terça-feira, 31 de maio de 2016

The Human Experience



For the first time ever is the highly anticipated DVD release of The Human Experience. This Limited Edition DVD features full length commentary with Director Charles Kinnane, Executive Producer Joseph Campo and Writer/Producer Michael Campo. The DVD includes a photo gallery with behind-the-scene photos to give you the ultimate experience.

In a world fraught with hostility and violence, an altruistic group of young men endeavor to understand the true essence of the human spirit by visiting forgotten souls such as homeless New Yorkers, Peruvian orphans and isolated Ghanaian lepers. By spotlighting heartwarming stories from around the world, this uplifting documentary shows viewers that every single person, no matter his or her lot in life, is beautiful.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Outcasts



O estúdio premiado Grassroots Films, depois do sucesso do filme Human Experience, lançou mais um documentário sobre a experiência de ser padre, que se junta ao filme Fishers of Men (Pescadores de Homens) O novo documentário chama-se Outcasts e traz o dia a dia dos Frades Franciscanos da Renovação. O filme tem cenas fortes e cenas belíssimas.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Onde vive um coração puro?



Estimada amiga,
De que lhe serve ser sincera quando não tem nada de bom para dizer? Muitas pessoas confundem franqueza com verdade e permitem-se dizer os maiores disparates, julgando que qualquer coisa que digam sem intenção de mentir será verdadeira e valiosa... mas não é bem assim.

Tente ter cuidado com o que diz. Mais ainda quando se zanga. A fúria é um animal selvagem que se lhe dermos espaço, em pouco tempo, acaba por usar as nossas forças para destruir tudo, sem distinguir entre o que é bom e o que não é. No fim, depois da explosão, fica apenas a raiva, o cansaço e o remorso que começa a nascer. Pouco depois, surge sempre a errada ideia de que, com um pedido sincero de desculpas, tudo voltará a ser como dantes.

Quando tiver algo a dizer, diga-o, de forma breve, concreta e tão simples quanto possível.

Quem nos ama saberá o que sentimos com uma simples troca de olhares. Quem não nos considera não passará a fazê-lo com base nas nossas palavras, por mais inspiradas, verdadeiras e autênticas que sejam.

O silêncio pode ser uma lâmina afiada capaz de trespassar o coração mais forte, mas pode também ser a mais importante das armas na defesa do bem.

Há uma imagem que me parece cada vez mais acertada: quando algo é bom vale por si mesmo, não está nunca dependente de elogios.

Peço-lhe que considere as minhas palavras, não como uma lição, mas como um desabafo de quem, há já algum tempo, anda nesta guerra contra as palavras que escondem mais do que mostram... com mais derrotas do que vitórias.

Um coração puro vive num castelo, não num palácio.

No castelo, o coração está protegido e só quando vale a pena é que se abre e dá aos outros.

No palácio, em vez de guardar o coração dentro dele como seu tesouro, aposta tudo na simples aparência... e é vazio. Mostrando-se sem distinção a tudo quanto passa.

Obrigado, muito.



(Ilustração de Carlos Ribeiro)

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Revelo-me sempre que decido



Escolher implica traçar uma linha clara. Um critério que permite examinar e avaliar as opções separando as boas das más, as úteis das inúteis, as convenientes das inconvenientes.

Esta linha é também resultado de uma escolha. Por isso, pode ser justa ou injusta, levar ao sucesso ou ao fracasso. Há escolhas sensatas e outras mais apaixonadas... chegando, por vezes, a ser meros caprichos.

Preferir é estabelecer prioridades ou importâncias. É ordenar de acordo com pesos e medidas. Mas também aqui o critério mais importante é o que preside à escolha do critério.

Há depois um nível superior de decisão: a eleição. Uma pessoa não escolhe outra, tão-pouco a pode preferir. Eleger é uma vontade da alma. Única e exclusiva.

Podemos escolher os membros de uma equipa, preferir uns a outros, mas quando assumimos a pessoa como um todo, integral e absoluto, ou a elegemos ou não. O critério é um só: a decisão da alma, baseada na sua identidade.

Posso conhecer bem alguém por aquilo que escolhe ou prefere, mas será muito mais evidente se me revelar os seus critérios. Quem elege não pode deixar de revelar quem é.

A alma expõe-se de forma concreta quando se decide alguém... E fica ali, bem diante dos olhos dos outros e ao alcance dos seus eventuais golpes... Nas eleições que fazemos mostramos o que povoa o fundo do nosso coração, até a nós mesmos... nesse sentido, é quando fechamos os olhos que melhor nos vemos.

Se cabe a quem decide ter de lidar com as dúvidas e as possibilidades de fracasso das suas decisões, as eleições íntimas são – de todas – as que envolvem maior coragem. Na eleição de quem devemos amar não se pode arriscar menos do que tudo.

Ao amor é essencial o sacrifício do que somos... mas, na verdade, quem deseja o céu... só se encontra quando se dá, quando se perde.

Texto de José Luís Nunes Martins
Ilustração de Carlos Ribeiro

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Tenho ao cimo da escada...



Tenho ao cimo da escada, de maneira
Que logo entrando os olhos me dão nela,
Uma Nossa Senhora de Madeira
Arrancada a um Calvário de capela.

Põe as mãos com fervor e angústia. O manto
Cobre-lhe a testa, os ombros, cai composto;
E uma expressão de febre e espanto
Quase lhe afeia o fino rosto.

