quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Advento, tempo de espera


Advento, tempo de espera. Não apenas de um dia, mas daquilo que os dias, todos os dias, de forma silenciosa, transportam: a Vida, o mistério apaixonante da Vida que em Jesus de Nazareth principiou.

Advento, tempo de redescobrir a novidade escondida em palavras tão frágeis como "nascimento", "criança", "rebento".

Advento, tempo de escutar a esperança dos profetas de todos os tempos. Isaías e Bento XVI. Miqueias e Teresa de Calcutá.

Advento, tempo de preparar, mais do que consumir. Tempo de repartir a vida, mais do que distribuir embrulhos.

Advento, tempo de procura, de inconformismo, até de imaginação para que o amor, o bem, a beleza possam ser realidades e não apenas desejos para escrever num cartão.

Advento, tempo de dar tempo a coisas, talvez, esquecidas: acender uma vela; sorrir a um anjo; dizer o quanto precisamos dos outros, sem vergonha de parecermos piegas.

Advento, tempo de se perguntar: "há quantos anos, há quantos longos meses desisti de renascer?"

Advento, tempo de rezarmos à maneira de um regato que, em vez de correr, escorre limpidamente.

Advento, tempo de abrir janelas na noite do sofrimento, da solidão, das dificuldades e sentir-se prometido às estrelas, não ao escuro.

Advento, tempo para contemplar o infinito na história, o inesperado no rotineiro, o divino no humano, porque o rosto de um Homem nos devolveu o rosto de Deus.



P. José Tolentino Mendonça

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

O egoísmo é um medo de amar



Há quem chame amor ao impulso básico da paixão fulminante, que na atração física possessiva, quase incontrolável, procura satisfazer-se, consumir-se e saciar-se...

O amor pode chegar ao nosso coração vindo do céu... mas nunca serve para nós mesmos. Devemos fazê-lo chegar a quem dele precisa, amando com um único fim: a felicidade daquela pessoa concreta.
Há quem chame amor ao impulso básico da paixão fulminante, que na atração física possessiva, quase incontrolável, procura satisfazer-se, consumir-se e saciar-se...

Há também quem pense que o amor é uma alegria, que resulta da união de duas vontades que procuraram estar juntas e que partilham momentos, esperanças, dores e sonhos. Sendo que, aqui, segundo dizem, só há amor se os dois desejos se encontrarem em sintonia. O amor será então, para estas pessoas, algo que não existe completo em ninguém, que só existe quando dois anseios concorrem para o mesmo fim. Será pois algo que resulta de uma troca, de uma dupla entrega de um ao outro, sendo que quando uma das partes falha tudo perde o sentido e valor.

Mas talvez o verdadeiro amor seja algo diferente. Não visa satisfazer-se, nem procura qualquer retorno. É desinteressado, gratuito e dá-se sem condições. Só esta pureza é capaz de criar verdadeira felicidade a quem o recebe... e uma outra, talvez ainda mais profunda, a quem tem coragem de o escolher, viver e dar.

É preciso muita coragem para amar. Mas, depois, o amor vence sobre todos os medos!
Os egoístas têm medo de amar. Julgam que se bastam a si mesmos e que os outros são apenas seus instrumentos de prazer. Exigem tudo dos demais, abrem as suas portas apenas para receber. Mas nunca são felizes, porque ainda que lhes entreguem tudo, isso será sempre pouco... um breve sorriso de pequena satisfação e logo fazem uma exigência maior. Mas quem não é capaz de dar, também não consegue receber, desconhecem pois a felicidade de ser amados. Julgam que ser forte não é levantar o outro, mas derrubá-lo... nem sonham o que é o amor.

Os egoístas são cobardes. Usam as pessoas, fogem dos compromissos. Assusta-os o perigo de amar. O ridículo e o fracasso, suspeitam de mil males, sem nunca se darem conta que alguém assim é sempre vítima de si mesmo. Incapazes de compreender que só a vida que é vivida para os outros faz sentido. Que só pelo amor se chega à felicidade profunda e verdadeira, àquela que longe dos prazeres do momento, se ergue mais alta que o céu.

O egoísmo é uma espécie de paixão que se vai apoderando da pessoa. Desconfia-se de tudo. Teme-se o futuro. Chora-se até, pela frustração do mundo e dos outros não compreenderem a necessidade enorme que se sente de ser levado até à felicidade. Mas o egoísta não faz mais nada senão esperar que alguém generoso o venha servir.

Julgam que guardando o amor que há no seu coração para si mesmos, nada sofrem e tudo gozam. Quando, na verdade, assim vivem o maior dos sofrimentos: uma vida sem amor.

Nada vem ao acaso, nada existe sem causa. Se existe amor em nós, é para que amemos de verdade... para que a felicidade que despertarmos nos que amarmos, transborde e que, com ela, consigamos amar ainda mais.

Claro que ninguém é obrigado a fazer coisas impossíveis. Mas, na verdade, será que há coisas impossíveis? Quem ama, acredita!

Todos os dias morremos, nascemos e devemos amar.

O tempo da nossa vida é precioso, porque nada é mais veloz que os nossos anos. Depois da noite que a todos espera, nem as montanhas nem mar ficam... apenas o amor de que tivermos sido capazes.

José Luís Nunes Martins

sábado, 29 de novembro de 2014

Um dom pessoal para cada um.



"Ontem conheci o Simone, a Cristiana e o Enrico e, através deles, a Chiara Corbella Petrillo. Estavam lá outras 500 pessoas no auditório, mas pouco se deu por elas, porque, como eles próprios disseram, estavam ali na condição de discípulos de Jesus e aquilo que tinham para contar era algo que não podendo guardar só para si, tornou-se um dom pessoal para cada um".

Como gostava que vivêssemos assim!!!

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

No meio do silêncio



No meio do silêncio,
não são precisas muitas palavras para falar conTigo.

Sei que por vezes me esqueço de Ti, 
que daí olhas por mim, mas continuas a amar-me, 
como Pai, e a acolher-me de braços abertos.

Transmites-me serenidade, quando olhas para mim, através da cruz. 
Sinto a Tua força, aquela que me dás quando penso que já não posso mais. 
Sozinha não, mas conTigo, sim!
As nuvens cinzentas, que por vezes passam na vida, tapam-nos a vista.
Não consigo ver-Te, onde estás?
Ali! Mesmo à minha frente!
Naquele "bom dia", naquele "como estás", 
naquele abraço apertado, que sem palavras diz tudo.
Naqueles minutos de conversa, 
naquele sorriso rasgado, 
naquela lágrima que teima em correr.
Naquele acorde, naquela música, que se repete e vai enchendo o coração.


Estás lá, sempre.
Permaneces paciente, mesmo que eu não Te veja logo,
que ande cega com coisas de menor importância.


Sim, pois Tu deves ser o primeiro, 
Aquele a quem falo quando acordo,
Aquele a quem falo quando me deito, 
Aquele a quem entrego a vida e que zela pelo sono tranquilo.


Que bem que sabe falar conTigo, o calor da oração...
Porque precisava daquele silêncio 
para Te agradecer tudo e todos os que escreves no livro da minha vida.

Helena Chaveiro

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

O eremita e o jardineiro

Imagem

Disse um ancião: «Havia um padre que vivia no deserto. Depois de haver servido Deus durante muitos anos, disse: “Senhor, dai-me a conhecer se vos soube satisfazer”. E ele então viu um anho que lhe disse: “Não estás ainda à altura do jardineiro que vive em certo lugar”. O ancião, estupefacto, disse: “Irei à cidade para visitá-lo. Quem será esse que pôde fazer obras superiores às minhas e suportou os sofrimentos que eu suportei durante tantos anos?”.

Partiu e dirigiu-se ao lugar indicado pelo anjo. Viu um homem ocupado a vender legumes. Sentou-se perto dele e já no fim do dia, no momento em que ele se ia embora, disse-lhe: “Não te importas, irmão, de me receber esta noite em tua casa?” O homem aceitou cheio de alegria, e já em casa pôs-se a preparar o jantar para o ancião. E este perguntou-lhe: “Por caridade, irmão, podes dizer-me do que vives?”.

O outro teve medo; não queria falar, mas o ancião não se cansava de lhe pedir que dissesse. Finalmente o homem, esgotado, respondeu:

“Eu como apenas à noite, depois do trabalho, não guardo senão aquilo que chega para me sustentar, o resto dou a quem precisa. Se recebo um servo de Deus, dou-lho. Quando me levanto de manhã, antes de me dirigir ao trabalho, digo para mim que na cidade inteira, do mais pequeno ao maior, todos entrarão no Reino graças às suas boas obras, enquanto eu serei o único a herdar o castigo, por causa dos meus pecados. E à noite, antes de me deitar, digo o mesmo”.

Ao ouvi-lo, o ancião disse: “A tua conduta é bela, mas as tuas obras não podem superar as minhas, de tantos anos”.

E quando se preparavam para jantar, o ancião ouviu gente na rua que cantava canções; a casa do jardineiro ficava num bairro populoso. O ancião então disse-lhe: “Irmão, se queres viver para o Senhor, como podes viver aqui? Não te perturba ouvir estas canções?”. E o outro respondeu: “Confesso-te, Abade, que não me perturba nem me escandaliza”. Disse o ancião: “Mas que pensas tu, ao ouvi-los, lá fora?”. E o outro disse: “Penso que todos entrarão no Reino”.

