sábado, 23 de abril de 2016

Os sonhos são feitos de amo




O amor sonha, mas somos nós quem deve carregar as pedras, desenhar e fazer os caminhos, e erguer os castelos. Ninguém pode esperar reinos perfeitos onde nos receberão como reis, rainhas e senhores de tudo. Não existem. Nem fariam sentido.

Os sonhos querem manifestar-se à luz do dia. Nunca são absurdos. Só quando alguém abandona um sonho é que o condena à prisão do impossível.

Muitos pesadelos nascem do egoísmo. São medo, medos e medo dos medos... infelicidade em potência, pronta a irromper na realidade e a impor-se a quem desiste de si. Não há pessoa mais pobre do que aquela que perdeu toda a sua paciência. As feridas demoram a cicatrizar. Muito… Mas com tempo e silêncio curam-se quase todos os males.

Com humildade, devemos acolher a presença e a ajuda dos outros. Aceitando que a verdade também nos chega pelo olhar, mão ou voz de uma criança, de um qualquer desconhecido ou até mesmo de alguém da nossa família...

Todos os dons são formas de amor, assim todas as virtudes nele encontram a sua semente e o seu alimento. O amor sopra em todos os tempos e lugares, nunca sai do seu silêncio nem a nada faz sombra... é a luz que vê e ilumina, sem ser vista ou iluminada.

O amor é uma paixão sensata, cuidadosa e sonhadora.

É um cuidar do outro como única forma de cuidar de si.


JOSÉ LUÍS NUNES MARTINS
(ilustração de Carlos Ribeiro)

Tarde Te amei!



“Tarde Te amei!” De Santo Agostinho, uma das mais arrebatadoras orações de todos os tempos
"Et ecce intus eras et ego foris et ibi te quaerebam, et in ista formosa quae fecisti deformis irruebam..."

1. Tarde Te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova… Tarde Te amei! Trinta anos estive longe de Deus. Mas, durante esse tempo, algo se movia dentro do meu coração… Eu era inquieto, alguém que buscava a felicidade, buscava algo que não achava… Mas Tu Te compadeceste de mim e tudo mudou, porque Tu me deixaste conhecer-Te. Entrei no meu íntimo sob a Tua Guia e consegui, porque Tu Te fizeste meu auxílio.

2. Tu estavas dentro de mim e eu fora… “Os homens saem para fazer passeios, a fim de admirar o alto dos montes, o ruído incessante dos mares, o belo e ininterrupto curso dos rios, os majestosos movimentos dos astros. E, no entanto, passam ao largo de si mesmos. Não se arriscam na aventura de um passeio interior”. Durante os anos de minha juventude, pus meu coração em coisas exteriores que só faziam me afastar cada vez mais d’Aquele a Quem meu coração, sem saber, desejava… Eis que estavas dentro e eu fora! Seguravam-me longe de Ti as coisas que não existiriam senão em Ti. Estavas comigo e não eu Contigo…

3. Mas Tu me chamaste, clamaste por mim e Teu grito rompeu a minha surdez… “Fizeste-me entrar em mim mesmo… Para não olhar para dentro de mim, eu tinha me escondido. Mas Tu me arrancaste do meu esconderijo e me puseste diante de mim mesmo, a fim de que eu enxergasse o indigno que era, o quão deformado, manchado e sujo eu estava”. Em meio à luta, recorri a meu grande amigo Alípio e lhe disse: “Os ignorantes nos arrebatam o céu e nós, com toda a nossa ciência, nos debatemos em nossa carne”. Assim me encontrava, chorando desconsolado, enquanto perguntava a mim mesmo quando deixaria de dizer “Amanhã, amanhã”… Foi então que escutei uma voz que vinha da casa vizinha… Uma voz que dizia: “Pega e lê. Pega e lê!”.

4. Brilhaste, resplandeceste sobre mim e afugentaste a minha cegueira. Então corri à Bíblia, abri-a e li o primeiro capítulo sobre o qual caiu o meu olhar. Pertencia à carta de São Paulo aos Romanos e dizia assim: “Não em orgias e bebedeiras, nem na devassidão e libertinagem, nem nas rixas e ciúmes. Mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo” (Rm 13,13s). Aquelas Palavras ressoaram dentro de mim. Pareciam escritas por uma pessoa que me conhecia, que sabia da minha vida.

5. Exalaste Teu Perfume e respirei. Agora suspiro por Ti, anseio por Ti! Deus… de Quem separar-se é morrer, de Quem aproximar-se é ressuscitar, com Quem habitar é viver. Deus… de Quem fugir é cair, a Quem voltar é levantar-se, em Quem apoiar-se é estar seguro. Deus… a Quem esquecer é perecer, a Quem buscar é renascer, a Quem conhecer é possuir. Foi assim que descobri a Deus e me dei conta de que, no fundo, era a Ele, mesmo sem saber, a Quem buscava ardentemente o meu coração.