Mãe das Dores, seus olhos enevoados
Olham chorosos, fixos, muito além...
E eu, ao passar, detenho os passos apressados
Peço-lhe: - A sua bênção, Mãe!

Sim, fazemo-nos boa companhia,
E não me assusta a sua dor; quase me apraz.
O Filho dessa Mãe nunca mais morre. Aleluia!
Só isso bastaria a me dar paz.

“Porque choras Mulher?... – docemente a repreendo,
Mas à minh’alma, então, chega de longe a sua voz
Que eu bem entendo:
“Eu sei! Teus filhos somos nós”.

José Régio (1901-1969)

terça-feira, 10 de maio de 2016

O silêncio

Imagem

O silêncio é mansidão quando não respondes às ofensas e deixas a Deus a tua defesa. O silêncio é paciência quando sofres sem te lamentares, não procuras consolações humanas, esperas que a semente germine. O silêncio é humildade quando calas para deixar emergir os irmãos e deixas aos outros a glória do feito. O silêncio é fé quando não procuras compreensão e renuncias à glória pessoal porque te basta ser conhecido por Deus.

Assim escrevia em 1581 S. João da Cruz, grande místico e escritor espanhol. O seu canto do silêncio conjuga-se bem com a "mística" que - como na palavra "mistério" - tem na raiz um verbo grego que significa "calar". Não é preciso acrescentar muito sobre este tema, tão marginalizado no tempo em que vivemos, marcado por um excesso de falatório, rumor e fatuidade exterior.

Gostaria, em vez disso, de colocar o acento nas "cores" do silêncio que o santo consegue fazer brilhar. Há, antes de mais, a mansidão que emerge do calar as respostas amargas, sarcásticas, vingativas. Há a paciência que desponta desde o reprimir do lamento emitido para obter compreensão e para se tornar o centro da atenção do outro. Sofrer em silêncio é confiar só a Deus a própria dor, sabendo que Ele «as nossas lágrimas no seu odre recolhe, escrevendo-as depois no seu livro (Salmo 56, 9).

O silêncio é também o ventre da humildade porque o prepotente tem sempre uma palavra a mais do que os outros e o soberbo faz ribombar a sua voz de maneira retumbante, de tal forma que ela domine e revele a grandeza de quem a emite. E, por fim, a fé é silenciosa porque é intimidade com Deus. E é belíssima a frase, de sabor paulino (leia-se Galátas 4, 9), com que João da Cruz conclui o seu louvor do silêncio: «Basta-nos ser conhecidos por Deus!».


Card. Gianfranco Ravasi 
In "Avvenire" 
Trad.: Rui Jorge Martins 
Publicado em 09.05.2016

segunda-feira, 9 de maio de 2016

O profeta Oseias, a traição e o amor




São páginas belíssimas, até na dramaticidade que as envolve. É a história do profeta Oseias, que viveu no século VIII a.C., cuja existência familiar é narrada nos primeiros três capítulos do seu livrinho bíblico, onde, todavia, é transfigurada em símbolo religioso para todo o Israel.

A história é conhecida: o profeta tinha desposado uma ex-prostituta (ou talvez uma sacerdotisa de cultos pagãos da fertilidade); dela havia tido três filhos, mas a mulher tinha-o abandonado. Nesta experiência tormentosa podemos encontrar a relação entre família e misericórdia.

Dois são os perfis que queremos agora descrever. O amor misericordioso que sabe perdoar pode coexistir com o desdém pela ofensa da infidelidade. É isto que brilha no capítulo 2 da confissão de Oseias. Ele, com efeito, apesar de gritar a sua ira e amargura pelo abandono do teto conjugal, sonha que a sua mulher, Gomer, desiludida pelos amantes, retome o seu lugar no lar, agora deserto, com a sua família. Ela, efetivamente, dirá: «Voltarei ao meu primeiro marido, porque eu era outrora mais feliz do que agora». (2, 9). E Oseias estará pronto a perdoar tudo, e com ela quererá celebrar um novo casamento e uma nova lua de mel.

Juntos irão novamente aos lugares da sua juventude, retirar-se-ão para o deserto, abraçar-se-ão os corações: «É assim que a vou seduzir: ao deserto a conduzirei, para lhe falar ao coração [literalmente: sobre o seu coração] (...) Aí, ela responderá como no tempo da sua juventude» (2, 16-17).

Envolvida e comovida por este amor que elimina e perdoa o passado, Gomer repetirá as palavras ternas da intimidade nupcial: «Naquele dia – oráculo do Senhor – ela me chamará: "Meu marido" e nunca mais: "Meu Baal"» (2, 18). E Oseias replicará: «Então, te desposarei para sempre; desposar-te-ei conforme a justiça e o direito, com amor e misericórdia. Desposar-te-ei com fidelidade» (2, 21-22).
O segundo perfil encontra-se em Oseias 11,1-4. Nele entra em ação a misericórdia paterna, que se inclina com ternura sobre o filho, mesmo sendo ele um pouco caprichoso e rebelde. Também neste caso a representação do pai que tem nos braços o seu menino torna-se um símbolo da relação entre Deus e o seu povo.

Eis a pequena cena descrita pelo profeta, onde Deus fala a Efraim, isto é, a Israel: «Entretanto, Eu ensinava Efraim a andar, trazia-o nos meus braços, mas não reconheceram que era Eu quem cuidava deles. Segurava-os com laços humanos, com laços de amor, fui para eles como os que levantam uma criancinha contra o seu rosto; inclinei-me para ele para lhe dar de comer» (11, 3-4).