Foi então que o ancião sentiu uma admiração súbita e disse: “Eis a obra que supera a minha, cumprida durante tantos anos!”. E em seguida, fazendo-lhe uma reverência, disse-lhe: “Perdoa-me, irmão, esse grau de perfeição ainda não consegui alcançar”. E, sem tocar na comida, regressou ao deserto».

In "Ditos e feitos dos Padres do Deserto", ed. Assírio & Alvim 
Publicado em 25.11.2014

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Ser luz




Podemos escolher ficar no quentinho, onde é fácil estar e a luz nos aquece e ilumina. Ou podemos deixar-nos questionar pelos sinais que surgem no céu, pelos exemplos que recebemos dos outros e arriscar sair, seguindo o exemplo de quem saiu antes de nós. Se saímos, o medo tentará paralisar-nos ou fazer-nos voltar para trás, para o quentinho. Mas podemos continuar a gastar-nos, gastar a vida para que com ela possamos iluminar a vida de outras pessoas.

No final tudo parece voltar ao início, mas agora já seremos nós a luz no céu que motiva outros a também eles saírem do quentinho, onde é fácil estar.

Luís Onofre, sj 

sábado, 22 de novembro de 2014

A verdade é o silêncio



Umas mãos vazias cheias de amor, dispostas a criar o que for preciso, são o melhor e mais belo presente que podemos dar a alguém!

Cada homem tem em si uma fonte de vida, de onde lhe nascem todos as suas obras: o sentir, o pensar, o dizer, o calar e o agir. É um silêncio carregado de sentido, uma fonte que não deixa nunca de correr... uma tempestade boa.

Aquele que quer ser feliz deve dar-se. Ser é amar e amar é dar-se. Ninguém pode ser nada se não na sua relação com os outros e com o mundo. O ser mais perfeito seria imperfeito se se fechasse em si mesmo e assim se reduzisse à sua própria individualidade. A vida é o dom de ser dom. Serve para se chegar à vida do outro. Para ser o que lhe falta... amando-o.

A felicidade só é possível quando compreendo que não preciso senão do essencial e resolvo libertar-me do que  me sobra.

É comum, que os mais generosos sejam aqueles que menos têm. Estes, são capazes de dar o devido valor à verdadeira carência, distinguindo de forma sábia o que é importante de tudo quanto apenas o parece ser. Na verdade, são bastantes os que, afortunados, vivem atormentados pela possibilidade de não só perderem o que têm, como ainda de não conseguirem o sempre muito que ainda sonham alcançar... nunca têm descanso, nem paz. Talvez nem saibam o que é o silêncio...

Só uma pessoa capaz de se dar, de se realizar, é feliz. Quem vive centrado em si , mesmo que passe o tempo a alimentar o seu egoísmo, nunca terá paz.

Prefiro dar. Ser quanto me chegue e ainda sobrar, antes assim do que ser um imenso desejo que tudo absorve dos outros sem retribuir. Um buraco negro que tudo a si atrai....capaz de fazer desaparecer estrelas... e como ao mal sucede sempre o mal... destrói e destrói-se.

Quem procura receber é, em si mesmo uma falta, uma carência, um desejo ardente que se consome. Há que aceitar o que os outros nos queiram dar, mesmo que seja a sua indiferença; uma coisa má é servir-se dos outros para os nossos projetos pessoais; o amor verdadeiro é gratuito e silencioso, enquanto o egoísta é interesseiro e barulhento.

Umas mãos vazias cheias de amor, dispostas a criar o que for preciso, são o melhor e mais belo presente que podemos dar a alguém!

Que as minhas mãos sejam de quem delas precisa. Que o meu silêncio seja um espaço onde o outro se encontre a si mesmo e descubra a sua paz.

Longa é uma vida cheia. Quando somos capazes de nos despreocuparmos, de nos descentrarmos de nós mesmos e das nossas necessidades, tornamo-nos mais capazes de ser felizes com o pouco que temos e somos.

A nossa verdade somos nós. A verdade é a presença. Aqui. Em silêncio.

Mas a verdade nunca chega a tocar quem não a quer aceitar. O silêncio é tantas vezes sentido como um vazio... quando é, afinal, a resposta que tanto procuramos.

Um silêncio é a mais bela forma de dizer o amor.

Para sermos anjos (e não é nada do outro mundo) basta que tenhamos a coragem de estar presentes, de acreditar que o silêncio pode dizer muito... e de escolhermos gestos simples que possam levar ao outro o essencial que lhe falta.

Presença. Silêncio. Simplicidade.

José Luís Nunes Martins

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Umbrais

Imagem

Procure a alma inclinar-se não ao que é mais fácil, mas ao mais difícil;
Não ao mais agradável, mas ao mais agreste;
Não ao mais gostoso, mas ao que menos gosto dá;
Não ao que é descanso, mas ao que é trabalhoso;
Não ao que é consolo, mas antes ao desconsolo;
Não ao mais, antes ao menos;
Não ao mais alto e precioso, mas ao mais baixo e desprezível;
Não a querer alguma coisa, mas a não querer nada;
Não a andar buscando o melhor das coisas temporais, mas o pior;
e, por amor de Cristo, a desejar entrar em toda a nudez e vazio e pobreza que há no mundo.
E estas obras convém que se dê a elas do coração e procure nelas aplainar a vontade.
Quem do coração as pratica, muito em breve, agindo ordenada e discretamente, nelas virá a achar grande alegria e consolação.

S. João da Cruz

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Por fim, toda a verdade sobre Jesus Cristo!



Depois do Jesus casado, é agora a vez do Jesus papá … e vem aí o vovô Jesus!

É fatal como o destino: de tempos a tempos, invariavelmente, descobre-se um raríssimo manuscrito do século I, com revelações bombásticas sobre Jesus Cristo; um novo heterónimo de Fernando Pessoa, encontrado pela mulher a dias, ao limpar a fecundíssima arca do autor da Mensagem; e um post-it no frigorífico, autografado pelo Nobel português, que dá depois azo a uma volumosa obra póstuma, original e inédita.

Este parece ser o caso do sensacional livro que o Sunday Times anunciou, com grande destaque, e que tem por autores Barrie Wilson, professor de estudos religiosos da Universidade de York, em Toronto, no Canadá, e Simcha Jocabovici, escritor e jornalista israelo-canadiano. Ao que parece, esta promissora obra acaba de chegar às nossas livrarias, just in time para o Natal.

Esta nova versão «histórica» de Cristo é, convenhamos, pouco original pois, contrariando a tradição evangélica de Jesus celibatário, ascético demais para os gostos modernos, copia Dan Brown, o romancista casamenteiro que patrocinou o enlace matrimonial do filho de Nossa Senhora com Maria Madalena.

A novidade está agora nos dois filhos havidos desse casamento. Não sei se se trata de dois rapazes, de duas raparigas ou de um de cada, ou seja, aquilo que antes se chamava, muito burguesmente, um casalinho. Também não sei se esta inesperada geração do Messias e da sua putativa mulher, sem ofensa, tem alguma coisa a ver com a bonificação que, em sede de IRS, é agora dada às famílias, por cada filho a seu cargo. É que, como é sabido, as coisas não estão fáceis para ninguém …

Se um Jesus casado já contradizia a verdade histórica dos Evangelhos e dos mais sérios e científicos estudos biográficos sobre Cristo, de que é principal referência o Jesus de Nazaré, em três volumes, de Bento XVI, este Jesus papá, provavelmente de pantufas, embora menos atraente do que o revolucionário Che Guevara, augura promissora continuidade num próximo episódio, digno de fazer concorrência ao Pai Natal: o vovô Jesus.

O novo livro baseia-se, ao que consta, num «Evangelho perdido» que, a bem dizer, é infeliz até no título porque, se depois foi encontrado, dever-se-ia chamar o «O Evangelho perdido e achado», não vá o leitor ficar, também ele, perdido. Ou então apelidar-se, tal como o filho mais novo da conhecida parábola, «O Evangelho pródigo», que o é, aliás, em inverosímeis disparates.

É de estranhar a co-autoria de um jornalista israelo-canadiano. Um jornalista é, em princípio, um cronista da actualidade, não um historiador de acontecimentos de há dois mil anos. E, já agora, porque se afirma israelo-canadiano? Quanto ao canadiano, tudo bem, mas a precedente referência parece indiciar o seu alinhamento ideológico com a política de Israel e, nesse sentido, contrário ao Cristianismo e à sua presença na Terra Santa. Se assim for, esta obra mais não é do que uma expressão pseudocientífica dessa mesma beligerância.