6. Provei-Te, e, agora, tenho fome e sede de Ti. Tocaste-me, e agora ardo por Tua Paz. “Deus começa a habitar em ti quando tu começas a amá-Lo”. Vi dentro de mim a Luz Imutável, Forte e Brilhante! Quem conhece a Verdade conhece esta Luz. Ó Eterna Verdade! Verdadeira Caridade! Tu és o meu Deus! Por Ti suspiro dia e noite desde que Te conheci. E mostraste-me então Quem eras. E irradiaste sobre mim a Tua Força dando-me o Teu Amor!

7. E agora, Senhor, só amo a Ti! Só sigo a Ti! Só busco a Ti! Só ardo por Ti!…

8. Tarde te amei! Tarde Te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova! Tarde demais eu Te amei! Eis que estavas dentro, e eu, fora – e fora Te buscava, e me lançava, disforme e nada belo, perante a beleza de tudo e de todos que criaste. Estavas comigo, e eu não estava Contigo… Seguravam-me longe de Ti as coisas que não existiriam senão em Ti. Chamaste, clamaste por mim e rompeste a minha surdez. Brilhaste, resplandeceste, e a Tua Luz afugentou minha cegueira. Exalaste o Teu Perfume e, respirando-o, suspirei por Ti, Te desejei. Eu Te provei, Te saboreei e, agora, tenho fome e sede de Ti. Tocaste-me e agora ardo em desejos por Tua Paz!

Santo Agostinho, Confissões 10, 27-29

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Pessoas felizes não falam mal dos outros

 

O hábito de “falar mal” dos outros está tão enraizado na nossa sociedade atual que infelizmente não nos damos conta do quanto ele pode prejudicar a vida de todos: aquele que critica, aquele que é criticado, e até aquele que ouve passivamente a crítica sobre os outros.

Você já reparou em como as pessoas felizes não falam mal dos outros? Parece que elas, simplesmente, não têm essa necessidade que tantas outras pessoas têm.

Neste artigo, queremos falar sobre os motivos pelos quais as pessoas criticam as outras e sobre como podemos nos manter fortes diante das críticas e das energias negativas de pessoas que só sabem falar mal dos outros.

Por que as pessoas falam mal dos outros?

O motivo principal pelo qual as pessoas sentem a necessidade de falar mal dos outros é para que elas se sintam melhor com as suas próprias inseguranças. Geralmente elas procuram defeitos e falhas dos outros para comentar, em uma tentativa de disfarçar, tirar o foco ou até parar de pensar nos seus próprios  defeitos.

E não se enganem: ninguém está imune a isso. Analise o seu próprio comportamento com atenção e veja se você não fez nenhum comentário maldoso nos últimos tempos, mesmo sem intenção. Muitas vezes falamos algo e só depois nos damos conta.

Infelizmente este tipo de comportamento está enraizado no dia a dia de muitas pessoas, que na maioria das vezes estão insatisfeitas com algum aspecto das suas vidas, e criticam os outros para, de alguma forma, se sentirem melhor, mesmo que isso seja feito de maneira inconsciente em algumas situações.

Mantenha-se forte diante das críticas

Também é fundamental falar sobre o outro lado da moeda: a pessoa que é criticada. Em teoria, deveríamos todos ser completamente imunes às críticas. Afinal, o que uma pessoa diz sobre nós é a realidade dela, e não a nossa.  Ninguém sabe realmente o que acontece na vida de outra pessoa, tanto das alegrias e momentos de felicidade quanto das lutas e adversidades superadas.

Não deixe que a opinião dos outros influencie o seu dia a dia negativamente. É muito importante reforçar e desenvolver a sua  autoestima e autoconfiança, para saber lidar melhor com as críticas e resistir a delas. Sabemos que, muitas vezes, é difícil fazer isso, mas a chave para consegui-lo é o autoconhecimento.

Se você estiver feliz consigo mesmo, se tiver valores fortes nos quais acredita, se souber valorizar tudo o que tem na vida, ao invés de focar no que não tem, poderá viver alheio aos comentários dos outros, pois eles não o afetarão.

Afaste-se de quem só sabe criticar

Todo mundo conhece uma pessoa repleta de energias negativas, que só sabe se queixar da vida, reclamar de todos os acontecimentos, até dos felizes, e falar mal dos outros sempre que tiver uma mínima oportunidade.

Estas energias são contagiosas, por isso não vale a pena incentivar este tipo de comportamento, pois você também irá perder com ele. Cerque-se de pessoas felizes, com um astral lá em cima, otimistas e que enxerguem o lado positivo da vida, e não de pessoas que deixam todos (e inclusive elas mesmas) “para baixo”.

E não se engane: uma pessoa que fala mal dos outros para você, certamente fala mal de você para os outros. É este tipo de amizade ou relacionamento que você quer ter? Talvez seja o momento de reavaliar.

Se você conviver com alguém assim, pode conversar e explicar que este comportamento somente prejudica a todos, e que você não gostaria mais de ouvir comentários maldosos sobre as outras pessoas. Se mesmo assim não adiantar, infelizmente a melhor solução pode estar no afastamento.

Seja a melhor versão de você mesmo

As pessoas felizes estão preocupadas demais com elas mesmas e com o seu bem-estar pessoal para perder tempo falando mal dos outros. Inspire-se nelas!