É fácil intuir a terna solicitude deste pai que, tendo pela mão o filhinho, o ensina a caminhar, o aperta fortemente a si, o eleva até à altura do seu rosto para o impelir a comer, mesmo quando o pequeno não quer saber e é caprichoso.

Este é um pequeno quadro de intimidade familiar que se liga à cena matrimonial anterior e que recorda a todos os esposos e pais a necessidade do amor misericordioso para viver juntos uma experiência nem sempre fácil. Como observava o escritor suíço Max Frisch, falecido em 1991, «no amor não se deve ver um ponto de chegada, nem um apagamento, mas apenas um continuo prosseguir».

Card. Gianfranco Ravasi

sábado, 7 de maio de 2016

​A solidão do amor



Ele trazia sempre na carteira a fotografia dela. Era um tesouro que admirava várias vezes ao dia. Uma prova concreta de que ela existira e existia, de que não era uma mentira ou ilusão.

Na fotografia, ela estava lindíssima, com um sorriso acolhedor e um olhar cheio de luz que iluminava tudo... embora os nadas que ia enchendo fossem cada vez maiores.

Aquele homem sentia o seu amor despedaçar-se a cada dia, a cada hora... a cada agora! Como uma cascata sobre um abismo. Mas amava-a, nunca deixou de a amar, mesmo quando a morte o fazia deixar de acreditar. O seu coração parecia ter sido o lugar escolhido pelo bem e pelo mal, para nele se medirem as forças da luz e das trevas.

À noite, em casa, a saudade batia-lhe à porta, até a arrombar... logo que entrava, uma dor profunda seguia-lhe todos os passos e pesava, a cada um, mais e mais. Quando o sono chegava para lhe silenciar a tristeza, a saudade enchia o quarto e deitava-se na cama antes dele, esperando-o com o seu abraço frio. Era uma solidão tão concreta que, só, ele a podia ver e ouvir.

Queria tanto que ela, do lado de lá da morte, pudesse vê-lo...

A certeza de que o paraíso não faria sentido sem ela aquecia-lhe, por momentos, aquela noite imensa, ainda mais imensa quando ele perdia a esperança... e, apesar de não poder sentir a sua amada, ela dava-lhe sentido.

Desejava que a mesma morte que a havia levado, o levasse também a ele... ou para junto dela, ou para um nada qualquer onde já não houvesse dor. Mas não queria ser cemitério. Havia de honrar o que lhe prometera: conquistar, neste mundo, a vida eterna!

Sabia bem, muito bem, que uma das piores partes da batalha é a espera, mas estava certo da felicidade... desde o dia em que decidiram amar-se, perdoar-se e esperar um pelo outro.

O homem morreu num dia triste de chuva.

Morreu... e foi logo ajoelhar-se à cabeceira da cama onde ela esperava por ele, há tanto tempo...

O que ela não esperava foi o beijo quente com que ele a acordou, para sempre.

JOSÉ LUÍS NUNES MARTINS
(Ilustração de Carlos Ribeiro)

quarta-feira, 4 de maio de 2016

O Nó no Lenço

Numa reunião de pais numa escola, a professora ressalvava o apoio que os pais devem dar aos filhos e pedia-lhes que se mostrassem presentes, o máximo possível...
Considerava que, embora a maioria dos pais e mães trabalhasse fora, deveriam arranjar tempo para se dedicar às crianças.
Mas a professora ficou surpreendida quando um pai se levantou e explicou, humildemente, que não tinha tempo de falar com o filho nem de vê-lo durante a semana, porque quando ele saía para trabalhar era muito cedo e o filho ainda estava a dormir e quando regressava do trabalho era muito tarde e o filho já dormia.
Explicou, ainda, que tinha de trabalhar tanto para garantir o sustento da família, mas também contou que isso o deixava angustiado por não ter tempo para o filho e que tentava compensá-lo indo beijá-lo todas as noites quando chegava em casa.
Mas, para que o filho soubesse da sua presença, ele dava um nó na ponta do lençol que o cobria. Isso acontecia religiosamente todas as noites quando ia beijá-lo.
Quando o filho acordava e via o nó, sabia logo, que o pai tinha estado ali e o tinha beijado.
O nó era o meio de comunicação entre eles.
A professora emocionou-se com aquela história e ficou surpreendida quando constatou que o filho desse pai era um dos melhores alunos da escola.
Este facto, faz-nos reflectir sobre as muitas maneiras de as pessoas se mostrarem presentes, e de comunicarem com os outros.
Aquele pai encontrou a sua, que era simples mas eficiente.
E o mais importante é que o filho percebia, através do nó, o que o pai estava a dizer.
Simples gestos, como um beijo e um nó na ponta do lençol, valiam, para aquele filho, muito mais do que presentes ou a presença indiferente de outros pais.
É por essa razão que um beijo cura a dor de cabeça, o arranhão no joelho, ou o medo do escuro...
É importante que nos preocupemos com os outros, mas é também importante que os outros o saibam e que o sintam.
As pessoas podem não entender o significado de muitas palavras, mas sabem reconhecer um gesto de amor.
Mesmo que esse gesto seja apenas e só, um nó num lençol..."