Entre nós, outro artesão do mesmo ofício, famoso pelas suas piscadelas de olho à teologia, deu a Jesus alguns irmãos, todos igualmente filhos de Maria, à qual atribuiu várias imaculadas conceições (?!), por ignorar que um tal privilégio respeita à concepção da própria virgem e não à sua maternidade, que foi única e exclusivamente de Jesus. É o que dá, quando alguém se mete a fazer ciência teológica e nem sequer sabe as verdades mais elementares do catecismo …

A banalidade destas «descobertas», que de científico nada têm, tem contudo uma vantagem porque, quanto mais insistem na aparente vulgaridade de Cristo, mais adensam o seu mistério. De facto, se Jesus de Nazaré era, apenas, um homem comum, carpinteiro de profissão, casado e pai de dois filhos, como explicar que, mais de dois mil anos depois, o seu nome e a sua mensagem suscitem tanta aversão – a religião cristã é, actualmente, a mais perseguida no mundo – e, sobretudo, tanto amor?!

P. Gonçalo Portocarrero de Almada

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

A Igreja é a minha casa



A Igreja é a minha casa
Sim, é a minha casa.
Esta Igreja onde eu nasci e onde quero morrer.
Nela me sinto bem. Nela gosto de estar.
Aqui, eu penso, projeto, sonho, alimento-me.
Aqui, rezo, recordo, choro, zango-me,
encontro-me.
Aqui sofro, aqui canto.

A Igreja é a minha casa.
Gostaria, tantas vezes, de a ver
mais acolhedora,
mais aberta,
com mais espaços para outras pessoas
(não é ela comunhão e sacramento?),
mais gratuita,
mais convidativa.

A Igreja é a minha casa,
E tenho pena que
feche portas,
condene sem coração,
corte com quem procura...

Eu amo muito a Igreja, porque a Igreja é a minha casa.
Com defeitos?
Com a ruga dos anos?
Às vezes azeda?

Mas é a minha casa!
Então, porque lhe quero muito,
vou pintá-la de fresco,
vou rasgar-lhe mais portas,
vou torná-la mais simpática,
mais disponível,
mais atenta.
Vou fazer com que cante mais a beleza da vida,
perca o medo e salte para o mundo,
grite os valores e os direitos
das pessoas e dos povos.

A Igreja é a minha casa.
Se eu quiser,
se tu quiseres,
se nós todos quisermos,
todos virão a ela
e todos nela se sentirão bem.
Porque ela é o rosto de Deus.
Porque Deus habita nela.


D. Manuel Martins 
Bispo emérito de Setúbal 
In "Pregões de esperança", ed. Paulinas 
Publicado em 12.11.2014

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Pai Nosso do catequista



PAI NOSSO QUE ESTAIS NO CÉU,
Pai de todos nós, Vossos seguidores
Pai presente na missão de todos os Catequistas
Pai que estais presente nos catequizandos que formamos
Pai, primeiro Catequista da humanidade e Mestre de sabedoria.

SANTIFICADO SEJA O VOSSO NOME;
Santificado seja o Vosso nome nas palavras que pronunciamos
Santificado seja o Vosso nome no tempo que dedicamos aos catequizandos
Santificado seja o Vosso nome pelo Catequista que somos.

VENHA NOS O VOSSO REINO,
Reino de paz e humanidade
Reino de fé e constância
Reino de forca e coragem
Reino de serviço e doação

SEJA FEITA A VOSSA VONTADE, ASSIM NA TERRA COMO NO CÉU;
Seja feita a Vossa vontade nas palavras que dizemos
Seja feita a Vossa vontade em tudo que testemunhamos
Seja feita a Vossa vontade no testemunho que damos
Seja feita a Vossa vontade no coração de todos.

O PÃO NOSSO DE CADA DIA NOS DAI HOJE;
Dai-nos o pão da esperança e segurança
Dai-nos o pão da Vossa Palavra, o Evangelho.
Dai-nos o pão para comer, pão que sacia a fome.
Dai-nos o pão da fé e do Vosso Amor, a Eucaristia.

PERDOAI-NOS AS NOSSAS OFENSAS, ASSIM COMO NÓS PERDOAMOS A QUEM NOS TEM OFENDIDO;
Perdoai a nossa fraqueza na fé
Perdoai o nosso desânimo e descompromisso cristão
Perdoai a nossa não correspondência ao Vosso amor
Perdoem todos os que praticam o mal

E NÃO NOS DEIXEIS CAIR EM TENTAÇÃO, MAS LIVRAI-NOS DO MAL
Livrai-nos da tentação, da ambição e do orgulho
Livrai-nos da tentação de não falar em nome da Vossa Igreja
Livrai-nos da tentação do comodismo
Livrai-nos da tentação de não professar, com atos, a fé que assumimos.

Amen!

sábado, 8 de novembro de 2014

Síndrome de Down

Grávida perguntou como seria a vida do filho com Síndrome de Down. A resposta foi emocionante...

Uma mãe grávida de um bebê portador de Síndrome de Down estava assustado e como medo de que tipo de vida seu filho teria sendo portador da síndrome. Então ela escreveu para uma organização de apoio à Síndrome, e recebeu como resposta esse vídeo. Se prepare, é a coisa mais linda que você vai ver em muito tempo: Principalmente se você é mãe....

Ela estava à espera de um bebé com Síndrome Down, estava preocupada e resolveu perguntar como seria a vida do filho para um associação. Eles fizeram esse vídeo para responder. Prepare-se, principalmente se você é mãe, você vai chorar de emoção.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Chamo a esperança pelo nome de Deus



Não pode a morte reter-me na cruz.
Não pode o mundo arrancar-me à raiz.
Ao pé de Deus hei-de sempre viver.
Com Deus cheguei e com Ele vou partir.

Não poderá corromper-se a alegria.
Não pode o fogo extinguir-se no céu.
Meu ser demanda a morada do Deus que guarda os nomes no livro da vida.

Não pode a morte apagar o desejo de ver a Deus face a face e viver.
A Deus busquei toda a vida e vivi de acreditar no infinito da vida.
Não nos reduz o escuro da noite.

Não pode o amor esquecer o que o altera.
Já ouço a voz do Senhor, Deus dos vivos.
Já ouço a voz do amigo que vem.

Não pode o mar esquecer o que o salga.
Não pode a areia esquecer-se do mar.

Meu Deus, meu Deus, vem buscar-me ao deserto.
Que em tuas mãos entreguei a minha sede.
A Tua vida me toma e transporta.
Teu sangue inunda meu corpo de paz.
Eu vejo as mãos do Senhor glorioso.
Nas minhas mãos a memória de Deus.

A Ti, Senhor, meus desejos regressam.
Findo o andar, disponíveis as mãos.
Abre meu corpo ao devir que não sei.
Eu chamo a esperança pelo nome de Deus.

Frei J. Augusto Mourão

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Maria passa na frente



Senhor, eu sei que me conheces 
e sabes dos meus problemas
Eu sei que me acompanhas 
mesmo quando eu me perco
eu sei que quando tudo me falta,
o Senhor está comigo
Eu sei que Tu me destes uma mãe Maria
A Tua mãe é a minha mãe

Maria na simplicidade de sua presença
nunca esteve ausente
nos momentos em que a angústia 
atormentava as celebrações da vida
ela soube reconhecer e interceder

Por isso eu peço a mãe:
Intercede por mim
Quando o vinho acabar, intercede por mim
Quando alguma coisa faltar, intercede por mim
Quando eu me perder, intercede por mim
Quando eu pecar, intercede por mim
Quando eu deixar de amar, intercede por mim

Senhor amado, 
obrigado pela mãe que nos destes
É mais uma prova de Teu imenso amor, Ágape

Cuida de nós,
Amém.

Pe. Marcelo Rossi

domingo, 2 de novembro de 2014

Lição de humildade



O Canal OckTV, decidiu fazer uma experiência social em Nova Iorque, eles foram pedir comida várias pessoas, e filmaram as suas reacções.

Não conseguiram que ninguém lhes desse comida. Mais tarde, os jovens deram uma caixa de pizza a um sem abrigo, passados 20 minutos, um outro rapaz senta-se educadamente ao lado do sem-abrigo e pede-lhe uma fatia de pizza, a sua resposta é uma verdadeira lição de humildade ...

"Quem menos tem, é que mais dá", partilha esta emocionante mensagem.

sábado, 1 de novembro de 2014

O silêncio dos céus em nós



A nossa paz interior é essencial, pelo que devemos defendê-la de qualquer ataque exterior. Muitos julgam que a opinião alheia, a fama e a fortuna são contributos fundamentais para a felicidade, quando, na verdade, não são senão de enganos. 

Para que os outros pensem bem de nós, passamos muito tempo a comportarmo-nos de acordo com expectativas que não são nem nossas, nem boas. Tememos até que uma simples escolha errada possa manchar a nossa tão importante (suposta) reputação… passamos a vida inquietos e ao sabor das esmolas do julgamento alheio… Devemos aprender dos outros as muitas lições que nos podem dar, mas sem nunca deixarmos de ser quem somos, nem hipotecar as nossas potencialidades, sem a quais perdemos a nossa identidade e, de certo modo, a nossa razão de ser, o sentido da nossa existência.

Não devemos agir bem para agradar a ninguém, devemos fazê-lo por respeito a nós mesmos, cumprindo o nosso dever de sermos tão bons quanto possível.