Dedique o seu tempo, os seus pensamentos e as suas palavras à pessoa que mais importa na sua vida: você mesmo! Mantenha o seu foco em ser a melhor versão possível de você mesmo, trabalhando as suas inseguranças sem se comparar aos outros, e sem perder tempo com comentários e observações a respeito de características e comportamentos alheios.

Quando você estiver satisfeito consigo mesmo, certamente estará tomando as melhores decisões para o seu presente e o seu futuro, e vivendo de acordo com a sua verdadeira essência, não terá nenhuma preocupação com os outros e poderá seguir em frente de forma muito mais leve, plena e feliz




Leia mais: http://www.fasdapsicanalise.com.br/pessoas-felizes-nao-falam-mal-dos-outros/#ixzz46LpXGkBO

sábado, 16 de abril de 2016

O segredo do que sou



O que somos depende do que amamos. Só quem se dá aos outros se liberta do egoísmo. Ser é amar. Realizar-se na entrega de si ao outro.

O que sou não se limita ao que penso que sou, tão-pouco ao que penso que os outros julgam de mim. É mais. Sou também aquilo que recebo quando me esqueço de mim e me abro ao outro, e aquilo que fica de mim nos outros, quando a eles me dou...

Não sou apenas um aqui e agora. Sou também o que fui... e o que hei de ser.

Sou o que quero concretizar da minha essência, as sementes que decido regar de entre as que existem em mim.

A minha identidade faz-se dos muitos e pequenos passos que vou escolhendo dar... cada momento da vida é tão importante quanto insignificante.

Sofremos, por vezes, golpes fundos. O tempo nem os apaga nem os cura. São partes de nós, todas elas boas, porque são parte de nós. As tempestades, muitas vezes, aproximam-nos de quem nos quer bem... As dores fazem-nos família. Quando amo, e sou aceite, também sou no outro... e o outro, quando me ama e eu o aceito, também é em mim.

Sou um mistério que se constrói e revela... na certeza de que nunca sou nem mais, nem menos, do que o amor de que for capaz...

Sou o que amo.

JOSÉ LUÍS NUNES MARTINS
(ilustração de Carlos Ribeiro)

terça-feira, 12 de abril de 2016

A felicidade não é uma sorte



A felicidade não é um dom divino atribuído apenas a alguns, assim como também não é o resultado de um qualquer acaso ou sorte mais terrena. Não. Não vem dos céus nem de uma qualquer lotaria, antes sim de um conjunto de decisões íntimas e concretas em relação à vida de todos os dias. Por vezes, passa por abdicar do que outros julgam essencial. Muitos são os que permitem que as coisas banais os (pre)ocupem de mais.

Ser feliz não passa por satisfazer desejos momentâneos, mas por aprender a sonhar e a criar realidade, tantas vezes a partir do nada.

Ser feliz não é ser escravo dos seus apetites, é ser senhor de si. Todos temos o dever de nos tratarmos bem. Sermos corretos connosco próprios e com os outros.

Só quem acredita e confia em si pode ser feliz, porque não medirá o seu valor pelo que veste, pelos seus bens, pelo sucesso ou por outra coisa qualquer que o dinheiro pode comprar.

Não se deve nunca usar ninguém, ainda que seja por um interesse nobre. A única forma virtuosa de relação humana é o encontro, nunca o negócio.

Ser feliz não é viver no céu, é ter o céu em si. É escolher ser céu… e dar-se.

A felicidade é a realização plena de si… mas nunca se é feliz sozinho, porque o infinito só se revela no encontro.

José Luís Nunes Martins
(ilustração de Carlos Ribeiro)

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Desejo ardentemente passar esta Páscoa contigo…



Quando cheguei percebi que aquele jantar iria ser muito especial. A sala era toda de pedra e o tecto uma beleza, com arcos e ogivas, e as colunas que os suportavam espalhavam-se pela sala deixando um espaço central para a mesa, enorme, que estava posta de uma maneira muito simples. As paredes estavam pintadas de cor-de-rosa velho realçando ainda mais a beleza da pedra antiga. Numa das paredes estava acesa uma lareira enorme e ouvia-se o barulhar da lenha, o que fazia um ambiente muito acolhedor.

Todos os que estávamos ali tínhamos recebido o mesmo estranho convite: “Desejo ardentemente que venhas cear comigo nesta Páscoa”. Eu olhava à roda a ver quem poderia ter sido o da ideia mas percebi que todos tinham a mesma curiosidade.

A certa altura entrou na sala um homem que começou a cumprimentar cada um de uma maneira muito calorosa. Dizia qualquer coisa enquanto nos abraçava, sem pressas e com uma imensa ternura. Quem seria ele?

Chegou a minha vez. Avançou para mim com os braços muito abertos e um sorriso de uma bondade tal que senti o coração estremecer. Instintivamente estendi também os braços e deixei-me envolver naquele abraço eterno, apertando-o contra mim com toda a força de que fui capaz. Quando me largou, olhou-me intensamente e disse-me numa voz imensamente suave: “Não imaginas como desejei que viesses! Que bom teres aceitado o convite. A tua presença enche o meu coração de uma enorme alegria. És um filho muito amado. Senta-te aqui”. E arrastando um banco, mostrou-me o meu lugar. Sentia-me muito comovido, era aconchegante tudo o que ali se passava, as pessoas estavam agora com um olhar lavado e alegre, era uma alegria que vinha de dentro, como se todos os corações estivessem chapados nas nossas caras.

