terça-feira, 7 de outubro de 2014

Maria é modelo



«A Virgem,
que guardava no seu coração
a Palavra de Deus,
é modelo daquelas pessoas atentas
nas quais revive continuamente
a oração sacerdotal de Jesus.
E o Senhor escolheu de preferência a mulheres
que como ela se esqueceram completamente de si mesmas
para se submergir na vida e na paixão de Cristo,
para que fossem seus instrumentos
na realização de grandes obras na Igreja.

Santa Teresa Benedicta da Cruz (Edith Stein) | 1891 – 1942 
Edith Stein, Obras 404

Senhor,
eu te dou graças por todas as mulheres
que seduzidas pelo Teu Amor
deixaram que o Espírito Divino
as submergisse na Tua Vida e Paixão.
Negando-se a si mesmas
tiveram tudo como lixo
diante do bem supremo que é conhecer-Te e amar-Te.
Bendito sejas Senhor,
por manifestares nelas a força irresistível do Amor
e as chamares a participar
na Tua Obra de Salvação para o mundo.
Enamoradas da Tua imolação na Cruz
revivem em si mesmas o mistério da Nova Aliança,
em que Tu és o seu Sacerdote
e das suas vidas elevas ao Pai
a tua oração sacerdotal.
Bendito sejas Senhor,
por que em Maria Tua Mãe
estas mulheres encontram a sua força.

sábado, 4 de outubro de 2014

Não ter onde pousar a cabeça





É por esta vida que se chega à outra. Quantas vezes para chegar à luz, à paz, à fonte do bem em nós… temos de passar por caminhos longos, frios e escuros?

Viver é difícil, ser feliz, muito mais. É preciso aprender a dar e a aceitar. Compreender que as alegrias e as tristezas fazem parte da nossa essência e que não nos devemos nunca fechar. Cada um de nós é uma fonte de sentido para o mundo, para os outros e para si mesmo. Devemos olhar em frente, para lá do horizonte e seguir adiante. Apesar de tudo.

A felicidade depende de se ser simples. Envolve sofrimento, pela pureza que exige. Nunca se chega à felicidade pelo material, até porque passa por abdicar do que tem menos valor. Ser feliz é ser, não é ter.

Uma vida boa supõe que sejamos capazes de nos deixarmos tocar e influenciar pelo que nos rodeia, sem medo. Da capacidade de ser sensível ao que vem de fora resultam as impressões.

Da mesma forma, quem busca uma vida boa deve ser capaz de se dar ao mundo, entregando o melhor de si, arriscando o ridículo, sem medo. Da capacidade de exteriorizar o que vem de dentro, resultam as expressões.

Impressões e expressões tendem a funcionar de forma harmoniosa, numa espécie de respiração. Animam-se e potenciam-se uma à outra, garantindo uma autêntica experiência vital. A pressão que está na base de ambos os movimentos é a força que transforma uma sobrevivência biológica numa vida humana plena de sentido. Sem ela, aparece uma forma de de-pressão, uma falha grave desta dinâmica essencial onde se conjugam a ex-pressão e a im-pressão. O dar e o aceitar.

Antes de reconhecer sentidos à vida, importa compreendê-la tal como é. Aceitando os desafios em que nos lança…

A morte crava no fundo de cada homem a questão do sentido da vida, ainda que muitos vivam como se ela nem provável fosse! Adiam decisões, tarefas, empenhos, palavras e atos para um outro tempo, para um depois, como se este tempo fosse tão certo como o antes. Não é.

Pode haver um inferno antes da morte, um estado de alma de quem, tendo tido uma vida inteira à sua disposição, escolheu adiar o importante, acomodando-se à fatal rotina das insignificâncias. Depois, já num momento tardio, contemplará de forma triste e demorada a vida que escolheu para si. É aqui, neste tarde demais, sem qualquer hipótese de voltar atrás, que para muitos é tempo de sofrer. Sem des-culpas. Apenas a responsabilidade de quem se rendeu ao medo e abdicou de lutar pela felicidade profunda e duradoura. A única que existe.

Nada está decidido antes do último momento. Há sempre tempo para recomeçar.
Se morrer é certo, ser feliz não... E porque o preço da passividade é superior ao do erro, devemos arriscar a vida pela felicidade, antes da morte, antes do inferno do tarde demais. Com a possibilidade de sermos felizes, tratemos de não ter de ficar para sempre nas torturas da culpa. Com a firmeza de quem sabe que por maior que seja a tragédia, a felicidade depende sempre mais de nós do que das circunstâncias.

Muitas vezes a necessidade de sentido esbarra contra a aparente indiferença da realidade face às nossas questões e desesperos. Resulta óbvio que o mundo não nos responderá nem nos dará nada por pena. Mas é no abismo que nos separa do mundo que somos chamados a construir a resposta. A ser a resposta! A sermos o mundo que falta.

O caminho que traçamos e percorremos leva-nos à morte, mas é através dela que se chega ao infinito que existe para lá. É por esta vida que se chega à outra. Quantas vezes para chegar à luz, à paz, à fonte do bem em nós… temos de passar por caminhos longos, frios e escuros?
Posso não ter onde pousar a cabeça, mas ainda assim, não deixarei nunca de ter a obrigação de sonhar, lutar e ser feliz. Amando. Apesar de tudo.

Por José Luís Nunes Martins


segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Cada dia como um dom



Ajuda-me, Senhor, a receber cada dia como um dom.

Ajuda-me a reconhecer que nada me falta,
que Tu me deste tudo aquilo que é necessário
para fazer da vida uma coisa feliz e com sentido.

Mesmo que me falte o universo inteiro, nada verdadeiramente me falta.
Mesmo que eu espere muito do amanhã, devo saber que tenho tudo hoje.

Ajuda-me a limpar o olhar poluído
e agravado por juízos, consumos e ressentimentos.

Que eu saiba acolher a vida como a oportunidade que ela é.

Se acontecer o meu coração andar ferido,
recorda-me, Senhor, aquele santo que dizia:
“Nenhum coração é tão inteiro como um coração ferido”

Pe. Tolentino Mendonça

domingo, 28 de setembro de 2014

A rotina de São João Maria Vianney, o Cura D'Ars



A rotina de São João Maria Vianney, o Cura D'Ars

“À uma da manhã em ponto, faz a sua oração na igreja.
Confessa as mulheres até às seis.
Às seis, celebra a sua Missa.
A seguir, faz a sua ação de graças.
Depois fica à disposição dos fiéis para abençoar-lhes as imagens e dar-lhes conselhos.
Por volta das oito, ele se permite, a instâncias das moças da “Providência”, ir lá tomar, do outro lado da praça, meio copo de leite sem pão.
Como também elas precisam de conselhos, distribui-os generosamente.
Às oito e meia, está de volta e atende os homens na sacristia.
Às dez, interrompe-se e vai render a sua homenagem a Deus recitando as suas horas menores.
E depois confessa mais um pouco.
Às onze, volta à “Providência” para ensinar o catecismo às crianças, às suas órfãs especialmente, e também a muitos adultos.
Ao meio dia, reza o “Angelus” e retorna à casa paroquial para almoçar.
Atravessar a praça leva cerca de um quarto de hora, porque a multidão se comprime à sua volta; é preciso continuar a aconselhar e a abençoar.
Almoça de pé, rapidamente, muitas vezes enquanto fala, pois os paroquianos mais próximos se aproveitam das refeições para confiar-lhe as suas misérias.
Ainda assim, já ao meio-dia e meia tem de visitar os seus enfermos, sempre escoltado pela multidão que não se cansa de interroga-lo.
Assim que volta à igreja, mergulha no seu breviário, a tempo de ler as vésperas e as completas.
Mal fecha o livro, retorna ao confessionário.
As mulheres o retêm ali até às cinco.
Passa aos homens, que o retêm até às oito.
Enfim, sobe ao púlpito para recitar a oração vespertina e o terço da Imaculada Conceição.
Depois deste longo e penoso trabalho, imaginamos que vá jantar e depois dormir?
Não. Nem sempre consegue jantar; é preciso que receba em sua casa umas quantas almas delicadas, difíceis de convencer ou de dirigir.
Também tem de terminar o seu breviário: matinas e laudes, a parte mais longa.
Com isso chegamos às dez horas da noite.
Não é raro, também, que retorne à igreja a fim de confessar mais um pouco, e que de lá não volte senão depois da meia-noite.
Depois deita-se.
Mas a noite será curta: a nova jornada, como a anterior, começa bem antes do nascer do sol.
Façamos as contas. O Pe.Vianney trabalha pelo menos vinte horas. Quinze ou dezesseis, no mínimo, transcorrem ouvindo confissões, tanto na capela de São João Batista, dentro do confessionário onde atende as penitentes, quanto na sede de madeira dura da sacristia, onde recebe os penitentes.
Terá tido duas horas a sós com Deus?
Mas ele está sempre com Deus.
Este regime há de durar trinta anos”

"O Cura d’Ars”. Gheon, Henri - Ed. Quadrante, 1998

domingo, 21 de setembro de 2014

Cirineus



São João Paulo II foi vítima de um atentado a 12 de Maio de 1982, em Fátima. A 13 de Maio de 1981 tinha sido alvejado em Roma, tendo então perigado a sua vida. A providencial coincidência deste incidente com o aniversário da primeira aparição, em Fátima, levou João Paulo II a atribuir a Maria a sua sobrevivência. Por esta razão, fez uma peregrinação, um ano depois, à Cova da Iria. Foi então que um padre espanhol, não católico, atentou, sem êxito, contra a vida daquele Papa.

Logo depois deste segundo atentado, um casal madrileno apresentou-se na nunciatura, em Lisboa: eram os pais do clérigo que pusera em risco a vida de São João Paulo II. A razão da sua precipitada vinda ao nosso país, que passou desapercebida à imprensa, era só uma: pedir desculpa.

Aqueles pais, católicos, não tinham nenhuma responsabilidade no delito perpetrado pelo filho, maior de idade. Naquela hora amarga, de tanta angústia e vergonha, era compreensível que se tivessem escondido mas, pelo contrário, deram a cara em nome de um crime que não era deles. Outros teriam entendido, com razão, que nada tinham a ver com aquele acto criminoso, mas aqueles pais carregaram com a culpa do seu filho. Muitos progenitores ter-se-iam orgulhado de uma glória filial, mas aqueles desgraçados pais humilharam-se com a desonra do seu descendente e, em seu nome, ofereceram-se à vítima, em expiação dessa falta. Como é rara a nobreza de uma voluntária humilhação! Como é belo pedir perdão!