Mesmo quando se alcança o que é alvo da admiração alheia, logo aparecem a inveja e a desconfiança. Pior, a partir de um determinado ponto deixará de ser claro se quem está connosco… estará por aquilo que somos ou, tão-só, por aquilo que temos…

Mas a ideia de viver longe dos outros, para evitar os males da sua convivência, também não é nada boa. Só chegamos a ser quem somos através das nossas relações com outros, nelas nos construímos e realizamos. 

Aqueles que escolhemos, aqueles a quem amamos, esses serão a fonte dos maiores presentes que a vida nos pode oferecer, embora sejam, também, tantas vezes, a causa das nossas maiores amarguras. 

A minha obrigação é a de ser artífice do meu destino, e assim, de forma cuidada e discreta, ir conquistando a paz interior, amando, dando-me, sem contabilizar custos ou destinatários. As árvores não contam os frutos que dão, muito menos a quem.

O dever não é o oposto da felicidade. A felicidade é o nosso dever. 

Sem egoísmos, sem nos afastarmos dos outros. Haverá sempre gente ingrata, insolente, desleal, com má vontade e com egoísmos de todos os tamanhos e formas, mas o perigo maior é o de nos tornarmos como essas pessoas… sendo que, eles, também têm um papel útil, porque nos mostram, pelos seus vícios, o que devemos evitar. São um exemplo do que não devemos fazer. 

É nossa obrigação, também para connosco mesmos, cuidar de todos aqueles que, por alguma razão, a vida coloca perto de nós. 

As relações constroem-se. Mesmo o amor pelo nosso melhor amigo não é fácil e envolve um trabalho árduo e persistente. Não é nada natural… É divino! 

Por mais difícil que possa parecer, a verdade é que podemos amar quem escolhemos e, mais importante ainda, podemos escolher quem amamos! 

Nunca é o agradecimento ou a admiração dos outros que nos dá paz. Mas sempre que cumprimos o nosso dever experimentamos um estado de harmonia connosco próprios e com o mundo que nos rodeia. Neste ponto tudo é perfeito. 

Ajudarmos os outros é a melhor forma de alcançarmos a nossa paz interior. 

Nunca nenhum de nós deixa de ser aquela criança que, à janela de casa, admira a chuva... enquanto, por entre o seu próprio reflexo, sonha com um mundo perfeito… e descobre que, afinal, a água que vem do céu… só lá volta depois de ter cumprido aqui a sua missão!

É essencial para a nossa paz interior que saibamos escolher o que sentir, o que pensar, o que dizer e o que calar... o que fazer e como o fazer. E é assim, sempre com firmeza e delicadeza, tal como a gota que escava a pedra, que devemos lutar pelo silêncio do céu que há nós… 


José Luís Nunes Martins
jornal i
1 de novembro de 2014
http://www.ionline.pt/iopiniao/silencio-ceu-nos
Ilustração de Carlos Ribeiro

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Gosto muito de estar com a mãe


Faz hoje uma semana que o Carlos (nome fictício) me falou a dizer que tinha encontrado a mãe, que procurava há 26 anos, depois desta o ter abandonado quando tinha 4 anos. Foi nessa tarde para Vila Franca de Xira e nessa noite mandou-me uma mensagem a dizer: 
- “Gosto muito de estar com a mãe”. 

Mais tarde, quando lhe falei e lhe perguntei se a mãe o tinha recebido bem e se tinha gostado de o ver, disse-me com simplicidade e despreocupação: 
- “Bem, acho que eu gostei mais do que ela”. 

Fiquei a pensar se não iria haver um desajuste entre eles - uma mãe que abandona e um filho que não pensa em mais ninguém e em mais nada senão nela e em a encontrar... No dia seguinte, terça-feira, veio ao Porto e despediu-se do emprego, fez contas com amigos, despediu-se também de mim. E na própria terça-feira voltou para Vila Franca ao fim da tarde. 

Quando tentei que ele reconsiderasse tanta precipitação, disse-me com uns olhos molhados:
-  “Não pode perceber, ninguém pode perceber. Eu adoro muito a minha mãe, não me quero separar mais dela”. 

Não insisti. Que direito tinha de fazer as coisas à minha maneira? O que sei disto? À noite falou a dizer que tinha chegado bem, e nunca mais deu noticias. Ontem, Domingo, falei-lhe e perguntei como se estavam a passar as coisas, ele respondeu que estava tudo bem:
- “Eu estou com a minha mãe e estou feliz, agora só preciso de arranjar um emprego. Para a ajudar. Vou tomar conta dela”. 

Fiquei muda. Este rapaz está a viver uma página do Evangelho. O “permanecer” uma vida inteira na procura da mãe. O encontro sem nenhuma queixa, e uma necessidade de ajudar a mãe e de tomar conta dela. Um rapaz que guardou o seu segredo fechado no coração ferido e triste mas cheio de esperança,e de amor. Uma Missa (a do Natal do ano passado) que mexeu com ele ao ponto de o fazer finalmente chorar. O Carlos está a escrever uma página de um 5º. Evangelho. Louvado seja Deus.

«Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua mente. Este é o maior e o primeiro mandamento. O segundo é semelhante: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo.» (Mt. 22, 36-40)

Tereza Olazabal

sábado, 25 de outubro de 2014

O bem e o mal que desconhecemos



É sempre possível que estejamos a fazer o bem a outras pessoas, ainda que não seja dado saber nem o quê nem a quem…

Nem sempre nos damos conta do bem e do mal que causamos aos outros. Por vezes ajudamos sem saber, outras vezes magoamos sem querer. É importante que, pelo menos, compreendamos que as nossas ações vão sempre mais para além do que nos é dado saber pelas aparências.

Há quem nos faça muito bem sem que nunca lho agradeçamos, e há também quem nos provoque mal sem que, também nunca, lhe demos nota disso, nem, tão-pouco, lho perdoemos. É bem possível que, nem uns nem outros, saibam o que (nos) fizeram. Mas, nós partimos do princípio que sabem e até assumimos que o quiseram! Mais, que aos bons nada acrescentamos se lhes agradecermos, e, aos maus, que nada mudamos por lhes desculparmos os erros...

Agradecer e perdoar fazem diferença. Muita. Em mim e no outro. Sempre.

Só um verdadeiro amigo arrisca uma crítica desagradável mas justa… Mas, quantas vezes somos capazes de lhas agradecermos? Será que preferimos o prazer dos louvores injustos e interesseiros de outra pessoa qualquer?

Quase nunca os nossos atos são julgados pelos outros da mesma forma que os julgamos nós. As intenções não passam de projetos cujo resultado material é, por vezes, algo tão estranho que só mesmo o seu autor consegue compreender a linha que os liga.

Nem sempre temos coragem para fazer o que sabemos ser o bem. Muitas são as ocasiões em que não conseguimos evitar fazer o mal que não queremos… mas, a tentação do egoísmo é, talvez, a maior de todas.

Não é assim tão difícil distinguir o bem do mal. Árduo é optar pelo bem, porque, na vida, o mais fácil quase nunca é o melhor. E, ainda que depois de uma montanha de erros, parece que sempre encontramos forma de nos seduzir a mais um disparate. De nos levar sempre... para longe de nós mesmos. O caminho da virtude é íngreme, estreito e exige atenção constante, pois a queda dá-se pelo mesmo caminho que a ascensão… o percurso do bem é o mesmo da perdição, um sobe o outro desce… um mesmo caminho que se pode fazer em direções opostas.

Vence duas vezes quem, a vencer, se vence a si mesmo. Quem escolhe, para si e para os outros, o melhor de si. A tentação é o momento exato da virtude.

A vida é uma luta constante. Uma maratona de vidas entrecruzadas, onde alguns dos efeitos dos nossos atos nos escapam… quanta gente se entristece (e se alegra) por coisas que ninguém, na verdade, desejou… Mas, tudo passa… e um só dia claro basta para fazer esquecer os cinzentos!

A sabedoria é humilde, deixando espaço para o que nos ultrapassa. Nunca se julga senhora de todos os porquês e para quês, nem, tão-pouco, capaz de abarcar o mundo. É sábia porque se reconhece limitada. Erra sempre que se julga mais do que é. Sempre que julga saber tudo.

Iludimo-nos muitas vezes. Há quem se emocione com peças de ficção, talvez porque as imagine reais, e seja insensível a tragédias reais, talvez por que as imagine peças de ficção.

Devemos estar atentos a fim de que não causemos algum mal (evitável) aos outros, e não nos devemos desanimar quando a vida parecer estar a perder a cor e o sentido, afinal é sempre possível que estejamos a fazer o bem a outras pessoas, ainda que não seja dado saber nem o quê nem a quem…

Um olhar, uma palavra, um silêncio ou um pequeno gesto, são suficientes para levar trevas ou luz à vida de outros. Assim. Num instante. Dependemos uns dos outros. Nós não somos sós. Nunca. Por maior que seja a solidão em que nos sentimos. Por maior que seja a escuridão e o frio, há sempre alguém que chegará. Sempre. Sempre. Por mais que demore.

Lutarmos sempre com coragem e paciência para manter o fogo da nossa esperança aceso é o suficiente para darmos sentido à vida... à nossa e à de muitos outros!

José Luís Nunes Martins
I Online

sábado, 18 de outubro de 2014

Sofrer sem incomodar



Há pessoas que nos dizem “espero que esteja tudo bem consigo!” com o sentido oculto de uma verdadeira esperança, a de que não lhes demos trabalho algum.