Começámos a comer e a conversar alegremente, o anfitrião estava num lugar central, mas era como se estivesse ao meu lado, ao lado de cada um. Falava pouco mas estava atento a todos e à conversa. A certa altura disse como se fosse a coisa mais natural do mundo – “Hoje alguém me vai trair!”. Foi uma bomba, e fez-se silêncio – quem poderia trair esta pessoa que tão bem nos recebia, que nos tinha abraçado com tanto amor, junto de quem nos sentíamos tão profundamente queridos? Alguém perguntou quase num sussurro: “Quem?”. E o anfitrião respondeu: “aquele”.

Nessa altura senti uma coisa muito estranha que mais tarde soube que todos sentiram também. Era para mim que ele olhava, era para cada um de nós que ele olhava pessoalmente. E era um olhar tão fundo que vi - num relâmpago - toda a minha história: de miséria, de negação, de infidelidade, de mentira, de orgulho, de vaidade, de injustiça, de maledicência... e era espantoso porque todas as pessoas a quem eu tinha feito mal, de quem tinha pensado mal, a quem magoei, tinham todas SEMPRE a cara do anfitrião. Voltei a olhar para ele e reparei que me olhava com uma bondade e uma doçura que me trespassaram.

Havia um silêncio muito violento na sala que só se quebrou quando ele se levantou, pegou numa toalha e numa bacia e veio lavar os pés de cada um. Um burburinho cortou então aquele silêncio pesado. A minha primeira reacção foi dizer: “Não! Não Senhor... como posso deixar que me laves os pés?” Mas ele de joelhos, totalmente despojado, olhava-me humildemente como se aquilo fosse para ele a coisa mais importante do mundo: “Deixas? Posso? Por favor!” E voltei a ver o mesmo filme de há pouco: todas as vezes em que O ofendi, e troquei, e julguei, e esqueci, e fingi... em cada pessoa a quem o fiz... “Achas que não tens nada para lavar?” Deixei-me então lavar... perdoar... amar. A todos ele lavou os pés com um carinho incrível, e no fim, disse-nos com autoridade: “Assim como vos fiz, façam também vocês uns aos outros”.

Vim a pé para casa, devagar e pensativo. Precisava de arejar, tinha o coração aos saltos. Até que “VI”! Vi que aquele era O Senhor que eu procurava há tanto tempo, O Senhor a Quem queria amar e seguir... “O SENHOR” da minha vida. E percebi também que não Lhe interessa ser amado se O separar do meu irmão, daquele familiar, daquele amigo, daquele que me fez mal, daquele de quem não gosto, mas que é em cada um deles que Ele quer ser reconhecido e querido.

Disseram-me depois que no fim daquele jantar o tinham morto, mas não é verdade porque passados 3 dias voltei a encontrá-lO. Ía eu pela rua, e ao passar por um beco vi-O: estava deitado a dormir despido e cheio de chagas em cima de um cartão. E voltei a vê-lO quando fui a um lar de velhinhos, estava num canto só e triste. E vi-O também na televisão, num país de África, parecia cheio de fome, muito magro e com uma barriga enorme, e vi-O ainda num irmão desprezado e caluniado... Não morreu nada! ESTÁ VIVO! Vejo-O muitas vezes. Sempre que O vejo Ele volta a dizer-me ao ouvido: “Assim como te fiz, faz tu também aos outros...”

terça-feira, 29 de março de 2016

Quais são as obras de misericórdia?



No dia 8 de dezembro começa um ano Jubilar da Misericórdia, convocado pelo Papa Francisco, que recomendou que durante esse tempo se realizem as obras de misericórdia mas, em que consistem e quais são?

sábado, 26 de março de 2016

Somos mais do que sabemos

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Devemos a verdade uns aos outros. São muitos os erros que cometemos na avaliação que fazemos de nós mesmos. Só quando submeto o que sou ao olhar do outro é que esses erros se podem evitar. Há quem tome a sinceridade como um sinal de baixeza de espírito ou mesmo imbecilidade. A sinceridade não é uma fraqueza, mas sim uma das mais audazes atitudes continuadas da vontade.

A verdade é simples e a sinceridade é um dom divino. Se não posso ver-me a partir de dentro sem a ajuda de quem me vê a partir de fora, esse é o momento em que passamos de retrato a pintor, de poema a poeta, de estátua a escultor. Deixamos os erros que nos prendiam e tornamo-nos na obra de nós mesmos.

Há quem finja sinceridade e magoe com maldade, quem aproveite para castigar os que abrem o seu coração com fé a palavras que julgam justas. São frustrados, tentam vingar-se de si mesmos nos outros. Não são francos, mas fracos.