"Nisto consiste o amor: (…) em ter sido Deus que nos amou e enviou o seu Filho, como vítima de expiação pelos nossos pecados. (…) Se Deus nos amou assim, também nós devemos amar-nos uns aos outros" (1Jo 4,10-11). Neste mundo, sobram os Pilatos e os Herodes acusadores, mas faltam Cireneus que carreguem as cruzes alheias.

Gonçalo Portocarrero de Almada | ionline 2014.09.20

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Ser grande

Foto: - "Pai, como é que eu cresço?", perguntou ele dando um salto. "É assim?", e deu outro.
O Pai sorriu... Omi Garandi, treinado nos saberes da vida. Chamou o filho e mandou-o vir com os outros amigos. 
- "Da-lhes as mãos", disse ele, devagaroso. 
Os pequenos entreolharam-se e deram as mãos uns aos outros. 
- "É assim, filho. É assim que humano cresce. Só homem pequeno quer crescer para cima. Omi ki bali pena cresce pelas mãos, cresce para os outros. Ser grande não é chegar onde ninguém chega. Ser grande é chegar a muita gente."

- "Pai, como é que eu cresço?", perguntou ele dando um salto. "É assim?", e deu outro.
O Pai sorriu... Omi Garandi, treinado nos saberes da vida. Chamou o filho e mandou-o vir com os outros amigos.
- "Da-lhes as mãos", disse ele, devagaroso.
Os pequenos entreolharam-se e deram as mãos uns aos outros.
- "É assim, filho. É assim que humano cresce. Só homem pequeno quer crescer para cima. Omi ki bali pena cresce pelas mãos, cresce para os outros. Ser grande não é chegar onde ninguém chega. Ser grande é chegar a muita gente."

domingo, 14 de setembro de 2014

Cruz



«O mundo está em chamas. (…)
Mas no alto, por cima de todas as chamas,
eleva-se a cruz.
Elas não podem queimá-la.
Ela é caminho da terra ao céu.
Quem a abraça com fé,
com amor
e esperança
é levado até ao Seio da Trindade.»

Santa Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein) | 1891 – 1942 
Escrito para a Exaltação da Santa Cruz

Pai,
contemplo-te aí, atrás da Cruz,
a sustentar o Crucificado
e a oferecê-lo ao mundo.
A Tua presença aí
diz-me do mistério oculto na Cruz,
diz-me da ‘memória viva’ do ‘Verbo feito carne’
que queres celebrar com cada vida.
Contemplo-te aí, a sustentar o Crucificado,
e no Coração aberto e trespassado
descubro o dom da Encarnação que nos ofereces.
Descubro que o segredo que a Cruz encerra
é o dom do Verbo se fazer um connosco.
Continuo a olhar o Crucificado, sustentado por Ti,
e descubro que as pequenas cruzes da minha vida
são o amor com que fazes Cristo nascer em mim,
são o ‘berço’ que escolheste para o ‘Verbo encarnar’.
Olho-Te de novo, Pai,
e o meu olhar vai de mim a Ti
e da cruz onde sustentas o Crucificado
sinto-me eu mesmo sustentado
e o meu olhar volta de Ti a mim
porque em mim a força da Crucifixão
se converteu na presença de Cristo Vivo.
Trago em mim as marcas da Paixão
Porque Tu me sustentas no Amor do ‘Verbo feito carne’.

A Cruz onde sustentas o Crucificado
Acende no meu interior o fogo vivo
Da Cruz do Amor
Com que me marcaste.

Pai,
Eu te dou graças
Por me sustentares no amor do Crucificado
E por me dizeres que a Cruz de Cristo
É a certeza da ‘Encarnação do Verbo’
Na vida de cada um dos Teus filhos.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Natividade de Maria



"Quereis saber quão feliz, quão alto é e quão digno de ser festejado o Nascimento de Maria?
Vede o para que nasceu. Nasceu para que dela nascesse Deus.

(...) Perguntai aos enfermos para que nasce esta celestial Menina,
dir-vos-ão que nasce para Senhora da Saúde;
perguntai aos pobres, dirão que nasce para Senhora dos Remédios;
perguntai aos desamparados, dirão que nasce para Senhora do Amparo;
perguntai aos desconsolados, dirão que nasce para Senhora da Consolação;
perguntai aos tristes, dirão que nasce para Senhora dos Prazeres;
perguntai aos desesperados, dirão que nasce para Senhora da Esperança.

Os cegos dirão que nasce para Senhora da Luz;
os discordes, para Senhora da Paz;
os desencaminhados, para Senhora da Guia;
os cativos, para Senhora do Livramento;
os cercados, para Senhora da Vitória.

Dirão os pleiteantes que nasce para Senhora do Bom Despacho;
os navegantes, para Senhora da Boa Viagem;
os temerosos da sua fortuna, para Senhora do Bom Sucesso;
os desconfiados da vida, para Senhora da Boa Morte;
os pecadores todos, para Senhora da Graça;
e todos os seus devotos, para Senhora da Glória.

E se todas estas vozes se unirem em uma só voz,
dirão que nasce para ser Maria e Mãe de Jesus"

Padre António Vieira, Sermão do Nascimento da Mãe de Deus

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Oração para não se tornar rabujento



Ó Senhor, tu sabes melhor do que eu que estou envelhecendo a cada dia.
Sendo assim, Senhor, livra-me da tolice de achar que devo dizer algo, em toda e qualquer ocasião.
Livra-me, também, Senhor, deste desejo enorme que tenho de querer pôr em ordem a vida dos outros. Devo entender que eles podem, às vezes, estar com a razão.
Ensina-me a pensar nos outros e a ajudá-los, sem jamais me impor sobre eles, mesmo considerando com modéstia a sabedoria que acumulei e que penso ser uma lástima não passar aos outros.
Tu sabes, Senhor, que desejo preservar alguns amigos e uma boa relação com os filhos e netos, e que só se preserva quando não há intromissão na vida deles.
Livra-me também Senhor, da tolice de querer contar tudo com detalhes e minúcias e dar asas à minha imaginação, para voar diretamente ao ponto que interessa.
Não me permitas falar mal de ninguém.
Ensina-me a calar as minhas dores e doenças...
Elas estão a aumentar e, com isso, a vontade de descrevê-las vai crescendo a cada ano que passa.
Não ouso pedir o dom de ouvir com alegria a descrição das doenças alheias; Seria pedir muito.
Mas, ensina-me Senhor, a suportar ouvi-las com paciência.
Ensina-me a maravilhosa sabedoria de saber que posso estar errado em algumas ocasiões. Já descobri que pessoas que acertam sempre são maçadoras e desagradáveis.
Mas, sobretudo Senhor, nesta oração de envelhecimento, peço:
Mantenha-me o mais amável possível.
Livrai-me de ser santo. É difícil conviver com santos!
Um velho rabugento, Senhor, é a obra-prima do diabo!
Poupe-me, por misericórdia.
Amen.

Maria A. S. P. Santiago

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Se tu amas



Se tu amas por causa da beleza, então não ames!
Ama o sol que tem cabelos doirados!

Se tu amas por causa da juventude, então não ames!
Ama a primavera que fica nova todos os anos!

Se tu amas por causa dos tesouros, então não ames!
Ama a mulher do mar; ela tem muitas pérolas claras!

Se tu amas por causa da inteligência, então não ames!
Ama Isaac Newton: ele escreveu os principios matemáticos da filosofia natural!

Mas se tu me amas por causa do amor, então sim, ama!
Ama sempre!

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

A minha família é a minha casa



Numa família há afeto e exemplo, há limites e respeito, há quem nos aceite como somos sem deixar de nos animar a sermos melhores, sem excessos mas com a paciência de quem ama
A solidão absoluta é não ter ninguém a quem dizer um simples: “tenho vontade de chorar”. Não precisamos de muito para viver bem – para ser feliz basta uma família e pouco mais.

A família é a casa e a paz. O refúgio onde uma vontade de chorar não é motivo de julgamento, apenas e só uma necessidade súbita de... família. De um equilíbrio para o qual o outro é essencial... assim também se passa com a vontade de sorrir que, em família, se contagia apenas pelo olhar.

Nos dias de hoje vai sendo cada vez mais difícil encontrar gente capaz de ser família. Os egoísmos abundam e cultiva-se, sozinho, o individual. Como se não houvesse espaço para o amor. Dizem que amar é arriscado, que é coisa de loucos...

Todos temos sentimentos mais profundos. Cada um de nós é uma unidade, mas o que somos passa por sermos mais do que um. Parte de unidades maiores. Estamos com quem amamos e quem amamos também está, de alguma forma, connosco. O amor é o que existe entre nós e nos enlaça os sentimentos mais profundos. Onde uma vontade de chorar é um sinal de que há algo em mim que é maior do que eu... por vezes, nem preciso de chorar.... apenas a vontade me indica o caminho da humildade e do amor. Sozinho não consigo chegar a ser eu...

Uma verdadeira família é simples. É o lugar onde todos amam e protegem a intimidade de cada um. Ninguém é de uma família à qual não se entrega. Mas não é fácil, nunca. É preciso ser forte o suficiente para dizer não a um conjunto enorme de coisas que parecem muito valiosas, mas que não passam de ocas aparências de valor.

Há muita gente que gosta de complicar para fugir ao que é simples. Para que me serve um palácio se nele a minha solidão se faz ainda maior? Quantos desistem de lutar pelo amor com a desculpa de que o preço é alto e o prémio pode afinal não valer o esforço? Quantas vezes a falta de amor é vista como paz?

A família é algo simples – puro – mas muitíssimo difícil de alcançar. Implica a renúncia constante aos artifícios do fácil e do imediato. Exige que nos concentremos num caminho longo que acreditamos (sem grandes provas) que é o único que nos pode elevar e levar ao céu.

Numa família há afeto e exemplo, há limites e respeito, há quem nos aceite como somos sem deixar de nos animar a sermos melhores, sem excessos mas com a paciência de quem ama.