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Amor e sacrifício



O sinal revelador de que já se deixou de amar torna-se manifesto quando os sacrifícios começam a custar; o sinal de que se ama pouco acende-se quando te dás conta de que os estás a fazer.

É verdade que há outros sinais: por exemplo, um escritor afirmava que quando dois namorados começam a explicar-se e a justificar-se, é porque estão prestes a deixarem-se.

Mas não há dúvida de que é o egoísmo, quando aflora de maneira prepotente, o indício de que o amor está a regredir. Sente-se o peso daquilo que se faz pelo outro, começa a calcular-se quanto se dá e quanto se recebe.

Quando alguém se dá conta de que está em crédito de bem em relação a outra pessoa, então está aí o sinal claro de que começou o declínio do amor.

Uma mãe ou a um pai, se são verdadeiramente tais, não são esmagados pelo cansaço de um trabalho stressante, de vigílias e de sacrifícios vários quando o fazem pelo seu filho.

A característica fundamental do amor é a gratuidade, não se admite o interesse ou o cálculo; não se espera recompensa nem gratidão, porque para a pessoa amada tu só queres o seu bem e a sua felicidade.

A sociedade contemporânea, que é decididamente mais egoísta, desabituou-nos ao gratuito puro, ao dar sem pedir em troca, ao sacrifício de si por amor. É por isso que não conhece a verdade daquela frase de Jesus, referida por Paulo: «Há mais alegria no dar do que no receber» (Atos dos Apóstolos, 20, 35).



P. [Card.] Gianfranco Ravasi
In "Avvenire"
Publicado em 30.04.2016

domingo, 1 de maio de 2016

Uma mãe não tem dia, tem vidas




O que faz a diferença entre as mães e o resto do mundo é que uma mãe é incondicional: ela não impõe condições de espécie alguma e para nada. Uma mãe é sempre igual e do primeiro ao último dia. Seja como for o filho, uma mãe não lhe vê defeitos, reconhece-lhe apenas algumas fragilidades. Para ela, os filhos cometem erros ou fazem asneiras, mas não são maldosos; fazem disparates, mas não são desastrados. Eles até podem mentir, o que não quer dizer que sejam desonestos. É verdade que muitas vezes não se esforçam, mas isso não faz deles preguiçosos. E se estão inseguros, não significa que sejam fracos.

Para uma mãe, o verbo ser só se aplica às qualidades e às virtudes; os verbos estar ou fazer aplicam-se aos defeitos. Porque um filho não tem defeitos, apenas está a crescer. E ele cresce a vida toda. Por isso uma mãe não condena, ela censura; não se vinga, corrige e emenda; também não se revolta, apenas se entristece. E não desiste. Nunca desiste.

Do primeiro ao último dia, as mães mantêm uma esperança infinita nos filhos. Nenhum filho é um projeto falhado ou uma frustração. Ela também nunca se desilude porque não tem ilusões: tem a certeza de que o filho é maravilhoso. A angústia de uma mãe é a infelicidade do filho e não a dela. Daí que as mães nunca se deixem guiar pela razão - pois aquilo que guia a esperança é puramente emocional. Para uma mãe, os filhos são diamantes em bruto que ela tem a obrigação de lapidar. E quando o trabalho não corre bem, a culpa não é certamente deles, é dela - a técnica especializada.

Uma mãe é incondicional porque parte do princípio de que os filhos são mais importantes, mais valiosos do que qualquer outra coisa no mundo incluindo ela, da mesma forma que um diamante é mais valioso do que a máquina que o corta. O que faz as mães especiais é que as mães dão sentido ao sofrimento: sofrem sempre por um bem maior que é cada um dos filhos. E por isso sofre-se a sorrir. Pelo menos a minha mãe é assim. Perfeita.

Inês Teotónio Pereira
DN 2016.04.30

sábado, 23 de abril de 2016

Os sonhos são feitos de amo




O amor sonha, mas somos nós quem deve carregar as pedras, desenhar e fazer os caminhos, e erguer os castelos. Ninguém pode esperar reinos perfeitos onde nos receberão como reis, rainhas e senhores de tudo. Não existem. Nem fariam sentido.

Os sonhos querem manifestar-se à luz do dia. Nunca são absurdos. Só quando alguém abandona um sonho é que o condena à prisão do impossível.

Muitos pesadelos nascem do egoísmo. São medo, medos e medo dos medos... infelicidade em potência, pronta a irromper na realidade e a impor-se a quem desiste de si. Não há pessoa mais pobre do que aquela que perdeu toda a sua paciência. As feridas demoram a cicatrizar. Muito… Mas com tempo e silêncio curam-se quase todos os males.

Com humildade, devemos acolher a presença e a ajuda dos outros. Aceitando que a verdade também nos chega pelo olhar, mão ou voz de uma criança, de um qualquer desconhecido ou até mesmo de alguém da nossa família...

Todos os dons são formas de amor, assim todas as virtudes nele encontram a sua semente e o seu alimento. O amor sopra em todos os tempos e lugares, nunca sai do seu silêncio nem a nada faz sombra... é a luz que vê e ilumina, sem ser vista ou iluminada.

O amor é uma paixão sensata, cuidadosa e sonhadora.

É um cuidar do outro como única forma de cuidar de si.


JOSÉ LUÍS NUNES MARTINS
(ilustração de Carlos Ribeiro)

Tarde Te amei!