Há muitos narcisos no mundo. Escolhem não ter amigos que lhes digam a verdade, admiram-se com uma loucura patética. Decidem ser apenas retrato, não se recriam nem renascem. Retrato que olha para si mesmo. Aparências sem verdade. Mas se há narcisos que o são sempre, a verdade é que a maior parte de nós o é muitas vezes...

Quantas vezes preferimos os olhares e as palavras dos aduladores? Quantas vezes escolhemos o doce veneno das falsas admirações? Quantas vezes recusamos admitir que somos mais disformes do que parecemos acreditar? Será que temos consciência de que é a nossa vaidade que nos torna manipuláveis?

O orgulho é a raiz de todos os vícios. Privar alguém da verdade é condená-lo à desgraça do inferno, que é a prisão ao que é exterior. Saibamos nós abrir o coração e mostrar-nos, aceitando e agradecendo a quem tem a lucidez, a coragem e a bondade de nos olhar e ajudar a ver o que estamos a ser, naquilo em que podemos ser melhores...

A verdade pode ser traída, mas não pode ser morta ou calada, porque, no final, se não for de outra forma, até as pedras a hão de gritar.

26 de março de 2016
Ilustração de Carlos Ribeiro

quinta-feira, 24 de março de 2016

Embora seja noite.


«Bem eu sei a fonte que mana e corre,
Embora seja noite.

Aquela eterna fonte não a vê ninguém
E bem sei onde é e donde vem,
Embora seja noite.

Não sei a fonte dela, que não há,
Mas sei que toda a fonte vem de lá,
Embora seja noite.

Não pode haver, eu sei, coisa tão bela
E céus e terra beleza bebem dela,
Embora seja noite.

Porque não pode ali o fundo achar,
Eu sei que ninguém a pode atravessar,
Embora seja noite.

A claridade sua não escurece
E sei que toda a luz dela amanhece,
Embora seja noite.

Tão caudalosas são suas correntes
Que regam céus, infernos e as gentes,
Embora seja noite.

E desta fonte nasce uma corrente 
E bem sei eu que é forte e omnipotente, 
Embora seja noite. 

E das duas a corrente que procede 
Sei que nenhuma delas a precede, 
Embora seja noite. 

E esta eterna fonte está escondida 
Em este vivo pão a dar-nos vida, 
Embora seja noite. 

Aqui está a chamar as criaturas 
Que bebem desta água, e às escuras, 
Porque é de noite. 

Esta viva fonte que desejo, 
Em este pão de vida, aí a vejo, 
Embora de noite.» 

S. João da Cruz | 1542 - 1591 
Poesias. A Fonte 
Senhor, 
a Fonte é a Eucaristia 
que me dás para meu alimento 
e para me comunicares a Tua Vida. 
Enche o meu coração desta Vida 
e concede-me a graça 
de ser também pão 
para os meus irmãos. 
Assim seja.

terça-feira, 22 de março de 2016

E se fosse eu?



"E se fosse eu? Pegar na mochila e partir."

Um desafio de empatia para os estudantes do Básico e do Secundário. Um exercício de nos colocarmos na posição do "outro" e perceber o que esperaríamos encontrar como acolhimento.
Uma iniciativa conjunta entre a Direção Geral de Educação, o Alto Comissariado para as Migrações, o Conselho Nacional de Juventude e a Plataforma de Apoio aos Refugiados.
‪#‎esefosseeu‬ http://www.esefosseeu.pt

domingo, 20 de março de 2016

Quem sou eu diante do meu Senhor?



"Esta semana começa com a procissão festiva com os ramos de oliveira: todo o povo acolhe Jesus. As crianças, os jovens cantam, louvam Jesus.

Mas esta semana segue adiante no mistério da morte de Jesus e da sua ressurreição. Ouvimos a Paixão do Senhor. Fará bem a nós nos fazermos somente uma pergunta: quem sou eu? Quem sou eu diante do meu Senhor? Quem sou eu diante de Jesus que entra em festa em Jerusalém? Sou capaz de exprimir a minha alegria, de louvá-Lo? Ou tomo distância? Quem sou eu, diante de Jesus que sofre?
Escutamos tantos nomes, tantos nomes. O grupo de líderes, alguns sacerdotes, alguns fariseus, alguns mestres da lei, que tinham decidido matá-Lo. Esperavam a oportunidade para prendê-Lo. Eu sou como um deles?

Escutamos também um outro nome: Judas. 30 moedas. Sou como Judas? Ouvimos também outros nomes: os discípulos que não entendiam nada, que adormeciam enquanto o Senhor sofria. A minha vida está adormecida? Ou sou como os discípulos, que não entendiam o que era trair Jesus? Como aquele outro discípulo que queria resolver tudo com a espada: sou como eles? Sou como Judas, que finge amar e beija o Mestre para entregá-Lo, pra traí-lo? Eu sou traidor? Sou como aqueles líderes que com pressa fazem o tribunal e procuram falsas testemunhas: sou como eles? E quando faço estas coisas, se as faço, acredito que com isto salvo o povo?

Eu sou como Pilatos? Quando vejo que a situação está difícil, lavo as minhas mãos e não sei assumir a minha responsabilidade e deixo condenar – ou condeno eu – as pessoas?

