversa e disse-lhe que tinha ido para lhe pedir a bênção. Ajoelhei-me no meio do corredor e ele começou a soluçar. Não me consigo lembrar do que me disse, mas jamais esquecerei o tom sentido, comovido e amigo com que me deu a bênção.
Amigo, obrigado por tudo o que és e fazes por nós, pela Igreja! Obrigado por seres um dos sinais mais visíveis de Deus entre nós. Estaremos sempre ao teu lado!
terça-feira, 11 de agosto de 2015
Aprender a descansar
Aprender a descansar
José Tolentino Mendonça (10-08-2015)
Não é raro que, prisioneiros da pressão que nos impõem — ou nos impomos —, deixemos de saber o que significa descansar. Pensamos numa vida enclaustrada em dias úteis, e só aí. O tempo torna-se circular e uniforme. E mesmo quando temos a oportunidade de parar, já não temos a sabedoria necessária para isso. Como a pausa nos angustia, a tentação é afogá-la com os atordoamentos mais diversos. O que se passa connosco? Moldamos os nossos quotidianos como movimento perpétuo, atividade, tráfico de afazeres, sucessão de programas a executar, produção e consumo. Tudo isso torna-se o sinónimo de existência, da qual somos cada vez mais profissionais, e cada vez menos exploradores, inventores ou enamorados. Não admira que façamos das férias um tempo ofegante como qualquer outro, ainda por cima camuflado por uma montanha de distrações e obrigações acrescidas que nos atiram para um inconfessável exílio. Não se pode dizer que sejam um tempo de liberdade, onde respiramos a transparência, onde ousamos o azul ou a imensidão como lugares que nos pertençam. Mesmo se deslocados para fora do nosso mundo habitual, a verdade é que continuamos a correr, a cumprir etapas, e porventura a deixar para trás o encontro profundo connosco próprios e com os outros. Regressamos ao trabalho com a insólita sensação de que precisaríamos de umas férias depois da estafa que as nossas foram.
Torna-se necessário, por isso, fazer escolhas, que não são fáceis, nem automáticas, mas provêm de uma decisão que, à falta de melhor nome, eu chamaria de espiritual. Em vez de produzir, afirmar, esventrar, repetir, deveríamos ousar uma distância crítica e aproveitar as férias para interromper o tracejado sonâmbulo que parece esgotar todas as nossas possibilidades. Precisamos reaprender coisas simples da vida: valorizar a comunicação que acontece sem prazo e sem palavras; investir na hospitalidade que brota da escuta gratuita e demorada; estimar a compreensão que o silêncio, de coração a coração, entreabre; revitalizar os nossos sentidos. Precisamos, por exemplo, de contemplar em vez de ver apenas. De caminhar com vagar e preferir os caminhos mais longos em vez de nos deslocarmos numa cápsula e sempre a toda a velocidade. Precisamos de deixar de ter medo de perder tempo, construindo e desejando presenças mais do que persistindo na acumulação fortuita de sensações e de vultos.
Não nos enganemos. O verdadeiro repouso não o encontraremos prefabricado e pronto a consumir. O repouso não está à nossa espera nos lugares de sonho das promoções turísticas. Não o encontraremos em lugar algum, se ele não tiver antes brotado na nossa alma. Vale a pena assim que ao tocarmos a terra, a água ou o vento toquemos também o coração da vida. Que acordemos a curiosidade e a atenção, que são as formas mais quotidianas, mas também as mais extraordinárias de amor. Que nos detenhamos perante o visível, com a generosidade e o espanto de quem volta a relacionar - se com tudo pela primeira vez. Que abramos janelas e brechas superando os ambientes condicionados, as visões parcelares, os juízos viciados. Que acreditemos que os nossos braços podem chegar bem mais longe do que as curtas distâncias que os nossos olhos alcançam. Que visitemos e nos deixemos visitar pela surpresa que cada dia traz pela mão. Que enchamos o coração de gratidão que é o alfabeto com que a alegria se revela. A vida pode ser mais do que a expressão férrea de uma multiplicidade de finalidades e desculpas exteriores: pode ser transparência pura de si.
sábado, 1 de agosto de 2015
Os milagres não se fazem notar