“Tarde Te amei!” De Santo Agostinho, uma das mais arrebatadoras orações de todos os tempos
"Et ecce intus eras et ego foris et ibi te quaerebam, et in ista formosa quae fecisti deformis irruebam..."

1. Tarde Te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova… Tarde Te amei! Trinta anos estive longe de Deus. Mas, durante esse tempo, algo se movia dentro do meu coração… Eu era inquieto, alguém que buscava a felicidade, buscava algo que não achava… Mas Tu Te compadeceste de mim e tudo mudou, porque Tu me deixaste conhecer-Te. Entrei no meu íntimo sob a Tua Guia e consegui, porque Tu Te fizeste meu auxílio.

2. Tu estavas dentro de mim e eu fora… “Os homens saem para fazer passeios, a fim de admirar o alto dos montes, o ruído incessante dos mares, o belo e ininterrupto curso dos rios, os majestosos movimentos dos astros. E, no entanto, passam ao largo de si mesmos. Não se arriscam na aventura de um passeio interior”. Durante os anos de minha juventude, pus meu coração em coisas exteriores que só faziam me afastar cada vez mais d’Aquele a Quem meu coração, sem saber, desejava… Eis que estavas dentro e eu fora! Seguravam-me longe de Ti as coisas que não existiriam senão em Ti. Estavas comigo e não eu Contigo…

3. Mas Tu me chamaste, clamaste por mim e Teu grito rompeu a minha surdez… “Fizeste-me entrar em mim mesmo… Para não olhar para dentro de mim, eu tinha me escondido. Mas Tu me arrancaste do meu esconderijo e me puseste diante de mim mesmo, a fim de que eu enxergasse o indigno que era, o quão deformado, manchado e sujo eu estava”. Em meio à luta, recorri a meu grande amigo Alípio e lhe disse: “Os ignorantes nos arrebatam o céu e nós, com toda a nossa ciência, nos debatemos em nossa carne”. Assim me encontrava, chorando desconsolado, enquanto perguntava a mim mesmo quando deixaria de dizer “Amanhã, amanhã”… Foi então que escutei uma voz que vinha da casa vizinha… Uma voz que dizia: “Pega e lê. Pega e lê!”.

4. Brilhaste, resplandeceste sobre mim e afugentaste a minha cegueira. Então corri à Bíblia, abri-a e li o primeiro capítulo sobre o qual caiu o meu olhar. Pertencia à carta de São Paulo aos Romanos e dizia assim: “Não em orgias e bebedeiras, nem na devassidão e libertinagem, nem nas rixas e ciúmes. Mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo” (Rm 13,13s). Aquelas Palavras ressoaram dentro de mim. Pareciam escritas por uma pessoa que me conhecia, que sabia da minha vida.

5. Exalaste Teu Perfume e respirei. Agora suspiro por Ti, anseio por Ti! Deus… de Quem separar-se é morrer, de Quem aproximar-se é ressuscitar, com Quem habitar é viver. Deus… de Quem fugir é cair, a Quem voltar é levantar-se, em Quem apoiar-se é estar seguro. Deus… a Quem esquecer é perecer, a Quem buscar é renascer, a Quem conhecer é possuir. Foi assim que descobri a Deus e me dei conta de que, no fundo, era a Ele, mesmo sem saber, a Quem buscava ardentemente o meu coração.

6. Provei-Te, e, agora, tenho fome e sede de Ti. Tocaste-me, e agora ardo por Tua Paz. “Deus começa a habitar em ti quando tu começas a amá-Lo”. Vi dentro de mim a Luz Imutável, Forte e Brilhante! Quem conhece a Verdade conhece esta Luz. Ó Eterna Verdade! Verdadeira Caridade! Tu és o meu Deus! Por Ti suspiro dia e noite desde que Te conheci. E mostraste-me então Quem eras. E irradiaste sobre mim a Tua Força dando-me o Teu Amor!

7. E agora, Senhor, só amo a Ti! Só sigo a Ti! Só busco a Ti! Só ardo por Ti!…

8. Tarde te amei! Tarde Te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova! Tarde demais eu Te amei! Eis que estavas dentro, e eu, fora – e fora Te buscava, e me lançava, disforme e nada belo, perante a beleza de tudo e de todos que criaste. Estavas comigo, e eu não estava Contigo… Seguravam-me longe de Ti as coisas que não existiriam senão em Ti. Chamaste, clamaste por mim e rompeste a minha surdez. Brilhaste, resplandeceste, e a Tua Luz afugentou minha cegueira. Exalaste o Teu Perfume e, respirando-o, suspirei por Ti, Te desejei. Eu Te provei, Te saboreei e, agora, tenho fome e sede de Ti. Tocaste-me e agora ardo em desejos por Tua Paz!

Santo Agostinho, Confissões 10, 27-29

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Pessoas felizes não falam mal dos outros

 

O hábito de “falar mal” dos outros está tão enraizado na nossa sociedade atual que infelizmente não nos damos conta do quanto ele pode prejudicar a vida de todos: aquele que critica, aquele que é criticado, e até aquele que ouve passivamente a crítica sobre os outros.

Você já reparou em como as pessoas felizes não falam mal dos outros? Parece que elas, simplesmente, não têm essa necessidade que tantas outras pessoas têm.

Neste artigo, queremos falar sobre os motivos pelos quais as pessoas criticam as outras e sobre como podemos nos manter fortes diante das críticas e das energias negativas de pessoas que só sabem falar mal dos outros.