Sou como aquela multidão que não sabia bem se estava em uma reunião religiosa, em um julgamento ou em um circo, e escolhe Barrabás? Para eles é o mesmo: era mais divertido, para humilhar Jesus.
Sou como os soldados que atingem o Senhor, cospem Nele, insultam-No, se divertem com a humilhação do Senhor?

Eu sou como o Cirineu, que voltava do trabalho, cansado, mas teve a boa vontade de ajudar o Senhor a carregar a cruz ?

Eu sou como aqueles que passavam diante da Cruz e zombavam de Jesus: “Era tão corajoso! Desça da cruz, e nós vamos acreditar Nele”. Zomba-se de Jesus…

Sou como aquelas mulheres corajosas, e como a Mãe de Jesus, que estavam ali, sofrendo em silêncio?

Sou como José, o discípulo escondido, que leva o corpo de Jesus com amor, para levá-lo à sepultura?
Sou como as duas Marias, que permanecem diante do Sepulcro chorando, rezando?

Eu sou como aqueles líderes que no dia seguinte foram a Pilatos para dizer: “Olha, ele dizia que iria ressuscitar. Que não seja mais um engano!”, e bloqueiam a vida, bloqueando o sepulcro para defender a doutrina, para que a vida não venha para fora?

Onde está o meu coração? Com qual destas pessoas eu me pareço? Que esta pergunta nos acompanhe durante toda a semana."

Papa Francisco

sábado, 19 de março de 2016

José fez como lhe ordenara o Anjo do Senhor


"...Mas José, seu esposo, que era justo e não queria difamá-la, resolveu repudiá-la em segredo. ... Disse-lhe o anjo: 'José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que nela se gerou é fruto do Espírito Santo.' José fez como lhe ordenara o Anjo do Senhor". (Mt 1,16.18-21.24a)

José a figura do homem justo = "ajustado ao Senhor"; José o silencioso que sacrificou o seu projecto de vida para colaborar na obra da Salvação aceitando receber em sua própria casa e na sua vida o Messias, “sem se lhe ouvir um queixume”; José exemplo da vida simples; José o que colocou à disposição do Senhor a sua liberdade e a sua legítima vocação humana de felicidade conjugal; José o que põe à frente da sua vontade, a vontade do Pai, por isso é o pai de todos os pais.

Teresa Olazabal



sexta-feira, 18 de março de 2016

Manifestações da caridade



Para a Quaresma o Papa Francisco propõe 15 simples atos de caridade que ele mencionou como manifestações concretas de amor:

1. Sorrir, um cristão é sempre alegre!
2. Agradecer (embora não “precise” fazê-lo).
3. Lembrar ao outro o quanto você o ama.
4. Cumprimentar com alegria as pessoas que você vê todos os dias.
5. Ouvir a história do outro, sem julgamento, com amor.
6. Parar para ajudar. Estar atento a quem precisa de você.
7. Animar a alguém.
8. Reconhecer os sucessos e qualidades do outro.
9. Separar o que você não usa e dar a quem precisa.
10. Ajudar a alguém para que êle possa descansar.
11. Corrigir com amor; não calar por medo.
12. Ter delicadezas com os que estão perto de você.
13. Limpar o que sujou, em casa.
14. Ajudar os outros a superar os obstáculos.
15. Telefonar para seus pais.

O MELHOR JEJUM:
• Jejum de palavras negativas e dizer palavras bondosas.
• Jejum de descontentamento e encher-se de gratidão.
• Jejum de raiva e encher-se com mansidão e paciência.
• Jejum de pessimismo e encher-se de esperança e otimismo.
• Jejum de preocupações e encher-se de confiança em Deus.
• Jejum de queixas e encher-se com as coisas simples da vida.
• Jejum de tensões e encher-se com orações.
• Jejum de amargura e tristeza e encher o coração de alegria.
• Jejum de egoísmo e encher-se com compaixão pelos outros.
• Jejum de falta de perdão e encher-se de reconciliação.
• Jejum de palavras e encher-se de silêncio para ouvir os outros.

quinta-feira, 10 de março de 2016

Oração do risco


Senhor, Tu sabes tudo!
Sabes do meu coração inquieto,
ferido, e muitas vezes fechado.
Sabes dos tropeços e das quedas,
Das mentiras e enganos,
Das minhas culpas e pecados…

Senhor, Tu sabes tudo!
Sabes do desejo de Te amar
Acima de tudo e em tudo,
De levar o Teu Amor
A todos os que encontro,
Nos lugares por onde passo,
Em cada coisa que faço.

Senhor, Tu sabes tudo!
Sabes que quero ser todo Teu:
Que quero ser pobre,
para encontrar a riqueza em Ti;
Que quero ser obediente,
para encontrar a liberdade em Ti;
Que quero ser casto,
para encontrar o amor em Ti.

Eu sei, Senhor,
Que crescer em Ti, é diminuir,
Que ganhar-Te a Ti, é perder-me,
Que viver de Ti, é morrer…

Posso duvidar e cair muitas vezes,
Posso até negar-Te muitas vezes,
Mas Tu, Senhor, sabes tudo!
Tu sabes que arrisco tudo!
Tu sabes que Te amo!