O sofrimento é algo tão natural, quanto inevitável e universal. No entanto, cada vez mais é remetido para a esfera privada, íntima, como se fosse algo que pode e deve ser vivido apenas longe dos outros. Num recanto qualquer, desde que distante dos que lhe querem ser alheios. Estes, sentem-se no direito de exigir que as nossas dores não os incomodem.

Como uma árvore atingida por um raio, quando sou tocado por uma dor profunda, rasgo-me, divido-me e consumo-me com dúvidas, ansiedades e pesadelos… o próprio pensar dói. Estou só e com medo... e o medo faz sempre que qualquer mal pareça muito maior. Sofremos... e sofremos mais ainda quando estamos sós.

É impossível conter o sofrimento, ou o partilhamos ou somos dilacerados por ele.

Perguntam-nos: “Como está?”. Mas a resposta ou é indiferente ou então tem de, pelo menos, parecer. Claro que, no caso de estarmos muito bem, não podemos expressá-lo com euforias, pois também isso vai chocar! Nunca devemos ser pesados para os outros, nem com as nossas lágrimas nem com os nossos sorrisos. É assim que hoje muitos vivem...

É suposto que perguntemos sempre, mas que não respondamos, nunca. A não ser que seja alguém de quem gostamos muito, muito, ao ponto de querermos mesmo saber como está e de nos preocuparmos com o que podemos nós fazer para partilhar a sua intimidade com tudo o que tenha de bom e de mau.

Há pessoas que nos dizem “espero que esteja tudo bem consigo!” com o sentido oculto de uma verdadeira esperança, a de que não lhes demos trabalho algum. Esperam que estejamos bem para que se possam então aproximar-se sem receio que uma qualquer dor ou tristeza nossa os possa surpreender e desacomodar.

Só se aproximam de quem está sempre bem. Só se aproximam de uma parte de nós. Nós não existimos inteiros para quem – só – quer viver de forma cómoda.

Espero que esteja tudo bem consigo... espero para me aproximar? Ou para me ir embora? E se a pessoa não estiver bem? Espero até ela estar! Mas... com ela? Ou longe dela?

Vivemos num tempo em que o sofrimento é visto como algo vergonhoso. Em que as pessoas devem manter as suas dores sob controlo a fim de que os outros sejam poupados ao peso do que entendem não ser seu.… um sofrimento sem expressão… tão escondido como um qualquer pecado obsceno.

São poucos os que querem que a luta interior de alguém seja uma luta comum... Temem-se as dores, mas teme-se mais ainda o seu inevitável contágio a que alguns chamam partilha. Amor.

Mesmo depois de uma grande perda, o luto é uma luta que não deve ser travada longe dos outros. Cada um carrega o seu fardo, mas se o partilhar, a viagem torna-se menos penosa. Porque se aliviam, um pouco, a pena e a solidão.

Claro, há muitas simpatias e compaixões, mas a maior parte delas é apenas aparente. São cada vez menos os que conseguem prestar uma ajuda desinteressada a quem precisa.

As alegrias não incomodam tanto como as tristezas. Embora em ambos os casos seja raro haver partilha.

Vivemos numa enorme tapeçaria de aparências: os egoísmos, disfarçados de coisas belas, escondem podridões... mentiras sempre assumidas de um modo diplomático e inteligente. Afinal, todos temos os nossos problemas – dizem.

Escondo-me nuns óculos escuros, porque não quero que vejam as minhas lágrimas. Visto-me de preto, para me esconder na noite de mim mesmo, quero passar despercebido, oculto, silencioso… não quero incomodar ninguém. Não quero que a minha tristeza estrague a vida de mais ninguém... tenho medo.

Mas é o medo que nos impede de sermos felizes. Porque quem tem medo, não ama, e quem não ama não é feliz.

Solidões que são mentiras e infernos. Para onde nos lançamos inteiros quando dos outros só aceitamos uma parte das suas alegrias e dores… e, também, enquanto a eles mostramos apenas uma parte de nós.

José Luís Nunes Martins
in i online

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Orar para louvar




Papa Francisco pede: rezar para louvar

“Nós sabemos rezar muito bem quando pedimos coisas, mesmo quando agradecemos ao Senhor, mas a oração de louvor é um pouco difícil para nós: não é tão habitual louvar o Senhor"


É fácil rezar para pedir, bem mais difícil é rezar para louvar, mas essa oração dá-nos uma verdadeira alegria. Esta foi a principal mensagem do Papa Francisco na Missa de hoje na Capela da Casa de Santa Marta.

No centro da homilia do Santo Padre a Carta aos Efésios, onde podemos ler a oração de louvor do Apóstolo Paulo “uma oração que nós não fazemos habitualmente” mas que é “gratuita e pura” e nos faz entrar numa “grande alegria” – afirmou o Papa Francisco.

“Nós sabemos rezar muito bem quando pedimos coisas, mesmo quando agradecemos ao Senhor, mas a oração de louvor é um pouco difícil para nós: não é tão habitual louvar o Senhor. E isto, podemo-lo sentir melhor quando fazemos memória das coisas que o Senhor fez na nossa vida: ‘N’Ele – em Cristo – escolheu-nos antes da criação do mundo’. Bendito sejas Senhor, porque tu me escolheste! É a alegria de uma proximidade paterna e terna.”

“Não se pode compreender e também não se pode imaginar: que o Senhor me tenha conhecido antes da criação do mundo, que o meu nome estava no coração do Senhor. Esta é a verdade! Esta é a revelação! Se nós não acreditamos nisto nós não somos cristãos! Talvez sejamos impregnados de uma religiosidade teísta, mas não cristãos! O cristão é um escolhido, o cristão é alguém escolhido no coração de Deus antes da criação do mundo. Também este pensamento enche de alegria o nosso coração: eu sou escolhido! E dá-nos segurança.”

O Santo Padre sublinhou ainda que o nosso nome está no coração de Deus porque nós somos eleitos e isto é algo que não se consegue compreender e para o tentarmos entender devemos entrar no Mistério de Jesus Cristo quando celebramos a Eucaristia.

“Quando celebramos a Eucaristia, entramos neste Mistério, que não se pode compreender totalmente: o Senhor é vivo, está conosco, aqui, na sua glória, na sua plenitude e dá uma outra vez a sua vida por nós. Esta atitude de entrar no Mistério devemos entende-la em cada dia. O cristão é uma mulher, um homem que se esforça por entrar no Mistério.”

in iMissio

terça-feira, 14 de outubro de 2014

O que é que gostaria de agradecer?



Ontem, durante a confissão, alguém apresenta uma lista impressionante de pecados. Quando terminou, perguntei: “O que é que gostaria de agradecer na sua vida?” “Como?” “Sim, o que é que gostaria de agradecer na sua vida? Desculpe se me equivoco, mas parece-me que a vê como um fardo… e bem pesado.” Levantou a cabeça, fixou-me o olhar e acenou afirmativamente. Da lista, passámos à conversa e o desabafo adensou-se. Histórias tramadas, é o que é. “A forma como vê a sua vida já é bastante dura e é já a penitência no sentido mais negativo da palavra. Se apresentou uma lista de pecados, pois bem, vai fazer uma lista superior de coisas que faz bem ou que gosta de fazer para seu prazer. Das mais simples às mais espectaculares, tipo: passear, ler um livro, dormir mais um bocadinho, ouvir uma música, comprar uma flor para alguém querido. É quase ridículo, sei, mas por vezes é preciso voltar às coisas simples para perceber a importância da nossa vida! Deus é mais simples do que pensamos e é nessa simplicidade que tantas vezes nos dá a Sua graça.”

Paulo Duarte

sábado, 11 de outubro de 2014

Será foto?



O vídeo abaixo representa a vida de uma mulher – do rosto de uma criança até uma mulher madura, em minutos e de forma excecional caracterizou evolutivamente, os traços faciais, as diferentes tonalidades da pele o cabelo.

Este artista quis provar que a vida de uma mulher é bonita em qualquer fase da idade independente das características faciais.

É incrível o que pode ver em apenas quatro minutos, são imensas as mudanças dos traços faciais que ocorrem ao longo da vida. Uma doce e gentil menina, seguida pela figura de uma jovem alegre e animada, e uma adolescente madura, aos poucos, lentamente estamos diante de uma avó gentil.

O que é mais espetacular é o fato de que nada é excluído do desenho inicial, tudo se transforma e assume novas formas. Cabeça, mãos, os olhos brilhantes – todos eles expressão a idade natural de cada fase, vai ficar surpreso.

A vida passa muito rápido, da infância à adolescência e à idade adulta até a velhice é tão curta!
Este filme nos inspira a valorizar a vida como ela é e desfrutar de cada momento vivido.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Obrigado por iluminares a minha estrada!