A paz resulta de um equilíbrio de elementos diferentes, com talentos e perspetivas distintos. Não através de um esforço de anulação do que é único de cada um, mas precisamente pela riqueza de o orientar rumo a um fim conjunto e harmonioso. Uma espécie de enriquecimento recíproco dos contrários. Promover o bem do outro não é fazer com que se torne semelhante a mim.

A minha casa é o lugar onde eu sou o outro a quem alguém pode expressar o seu “tenho vontade de chorar” sem que eu trace juízos de qualquer espécie, e que lhe faça sentir com o meu silêncio, dedicação e presença que a sua vontade já não é só sua... mas minha também.

A minha família é a minha casa. Até podemos ser apenas dois... mas é aí, e só aí, que posso ser feliz. Longe de casa estou sempre a caminho. O meu coração não descansa senão nos braços de quem tem vontade de sorrir e de chorar comigo.

José Luís Nunes Martinsin I Online

sábado, 30 de agosto de 2014

Chegando ao concreto



O grande Karl Rahner, numa das suas últimas cartas, escreveu a um jovem alemão toxicodependente que lhe tinha pedido ajuda. O jovem toxicodependente tinha dito: "Vocês, teólogos, falam sobre Deus, mas como é que este Deus pode ser relevante na minha vida? Como é que este Deus poderia livrar-me das drogas?" Rahner disse-lhe: "Tenho de confessar-te muito honestamente que, para mim, Deus é e sempre foi, um mistério absoluto. Não compreendo o que é Deus; ninguém consegue compreender. Temos insinuações, alusões. Fazemos hesitações, tentativas inadequadas de pôr o mistério em palavras. Mas não há palavra para isso, não há frase para isso." E, ao falar para um grupo de teólogos em Londres, Rahner disse: "A tarefa do teólogo é explicar tudo através de Deus, e explicar Deus como inexplicável." O mistério inexplicável. O que não sabemos, não podemos dizer. Dizemos: "Ah, ah..."

As palavras são indicadores, não são descrições. Tragicamente, as pessoas caem na idolatria porque pensam que, no que concerne a Deus, a palavra é a coisa. Como é que podes ser tão louco? Consegues ser mais louco do que isto? Mesmo no que diz respeito aos seres humanos, ou às árvores e às folhas, e aos animais, a palavra não é a coisa. E tu dirias que, no que diz respeito a Deus, a palavra é uma coisa? O que é que estás a dizer? Um estudioso das escrituras famoso internacionalmente esteve presente neste curso em São Francisco e disse-me: "Meu Deus, depois de ouvi-lo percebi que tenho sido um adorador de ídolos toda a minha vida!" Ele disse isto abertamente. "Nunca me tinha apercebido de que tinha sido um adorador de ídolos. O meu ídolo não era feito de madeira nem de metal; era um ídolo mental." Estes são os adoradores de ídolos mais perigosos. Utilizam uma substância muito subtil, a mente, para fabricar o seu Deus.

Estou a conduzir-te para o seguinte: consciência da realidade à tua volta. Consciencialização significa olhar, observar o que acontece dentro de ti e à tua volta. "Continuar" é bastante exato: árvores, relva, flores, rock, toda a realidade está a mover-se. Observamo-la, olhamo-la. E como é essencial para o ser humano não só observar-se a si, mas olhar para toda a realidade. Os teus conceitos aprisionam-te? Queres libertar-te dessa prisão? Então olha; observa; passa horas a observar. A ver o quê? Nada. Os rostos das pessoas, as formas das árvores, um pássaro a voar, uma pilha de pedras, ver a relva crescer. Entrar em contacto com as coisas, olhar para elas. Com sorte conseguirás quebrar estes padrões rígidos que todos desenvolvemos, a partir dos quais os nossos pensamentos e as nossas palavras nos foram impostos. Com sorte veremos. Veremos o quê? Esta coisa que escolhemos chamar de realidade, seja o que estiver para além de palavras e conceitos. Este é um exercício espiritual — ligado à espiritualidade — ligado ao facto de saíres da tua cela, de saíres do aprisionamento de conceitos e palavras.

Que triste se passarmos pela vida e nunca a virmos com os olhos de uma criança. Isto não significa que devas abandonar totalmente os teus conceitos; eles são muito preciosos. Apesar de começarmos sem eles, os conceitos têm uma função muito positiva. Graças a eles desenvolvemos a nossa inteligência. Somos convidados, não para nos tornarmos crianças, mas para nos tornarmos como crianças. Temos de cair de um estado de inocência e sermos atirados para fora do paraíso. Temos de desenvolver um "Eu" e um "Mim" através destes conceitos. Mas depois precisamos de voltar ao paraíso. Precisamos de ser resgatados outra vez. Temos de deixar o homem velho, a velha natureza, o eu condicionado, e regressar ao estado de criança mas semsermos criança. Quando começamos na vida olhamos para a realidade com espanto, mas não é o espanto inteligente dos místicos. É o espanto sem forma da criança. Então o espanto morre e é substituído por tédio, à medida que desenvolvemos a linguagem, as palavras e os conceitos. Então, esperançosamente, se tivermos sorte, voltaremos a espantar-nos.

Antony de Mello, in Awareness

domingo, 3 de agosto de 2014

Magnificat



O evangelista Lucas imortalizou
O magnífico louvor que a tua boca  pronunciou.
Como tu, a minha alma glorifica ao Senhor
e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador (Lc 1, 46-47).

Porque do medo à confiança me fez renascer
E um coração vazio de esperança voltou a encher.
Porque esta alma perdida voltou a encontrar
A luz para os seus passos guiar.

Porque os olhos na humildade da sua serva pôs (cf. Lc 1, 48)
E para ela uma magnífica melodia compôs.
Cheia de misericórdia, bondade e amor
Com a leveza das nuvens e o perfume da mais fina flor.

Como a ti, de hoje em diante me chamarão bem-aventurada (Lc 1, 48)
Porque em mim verão o esplendor de ser por Deus amada.
«O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas» (Lc 1, 49), direi a todas as gerações (Lc. 1, 48)
E com a alegria do Seu Evangelho tocarei, como tu, os seus corações.

Santo é o Seu nome (Lc 1, 49) e o Seu mandamento o amor.
Que, seguindo o teu exemplo, o saiba cumprir mesmo na dor.
Mantem acesa em mim das tuas virtudes a luz,
E a coragem de seguir o teu Filho até aos pés da cruz.

Raquel Dias

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Se tivesse que escolher

Imagem intercalada 2

Se algum dia que escolher tivesse
o Céu ou a terra, o homem ou Deus,
fosse qual fosse o caminho que percorresse
daria de mão a tudo e Deus seria meu.

Devagarinho,
subindo,
descubro, caminhando, o Céu de Deus.
Prosseguindo,
escuto o apelo
e lego aos homens os passos meus.

Um dia,
embrenhado na noite escura,
o Sol raiou...
Era o Verbo.
O Apelo triunfou!

Pe. Olímpio, S.J.

Postal que a Associação "Jovens de Cristo Sentido Único" me enviou pelo meu 18º aniversário de ordenação sacerdotal. Assim fazem todos os anos

segunda-feira, 28 de julho de 2014

A banda



Conta-se uma história encantadora que dizem ser real, mas que também pode servir como uma bonita parábola.

Havia uma cidade pequena nos EUA na qual as pessoas se reuniam ao fim da tarde para tocarem música. Tinham saxofone, bateria, violino, na maioria tocados por pessoas idosas. Reuniam-se pela companhia e pela pura alegria de tocarem, mesmo não o fazendo muito bem. Por isso estavam a divertir-se, a passarem um bom momento, até que um dia decidiram ter um novo maestro, que tinha uma grande ambição e determinação. O novo maestro disse-lhes:

- "Ei, pessoal, temos de fazer um concerto. Temos de preparar um concerto para a cidade."

Depois, gradualmente, foi dispensando pessoas que não tocavam muito bem, contratou alguns músicos profissionais, pôs a orquestra em ordem e todos os nomes apareceram no jornal. Não foi fantástico? Então decidiram ir tocar numa cidade grande. Mas algumas das pessoas mais velhas tinham lágrimas nos olhos. Diziam:

- "Era tão bom nos velhos tempos quando tocávamos mal mas nos divertíamos."

Portanto, a crueldade chegou à vida deles, mas ninguém a reconheceu como crueldade.

Como dizia alguém: "Deus não nos quer perfeitos; Deus quer-nos inteiros!"

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Brilhante testemunho de fé da Judite de Sousa



"Meu Deus e meu Pai
Desfeito em átomos de água,
partiu hoje para o teu infinito o filho que me deste.
Gerei-o com amor, criei-o com carinho
e eduquei-o o melhor que soube.
Foi meu companheiro e meu ânimo
nas muitas tempestades que tenho atravessado.
Hoje não tenho nada.
O muito que tinha foi para junto de ti.
A sua alma de menino
e o que restou do seu corpo de anjo também já foi desfeito em fumo.
Estou só.
Terrivelmente só.
Só como há séculos, quando a tua mãe, nossa Senhora,
te acolheu no regaço depois de te despregarem da cruz no calvário.
Eu agora nada tenho.
Nas distorcidas imagens que os meus olhos rasos de lágrimas salgadas e já secas,
vejo nitidamente, o teu rosto misericordioso.
No plano infinito da eternidade já está o meu menino.
Tapa-o com o teu manto divino
que as noites são frias para lá do Universo, ele é um bom menino.
O meu menino!
E se vires que pode merecer alguma coisa da dor desta perda sem remédio,
rogo-te, meu Pai, que pronto me leves a vê-lo,
que nestes dias as saudades apertam mais
este meu coração trespassado pela dor.
Eu só fui mãe deste filho.
Hoje, já não sou mais mãe de ninguém”.

Judite de Sousa

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Cristo não tem outro corpo na Terra senão o teu



Cristo não tem outro corpo na Terra senão o teu,
não tem outros pés senão os teus.
Teus são os olhos através dos quais a compaixão de Cristo olha o mundo.
Teus são os pés com que Ele sai a fazer o bem.
Tuas são as mãos com as quais Ele nos abençoa.

Santa Teresa de Ávila


"Onde não houver amor,
põe amor
e encontrarás amor!"

São João da Cruz

sábado, 19 de julho de 2014

Preciso de ti para ser eu



O amor não é recíproco, é pessoal, nasce no mais íntimo da nossa identidade. Não é metade de nada, é um todo. Precisa do outro como fim, não como princípio.