Pe. Hugo Gonçalves

segunda-feira, 7 de março de 2016

Pai de Misericórdia



Eu sou teu filho, És meu Pai, misteriosa verdade
Nem mesmo um cabelo cai, se não for Tua vontade.
Cuidas de mim qual tesouro, sou mais que a ave, que o lírio.
É como se nesse mundo ninguém mais fosse Teu filho.

Para que me preocupar?
Tu te preocupas por mim.
O que comer? O que vestir? O Teu amor é assim.

Sei descobrir Teu sorriso cheio de pena e perdão,
Quando ouso olhar Teus olhos depois de cair ao chão.

E quanto mais sou pequeno, bem mais profundo é então.
O lugar que me ofereces, na casa do Teu perdão.
Tens por mim um tal amor, que as vezes eu imagino.
Tu não poderias ser, sem o meu ser pequenino.

Fonte de Misericórdia.
Ó Pai, Tu fonte bendita.
Não poderias ser fonte, sem minha sede infinita.
Precisamos um do outro.
Amor que amor atrai.
Eu de Ti para ser filho, Tu de mim pra seres Pai.


Padre Antônio Maria

quinta-feira, 3 de março de 2016

Filho predileto


Certa vez perguntaram a uma mãe qual era seu filho preferido,
aquele que ela mais amava.
E ela, deixando entrever um sorriso, respondeu:
"Nada é mais volúvel que um coração de mãe.
E, como mãe, lhe respondo: o filho predileto,
aquele a quem me dedico de corpo e alma...
É o meu filho doente, até que sare.
O que partiu, até que volte.
O que está cansado, até que descanse.
O que está com fome, até que se alimente.
O que está com sede, até que beba.
O que estuda, até que aprenda.
O que está com frio, até que se agasalhe.
O que não trabalha, até que se empregue.
O que namora, até que se case.
O que casa, até que conviva.
O que é pai, até que os crie.
O que prometeu, até que se cumpra.
O que deve, até que pague.
O que chora, até que cale.
E já com o semblante bem distante daquele sorriso, completou:
O que já me deixou...
...até que o reencontre...


Erma Bombeck

quarta-feira, 2 de março de 2016

Carta para Jack


Laura tem apenas 8 anos e uma história forte o suficiente para servir de exemplo para o mundo inteiro. Com determinação, ela pede para que Jack- e aqui você logo entenderá porque ela chama assim o destinatário da carta- que ele saia de sua casa.

Cansada do pai viciado em álcool, ela conta a visão de uma criança que presencia diariamente a violência doméstica, a ausência paternal e tantos outros efeitos colaterais que o alcoolismo gera.

Confira e emocione-se:


segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Obrigadinho, ó Bloco!



Jesus Cristo, como aliás todos nós, tem um só pai e uma única mãe, não dois pais sem nenhuma mãe, nem duas mães sem nenhum pai. Isto não é religião, nem ideologia; é genética e biologia.

Como é sabido, o Bloco de Esquerda está a promover, sobretudo nas redes sociais, uma campanha com a imagem de Cristo e a afirmação de que “Jesus também tinha dois pais”. Ao que consta, esta iniciativa pretende assinalar uma data: 10 de Fevereiro de 2016, o dia em que, como também aí se diz, por certo em mau português, o “Parlamento termina discriminação na lei da adopção”.

Em fundo cor-de-rosa, a imagem de Cristo, provocadoramente kitsch, parece inspirar-se na tradicional iconografia do Sagrado Coração: Jesus aparece com olhar terno, com a mão esquerda sobre o seu coração, visivelmente flamejante e encimado pela cruz, e a direita em jeito de bênção. Sobre a sua cabeça, a frase: “Jesus também tinha dois pais”.

Esta afirmação tem dois erros assinaláveis: o primeiro é a afirmação de uma dupla paternidade de Cristo, quando ele próprio, logo no primeiro discurso que a Sagrada Escritura lhe atribui, confessa claramente ter um único pai, Deus, e fá-lo precisamente quando responde a Maria, sua mãe, que se tinha referido ao seu marido, José, como sendo pai do seu filho. Mais ainda, em todos os restantes textos bíblicos, Jesus nunca se refere a Deus como seu outro pai, nem sequer como um dos seus pais, mas sempre como o seu único e verdadeiro pai. Portanto, Jesus Cristo, como aliás todos nós, tem um só pai e uma única mãe, não dois pais sem nenhuma mãe, nem duas mães sem nenhum pai.

O outro erro é a insinuação de que haja alguém que “também” tenha dois pais. Ninguém há que os tenha, porque todos os seres humanos, sem excepção, são filhos dos seus progenitores, que são sempre uma mulher e um homem. Da mesma forma como é uma falsidade dizer que Cristo tinha dois pais, é igualmente mentirosa a afirmação de que alguém tenha dois progenitores do mesmo sexo. Por mais que a lei civil permita uma tal aberração, só é viável a geração havida de um homem e de uma mulher. Isto não é religião, nem ideologia; é genética e biologia.