"Deus Pai,
Muitas são as vezes que me afasto de Ti...
não propriamente por opção
mas porque me deixo desviar
por "trilhos" altamente manipuladores
existentes na minha própria mente.
Sempre na esperança de procurar atalhos,
encurtar caminhos numa busca incessante de felicidade imediata
mas que na verdade apenas me conduzem
para "labirintos" que só me retiram força,
até me levarem ao desgaste físico, mental e espiritual...
Quero com isto agradecer-te por nunca teres desistido de mim.
Resgataste-me nos momentos eu já não conseguia suportar!
Nunca me deste mais do que eu conseguia aguentar!
E mesmo em momentos como agora que aparentemente está tudo bem
vais-me relembrando através da minha consciência
que devo seguir o Teu caminho.
Ambos sabemos que nem sempre é o mais fácil
mas é o mais claro e gratificante no fim de cada dia.
Obrigado por iluminares a minha estrada!!

Que Ele esteja convosco, queridos irmãos/as!"

Rodrigo Menezes

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Maria é modelo



«A Virgem,
que guardava no seu coração
a Palavra de Deus,
é modelo daquelas pessoas atentas
nas quais revive continuamente
a oração sacerdotal de Jesus.
E o Senhor escolheu de preferência a mulheres
que como ela se esqueceram completamente de si mesmas
para se submergir na vida e na paixão de Cristo,
para que fossem seus instrumentos
na realização de grandes obras na Igreja.

Santa Teresa Benedicta da Cruz (Edith Stein) | 1891 – 1942 
Edith Stein, Obras 404

Senhor,
eu te dou graças por todas as mulheres
que seduzidas pelo Teu Amor
deixaram que o Espírito Divino
as submergisse na Tua Vida e Paixão.
Negando-se a si mesmas
tiveram tudo como lixo
diante do bem supremo que é conhecer-Te e amar-Te.
Bendito sejas Senhor,
por manifestares nelas a força irresistível do Amor
e as chamares a participar
na Tua Obra de Salvação para o mundo.
Enamoradas da Tua imolação na Cruz
revivem em si mesmas o mistério da Nova Aliança,
em que Tu és o seu Sacerdote
e das suas vidas elevas ao Pai
a tua oração sacerdotal.
Bendito sejas Senhor,
por que em Maria Tua Mãe
estas mulheres encontram a sua força.

sábado, 4 de outubro de 2014

Não ter onde pousar a cabeça





É por esta vida que se chega à outra. Quantas vezes para chegar à luz, à paz, à fonte do bem em nós… temos de passar por caminhos longos, frios e escuros?

Viver é difícil, ser feliz, muito mais. É preciso aprender a dar e a aceitar. Compreender que as alegrias e as tristezas fazem parte da nossa essência e que não nos devemos nunca fechar. Cada um de nós é uma fonte de sentido para o mundo, para os outros e para si mesmo. Devemos olhar em frente, para lá do horizonte e seguir adiante. Apesar de tudo.

A felicidade depende de se ser simples. Envolve sofrimento, pela pureza que exige. Nunca se chega à felicidade pelo material, até porque passa por abdicar do que tem menos valor. Ser feliz é ser, não é ter.

Uma vida boa supõe que sejamos capazes de nos deixarmos tocar e influenciar pelo que nos rodeia, sem medo. Da capacidade de ser sensível ao que vem de fora resultam as impressões.

Da mesma forma, quem busca uma vida boa deve ser capaz de se dar ao mundo, entregando o melhor de si, arriscando o ridículo, sem medo. Da capacidade de exteriorizar o que vem de dentro, resultam as expressões.

Impressões e expressões tendem a funcionar de forma harmoniosa, numa espécie de respiração. Animam-se e potenciam-se uma à outra, garantindo uma autêntica experiência vital. A pressão que está na base de ambos os movimentos é a força que transforma uma sobrevivência biológica numa vida humana plena de sentido. Sem ela, aparece uma forma de de-pressão, uma falha grave desta dinâmica essencial onde se conjugam a ex-pressão e a im-pressão. O dar e o aceitar.

Antes de reconhecer sentidos à vida, importa compreendê-la tal como é. Aceitando os desafios em que nos lança…

A morte crava no fundo de cada homem a questão do sentido da vida, ainda que muitos vivam como se ela nem provável fosse! Adiam decisões, tarefas, empenhos, palavras e atos para um outro tempo, para um depois, como se este tempo fosse tão certo como o antes. Não é.

Pode haver um inferno antes da morte, um estado de alma de quem, tendo tido uma vida inteira à sua disposição, escolheu adiar o importante, acomodando-se à fatal rotina das insignificâncias. Depois, já num momento tardio, contemplará de forma triste e demorada a vida que escolheu para si. É aqui, neste tarde demais, sem qualquer hipótese de voltar atrás, que para muitos é tempo de sofrer. Sem des-culpas. Apenas a responsabilidade de quem se rendeu ao medo e abdicou de lutar pela felicidade profunda e duradoura. A única que existe.

Nada está decidido antes do último momento. Há sempre tempo para recomeçar.
Se morrer é certo, ser feliz não... E porque o preço da passividade é superior ao do erro, devemos arriscar a vida pela felicidade, antes da morte, antes do inferno do tarde demais. Com a possibilidade de sermos felizes, tratemos de não ter de ficar para sempre nas torturas da culpa. Com a firmeza de quem sabe que por maior que seja a tragédia, a felicidade depende sempre mais de nós do que das circunstâncias.

Muitas vezes a necessidade de sentido esbarra contra a aparente indiferença da realidade face às nossas questões e desesperos. Resulta óbvio que o mundo não nos responderá nem nos dará nada por pena. Mas é no abismo que nos separa do mundo que somos chamados a construir a resposta. A ser a resposta! A sermos o mundo que falta.

O caminho que traçamos e percorremos leva-nos à morte, mas é através dela que se chega ao infinito que existe para lá. É por esta vida que se chega à outra. Quantas vezes para chegar à luz, à paz, à fonte do bem em nós… temos de passar por caminhos longos, frios e escuros?
Posso não ter onde pousar a cabeça, mas ainda assim, não deixarei nunca de ter a obrigação de sonhar, lutar e ser feliz. Amando. Apesar de tudo.

Por José Luís Nunes Martins


segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Cada dia como um dom



Ajuda-me, Senhor, a receber cada dia como um dom.

Ajuda-me a reconhecer que nada me falta,
que Tu me deste tudo aquilo que é necessário
para fazer da vida uma coisa feliz e com sentido.

Mesmo que me falte o universo inteiro, nada verdadeiramente me falta.
Mesmo que eu espere muito do amanhã, devo saber que tenho tudo hoje.

Ajuda-me a limpar o olhar poluído
e agravado por juízos, consumos e ressentimentos.

Que eu saiba acolher a vida como a oportunidade que ela é.

Se acontecer o meu coração andar ferido,
recorda-me, Senhor, aquele santo que dizia:
“Nenhum coração é tão inteiro como um coração ferido”

Pe. Tolentino Mendonça

domingo, 28 de setembro de 2014

A rotina de São João Maria Vianney, o Cura D'Ars



A rotina de São João Maria Vianney, o Cura D'Ars

“À uma da manhã em ponto, faz a sua oração na igreja.
Confessa as mulheres até às seis.
Às seis, celebra a sua Missa.
A seguir, faz a sua ação de graças.
Depois fica à disposição dos fiéis para abençoar-lhes as imagens e dar-lhes conselhos.
Por volta das oito, ele se permite, a instâncias das moças da “Providência”, ir lá tomar, do outro lado da praça, meio copo de leite sem pão.
Como também elas precisam de conselhos, distribui-os generosamente.
Às oito e meia, está de volta e atende os homens na sacristia.
Às dez, interrompe-se e vai render a sua homenagem a Deus recitando as suas horas menores.
E depois confessa mais um pouco.
Às onze, volta à “Providência” para ensinar o catecismo às crianças, às suas órfãs especialmente, e também a muitos adultos.
Ao meio dia, reza o “Angelus” e retorna à casa paroquial para almoçar.
Atravessar a praça leva cerca de um quarto de hora, porque a multidão se comprime à sua volta; é preciso continuar a aconselhar e a abençoar.
Almoça de pé, rapidamente, muitas vezes enquanto fala, pois os paroquianos mais próximos se aproveitam das refeições para confiar-lhe as suas misérias.
Ainda assim, já ao meio-dia e meia tem de visitar os seus enfermos, sempre escoltado pela multidão que não se cansa de interroga-lo.
Assim que volta à igreja, mergulha no seu breviário, a tempo de ler as vésperas e as completas.
Mal fecha o livro, retorna ao confessionário.
As mulheres o retêm ali até às cinco.
Passa aos homens, que o retêm até às oito.
Enfim, sobe ao púlpito para recitar a oração vespertina e o terço da Imaculada Conceição.
Depois deste longo e penoso trabalho, imaginamos que vá jantar e depois dormir?
Não. Nem sempre consegue jantar; é preciso que receba em sua casa umas quantas almas delicadas, difíceis de convencer ou de dirigir.
Também tem de terminar o seu breviário: matinas e laudes, a parte mais longa.
Com isso chegamos às dez horas da noite.
Não é raro, também, que retorne à igreja a fim de confessar mais um pouco, e que de lá não volte senão depois da meia-noite.
Depois deita-se.
Mas a noite será curta: a nova jornada, como a anterior, começa bem antes do nascer do sol.
Façamos as contas. O Pe.Vianney trabalha pelo menos vinte horas. Quinze ou dezesseis, no mínimo, transcorrem ouvindo confissões, tanto na capela de São João Batista, dentro do confessionário onde atende as penitentes, quanto na sede de madeira dura da sacristia, onde recebe os penitentes.
Terá tido duas horas a sós com Deus?
Mas ele está sempre com Deus.
Este regime há de durar trinta anos”

"O Cura d’Ars”. Gheon, Henri - Ed. Quadrante, 1998

domingo, 21 de setembro de 2014

Cirineus



São João Paulo II foi vítima de um atentado a 12 de Maio de 1982, em Fátima. A 13 de Maio de 1981 tinha sido alvejado em Roma, tendo então perigado a sua vida. A providencial coincidência deste incidente com o aniversário da primeira aparição, em Fátima, levou João Paulo II a atribuir a Maria a sua sobrevivência. Por esta razão, fez uma peregrinação, um ano depois, à Cova da Iria. Foi então que um padre espanhol, não católico, atentou, sem êxito, contra a vida daquele Papa.