Quando se faz um bem, importa cuidar das aparências, revelando apenas o essencial. O ideal atinge-se quando tudo parece fruto do acaso! O mal procura sempre criar grandezas pomposas em torno dos seus gestos. A vaidade é um sinal claro de um mal que pretende disfarçar-se.
O amor e a inteligência exigem delicadeza. Só através dela se atingem as profundidades. Não se trata de uma fragilidade, no sentido de fraqueza, antes de uma perfeição que procura apenas não se fazer ver aos olhos da multidão.
Mesmo quando são grandes os milagres passam despercebidos. Há gente que não sabe que é sagrado o chão que pisa, que não se dá conta de que o fundamento da sua existência não é o que parece…
A força bruta pode muito pouco. Os milagres parecem muitas vezes insignificâncias. Quem não viu já coisas pequenas revelarem-se enormes e coisas grandiosas sem qualquer valor?
Não se trata de um disfarce, uma fraude ou um engano. Mas apenas o bem cuidando de não se manifestar de forma evidente como seu autor. Recolhendo-se, sem se ocultar.
Importa aprender a olhar. Distinguir os aspectos subtis e delicados de cada coisa, reconhecer as relações, as diferenças e as harmonias.
É preciso que o coração aprenda a estar atento.
Os milagres não são tão raros quanto se julga. As árvores crescem e as flores brotam todos os dias, sempre sem qualquer alvoroço. É a beleza pura, apenas.
Todos os dias, há gente a nascer e gente a morrer... enquanto tantos outros julgam que no mundo continua tudo igual... a criação é uma constante do tempo.
O que começa por ser uma mera suspeita, pode revelar-se, quando se é capaz de ver até ao fundo, um milagre. Uma espécie de enigma que se aprende a desvendar e, depois, a admirar.
Não há fortunas nem destinos, o bem está no coração e nas mãos dos que sabem sonhar, viver e amar. Longe das aparências enganadoras e vaidosas. A liberdade humana tem os olhos bem abertos e não tem asas nem rodas nos pés. Apenas a sua vontade de criar, de dar ao mundo um mundo melhor. A capacidade de criar por pura bondade. O bem quer construir mundos novos e bons enquanto o mal teima em desfazer tudo a partir da destruição de cada coisa.
Fazer acontecer um milagre é possível a qualquer um de nós. Alimentar um faminto, acolher com um olhar aquele que é invisível aos outros, sorrir quando se chora, dar a mão a quem sofre... acolher no íntimo dos nossos silêncios aqueles que mais precisam do nosso amor.
Nada acontece ao acaso. Não há fado nem sorte. Essas coisas só fazem sentido às inteligências que desistiram de compreender, tornando o seu inimigo mais forte, ao entregar-lhe as armas que deveriam servir para o combater. Mais: para, em seguida, lhe pedir benevolência e perdão pelo bem e pelo mal que não se fez...
Frágil é quem não sabe o que quer.
É mesmo possível conduzir o próprio destino, levando-o pela mão.
A sabedoria conhece e usa a dose certa em cada gesto. A perfeição é sempre simples, mínima e subtil. Ainda assim, apesar de toda a sua divina delicadeza, há milagres que se repetem até alcançarem o seu propósito!
José Luís Nunes Martins
sexta-feira, 31 de julho de 2015
25 ANOS DE UM SIM A DEUS

25 ANOS DE UM SIM A DEUS
25 ANOS DE ENTRADA NOS APÓSTOLOS DE SANTA MARIA
Faz hoje 25 anos que entrei para a comunidade e seminário dos Apóstolos de Santa Maria. Em dia de Santo Inácio de Loyola, hoje fundador dos Jesuítas, nada melhor que fazer minhas as palavras de tão grande mestre!
Tomai, Senhor, e recebei
toda a minha liberdade,
a minha memória,
o meu entendimento
e toda a minha vontade,
tudo o que tenho e possuo;
Vós mo destes;
a Vós, Senhor, o restituo.
Tudo é vosso,
disponde de tudo,
à vossa inteira vontade.
Dai-me o vosso amor e graça,
que esta me basta!
Santo Inácio de Loiola
quinta-feira, 30 de julho de 2015
Felizes os que choram

Apesar de parecerem pedaços de solidão, as lágrimas são gotas de amor que nascem aos pares.
As tristezas não são aflições. A tristeza é o que fica depois da desgraça do momento. Estar triste dura.
Os naturais tormentos da vida ensinam-nos que ser feliz é uma forma de viver nas profundidades imutáveis da existência, não nas superfícies e aparências agitadas e passageiras da vida.
A fragilidade humana leva a que por vezes tenhamos de experimentar o que julgamos ser o desaparecimento da nossa felicidade... perdemos e sentimos as perdas. Perdemos o que temos, mas não o que somos. Amar é dar-se. Os que nos amaram deram-se-nos. Não se perderam porque existem em nós. Sou também aquele que me amou. Que me ama.
A dor é um mal. Por vezes, chega através da culpa. Quando não percebemos bem o que sentir e o que pensar. Quando dizemos o que era para calar ou fazemos silêncio do que era para dizer. Quando não escolhemos bem o que fazer ou como fazê-lo.
Por vezes, a mágoa é funda. Tantas vezes é a própria liberdade que parece ser o nosso castigo. Quanto mais opções temos adiante, maiores serão depois os arrependimentos.
Mais profunda do que a pena é a saudade verdadeira. A pena é uma impressão de desgosto que se crava no coração. A saudade é muito mais doce mas, qual espada, muito mais dura, afiada e longa. Parece destruir o que celebra. Trata-se de uma das tristezas mais fundas... a de se haver perdido o que se teve, a de se continuar a amar o que já não está aqui connosco. A de se continuar a ser dois depois de deixarmos de sentir o outro.
Há quem, mesmo triste, escolha alimentar-se da luz. E quem, em igual situação, prefira alimentar as sombras. Um amor que se fez ausente dói, mas o sofrimento só existe porque o bem não desapareceu. Está ali. Não foi destruído ou esquecido, pois, nesse caso, não se sofreria, porque teria desaparecido também a razão pela qual sofrer.
A saudade é um bem pelo qual se sofre.
Uma saudade que se extingue é sinal de um amor que não existiu. Os amores que acabam nunca são verdadeiros...
A vida é uma alegria profunda. Um mistério. Um milagre.
Não há tristeza pura... porque flutua sempre nela uma certa paz: a da certeza de um além que existe.
Todas as lutas são lutos... e os lutos são marcas da verdade e da tristeza de quem é feliz…
O luto é uma gravidez ao contrário. Um processo lento por onde o matéria se vai convertendo em espírito. Enriquecendo-nos pelo amor de que nos faz criadores.
O consolo de quem chora é a certeza de que quando se ama... a felicidade está tudo e é para sempre.
As lágrimas são silêncios que abrem os nossos olhos à luz.
José Luís Nunes Martins
quarta-feira, 29 de julho de 2015
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