A Conferência Episcopal Portuguesa já manifestou, pelo seu porta-voz, o seu desagrado pelo que entende ser uma ofensa de muito mau gosto. Segundo uma deputada do Bloco, esta iniciativa não pretende ofender a Igreja nem a religião, tratando-se apenas de mostrar às pessoas que sempre existiram famílias diferentes e que essa não é uma realidade nova, nem recente. Claro que a deputada tem tanta razão como teria quem, afixando cartazes com a imagem dela, neles escrevesse a frase ‘Em Portugal há políticos corruptos’ e depois, em jeito de desculpa, dissesse que não pretendia ofender a deputada, nem o Bloco de Esquerda, mas apenas mostrar às pessoas que sempre existiu corrupção entre os políticos e que, portanto essa não é uma realidade nova, nem recente…

Sem contradizer o órgão representativo do episcopado português, nem o seu porta-voz, entendo contudo muito esclarecedora esta iniciativa do Bloco de Esquerda. Não porque a considere razoável no contexto da liberdade religiosa, de pensamento e expressão, que não é, mas porque evidencia o que, não sendo novidade para muitos, talvez ainda não tivesse sido, até agora, manifestado tão clara e inequivocamente. Ou seja, a natureza essencialmente anticristã do Bloco de Esquerda e da sua política. Sem diabolizar este partido político, nem muito menos os seus militantes – alguns, honra lhes seja feita, até se demarcaram desta campanha – é óbvio que, depois deste incidente, nenhum cristão coerente poderá ser seu membro, ou nele votar, sem prejuízo da sua integridade, ou da sua inteligência.

De facto, esta campanha contra a Igreja católica, as demais confissões cristãs e, em geral, a liberdade religiosa, pôs a nu a ideologia anticristã do Bloco, senão mesmo a sua natureza antidemocrática e tendencialmente totalitária.

Por outro lado, não será exagerado afirmar, graças a esta campanha e não só, que os católicos portugueses fazem, de algum modo, parte da Igreja que sofre perseguição. Que grande honra, para nós, fazer parte do grupo dos milhões de católicos que são perseguidos pelos regimes totalitários comunistas, como os da China e da Coreia do Norte, e pelo fundamentalismo islâmico ou laicista! Obrigadinho, ó Bloco!

Esta ofensiva do Bloco de Esquerda contra os católicos e contra a liberdade religiosa, de pensamento e de expressão, não é sequer original. Por ora, é mais imbecil do que violenta, mais trocista do que mortífera, mais laroca do que sangrenta, mas promete ressuscitar, em futuros episódios, o pior legado do anticlericalismo português.

Não obstante os nossos brandos costumes, é bom recordar que os jesuítas foram expulsos de Portugal no século XVIII, pelo Marquês de Pombal; que, no século XIX, não só eles mas também todas as outras ordens religiosas foram extintas pelo liberalismo jacobino; e que, no século XX, voltaram a ser perseguidos todos os religiosos, bem como todos os bispos e padres do clero secular, pela primeira república. No século XXI, será que o Bloco de Esquerda dará continuidade a esta ignominiosa tradição?!

Avé, Bloco, morituri te salutant!

P. Gonçalo Portocarrero de Almada  
http://observador.pt/opiniao/obrigadinho-o-bloco/

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Em que silêncio tens procurado?



Antes de dizer à vida o que queremos, importa escutar o nosso íntimo, para que, em silêncio, o coração e a razão nos indiquem o sentido que escolheriam para a nossa vida.

Há o silêncio da coragem daquele que luta, mas está em paz... e o silêncio da derrota daquele que se cala, cultivando ódios e fermentando vinganças, a propósito de maldades que, tantas vezes, nem sequer existiram...

Há o silêncio da contemplação e o do desprezo...

Há o silêncio dos segredos e mistérios, e o silêncio onde tudo se descobre...

Há o silêncio em que com alegria se espera, e aquele em que se desespera, numa angústia onde a ansiedade semeia pesadelos e dores…

Há o silêncio da pureza que se guarda para o momento certo e o silêncio de quem, arrependido, empregou a sua pureza no tempo errado...

Há o silêncio de quem se esforça, o de quem descansa, mas também o de quem finge...

O silêncio é a luz das grandes obras. Só quando nos fazemos pequenos podemos compreender a grandeza do que nos ultrapassa. Só o silêncio permite que vejamos com atenção. Admirando como quem escuta.

Notas soltas não são melodia... É preciso calar as inutilidades se se quer chegar mais fundo. É tão heroico dizer o que se deve, quando se deve, como é calar o que não acrescenta nem faz bem algum.

Estamos aqui de passagem, mas com o dever de fazer algo com sentido. Só no silêncio da fé se abraçam a paixão e a razão.

Há quem viva uma vida inteira sem nunca querer saber a verdade… um dia de cada vez, como se pudesse começar e acabar quando lhe parece bem... mas escolher uma vida assim é como decidir coser sem linha.

Há um silêncio em que tudo se entrelaça, em que se desfazem os nós, se fecham as feridas e se cosem todos os pedaços... tecendo um eu, inteiro... uma obra perfeita, cheia de imperfeições.


José Luís Nunes Martins
ilustração de Carlos Ribeiro