Logo depois deste segundo atentado, um casal madrileno apresentou-se na nunciatura, em Lisboa: eram os pais do clérigo que pusera em risco a vida de São João Paulo II. A razão da sua precipitada vinda ao nosso país, que passou desapercebida à imprensa, era só uma: pedir desculpa.

Aqueles pais, católicos, não tinham nenhuma responsabilidade no delito perpetrado pelo filho, maior de idade. Naquela hora amarga, de tanta angústia e vergonha, era compreensível que se tivessem escondido mas, pelo contrário, deram a cara em nome de um crime que não era deles. Outros teriam entendido, com razão, que nada tinham a ver com aquele acto criminoso, mas aqueles pais carregaram com a culpa do seu filho. Muitos progenitores ter-se-iam orgulhado de uma glória filial, mas aqueles desgraçados pais humilharam-se com a desonra do seu descendente e, em seu nome, ofereceram-se à vítima, em expiação dessa falta. Como é rara a nobreza de uma voluntária humilhação! Como é belo pedir perdão!

"Nisto consiste o amor: (…) em ter sido Deus que nos amou e enviou o seu Filho, como vítima de expiação pelos nossos pecados. (…) Se Deus nos amou assim, também nós devemos amar-nos uns aos outros" (1Jo 4,10-11). Neste mundo, sobram os Pilatos e os Herodes acusadores, mas faltam Cireneus que carreguem as cruzes alheias.

Gonçalo Portocarrero de Almada | ionline 2014.09.20

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Ser grande

Foto: - "Pai, como é que eu cresço?", perguntou ele dando um salto. "É assim?", e deu outro.
O Pai sorriu... Omi Garandi, treinado nos saberes da vida. Chamou o filho e mandou-o vir com os outros amigos. 
- "Da-lhes as mãos", disse ele, devagaroso. 
Os pequenos entreolharam-se e deram as mãos uns aos outros. 
- "É assim, filho. É assim que humano cresce. Só homem pequeno quer crescer para cima. Omi ki bali pena cresce pelas mãos, cresce para os outros. Ser grande não é chegar onde ninguém chega. Ser grande é chegar a muita gente."

- "Pai, como é que eu cresço?", perguntou ele dando um salto. "É assim?", e deu outro.
O Pai sorriu... Omi Garandi, treinado nos saberes da vida. Chamou o filho e mandou-o vir com os outros amigos.
- "Da-lhes as mãos", disse ele, devagaroso.
Os pequenos entreolharam-se e deram as mãos uns aos outros.
- "É assim, filho. É assim que humano cresce. Só homem pequeno quer crescer para cima. Omi ki bali pena cresce pelas mãos, cresce para os outros. Ser grande não é chegar onde ninguém chega. Ser grande é chegar a muita gente."

domingo, 14 de setembro de 2014

Cruz



«O mundo está em chamas. (…)
Mas no alto, por cima de todas as chamas,
eleva-se a cruz.
Elas não podem queimá-la.
Ela é caminho da terra ao céu.
Quem a abraça com fé,
com amor
e esperança
é levado até ao Seio da Trindade.»

Santa Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein) | 1891 – 1942 
Escrito para a Exaltação da Santa Cruz

Pai,
contemplo-te aí, atrás da Cruz,
a sustentar o Crucificado
e a oferecê-lo ao mundo.
A Tua presença aí
diz-me do mistério oculto na Cruz,
diz-me da ‘memória viva’ do ‘Verbo feito carne’
que queres celebrar com cada vida.
Contemplo-te aí, a sustentar o Crucificado,
e no Coração aberto e trespassado
descubro o dom da Encarnação que nos ofereces.
Descubro que o segredo que a Cruz encerra
é o dom do Verbo se fazer um connosco.
Continuo a olhar o Crucificado, sustentado por Ti,
e descubro que as pequenas cruzes da minha vida
são o amor com que fazes Cristo nascer em mim,
são o ‘berço’ que escolheste para o ‘Verbo encarnar’.
Olho-Te de novo, Pai,
e o meu olhar vai de mim a Ti
e da cruz onde sustentas o Crucificado
sinto-me eu mesmo sustentado
e o meu olhar volta de Ti a mim
porque em mim a força da Crucifixão
se converteu na presença de Cristo Vivo.
Trago em mim as marcas da Paixão
Porque Tu me sustentas no Amor do ‘Verbo feito carne’.

A Cruz onde sustentas o Crucificado
Acende no meu interior o fogo vivo
Da Cruz do Amor
Com que me marcaste.

Pai,
Eu te dou graças
Por me sustentares no amor do Crucificado
E por me dizeres que a Cruz de Cristo
É a certeza da ‘Encarnação do Verbo’
Na vida de cada um dos Teus filhos.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Natividade de Maria



"Quereis saber quão feliz, quão alto é e quão digno de ser festejado o Nascimento de Maria?
Vede o para que nasceu. Nasceu para que dela nascesse Deus.

(...) Perguntai aos enfermos para que nasce esta celestial Menina,
dir-vos-ão que nasce para Senhora da Saúde;
perguntai aos pobres, dirão que nasce para Senhora dos Remédios;
perguntai aos desamparados, dirão que nasce para Senhora do Amparo;
perguntai aos desconsolados, dirão que nasce para Senhora da Consolação;
perguntai aos tristes, dirão que nasce para Senhora dos Prazeres;
perguntai aos desesperados, dirão que nasce para Senhora da Esperança.

Os cegos dirão que nasce para Senhora da Luz;
os discordes, para Senhora da Paz;
os desencaminhados, para Senhora da Guia;
os cativos, para Senhora do Livramento;
os cercados, para Senhora da Vitória.

Dirão os pleiteantes que nasce para Senhora do Bom Despacho;
os navegantes, para Senhora da Boa Viagem;
os temerosos da sua fortuna, para Senhora do Bom Sucesso;
os desconfiados da vida, para Senhora da Boa Morte;
os pecadores todos, para Senhora da Graça;
e todos os seus devotos, para Senhora da Glória.

E se todas estas vozes se unirem em uma só voz,
dirão que nasce para ser Maria e Mãe de Jesus"

Padre António Vieira, Sermão do Nascimento da Mãe de Deus

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Oração para não se tornar rabujento



Ó Senhor, tu sabes melhor do que eu que estou envelhecendo a cada dia.
Sendo assim, Senhor, livra-me da tolice de achar que devo dizer algo, em toda e qualquer ocasião.
Livra-me, também, Senhor, deste desejo enorme que tenho de querer pôr em ordem a vida dos outros. Devo entender que eles podem, às vezes, estar com a razão.
Ensina-me a pensar nos outros e a ajudá-los, sem jamais me impor sobre eles, mesmo considerando com modéstia a sabedoria que acumulei e que penso ser uma lástima não passar aos outros.
Tu sabes, Senhor, que desejo preservar alguns amigos e uma boa relação com os filhos e netos, e que só se preserva quando não há intromissão na vida deles.
Livra-me também Senhor, da tolice de querer contar tudo com detalhes e minúcias e dar asas à minha imaginação, para voar diretamente ao ponto que interessa.
Não me permitas falar mal de ninguém.
Ensina-me a calar as minhas dores e doenças...
Elas estão a aumentar e, com isso, a vontade de descrevê-las vai crescendo a cada ano que passa.
Não ouso pedir o dom de ouvir com alegria a descrição das doenças alheias; Seria pedir muito.
Mas, ensina-me Senhor, a suportar ouvi-las com paciência.
Ensina-me a maravilhosa sabedoria de saber que posso estar errado em algumas ocasiões. Já descobri que pessoas que acertam sempre são maçadoras e desagradáveis.
Mas, sobretudo Senhor, nesta oração de envelhecimento, peço:
Mantenha-me o mais amável possível.
Livrai-me de ser santo. É difícil conviver com santos!
Um velho rabugento, Senhor, é a obra-prima do diabo!
Poupe-me, por misericórdia.
Amen.

Maria A. S. P. Santiago

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Se tu amas



Se tu amas por causa da beleza, então não ames!
Ama o sol que tem cabelos doirados!

Se tu amas por causa da juventude, então não ames!
Ama a primavera que fica nova todos os anos!