Ser quem sou passa por ser capaz de criar ligações ao outro, com o outro e para o outro. Só há pessoas porque há relações. A minha existência é constituída pelos caminhos que sonho, construo e percorro, ao lado de outras pessoas que, como eu, sonham, constroem e percorrem os seus caminhos. Vontades distintas, dinâmica comum. Seguimos, cada um pelos seus princípios, cada um para os seus fins.

O amor leva o ser do seu autor ao ser do que é amado. Amar é ser e ser é amar. Partilhar-se com o outro e com o mundo, num milagre de multiplicação em que quanto mais se dá, mais se tem para dar, mais se é.

Um pequeno erro na base leva a potenciais tragédias nas conclusões. Há quem parta do princípio que o amor é recíproco. Ora, essa ideia simples acaba por ser origem de enormes tragédias pessoais. O amor não é recíproco, é pessoal, nasce no mais íntimo da nossa identidade. Não é metade de nada, é um todo. Precisa do outro como fim, não como princípio.

O amor é bondade generosa. É dar o bem. Dar-se. Conseguir ser fonte de amor é o maior dos bens que se pode alcançar. Sonhar, criar e lutar pela felicidade do outro é, por si mesmo, a maior de todas as recompensas. Claro, muitos desistem assim que o primeiro espinho se crava na planta dos pés…

O valor de alguém não depende do que lhe dão ou tem, mas do que é. O outro pode inspirar-me, mas a minha felicidade passa pelo que sou capaz de lhe dar… e não pelo que posso ou quero receber.

Criamos relações, construímos pontes, para não sermos ilhas. A nossa verdadeira comunhão é mais profunda. As águas separam o mais evidente do que somos, mas o fundo é o mesmo, como se fossemos montes de uma mesma cordilheira e o mar tivesse inundado os vales.

O caminho de descoberta passa por se ser capaz de chegar ao íntimo… de si mesmo, do outro e do mundo. Por se dar conta de que, afinal, no fundo do ser, a nossa matriz é comum.

Os outros são eus e eu sou o seu outro.

Não é bom estar só. A solidão anula o ser. O amor une o que é, na essência, da mesma natureza. Resulta da liberdade e responsabilidade absolutas. Implica a capacidade de criar uma vida sem intervalos.

Nenhum mal perdura no tempo, porque a destruição se destrói a si mesma. Só o bem é eterno. Porque se cria e renova a cada momento.

O que sou depende dos princípios que me movem e dos fins para os quais a minha vontade tende. Serei o que escolher ser dentro de um conjunto de determinações que me ultrapassam, mas que em ponto algum limitam a minha liberdade e a minha responsabilidade.

Vivemos uns com os outros, seguimos juntos no espaço e no tempo… escolhemos depois estar mais perto ou mais longe dos íntimos uns dos outros.

Ninguém nasce de si mesmo e o ser humano, sendo o mais perfeito ser terrestre, é também o mais carente. Precisamos muito uns dos outros.

Não é possível ser feliz sem os outros, menos ainda contra os outros.

A cada instante, tudo muda, mesmo quando toda a gente quer que continue na mesma. As decisões devem renovar-se a cada passo, o amor deve encontrar forma de se fazer real a cada dia, sob pena de passar, e nós, passando com ele… nos fazermos apenas passado.

Longe de fechar, o amor abre aquele que ama ao outro, tornando-o protagonista da criação. Cada um de nós está projetado para fora de si, para os outros, para este mundo e para o céu. A nossa dignidade é tanto maior quanto mais aberto estiver o nosso coração… para dar.

Preciso do infinito para ser eu.

José Luís Nunes Martins
in http://www.ionline.pt/iopiniao/preciso-ti-ser-eu/pag/2

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Nossa Senhora do Carmo


Nossa Senhora do Carmo no Porto de Recreios de Oeiras

Dia 16 de julho
Nossa Senhora do Carmo

A ordem dos Carmelitas tem como modelo o profeta Elias e caracteriza-se por uma profunda devoção a Maria. A Sagrada Escritura fala da beleza do Monte Carmelo, onde o profeta Elias defendeu a fé do povo de Israel no Deus vivo e verdadeiro. Carmelo em hebraico significa "vinha do Senhor".

Ali Elias enfrentou os profetas de Baal. Segundo o Livro das Instituições, Elias teve uma visão em que a Virgem lhe apareceu sob a figura de uma pequena nuvem que saía da terra e se dirigia ao Carmelo.
Em 93, os monges construíram sobre o Monte Carmelo uma capela em honra à Virgem Maria. As gerações de monges sucederam-se através dos tempos. Em 1205, o patriarca de Jerusalém deu-lhes uma Regra baseada no trabalho, na meditação das Escrituras, na devoção a Nossa Senhora, na vida contemplativa e mística.

Entretanto, ainda no século XIII, os muçulmanos invadiram a Terra Santa. Os eremitas do Monte Carmelo fugiram para a Europa. Nesta época, tinham como superior geral São Simão Stock. Enquanto rezava, pedindo a Nossa Senhora que fosse a protectora da Ordem dos Carmelitas, recebeu das mãos de Nossa Senhora do Carmo o escapulário «Eis o privilégio que te dou à ti e a todos os filhos do Carmelo: "todo o que for revestido desse hábito será salvo".»

«Junto de vós, minha terna Mãe!
Encontrei o repouso do coração;
Nada mais quero sobre a terra,
Só Jesus é a minha ventura.
Se por vezes sinto a tristeza,
O temor que vem assaltar-me,
Sempre, sustentando a minha fraqueza,
Vos dignais, ó Mãe, abençoar-me.

Concedei-me que eu seja fiel
Ao meu divino Esposo Jesus.
Que um dia, a sua doce voz me chame
A voar por entre os eleitos.
Então, terminou o exílio, o sofrimento;
Repetir-vos-ei lá no Céu
O canto da minha gratidão
Amável Rainha do Carmelo!»

Santa Teresa do Menino Jesus | 1873 - 1897 
Poesia 7

Minha Mãe Santíssima do Carmo,
Tu és a minha estrela que me guia até Jesus!
Quero ser todo Teu!
Torna-me sempre mais semelhante ao Teu Filho Jesus!

terça-feira, 15 de julho de 2014

sábado, 12 de julho de 2014

Vencer as tentações



O nosso coração deve ser um castelo. De onde expulsamos, sem demoras, tudo quanto atenta contra o nosso bem. Sem excessos nem cobardias. Em paz.

As tentações não são ferozes, nem vencem pela força… a sua arma essencial é a astúcia. As tentações conhecem-nos a partir de dentro, pelo que não se combatem com mentiras, mas com a vontade e a verdade. Ninguém está isento do momento em que, de súbito, a paz se acaba, mas, se formos rápidos na resposta, evitaremos que o inimigo ganhe o poder de nos dominar, dividir e anular.

Muitos são escravos das suas perdições, assumem-se como vítimas, fracos por opção, e não lutam. Acolhem o mal no seu íntimo, fazendo-o hóspede, dão-lhe as chaves do coração, acreditando nas promessas de realização dos sonhos que as tentações lhes apresentam. Quando passa o tempo e se dão conta de que estão agora mais longe do seu objetivo… perdem-se mais, tornando-se presas ainda mais expostas.

São os limites que marcamos para nós mesmos que nos definem. A minha identidade é uma unidade onde tem de haver uma distinção entre o que quero e o que não quero. Entre o que aceito e o que não aceito. Entre o que erguerei e o que destruirei em favor do maior bem.

As tentações encantam e fazem acreditar que os desejos mais íntimos são justos e serão por elas satisfeitos. Ora, é talvez por aí que deve começar a nossa cruzada contra tudo o que nos destrói: analisar e avaliar bem os desejos, anulando todos quantos são apenas faces inocentes de perversidades profundas…

Lutamos porque somos homens e para sermos homens.

Estas seduções do mal giram em torno de três eixos: o prazer, o poder e o ter. Apontando-nos como futuro centro do mundo se a elas nos submetermos. Mas, nunca nenhum de nós é ou será o centro do mundo e é muito bom que assim seja. A verdade e a beleza da vida passam pelo contraste entre a insignificância do que começamos por representar e o valor do que somos chamados a construir em nós e no mundo… com e para os outros. Ninguém se basta a si mesmo.

A arma de quem vive na eterna guerra das tentações é a vigilância. Quanto mais cedo e de forma mais resoluta se reconhecerem e enfrentarem, melhor será o resultado.

Importa ter a consciência mais atenta à realidade do que à imaginação.

Devemos manter o coração em paz apesar das feridas abertas, das chagas pelos golpes incessantes, umas vezes em cima das antigas cicatrizes, outras em pontos que nunca haviam sido tocados… golpes sempre subtis, firmes e certeiros.

A vida é uma luta áspera contra a morte, contra o mal que nos quer desunir, contra a ausência de um sentido profundo. Viver é atacar o que atenta contra a vida. Viver é defender a nossa vida com… a vida.

Importa vigiar sempre, ponderar e concentrarmo-nos nos objetivos que vamos traçando, na história que construímos, ano a ano, dia a dia, a cada momento. Numa lógica de prudência a longo prazo… de longuíssimo prazo. Afinal, um homem não é um momento mas uma história que se estende no infinito diante de si.

O nosso coração deve ser um castelo. De onde expulsamos, sem demoras, tudo quanto atenta contra o nosso bem. Sem excessos nem cobardias. Em paz.

O que sofremos tem sentido. A cruz pode sempre ser a espada com que nos defendemos do que ataca o brilho do nosso olhar!

Ser feliz passa por ser humilde e sereno. Por guardar a paz, atender a quem precisa, dando o que somos e temos, moderando sempre o que em nós quer ir além do simples… amando, sempre.

Por José Luís Nunes Martins
http://www.ionline.pt/iopiniao/atacar-tentacoes/pag/2

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Sei hoje


























Sei, hoje, que nunca estive verdadeiramente sozinha. Como deve ter sido difícil para Ti, ver um dos teus filhos amados sofrer por teimosia e orgulho. Como deves ter sofrido com a minha ingratidão e, ainda assim, nunca deixaste que nada me faltasse. Podes nem sempre me ter dado o que eu queria, mas deste-me sempre o que eu precisava. Estiveste presente em cada momento, ainda que eu não tenha sido capaz de ver ou ouvir os Teus sinais, nem sentir a Tua presença.