Por que as pessoas falam mal dos outros?

O motivo principal pelo qual as pessoas sentem a necessidade de falar mal dos outros é para que elas se sintam melhor com as suas próprias inseguranças. Geralmente elas procuram defeitos e falhas dos outros para comentar, em uma tentativa de disfarçar, tirar o foco ou até parar de pensar nos seus próprios  defeitos.

E não se enganem: ninguém está imune a isso. Analise o seu próprio comportamento com atenção e veja se você não fez nenhum comentário maldoso nos últimos tempos, mesmo sem intenção. Muitas vezes falamos algo e só depois nos damos conta.

Infelizmente este tipo de comportamento está enraizado no dia a dia de muitas pessoas, que na maioria das vezes estão insatisfeitas com algum aspecto das suas vidas, e criticam os outros para, de alguma forma, se sentirem melhor, mesmo que isso seja feito de maneira inconsciente em algumas situações.

Mantenha-se forte diante das críticas

Também é fundamental falar sobre o outro lado da moeda: a pessoa que é criticada. Em teoria, deveríamos todos ser completamente imunes às críticas. Afinal, o que uma pessoa diz sobre nós é a realidade dela, e não a nossa.  Ninguém sabe realmente o que acontece na vida de outra pessoa, tanto das alegrias e momentos de felicidade quanto das lutas e adversidades superadas.

Não deixe que a opinião dos outros influencie o seu dia a dia negativamente. É muito importante reforçar e desenvolver a sua  autoestima e autoconfiança, para saber lidar melhor com as críticas e resistir a delas. Sabemos que, muitas vezes, é difícil fazer isso, mas a chave para consegui-lo é o autoconhecimento.

Se você estiver feliz consigo mesmo, se tiver valores fortes nos quais acredita, se souber valorizar tudo o que tem na vida, ao invés de focar no que não tem, poderá viver alheio aos comentários dos outros, pois eles não o afetarão.

Afaste-se de quem só sabe criticar

Todo mundo conhece uma pessoa repleta de energias negativas, que só sabe se queixar da vida, reclamar de todos os acontecimentos, até dos felizes, e falar mal dos outros sempre que tiver uma mínima oportunidade.

Estas energias são contagiosas, por isso não vale a pena incentivar este tipo de comportamento, pois você também irá perder com ele. Cerque-se de pessoas felizes, com um astral lá em cima, otimistas e que enxerguem o lado positivo da vida, e não de pessoas que deixam todos (e inclusive elas mesmas) “para baixo”.

E não se engane: uma pessoa que fala mal dos outros para você, certamente fala mal de você para os outros. É este tipo de amizade ou relacionamento que você quer ter? Talvez seja o momento de reavaliar.

Se você conviver com alguém assim, pode conversar e explicar que este comportamento somente prejudica a todos, e que você não gostaria mais de ouvir comentários maldosos sobre as outras pessoas. Se mesmo assim não adiantar, infelizmente a melhor solução pode estar no afastamento.

Seja a melhor versão de você mesmo

As pessoas felizes estão preocupadas demais com elas mesmas e com o seu bem-estar pessoal para perder tempo falando mal dos outros. Inspire-se nelas!

Dedique o seu tempo, os seus pensamentos e as suas palavras à pessoa que mais importa na sua vida: você mesmo! Mantenha o seu foco em ser a melhor versão possível de você mesmo, trabalhando as suas inseguranças sem se comparar aos outros, e sem perder tempo com comentários e observações a respeito de características e comportamentos alheios.

Quando você estiver satisfeito consigo mesmo, certamente estará tomando as melhores decisões para o seu presente e o seu futuro, e vivendo de acordo com a sua verdadeira essência, não terá nenhuma preocupação com os outros e poderá seguir em frente de forma muito mais leve, plena e feliz




Leia mais: http://www.fasdapsicanalise.com.br/pessoas-felizes-nao-falam-mal-dos-outros/#ixzz46LpXGkBO

sábado, 16 de abril de 2016

O segredo do que sou



O que somos depende do que amamos. Só quem se dá aos outros se liberta do egoísmo. Ser é amar. Realizar-se na entrega de si ao outro.

O que sou não se limita ao que penso que sou, tão-pouco ao que penso que os outros julgam de mim. É mais. Sou também aquilo que recebo quando me esqueço de mim e me abro ao outro, e aquilo que fica de mim nos outros, quando a eles me dou...

Não sou apenas um aqui e agora. Sou também o que fui... e o que hei de ser.

Sou o que quero concretizar da minha essência, as sementes que decido regar de entre as que existem em mim.

A minha identidade faz-se dos muitos e pequenos passos que vou escolhendo dar... cada momento da vida é tão importante quanto insignificante.

Sofremos, por vezes, golpes fundos. O tempo nem os apaga nem os cura. São partes de nós, todas elas boas, porque são parte de nós. As tempestades, muitas vezes, aproximam-nos de quem nos quer bem... As dores fazem-nos família. Quando amo, e sou aceite, também sou no outro... e o outro, quando me ama e eu o aceito, também é em mim.

Sou um mistério que se constrói e revela... na certeza de que nunca sou nem mais, nem menos, do que o amor de que for capaz...

Sou o que amo.