Se tu amas por causa dos tesouros, então não ames!
Ama a mulher do mar; ela tem muitas pérolas claras!

Se tu amas por causa da inteligência, então não ames!
Ama Isaac Newton: ele escreveu os principios matemáticos da filosofia natural!

Mas se tu me amas por causa do amor, então sim, ama!
Ama sempre!

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

A minha família é a minha casa



Numa família há afeto e exemplo, há limites e respeito, há quem nos aceite como somos sem deixar de nos animar a sermos melhores, sem excessos mas com a paciência de quem ama
A solidão absoluta é não ter ninguém a quem dizer um simples: “tenho vontade de chorar”. Não precisamos de muito para viver bem – para ser feliz basta uma família e pouco mais.

A família é a casa e a paz. O refúgio onde uma vontade de chorar não é motivo de julgamento, apenas e só uma necessidade súbita de... família. De um equilíbrio para o qual o outro é essencial... assim também se passa com a vontade de sorrir que, em família, se contagia apenas pelo olhar.

Nos dias de hoje vai sendo cada vez mais difícil encontrar gente capaz de ser família. Os egoísmos abundam e cultiva-se, sozinho, o individual. Como se não houvesse espaço para o amor. Dizem que amar é arriscado, que é coisa de loucos...

Todos temos sentimentos mais profundos. Cada um de nós é uma unidade, mas o que somos passa por sermos mais do que um. Parte de unidades maiores. Estamos com quem amamos e quem amamos também está, de alguma forma, connosco. O amor é o que existe entre nós e nos enlaça os sentimentos mais profundos. Onde uma vontade de chorar é um sinal de que há algo em mim que é maior do que eu... por vezes, nem preciso de chorar.... apenas a vontade me indica o caminho da humildade e do amor. Sozinho não consigo chegar a ser eu...

Uma verdadeira família é simples. É o lugar onde todos amam e protegem a intimidade de cada um. Ninguém é de uma família à qual não se entrega. Mas não é fácil, nunca. É preciso ser forte o suficiente para dizer não a um conjunto enorme de coisas que parecem muito valiosas, mas que não passam de ocas aparências de valor.

Há muita gente que gosta de complicar para fugir ao que é simples. Para que me serve um palácio se nele a minha solidão se faz ainda maior? Quantos desistem de lutar pelo amor com a desculpa de que o preço é alto e o prémio pode afinal não valer o esforço? Quantas vezes a falta de amor é vista como paz?

A família é algo simples – puro – mas muitíssimo difícil de alcançar. Implica a renúncia constante aos artifícios do fácil e do imediato. Exige que nos concentremos num caminho longo que acreditamos (sem grandes provas) que é o único que nos pode elevar e levar ao céu.

Numa família há afeto e exemplo, há limites e respeito, há quem nos aceite como somos sem deixar de nos animar a sermos melhores, sem excessos mas com a paciência de quem ama.

A paz resulta de um equilíbrio de elementos diferentes, com talentos e perspetivas distintos. Não através de um esforço de anulação do que é único de cada um, mas precisamente pela riqueza de o orientar rumo a um fim conjunto e harmonioso. Uma espécie de enriquecimento recíproco dos contrários. Promover o bem do outro não é fazer com que se torne semelhante a mim.

A minha casa é o lugar onde eu sou o outro a quem alguém pode expressar o seu “tenho vontade de chorar” sem que eu trace juízos de qualquer espécie, e que lhe faça sentir com o meu silêncio, dedicação e presença que a sua vontade já não é só sua... mas minha também.

A minha família é a minha casa. Até podemos ser apenas dois... mas é aí, e só aí, que posso ser feliz. Longe de casa estou sempre a caminho. O meu coração não descansa senão nos braços de quem tem vontade de sorrir e de chorar comigo.

José Luís Nunes Martinsin I Online

sábado, 30 de agosto de 2014

Chegando ao concreto



O grande Karl Rahner, numa das suas últimas cartas, escreveu a um jovem alemão toxicodependente que lhe tinha pedido ajuda. O jovem toxicodependente tinha dito: "Vocês, teólogos, falam sobre Deus, mas como é que este Deus pode ser relevante na minha vida? Como é que este Deus poderia livrar-me das drogas?" Rahner disse-lhe: "Tenho de confessar-te muito honestamente que, para mim, Deus é e sempre foi, um mistério absoluto. Não compreendo o que é Deus; ninguém consegue compreender. Temos insinuações, alusões. Fazemos hesitações, tentativas inadequadas de pôr o mistério em palavras. Mas não há palavra para isso, não há frase para isso." E, ao falar para um grupo de teólogos em Londres, Rahner disse: "A tarefa do teólogo é explicar tudo através de Deus, e explicar Deus como inexplicável." O mistério inexplicável. O que não sabemos, não podemos dizer. Dizemos: "Ah, ah..."

As palavras são indicadores, não são descrições. Tragicamente, as pessoas caem na idolatria porque pensam que, no que concerne a Deus, a palavra é a coisa. Como é que podes ser tão louco? Consegues ser mais louco do que isto? Mesmo no que diz respeito aos seres humanos, ou às árvores e às folhas, e aos animais, a palavra não é a coisa. E tu dirias que, no que diz respeito a Deus, a palavra é uma coisa? O que é que estás a dizer? Um estudioso das escrituras famoso internacionalmente esteve presente neste curso em São Francisco e disse-me: "Meu Deus, depois de ouvi-lo percebi que tenho sido um adorador de ídolos toda a minha vida!" Ele disse isto abertamente. "Nunca me tinha apercebido de que tinha sido um adorador de ídolos. O meu ídolo não era feito de madeira nem de metal; era um ídolo mental." Estes são os adoradores de ídolos mais perigosos. Utilizam uma substância muito subtil, a mente, para fabricar o seu Deus.

Estou a conduzir-te para o seguinte: consciência da realidade à tua volta. Consciencialização significa olhar, observar o que acontece dentro de ti e à tua volta. "Continuar" é bastante exato: árvores, relva, flores, rock, toda a realidade está a mover-se. Observamo-la, olhamo-la. E como é essencial para o ser humano não só observar-se a si, mas olhar para toda a realidade. Os teus conceitos aprisionam-te? Queres libertar-te dessa prisão? Então olha; observa; passa horas a observar. A ver o quê? Nada. Os rostos das pessoas, as formas das árvores, um pássaro a voar, uma pilha de pedras, ver a relva crescer. Entrar em contacto com as coisas, olhar para elas. Com sorte conseguirás quebrar estes padrões rígidos que todos desenvolvemos, a partir dos quais os nossos pensamentos e as nossas palavras nos foram impostos. Com sorte veremos. Veremos o quê? Esta coisa que escolhemos chamar de realidade, seja o que estiver para além de palavras e conceitos. Este é um exercício espiritual — ligado à espiritualidade — ligado ao facto de saíres da tua cela, de saíres do aprisionamento de conceitos e palavras.

Que triste se passarmos pela vida e nunca a virmos com os olhos de uma criança. Isto não significa que devas abandonar totalmente os teus conceitos; eles são muito preciosos. Apesar de começarmos sem eles, os conceitos têm uma função muito positiva. Graças a eles desenvolvemos a nossa inteligência. Somos convidados, não para nos tornarmos crianças, mas para nos tornarmos como crianças. Temos de cair de um estado de inocência e sermos atirados para fora do paraíso. Temos de desenvolver um "Eu" e um "Mim" através destes conceitos. Mas depois precisamos de voltar ao paraíso. Precisamos de ser resgatados outra vez. Temos de deixar o homem velho, a velha natureza, o eu condicionado, e regressar ao estado de criança mas semsermos criança. Quando começamos na vida olhamos para a realidade com espanto, mas não é o espanto inteligente dos místicos. É o espanto sem forma da criança. Então o espanto morre e é substituído por tédio, à medida que desenvolvemos a linguagem, as palavras e os conceitos. Então, esperançosamente, se tivermos sorte, voltaremos a espantar-nos.

Antony de Mello, in Awareness

domingo, 3 de agosto de 2014

Magnificat



O evangelista Lucas imortalizou
O magnífico louvor que a tua boca  pronunciou.
Como tu, a minha alma glorifica ao Senhor
e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador (Lc 1, 46-47).

Porque do medo à confiança me fez renascer
E um coração vazio de esperança voltou a encher.
Porque esta alma perdida voltou a encontrar
A luz para os seus passos guiar.

Porque os olhos na humildade da sua serva pôs (cf. Lc 1, 48)
E para ela uma magnífica melodia compôs.
Cheia de misericórdia, bondade e amor
Com a leveza das nuvens e o perfume da mais fina flor.

Como a ti, de hoje em diante me chamarão bem-aventurada (Lc 1, 48)
Porque em mim verão o esplendor de ser por Deus amada.
«O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas» (Lc 1, 49), direi a todas as gerações (Lc. 1, 48)
E com a alegria do Seu Evangelho tocarei, como tu, os seus corações.

Santo é o Seu nome (Lc 1, 49) e o Seu mandamento o amor.
Que, seguindo o teu exemplo, o saiba cumprir mesmo na dor.
Mantem acesa em mim das tuas virtudes a luz,
E a coragem de seguir o teu Filho até aos pés da cruz.

Raquel Dias