Sei, hoje, que o caminho que escolhi pode não ter sido o mais fácil, por estar tão longe de Ti, mas também sei que ele fez de mim a pessoa que sou, com todas as minhas qualidades e defeitos.

Sei hoje, que me deste apenas o tempo que eu precisava para reencontrar o caminho que me reconduzia a Ti. E que maravilhoso foi o nosso reencontro. Que alegria senti ao perceber que o vazio que sentia no peito era apenas ausência. Ausência de alguém que, afinal, esteve sempre presente.

Sei, hoje, que posso ter perdido a vela do meu baptismo mas o fogo do Teu amor arde permanentemente no meu coração.

Sei, hoje, o que é ser baptizada porque sei como é grande a Tua bondade, infinita a Tua misericórdia e eterno o Teu amor por mim!

Raquel Dias

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Paul Walker



Este video mostra apenas algumas das muitas obras de caridade que o ator estava envolvido atrás das câmaras até sua morte num acidente ocorrido em 30 de novembro de 2013.

O famoso ator americano tinha uma face oculta que estranhamente as câmaras e as luzes da ribalta nunca mostraram. Fizeram um alarido enorme aquando da sua morte mas não mostraram o que realmente interessava.

O ator fundou uma organziação de resposta rápida a desastres naturais em torno do mundo e sempre participou ativamente nela.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

A maior dificuldade pastoral



"Por vezes julgamos que uma das maiores dificuldades pastorais é podermos contar com o número suficiente de pessoas para respondermos aos diversos serviços, próprios de uma Comunidade Cristã.

Todavia, essa não é a maior dificuldade - por mais difícil que ela seja! A maior dificuldade pastoral é a capacidade de ajudar as pessoas a harmonizarem temperamentos; modos de entenderem a realidade e de a assumirem; e a serem capazes de construir, com sinceridade, projectos verdadeiramente comuns!

Para tanto, algumas atitudes são absolutamente necessárias: em primeiro lugar a aceitação da legítima diferença (cada um é singular no seu ser e no seu agir! E é legítimo que assim seja!); depois, a capacidade de ser frontal, na caridade, não permitindo que os problemas se arrastem indefinidamente (viver a sábia e genuína correcção fraterna!); esta segunda atitude pressupõe uma condição essencial - o verdadeiro diálogo (que não é arrazoado de imprecações, mas capacidade de verdadeira harmonização da diversidade, numa recta capacidade de pôr em comum perspectivas diversas de uma mesma realidade!); por fim, essa capacidade - tão cristã (e, por vezes, tão ausente!) - do perdão!

Muitas outras atitudes, possivelmente, serão necessárias para um sério entendimento!... Mas se conseguirmos, todos nós, cristãos, cultivar estas que acabo de considerar, as nossas paróquias tornar-se-ão verdadeiras Comunidades Cristãs! E conseguirão viver, minimamente, aquilo que São Paulo tão bem nos ensinou - que a caridade é o vínculo da perfeição! (cf. Cl. 3, 14).

Para isso, talvez tenhamos de regressar à simplicidade e humildade de crianças, como o Mestre afirmou: «Se não vos tornardes como crianças, de modo algum entrareis no Reino dos Céus» (Mt. 18, 3).

OBS. Se lermos Cl. 3, 12 - 15, aí encontraremos algumas atitudes necessárias, capazes de nos conduzir à perfeição referida pelo Apóstolo!"


Pe. Carlos Godinho, Luso

sábado, 5 de julho de 2014

O mistério de crescer



Mentir a uma criança é ensiná-la a mentir. Perdoar é ensiná-la a amar. Mas é bom que saibamos que, em muitas matérias, devíamos ser nós a seguir-lhes o exemplo…
Cada homem é um mistério que se vai descobrindo ao longo de toda a sua existência. Todos somos chamados a crescer, do primeiro ao último dia. Largar as antigas seguranças e partir em busca de novas e mais fortes esperanças… mas que nunca são as definitivas. Ser homem é crescer sempre.

Todos somos crianças e jamais se perde o dever de o ser. Cumpre-nos não deixar de querer saber e perguntar, de olhar e ver, de sonhar e fazer, de responder, de ajudar, de tentar sempre, mesmo quando julgamos não ser possível.

Uma criança enche qualquer casa e qualquer coração. As crianças são amor feito carne e osso. Vida transbordante, imensa vontade de viver. Encontram universos inteiros numa folha caída, sorrisos nos rostos humanos mais tristes. Aos olhos de uma criança o infinito está… em cada coisa.

Mais do que admiração pelo que são, merecem o respeito por aquilo que estão a construir em si, pelo que serão. Pelo mundo que será o seu, mas talvez já não o nosso.

Com o tempo aprende-se que não é bom incomodar os adultos com perguntas, menos ainda com boas respostas, como se o mundo dos crescidos fosse um império de pedras intransponível; como se não fosse melhor partilhar; como se fosse possível ser feliz sozinho…

Devemos ser autênticos, a fim de ensinarmos aos herdeiros do mundo a grandeza de um homem que assume as próprias imperfeições. Mais do que críticos e implacáveis avaliadores, as crianças precisam de modelos, de carne e osso, com talentos e falhas. A essência da educação é o exemplo. É a nossa vida que ensina. Não são as palavras nem os sonhos.

Mentir a uma criança é ensiná-la a mentir. Perdoar é ensiná-la a amar. Mas é bom que saibamos que, em muitas matérias, devíamos ser nós a seguir-lhes o exemplo… a maior parte delas pode ensinar-nos a ser felizes. Sem grandes dificuldades. Afinal, no mundo, o mais importante é que podemos contar uns com os outros… e, quem sabe, entrarmos no céu juntos (ninguém disse que não se pode esperar à porta!).

A vida é feita de escolhas.

Nem tudo está ao nosso alcance. Um sim é, em si mesmo, muitos nãos. Cada decisão concreta implica a renúncia de todas as possibilidades que havia. Mas decidir não é negar, é dizer sim a um caminho e começar a percorrê-lo. Deixando o lugar onde se estava e seguindo adiante. Tendo sempre presente o que se vai ganhar e não o que se perdeu. É bom pensar como as crianças, longe de preconceitos, do passado e do futuro. Viver o presente que a vida é.

Amar é escutar. É estar atento ao outro, ser honesto e paciente, permitir-lhe que seja quem quer ser, e que cresça, que cresça sempre, todos os dias… pois que ninguém deve ser hoje o que foi ontem.

As crianças não nos pertencem. Ser humano é ser livre. Sempre. Mesmo quando todos os sonhos parecem impossíveis. Mesmo quando todos parecem querer decidir por nós. Mesmo quando nos julgamos condenados.

Só conhecemos quem nos conhece. Quantas vezes a melhor forma de conhecer alguém é contar-lhe um segredo nosso e observar o que essa pessoa faz com ele?

Importa dar aos outros o amor de os ouvir. A criança ama quem for capaz de se partilhar com ela. De lhe dar o que é, sem cuidar de exigir nada em troca. Os nossos melhores amigos são sempre crianças.

Parece que quanto mais tempo passa pela nossa vida, menos sabemos olhar o mundo…

Por mais que custe, é sempre tempo de voltar a ser criança!

José Luís Nunes Martins
in http://www.ionline.pt/iopiniao/misterio-crescer/pag/2

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Contemplação na ação



«Tanto trabalho,
tantos deveres de caridade vos esperam.
A vossa alma não deve, por causa disto,
deixar de permanecer unida ao Senhor.
Apesar das mil e uma actividades,
a solidão e o silêncio devem reinar dentro de vós;
a alma manter-se-á assim só com o Só,
que, na quietude e na paz da alma recolhida n’Ele,
realiza as obras maravilhosas da graça.»

Beata Maria Josefina de Jesus Crucificado | 1894 - 1948 
Scritti Vari, pg.67

Meu Senhor e meu Deus,
como poderia eu imaginar que,
simultaneamente com o meu trabalho exterior,
Tu, na ternura infinita que por mim nutres,
vais fazendo em mim, insensivelmente, um trabalho interior.
Quanto mais tiver consciência desta acção benéfica
do Teu amor sobre mim,
mais o trabalho exterior se tornará um reflexo
do que operas profundamente em mim.
O trabalho torna-se uma extensão e participação na Tua obra criadora,
as dificuldades perder-se-ão na Tua Paixão,
toda a minha vida será conscientemente assumida em Ti
e a Ti oferecida por mim.
Senhor, ensina-me a ser contemplativo na acção!


quarta-feira, 2 de julho de 2014

15 coisas que pessoas emocionalmente fortes não fazem



15 coisas que pessoas emocionalmente fortes não fazem

Há aspectos particulares da nossa força mental que são determinantes para termos ou não uma vida boa. Existem vários níveis da nossa força mental e todos são necessários para termos sucesso e sermos felizes. A que tem maior impacto é a força emocional.

As emoções fazem parte, claro, da nossa componente psíquica, no entanto distinguem-se das restantes qualidades mentais  porque influenciam directamente o corpo físico. Afectam a forma como o corpo funciona e determinam cada uma das nossas acções. Sem emoções, não teríamos razões para agir nem para fazer o que quer que seja por nós próprios.As emoções são as nossas maiores motivações. Infelizmente, conseguem motivar-nos para direcções por vezes não as melhores. Por esta razão, a força emocional é tão essencial. Há muitas situações que as pessoas emocionalmente fortes evitam. Veja estas 15:


1.      Não pedem atenção. 

Precisar de atenção está directamente ligado a emoções. Os que sentem necessidade de reconhecimento, apenas se sentem válidos quando os outros os fazem sentir necessários. É como se essas pessoas não estivessem seguras do seu valor. Sentir-se inseguro do seu valor é meio caminho para o não reconhecimento. Se não sentimos que somos importantes, os outros também não o vão sentir.

2.     Não permitem que os outros as rebaixem.

Força emocional requer resiliência. O mundo está cheio de gente negativa, invejosa e ciumenta. Infelizmente muitas vezes os que nos rebaixam são os que estão mais perto de nós. A melhor solução é livrarmo-nos dessas pessoas, mas é também a mais difícil. Se conseguir remover essa gente da sua vida é menos um problema emocional.  