JOSÉ LUÍS NUNES MARTINS
(ilustração de Carlos Ribeiro)

terça-feira, 12 de abril de 2016

A felicidade não é uma sorte



A felicidade não é um dom divino atribuído apenas a alguns, assim como também não é o resultado de um qualquer acaso ou sorte mais terrena. Não. Não vem dos céus nem de uma qualquer lotaria, antes sim de um conjunto de decisões íntimas e concretas em relação à vida de todos os dias. Por vezes, passa por abdicar do que outros julgam essencial. Muitos são os que permitem que as coisas banais os (pre)ocupem de mais.

Ser feliz não passa por satisfazer desejos momentâneos, mas por aprender a sonhar e a criar realidade, tantas vezes a partir do nada.

Ser feliz não é ser escravo dos seus apetites, é ser senhor de si. Todos temos o dever de nos tratarmos bem. Sermos corretos connosco próprios e com os outros.

Só quem acredita e confia em si pode ser feliz, porque não medirá o seu valor pelo que veste, pelos seus bens, pelo sucesso ou por outra coisa qualquer que o dinheiro pode comprar.

Não se deve nunca usar ninguém, ainda que seja por um interesse nobre. A única forma virtuosa de relação humana é o encontro, nunca o negócio.

Ser feliz não é viver no céu, é ter o céu em si. É escolher ser céu… e dar-se.

A felicidade é a realização plena de si… mas nunca se é feliz sozinho, porque o infinito só se revela no encontro.

José Luís Nunes Martins
(ilustração de Carlos Ribeiro)

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Desejo ardentemente passar esta Páscoa contigo…



Quando cheguei percebi que aquele jantar iria ser muito especial. A sala era toda de pedra e o tecto uma beleza, com arcos e ogivas, e as colunas que os suportavam espalhavam-se pela sala deixando um espaço central para a mesa, enorme, que estava posta de uma maneira muito simples. As paredes estavam pintadas de cor-de-rosa velho realçando ainda mais a beleza da pedra antiga. Numa das paredes estava acesa uma lareira enorme e ouvia-se o barulhar da lenha, o que fazia um ambiente muito acolhedor.

Todos os que estávamos ali tínhamos recebido o mesmo estranho convite: “Desejo ardentemente que venhas cear comigo nesta Páscoa”. Eu olhava à roda a ver quem poderia ter sido o da ideia mas percebi que todos tinham a mesma curiosidade.

A certa altura entrou na sala um homem que começou a cumprimentar cada um de uma maneira muito calorosa. Dizia qualquer coisa enquanto nos abraçava, sem pressas e com uma imensa ternura. Quem seria ele?

Chegou a minha vez. Avançou para mim com os braços muito abertos e um sorriso de uma bondade tal que senti o coração estremecer. Instintivamente estendi também os braços e deixei-me envolver naquele abraço eterno, apertando-o contra mim com toda a força de que fui capaz. Quando me largou, olhou-me intensamente e disse-me numa voz imensamente suave: “Não imaginas como desejei que viesses! Que bom teres aceitado o convite. A tua presença enche o meu coração de uma enorme alegria. És um filho muito amado. Senta-te aqui”. E arrastando um banco, mostrou-me o meu lugar. Sentia-me muito comovido, era aconchegante tudo o que ali se passava, as pessoas estavam agora com um olhar lavado e alegre, era uma alegria que vinha de dentro, como se todos os corações estivessem chapados nas nossas caras.

Começámos a comer e a conversar alegremente, o anfitrião estava num lugar central, mas era como se estivesse ao meu lado, ao lado de cada um. Falava pouco mas estava atento a todos e à conversa. A certa altura disse como se fosse a coisa mais natural do mundo – “Hoje alguém me vai trair!”. Foi uma bomba, e fez-se silêncio – quem poderia trair esta pessoa que tão bem nos recebia, que nos tinha abraçado com tanto amor, junto de quem nos sentíamos tão profundamente queridos? Alguém perguntou quase num sussurro: “Quem?”. E o anfitrião respondeu: “aquele”.

Nessa altura senti uma coisa muito estranha que mais tarde soube que todos sentiram também. Era para mim que ele olhava, era para cada um de nós que ele olhava pessoalmente. E era um olhar tão fundo que vi - num relâmpago - toda a minha história: de miséria, de negação, de infidelidade, de mentira, de orgulho, de vaidade, de injustiça, de maledicência... e era espantoso porque todas as pessoas a quem eu tinha feito mal, de quem tinha pensado mal, a quem magoei, tinham todas SEMPRE a cara do anfitrião. Voltei a olhar para ele e reparei que me olhava com uma bondade e uma doçura que me trespassaram.

Havia um silêncio muito violento na sala que só se quebrou quando ele se levantou, pegou numa toalha e numa bacia e veio lavar os pés de cada um. Um burburinho cortou então aquele silêncio pesado. A minha primeira reacção foi dizer: “Não! Não Senhor... como posso deixar que me laves os pés?” Mas ele de joelhos, totalmente despojado, olhava-me humildemente como se aquilo fosse para ele a coisa mais importante do mundo: “Deixas? Posso? Por favor!” E voltei a ver o mesmo filme de há pouco: todas as vezes em que O ofendi, e troquei, e julguei, e esqueci, e fingi... em cada pessoa a quem o fiz... “Achas que não tens nada para lavar?” Deixei-me então lavar... perdoar... amar. A todos ele lavou os pés com um carinho incrível, e no fim, disse-nos com autoridade: “Assim como vos fiz, façam também vocês uns aos outros”.