3.     Não guardam rancores.

Se guarda rancor está a dar mais importância do que devia a um assunto. Se uma pessoa pede desculpa genuinamente, perdoe de imediato. Se não pedir desculpa, não interaja mais com ela, mas não guarde rancor. Se continuar a dar-se com essa pessoa, vai fazer-lhe mais mal do que bem.

4.     Não param de fazer as suas coisas.

As pessoas emocionalmente fortes fazem o que fazem porque adoram fazê-lo. Não lhes passa pela cabeça abrandar ou parar por alguém que considera a sua felicidade inapropriada.

5.     Não deixam de acreditar em si próprias.

Os que gostam de si próprios, percebem-se a si próprios, não tem medo e tem orgulho de si próprios nunca duvidam deles próprios. Sabem quanto valem, nem um tostão a mais, nem a menos.

6.     Não são sacanas, nem idiotas.

Há pessoas más, sim, e perguntamo-nos porquê. Ser mau só serve como factor intimidante. Se quer intimidar, é preferível negociar. Se está a intimidar apenas por prazer, obviamente está a compensar uma falta de auto confiança.

7.     Sabem muito bem como não deixar os outros interferir na sua vida.

Os emocionalmente fortes são fortes por uma razão: Não se expoem a pessoas que destroem as suas defesas e esmagam a sua moral.  Muitas pessoas sentem-se perdidas e adoravam levá-lo com elas. Não deixe que lhe arruinem a felicidade.

8.     Não tem medo de amar.

Se tem medo de amar , não confia suficientemente em si próprio. Obviamente não deve manter um relacionamento condenado ao fracasso. E tambem não quer ser outra vez magoado, porque ser magoado não é agradável. Não há razão para ficar destroçado quando se tem confiança em si próprio. Se as coisas não dão certo, não é você, são os dois que não dão certo. A menos, claro, que seja uma pessoa horrível. Aí é mesmo você.

9.     Não ficam na cama, com medo de enfrentar o dia.

A melhor parte do dia devia ser quando acorda e realiza que está vivo. Tomamos a vida como garantida demasiadas vezes.

10. Não tem medo de abrandar.

As pessoas emocionalmente fortes não sentem necessidade de acção e excitação constantes. Não precisam de passar o dia a correr a fim de evitar os seus demonios. Apreciam um momento tranquilo, porque os aproxima do sentimento de não fazer nada senão viver e respirar.

Não significa que não apreciam excitação na vida, mas não são aditos a ela. Ficam mais do que felizes em dar um simples passeio e cheirar flores.

11.     Não fazem coisas que não querem fazer.

Todos nós fazemos coisas que não adoramos, mas não deviamos fazer o que não queremos fazer. As pessoas emocionalmente fortes percebem isso e quase sempre arranjam forma de se focarem no que gostam de fazer e, por acrescimo, no que precisa de ser feito. Apesar de não apreciarem cada minuto do que estão a fazer, valorizam o que estão a fazer porque os aproxima mais do que reamente adoram fazer.

12.     Não tem problema em dizer “Não”.

Se não consegue dizer “não”, as pessoas vão abusar de si. Será visto como um tarefeiro e ninguém lhe vai perguntar a opinião ou sequer levá-lo a sério quando a der. Dizer “não” lembra às pessoas que não tem controlo sobre si.

13.     Não se esquecem de dar.

Nunca estamos demasiado ocupados ou demasiado pobres para doar tempo ou dinheiro. Muita gente opta por ignorar as suas responsabilidades como seres humanos. Quanto mais forte emocionalmente for, mais aprecia os outros e a vida em si. Valoriza mais a vida e começa a empatizar com os que tem pior sorte.

14.    Não sentem que precisam ser aceites.

Quanto mais forte emocionalmente for, mais independente fica. Não sente a necessidade de ser aceite, porque é aceite onde interessa ser: no Mundo. Pessoas de grupos socais pequenos são muitas vezes estranhas e pouco saudáveis. Querer ser aceite não é mais do que “Tenho medo de ser eu próprio”.

15. Não esquecem que ser feliz é uma opção.

Muito importante: as pessoas emocionalmente fortes aprenderam a perceber o poder que o cérebro tem sobre a mente e o corpo. Percebem que as emoções são reacções, não reacções a causas físicas directas, mas à forma como percepcionam essas causas.  Por outras palavras, as nossas emoções não reflectem realidades, as nossas emoções reflectem a forma como interpretamos a realidade. Perceber isto dá-nos controlo quase absoluto das nossas emoções e portanto das nossas vidas.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

No trilho da paz



"De resto, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é nobre, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é respeitável, tudo o que possa ser virtude e mereça louvor, tende isso em mente. E o que aprendestes e recebestes, ouvistes de mim e vistes em mim, ponde isso em prática. Então, o Deus da paz estará convosco." (Fil 4, 8-9)

"Se há recomendação em que valha sempre a pena apurar os ouvidos é aquela que nos sugira o trilho da paz. Acate-se todo o conselho que aponte para a verdade. Evite-se o que tresanda a engano e se percebe à distância que não passa de mera ilusão. Prefira-se o procedimento honesto ao desonroso. Nem se pestaneje diante de truques rasteiros, antes haja fibra para os desfazer com actos puros. Persiga-se a dignidade e fuja-se de práticas indecorosas. Opte-se pelas vias cristalinas deixando em detrimento dos trajectos enviesados. É impossível chegar ao topo da escadaria da santidade pisando degraus obscenos. Já a amabilidade sem cartas na manga não só é desejável como também altamente recomendável. Agrada a Deus quem substitui a cultura de ressentimento por um estilo de vida assente na bondade. Sim, exercite-se a mente em tudo o que seja de “boa fama, virtuoso e digno de louvor.” Ponha-se em prática o que já se sabe de ginjeira e a paz de Deus será experimentada."

Jónatas Figueiredo


sábado, 28 de junho de 2014

800 anos da língua portuguesa

Foto: 800 ANOS DA LÍNGUA PORTUGUESA

Apesar de ser rei e soberano absoluto, D. Afonso II, em 27 de Junho de 1214, escreveu um texto que não é um Decreto. Ele obviamente não disse: “Decreto hoje fazer esta língua. E fica feita.” Não, D. Afonso II escreveu apenas o seu testamento; limitou-se a usar uma língua que obviamente já existia e já era usada pelo seu povo, antes de ele a usar também. O simbolismo deste momento e desse marco é que é a primeira vez que isso foi feito. Nunca antes dele, um Rei, um Estado, um soberano usara a nossa língua, escrevera oficialmente a nossa língua.     

in O POVO

Apesar de ser rei e soberano absoluto, D. Afonso II, em 27 de Junho de 1214, escreveu um texto que não é um Decreto. Ele obviamente não disse: “Decreto hoje fazer esta língua. E fica feita.” Não, D. Afonso II escreveu apenas o seu testamento; limitou-se a usar uma língua que obviamente já existia e já era usada pelo seu povo, antes de ele a usar também. O simbolismo deste momento e desse marco é que é a primeira vez que isso foi feito. Nunca antes dele, um Rei, um Estado, um soberano usara a nossa língua, escrevera oficialmente a nossa língua.

in O POVO

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Oração pelos sacerdotes



Ó meu Jesus, Vos peço por toda a Igreja,
concedei-lhe o amor e a luz do Vosso Espírito,
dai vigor às palavras dos sacerdotes,
de tal modo que os corações endurecidos
se enterneçam e retornem a Vós, Senhor.

Ó, Senhor, dai-nos santos sacerdotes;
Vós mesmo, conservai-os na santidade.

Ó Divino e Sumo Sacerdote,
que a potência da vossa misericórdia
os acompanhe em todos os lugares
e os defenda das insídias e dos laços do diabo,
pois ele tenta continuamente as almas dos sacerdotes.

Ó Senhor, que a potência da Vossa misericórdia
quebre e aniquile tudo aquilo
que possa obscurecer a santidade dos sacerdotes,
porque Vós podeis todas as coisas.

Meu Jesus amantíssimo,
Peço-Vos pelo trinfo da Vossa Igreja,
para que abençoeis o Santo Padre e todo o clero;
para obter a graça da conversão
dos pecadores obstinados no pecado;
por uma especial bênção e luz,

Peço-Vos, Jesus, pelos sacerdotes
com os quais me confessarei
durante toda a minha vida.

Santa Faustina Kowalska

Festa do Sagrado Coração de Jesus

Dia de oração pela santificação dos sacerdotes

quarta-feira, 25 de junho de 2014

A importância das aparências




A importância das aparências... fatiotas diferentes, reações diferentes!
É através de ações simples e heróicas que começamos a saborear o significado da palavra "humanidade".

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Oração do Papa Francisco na ordenação sacerdotal



A oração que o Papa Francisco rezou antes da sua ordenação sacerdotal.

Recordemos esta poderosa oração que o Papa Francisco escreveu três dias antes de se tornar padre. Em 13 de dezembro de 1969, Jorge Mario Bergoglio, três dias antes de cumprir 33 anos de idade, foi ordenado sacerdote. Alguns dias antes, aquele jovem, que hoje é o Papa Francisco, emocionado e feliz, escreveu uma oração especial, que refletia o que ele estava sentindo e vivenciando naquele momento. A oração foi divulgada pelo jornal italiano Avvenire:

“Quero crer em Deus Pai,
que me ama como um filho,
e em Jesus, o Senhor,
que infundiu seu Espírito na minha vida,
para fazer-me sorrir e levar-me, assim,
ao Reino eterno de vida.
Creio na Igreja.
Creio que, na história, que foi tocada
pelo olhar de amor de Deus,
no dia da primavera, 21 de setembro,
Ele saiu ao meu encontro para
me convidar a segui-lo.
Creio na minha dor,
infecunda pelo egoísmo, no qual me refugio.
Creio na mesquinhez da minha alma,
que busca receber sem dar... sem dar.
Creio que os outros são bons e que
devo amá-los sem medo e sem traí-los jamais,
sem buscar uma segurança para mim.
Creio na vida religiosa.
Creio que quero amar muito.
Creio na morte cotidiana, ardente, da qual fujo,
mas que sorri para mim, convidando-me a aceitá-la.
Creio na paciência de Deus, acolhedora,
boa como uma noite de verão.
Creio que o meu pai está no céu, junto ao Senhor.
Creio que o Padre Duarte também está lá,
intercedendo pelo meu sacerdócio.
Creio em Maria, minha Mãe,
que me ama e nunca me deixará sozinho.
E espero a surpresa de cada dia,
em que se manifestará o amor, a força,
a traição e o pecado,
que me acompanharão até o encontro definitivo
com esse rosto maravilhoso
que não sei como é,        
do qual fujo continuamente,
mas que quero conhecer e amar.
Amen.”

sábado, 21 de junho de 2014

Tesouro escondido



Na rota do sofrimento, escutamos histórias de vida que nos fazem perceber que Deus não está fora da cidade. Uma idosa da idade de minha mãe conta a sua aventura e resume a sua vida numa simples frase:

- "Nunca tive nada por meu; tudo o que tive partilhei com filhos que adotei, com os pobres que sentava à nossa mesa". 

Noutro lugar, há uma filha que deixa o emprego, para cuidar da mãe, que não a conhece nem reconhece, por causa da doença de Alzheimer. E diz-me, resoluta: 

- "No larnão a ponho, nem pensar. Se não der para o bife no prato, dá para uma sopa na tigela". 

Noutro lugar, aprecio a coragem de um homem, a quem coseram a mão a sangue frio, e que se orgulha das "medalhas" que tem na mão. Mas há uma velhinha, que me faz soltar uma risada, que acordou a vizinhança. Já depois de alguns minutos, como se nos conhecêssemos há anos, ela debita esta sabedoria evangélica: 

- "Sabe, Sr. Padre, não me tenho confessado e sempre que vou à Igreja o Padre está apressado. Chega a hora da comunhão e eu digo a Nosso Senhor: «Óh Senhor, eu queria receber-Te, depois da confissão. Mas como o Padre não está e eu estou cheia de vontade, não Te importas e eu vou comungar?!».E - diz a velhinha com humor cristão - "e eu lá vou à comunhão convencida que Nosso Senhor vai cá na conversa fiada da velhota". 

Depois conta-me a sua história do seu amor a Cristo e eu sinto-me ainda mais pequeno do que ela. Quer-se confessar e eu lá me volto para ela e, com brilho nos olhos, depois da absolvição, no fim, diz isto que arrepia o mais incrédulo: 

- "Hoje o céu entrou pelas telhas da minha casa dentro. Obrigado, meu Jesus". 

E eu lá vou dizendo baixinho. 

- "Oh meu Deus, ó Padre Gonçalo, tinhas aqui um tesouro escondido no meio do betão e só hoje o descobriste. Talvez te tenhas de confessar pela demora".

Pe. Amaro Gonçalo

quinta-feira, 12 de junho de 2014

As lojas que vendem vento...

As lojas que vendem vento...

Que saudades!

É verdade!

Que saudades eu tenho do tempo em que lia Cervantes!

Que saudades do tempo em que a imaginação voava pelas lezírias de Castilla la Mancha, por onde a imaginação se perdia entre moinhos e gigantes à procura da Dulcineia de antanho.

Que saudades eu tenho do Quixote, e do vento e do sol e das planícies, do vento que enfunava as velas dos moinhos por onde girava o vento das quimeras e do sol que amadurecia o pão ganho com trabalho honesto!

Infelizmente, neste tempo em que as “manchas” não estão já só por Castela, do Quixote sonhador e generoso só sobrou o Sancho rústico, bronco, egoísta, calculista, carreirista... diplomado.

Que saudades de saber de onde soprava o vento!

Que raiva por perceber de onde sopram agora os novos ventos!

Num tempo em tudo se mercadeja, até e sobretudo a dignidade cada vez mais percebemos que até o vento se vende... isso mesmo, o vento que enfuna as velas dos moinhos... esse, também esse está à venda... e há lojas de vender vento!

Lojas “musicais”, com nomes ilustres e sonantes... Pobre Bach, pobre Mozart, pobre Beethoven, pobre Quixote, pobres nós... pobres de nós... só ficamos com o Sancho, mais a pança, que nunca está saciada...

Hoje, do meu mundo, sobra-me a minha cidade, sobra-me um espaço onde cada vez mais me perco no vozear estonteante de messias desejados, de virgens mais castas que a casta Susana, a gritar inocência, que se vão passeando pelas lojas, pelas tais lojas que vendem vento, com nomes sonantes e tudo!

Não, não fui eu, não fomos nós... foram eles... sempre eles, os outros, os sem nome, os inomináveis, eles sim... são os culpados... nós não, nunca!



Hoje, na minha cidade, sobra-me o fastio do centro comercial, atafulhado de miríades de cores e de provocações. Cheios! Cheios até mais não poder ser de lojas que vendem vento, como se não houvesse amanhã!

Os neons ofuscam a pouca visão que ainda me resta e que me vai permitindo vislumbrar as montras... das lojas que vendem vento.

São ventos outros os que vão soprando, pelos corredores do centro comercial da minha cidade, das promoções infinitas, dos desatinos consumados, do vozear alvoroçado das virgens, estouvadas, azougadas, apoucadas...

Pelos corredores, olhando as montras escondidas pelo brilho dos neons, vou tentando perceber qual é a loja que está no comando.

É, no centro comercial da cidade que me resta, resta-me ir percebendo qual é a loja de turno, assim mesmo, como nas farmácias... qual é a loja de turno que está a dar as ordens que hão de ser cumpridas no Centro Comercial, pelas outras lojas, à espera que chegue a sua vez, à espera que chegue o seu turno.

Por aqui, vou eu comprando a existência que me resta, vou eu sonhando, quixotescamente a esperança que me não morre, a esperança que me mora, que eu habito e que me habita.

Por aqui vou eu, vamos nós, nós que não somos os outros... porque somos simplesmente nós.

Vamos, Francisco, vamos à Jordânia, à Palestina, a Israel, vamos ao mundo, ainda que vamos sozinhos, deixa lá, vamos os dois!

Da última vez que lá estivemos, naqueles 3 dias fabulosos, nós por cá, fizemos os nossos alinhamentos noticiosos como tinham que ser feitos... eleições europeias, seleção de futebol, zanga das comadres e depois, ah sim... depois... vieste tu, Francisco! Depois vimos-te a fazer tudo o que tinha que ser feito, a dizer tudo o que tinha que ser dito... mas já estávamos lançados na discussão que importava... o gelo na perna do Ronaldo era muito mais importante...

Mas nós vamos, Francisco, lá estivemos no dia 8 de junho em Roma, com o Shimon Peres e o Mahmoud Abbas, lá rezámos pela paz.

As comadres ainda devem andar zangadas por essa altura, o gelo da perna do rapaz ainda não deve ter derretido, a Europa lá andará de armas e bagagens entre Bruxelas e Estrasburgo, mas nós vamos!



Fr. Fernando Ventura, ofm cap
© SNPC | 11.06.14

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Chamados a dizer irmão

Foto

"Para chegar à paz, somos chamados a dizer uma palavra: «Irmão»" 
(Papa Francisco).

"Senhor Deus de Paz, escutai a nossa súplica!
Tentámos tantas vezes e durante tantos anos
resolver os nossos conflitos com as nossas forças
e também com as nossas armas;
tantos momentos de hostilidade e escuridão;
tanto sangue derramado;
tantas vidas despedaçadas;
tantas esperanças sepultadas...
Mas os nossos esforços foram em vão.
Agora, Senhor, ajudai-nos Vós!
Dai-nos Vós a paz, ensinai-nos Vós a paz,
guiai-nos Vós para a paz.
Abri os nossos olhos e os nossos corações
e dai-nos a coragem de dizer:
«nunca mais a guerra»;
«com a guerra, tudo fica destruído»!
Infundi em nós a coragem de realizar gestos concretos
para construir a paz.
Senhor, Deus de Abraão e dos Profetas,
Deus Amor que nos criastes
e chamais a viver como irmãos,
dai-nos a força para sermos cada dia artesãos da paz;
dai-nos a capacidade de olhar com benevolência
todos os irmãos que encontramos no nosso caminho. Tornai-nos disponíveis
para ouvir o grito dos nossos cidadãos
que nos pedem para transformar
as nossas armas em instrumentos de paz,
os nossos medos em confiança
e as nossas tensões em perdão.
Mantende acesa em nós a chama da esperança
para efectuar, com paciente perseverança,
opções de diálogo e reconciliação,
para que vença finalmente a paz.
E que do coração de todo o homem
sejam banidas estas palavras:
divisão, ódio, guerra!
Senhor, desarmai a língua e as mãos,
renovai os corações e as mentes,
para que a palavra que nos faz encontrar
seja sempre "irmão",
e o estilo da nossa vida se torne:
shalom, paz, salam!
Amen.»"

Papa Francisco

sábado, 7 de junho de 2014

Pedir ajuda ou ser ajuda?



A verdadeira riqueza não está no que se tem, por que isso se vai perder (mais tarde ou mais cedo), mas no que se é e que, por isso, se pode dar.

A felicidade é feita de alegrias e tristezas. É o que brota de um coração que, ao bater, transborda de amor. Julgar que uma vida boa corresponde a uma existência sem sofrimentos é não compreender a essência da vida, esquecendo-se de um dos seus pilares fundamentais. É verdade que ninguém deseja a dor... e, no entanto, sem sofrimentos, quem é que desejaria a felicidade? Quem é que estaria disposto a persegui-la, sofrendo também por (ainda) não ser feliz?

Amar é dar e aceitar o que o mundo e os outros puderem e quiserem dar... Poderá ser pouco... ou nada até... Em qualquer caso, é sempre melhor dar do que receber. Só é carenciado quem se faz dependente da generosidade alheia.

O contrário da felicidade é o medo. Um vazio que, em luta constante, nos destrói a partir de dentro, cavando em nós. Ser feliz passa por ir além do medo, preenchendo os vazios com as alegrias e tristezas, respondendo-lhe com a certeza da esperança. Temer, sofrer, mas sorrir. Uma harmonia de equilíbrios.

Um sorriso é a melhor forma de amparar as lágrimas.

Amar é uma imensa gratidão do coração. A vida é um dom. Um milagre. Amar será a resposta à graça original de podermos estar aqui, hoje mesmo, agora, assim... Uma bondade e generosidade imensas que devemos fazer chegar à vida dos outros. Sendo que a minha bondade não depende da pobreza dos outros, mas tão-só da minha verdadeira riqueza.

A verdadeira riqueza não está no que se tem, por que isso se vai perder (mais tarde ou mais cedo), mas no que se é e que, por isso, se pode dar.