Vim a pé para casa, devagar e pensativo. Precisava de arejar, tinha o coração aos saltos. Até que “VI”! Vi que aquele era O Senhor que eu procurava há tanto tempo, O Senhor a Quem queria amar e seguir... “O SENHOR” da minha vida. E percebi também que não Lhe interessa ser amado se O separar do meu irmão, daquele familiar, daquele amigo, daquele que me fez mal, daquele de quem não gosto, mas que é em cada um deles que Ele quer ser reconhecido e querido.

Disseram-me depois que no fim daquele jantar o tinham morto, mas não é verdade porque passados 3 dias voltei a encontrá-lO. Ía eu pela rua, e ao passar por um beco vi-O: estava deitado a dormir despido e cheio de chagas em cima de um cartão. E voltei a vê-lO quando fui a um lar de velhinhos, estava num canto só e triste. E vi-O também na televisão, num país de África, parecia cheio de fome, muito magro e com uma barriga enorme, e vi-O ainda num irmão desprezado e caluniado... Não morreu nada! ESTÁ VIVO! Vejo-O muitas vezes. Sempre que O vejo Ele volta a dizer-me ao ouvido: “Assim como te fiz, faz tu também aos outros...”

terça-feira, 29 de março de 2016

Quais são as obras de misericórdia?



No dia 8 de dezembro começa um ano Jubilar da Misericórdia, convocado pelo Papa Francisco, que recomendou que durante esse tempo se realizem as obras de misericórdia mas, em que consistem e quais são?

sábado, 26 de março de 2016

Somos mais do que sabemos

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Devemos a verdade uns aos outros. São muitos os erros que cometemos na avaliação que fazemos de nós mesmos. Só quando submeto o que sou ao olhar do outro é que esses erros se podem evitar. Há quem tome a sinceridade como um sinal de baixeza de espírito ou mesmo imbecilidade. A sinceridade não é uma fraqueza, mas sim uma das mais audazes atitudes continuadas da vontade.

A verdade é simples e a sinceridade é um dom divino. Se não posso ver-me a partir de dentro sem a ajuda de quem me vê a partir de fora, esse é o momento em que passamos de retrato a pintor, de poema a poeta, de estátua a escultor. Deixamos os erros que nos prendiam e tornamo-nos na obra de nós mesmos.

Há quem finja sinceridade e magoe com maldade, quem aproveite para castigar os que abrem o seu coração com fé a palavras que julgam justas. São frustrados, tentam vingar-se de si mesmos nos outros. Não são francos, mas fracos.

Há muitos narcisos no mundo. Escolhem não ter amigos que lhes digam a verdade, admiram-se com uma loucura patética. Decidem ser apenas retrato, não se recriam nem renascem. Retrato que olha para si mesmo. Aparências sem verdade. Mas se há narcisos que o são sempre, a verdade é que a maior parte de nós o é muitas vezes...

Quantas vezes preferimos os olhares e as palavras dos aduladores? Quantas vezes escolhemos o doce veneno das falsas admirações? Quantas vezes recusamos admitir que somos mais disformes do que parecemos acreditar? Será que temos consciência de que é a nossa vaidade que nos torna manipuláveis?

O orgulho é a raiz de todos os vícios. Privar alguém da verdade é condená-lo à desgraça do inferno, que é a prisão ao que é exterior. Saibamos nós abrir o coração e mostrar-nos, aceitando e agradecendo a quem tem a lucidez, a coragem e a bondade de nos olhar e ajudar a ver o que estamos a ser, naquilo em que podemos ser melhores...

A verdade pode ser traída, mas não pode ser morta ou calada, porque, no final, se não for de outra forma, até as pedras a hão de gritar.

26 de março de 2016
Ilustração de Carlos Ribeiro

quinta-feira, 24 de março de 2016

Embora seja noite.


«Bem eu sei a fonte que mana e corre,
Embora seja noite.

Aquela eterna fonte não a vê ninguém
E bem sei onde é e donde vem,
Embora seja noite.

Não sei a fonte dela, que não há,
Mas sei que toda a fonte vem de lá,
Embora seja noite.

Não pode haver, eu sei, coisa tão bela
E céus e terra beleza bebem dela,
Embora seja noite.

Porque não pode ali o fundo achar,
Eu sei que ninguém a pode atravessar,
Embora seja noite.

A claridade sua não escurece
E sei que toda a luz dela amanhece,
Embora seja noite.

Tão caudalosas são suas correntes
Que regam céus, infernos e as gentes,
Embora seja noite.

E desta fonte nasce uma corrente 
E bem sei eu que é forte e omnipotente, 
Embora seja noite. 

E das duas a corrente que procede 
Sei que nenhuma delas a precede, 
Embora seja noite. 

E esta eterna fonte está escondida 
Em este vivo pão a dar-nos vida, 
Embora seja noite. 

Aqui está a chamar as criaturas 
Que bebem desta água, e às escuras, 
Porque é de noite. 

Esta viva fonte que desejo, 
Em este pão de vida, aí a vejo, 
Embora de noite.» 

S. João da Cruz | 1542 - 1591 
Poesias. A Fonte 
Senhor, 
a Fonte é a Eucaristia 
que me dás para meu alimento 
e para me comunicares a Tua Vida. 
Enche o meu coração desta Vida 
e concede-me a graça 
de ser também pão 
para os meus irmãos. 
Assim seja.