Só quem escolhe ser bom se dá aos outros, porque reconhece em si um valor, uma luz única da qual os outros podem ser carentes. Mas a minha bondade só poderá realizar-se se eu assim escolher, se eu arriscar o fracasso de dar um passo adiante, apesar do medo... a responsabilidade de escolher quem é mais forte: a minha vontade de ser feliz ou o medo.

O desejo consome-nos. Ser feliz passa por ser capaz de dominar e diminuir os desejos.

Quando se deseja muito, ainda que a vida, o mundo e os outros, sejam generosos, tudo parece pouco. Pobres e desgraçados são aqueles que têm muito e isso não lhes chega, e ricos serão aqueles que lhes basta e sobra do pouco que têm...

É, pois, essencial compreender que a minha felicidade depende do que eu decidir desejar. Para os infelizes o valor está no que não têm...

Muito do que somos não é obra nossa. Mas o essencial é. Esta escolha fundamental entre valorizar ou desvalorizar o que se tem e o que se é... ser feliz é construir um caminho e percorrê-lo, não é um destino nem o destino, é uma escolha. Dura. Que se estende no tempo. Uma luta contra os dias de euforia e contra as noites de desespero. Aceitando, sempre e sem medo, que se pode perder o que de melhor hoje está aqui...

Ser feliz é ser capaz de criar e alimentar a alegria verdadeira que brota do próprio coração que ama. Uma gratidão pela existência. Um sorriso pela vida. Que serve aos outros, dando-lhes o amor e a alma que lhes pode estar a faltar...

A nossa existência é um sopro que nos chega do alto sem pedir nada em troca. Que importa pois que não compreendamos o sentido exato de tudo? Nada. Desde que saibamos reconhecer o valor absoluto da nossa própria vida, com cada uma das alegrias e tristezas... desde que lutemos por ser bons, felizes... por merecer estar aqui

José Luís Nunes Martins

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Tenho tempo, Senhor



Saí, Senhor
Lá fora os homens saíram.
As bicicletas, os automóveis e os camiões corriam,
A rua corria, a cidade corria, todo o mundo corria.
Corriam todos, para não perder tempo:
Corriam em busca do tempo, para recuperar o tempo, para ganhar tempo.

Até logo, doutor, desculpe-me – não tenho tempo.
Passarei outra vez, não posso esperar mais – não tenho tempo.
Termino aqui esta carta – pois não tenho tempo.
Queria tanto ajudar-te – mas não tenho tempo.
Não posso aceitar, por falta de tempo.
Não posso reflectir, nem ler, ando assoberbado – não tenho tempo.
Gostaria de rezar – mas... não tenho tempo.

Compreendes, Senhor, eles não têm tempo.
A criança está a brincar, não tem tempo agora... mais tarde...
O estudante tem os seus deveres a fazer, não tem tempo... mais tarde...
O universitário tem as suas aulas e tanto,
tanto trabalho que não tem tempo... mais tarde...
O rapaz pratica desporto, não tem tempo... mais tarde...
O que casou, há pouco, tem a sua casa, deve organizá-la;
não tem tempo... mais tarde...

O pai de família tem os filhos, não tem tempo... mais tarde...
Os avós têm os netos, não têm tempo... mais tarde
Estão doentes. Precisam tratar-se...
não têm tempo... mais tarde...
Então à morte, não têm tempo... tarde de mais... já não têm tempo.
Assim correm todos os homens atrás do tempo, Senhor.
Passam correndo pela terra, apressados, atropelados,
sobrecarregados, enlouquecidos, assoberbados.

Nunca chegam, falta-lhes tempo,
apesar de todos os esforços, falta-lhes tempo,
Falta-lhes mesmo muito tempo.
Com certeza, Senhor, erraste os cálculos.

Há um engano geral:
Horas curtas demais, dias curtos demais, vidas curtas demais.
Tu que estás fora do tempo, Senhor,
sorris ao ver-nos assim brigar com ele, e sabes o que fazes.
Não te enganas quando distribuis o tempo aos homens,
A cada um dás o tempo de fazer o que queres que faça.
Mas é preciso não perder tempo, não esbanjar tempo,
não matar o tempo,
Pois o tempo é um presente que nos dás.
Presente perecível, um presente que não se conserva.

Tenho tempo, Senhor, tenho todo o meu tempo.
Todo o tempo que me dás, os anos da minha vida,
os dias dos meus anos, os minutos dos meus dias.
São todos meus,
Cabe-me preenchê-los tranquilamente, calmamente,
mas preenchê-los inteirinhos, até à borda,
Para os dar a Ti.

Que da água sem sabor, faças um vinho generoso,
como outrora em Canã, fizeste para as bodas humanas.
Neste dia eu não Te peço, Senhor,
o tempo de fazer isto e depois aquilo,
Peço-te a graça de fazer, conscientemente, no tempo que
me dás nestes dois dias que nos congregamos aqui,
o que queres que eu faça.

Michel Quoist

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Estarei sempre convosco!



«Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos» (Mt 28, 20).

O evangelista S. Mateus começa o Evangelho recordando que aquele Jesus, cuja história ele irá contar, é o “Deus connosco”, o “Emanuel” (cf. Mt 1, 23). E conclui o texto do seu Evangelho referindo as palavras de Jesus, quando Ele promete que ficará para sempre connosco, mesmo depois de ter voltado para o Céu. Até ao fim dos tempos, Ele será o “Deus connosco”.

Jesus dirigiu estas palavras aos seus discípulos, depois de lhes ter confiado a tarefa de levarem a Sua mensagem ao mundo inteiro. Ele bem sabia que os enviava como ovelhas para o meio dos lobos e que iriam sofrer contrariedades e perseguições (cf. Mt 10, 16-22). Por esse motivo, não queria deixá-los sozinhos em tal missão. Então, precisamente no momento em que se ia embora, promete ficar! Já não O poderiam ver com os olhos, não poderiam ouvir a Sua voz, nunca mais poderiam tocar-Lhe... Mas Ele estaria presente no meio deles, como antes, e ainda mais do que antes. De facto, se até ali a Sua presença se limitava só a um determinado lugar – Cafarnaum, o lago, o monte, Jerusalém –, daí em diante Ele iria estar onde estivessem os seus discípulos.

Jesus estava a pensar também em todos nós, que iríamos viver no meio da vida complicada de todos os dias. Sendo o Amor que se fez homem, deve ter pensado: «Gostaria de estar sempre com todos eles, gostaria de os ajudar nas suas preocupações, de os aconselhar, de ir com eles pelas ruas, entrar nas casas, reavivar, com a Minha presença, a alegria deles».

Foi por isso que quis ficar connosco e fazer com que sentíssemos a Sua proximidade, a Sua força, o Seu amor.

O Evangelho de S. Lucas conta que, depois de O terem visto subir ao Céu, os discípulos «voltaram para Jerusalém com grande alegria» (Lc 24, 52). Como é que isso era possível? É que tinham experimentado que as Suas palavras se realizavam.

Também nós ficaremos cheios de alegria se acreditarmos realmente na promessa de Jesus:

«Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos».

Estas palavras – as últimas que Jesus dirigiu aos discípulos – assinalam o fim da sua vida terrena e, ao mesmo tempo, o início da vida da Igreja, na qual Ele está presente de muitas maneiras: na Eucaristia, na Sua Palavra, nos seus ministros (os bispos, os sacerdotes), nos pobres, nos pequenos, nos marginalizados…, em todos os próximos.

Mas nós gostamos de frisar aquela presença especial de Jesus, que – no Evangelho de S. Mateus – Ele mesmo nos indicou: «Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles» (cf. Mt 18, 20). Desta maneira, Ele quer poder ficar em toda a parte.

Se vivermos aquilo que Ele nos recomenda – especialmente o Seu mandamento novo –, podemos experimentar esta Sua presença até fora das igrejas, no meio de toda a gente, nos lugares onde vivemos, em toda a parte.

Só nos é pedido o amor recíproco, de serviço, de compreensão, de participação nos sofrimentos, nas preocupações e nas alegrias dos nossos irmãos. Um amor que tudo cobre, que tudo perdoa, típico do cristianismo.

Vivamos assim, para que todos tenham a possibilidade de se encontrar com Ele já nesta Terra.

Chiara Lubich

quarta-feira, 4 de junho de 2014

25 anos depois de Tiananmen




Neste dia não posso deixar de homenagear, como dizia Popper, "the countless men and women of all creeds or nations or races who fell victim to the fascist and communist belief in Inexorable Laws of Historical Destiny". Hoje em particular, os jovens que, com uma coragem imensa, estiveram na Praça de Tiananmen há 25 anos. Não se sabe ao certo os mortos, estima-se desde 500 a milhares. O certo é que, nesse dia, o Exército Chinês abriu fogo perante civis desarmados. Há duas razões pelas quais esta data me afecta especialmente - não só porque a maioria dos mortos tinham a minha idade, mas porque também, já estive na Praça da 'Paz Celestial' (= Tiananmen) e foi uma sensação indescritível, de tentar perceber a dimensão do massacre que ali ocorrera, enquanto que a guia turística (membro do Partido claro) falava "ah e tal, houve aqui um punhado de troublemakers, nada mais". Naquele momento isso causou-me uma angústia profunda - pensar naquela gente, com a minha idade, e tendo as mesmas aspirações que eu, que foi massacrada sem misericórdia em nome de uma ideologia totalitária, e pelo seu 'Exército Popular de Libertação'.

in O POVO

terça-feira, 3 de junho de 2014

Primeira Comunhão



Na fidelidade de todos os anos, também hoje, a minha catequista, Isabel Parente, voltou a enviar-me uma mensagem a felicitar pelo aniversário da minha primeira Comunhão, a 3 de junho de 1979. Com uma catequista assim, eu só poderia ser feliz em Cristo!

"Abraço parabéns aniversário Primeira Comunhão. Que Jesus esteja sempre contigo. Aproveito para agradecer as tuas orações, as palavras amigas e a tua presença num momento tão difícil da minha vida. Obrigada. Um beijinho Isabel Parente".

Ao agradecer à minha catequista, agradeço a todos os catequistas pelo seu sim, dedicação e amor à Igreja!

Hoje, 35 anos após a minha Primeira Comunhão, prometo a minha oração por todos os catequistas!